A devastação ambiental representa perda de US$ 2 trilhões a US$ 4,5 trilhões em capital natural por ano, segundo dados apresentados nesta quinta-feira (09), em Curitiba, pelo economista Pavan Sukhdev, coordenador de estudo encomendado pelos países do G8+5 sobre A Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade (TEEB, na sigla inglesa). O objetivo é chamar a atenção para os benefícios econômicos globais da biodiversidade e somar forças que permitam ações concretas. Os valores não foram divididos por regiões, mas o representante do Ministério do Meio Ambiente no encontro, Bráulio Dias, salientou que a parte referente ao Brasil "certamente é importante".
"Temos as mais extensas florestas e convivemos com taxa grande de desmatamento, além de um aumento (no desmatamento) no Pantanal (MT), que já começa a preocupar", acentuou Dias. Sukhdev destacou, ainda, o cuidado que o País precisa ter na construção de hidrelétricas. "É preciso uma avaliação das bacias hidrográficas", disse. Particularmente, em razão da necessidade de florestas em volta dos reservatórios para evitar o assoreamento, que reduz a vida útil da usina e exige mais recursos. Segundo ele, a sedimentação reduz-se de 1% para 0,5% no comparativo entre locais devastados com aqueles que têm florestas intactas.
Para cerca de 100 gestores e formuladores de políticas locais, Sukhdev destacou que a redução na destruição do ecossistema somente será conseguida se houver engajamento de quem toma decisão regionalmente. "Se a ação não é tomada localmente não há ação", reforçou. "Ver o tamanho econômico dos ecossistemas e deixá-los de fora das contas nacionais é um erro. Deixando invisível, você está criando uma falta de consciência." Segundo ele, as comunidades pobres e rurais, que vivem em torno de florestas e dela retiram parte do sustento, são as que mais sofrem. No Brasil, ele mensurou o número como 20 milhões de pessoas. "A biodiversidade é uma necessidade para os pobres e não apenas uma ligação afetiva para os ricos", afirmou Sukhdev.
Na questão da Amazônia, o economista acentuou que vale o "princípio do perigo". "Se existe dúvida razoável de que a perda da Amazônia pode destruir o suprimento de água para US$ 1 trilhão de economia de agricultura para o Paraguai, Argentina e Brasil, então a gente tem que tomar medidas de precaução para evitar que isso aconteça", disse. "É melhor errar pelo lado da precaução." De acordo com o relatório do TEEB divulgado hoje, "a análise econômica indica que a manutenção de ecossistemas saudáveis é geralmente a opção menos onerosa".
O relatório, que será apresentado em português no dia 14, em São Paulo, destaca 120 exemplos de decisões políticas que alteraram realidades degradantes ao meio ambiente, contando com a participação da comunidade. Como complemento houve redução de custos. Em regiões costeiras do Vietnã, por exemplo, onde mais de 70% da população estão vulneráveis a desastres naturais, as comunidades passaram a plantar e proteger os manguezais, ao invés de construir e manter barreiras artificiais. O investimento de US$ 1,1 milhão poupou custos anuais de US$ 7,3 milhões em manutenção dos diques. "É importante achar solução específica para cada área", destacou Sukhdev.
Para ele, o Brasil é uma "superpotência" em biodiversidade. "Tem que se posicionar dessa forma no mundo, tem que projetar mais isso", apelou. O representante do Ministério do Meio Ambiente concordou com a avaliação do economista, salientando que a biodiversidade no País "ainda é tratada como potencial". "A gente tem que saber valorizar mais", disse.
Como contribuição, o cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Carlos Nobre, apresentou a possibilidade de agregar valor à produção do açaí, que tem se tornado uma commodity, como alternativa a outras culturas degradantes da região amazônica.
Segundo ele, o açaí permite renda de US$ 206 a US$ 2.272 por hectare ao ano, contra US$ 100 a US$ 400 por hectare a cada 25 a 30 anos no caso da madeira ou de US$ 100 a US$ 200 por hectare ao ano para a soja. Sem contar a pecuária, que renderia apenas US$ 20 a US$ 70 por hectare ao ano. No entanto, Nobre ressaltou que o produto sai do campo por US$ 200 e chega a um supermercado na Califórnia por US$ 70 mil. O valor é agregado por outras empresas do sudeste e sul do Brasil ou de outros países e não resolve o problema do produtor. "Se não significa redução de pobreza não ajuda o desenvolvimento sustentável do meio ambiente", ponderou.