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Onde mora a utopia

8 junho, 2012 às 20:49  |  por Candice Bittencourt

E lá estava eu na estrada de novo, dessa vez em direção ao sul da Califórnia, mais precisamente em Silverado Canyon, a uma hora e meia de Los Angeles em busca do celebradíssimo festival “Lightning in a Bottle“. Minha curiosidade era como de uma criança na hora de abrir um presente: mas o que será que tem de tão diferente nesse festival?

Bem, até chegar ao local (sete horas de estrada) a única informação que tinha da assessoria é que o evento foi premiado pela segunda vez consecutiva (2010/2011) como um dos festivais mais “greens” do mundo. Mas que diabos de requisitos precisa para ganhar o tão desejado prêmio? E aí, com tempo e conversando com alguns dos realizadores fui mergulhando devagar na ideologia do festival. E te adianto: É algo incrivelmente bonito.

O “Lightning in a Bottle” (relâmpago em um frasco de luz) existe há mais de 10 anos e nasceu através da idéia de três irmãos de adquirir um pedaço de terra para reunir uns amigos e criar digamos assim, um mundo paralelo, bem diferente desse em que vivemos hoje em dia, diga-se de passagem, bem individualista.

Nesse mundo, que dura quatro dias e reúne mais de 10 mil pessoas em um grande acampamento é fácil perceber o clima e a forte intenção dessa comunidade: a mudança por um mundo melhor. E você deve estar pensando: esse papo está mais pra grupo de jogral da escola. Pois é meus amigos, eu já aqui na maturidade achando que isso existia apenas no coração de uma criança. Ledo engano. Pois vamos à prática.

Com o lema “Leave No Trace” ou seja, não deixe rastro por onde passar, a missão do LIB é fazer com que os participantes entendam que o mundo já carrega uma enorme degradação ambiental e que juntos trocando idéias ou mesmo mudando pequenas atitudes no dia a dia podemos fazer uma grande diferença para o futuro do nosso planeta. É uma verdadeira comunidade colaborativa.

A ideologia do festival pode ser percebida de várias maneiras: nos templos de meditação, nas práticas de yoga ou mesmo verbalizada nas suas dezenas de palestras com temas singulares como por exemplo o incrível sistema de permacultura (criado por dois australianos no final dos anos 60).

Palestrantes apresentam suas invenções e ensinam como fazer por exemplo o seu próprio fogão solar ou cultivar espirulinas (micro algas marinhas ricas em proteínas e antioxidantes) dentro de casa.

 “O processo de atender às necessidades das pessoas de maneiras mais sustentáveis requer uma revolução cultural”  David Holmgren (criador do termo “permacultura”)

O conceito “sustentabilidade” está por tudo é fácil notar pois praticamente 100%  da parte estrutural do evento é feito a partir de materiais renováveis ou reutilizáveis como por exemplo, bambu ou vime.

Os painéis de energia solar servem para aquecer a água do banho e também recarregam o aparelho celular. As lixeiras mostram como fazer a triagem dos resíduos. Por todo o festival você encontra estações de água à vontade. Toda essa ideologia na prática fez do “Lightining in a Bottle” o único festival no continente americano merecedor do prêmio “A Greener Festival“.

O clima do festival é de total vibração positiva e algumas vezes até dá uma sensação momentânea de utopia.

Além de todo esse ideal sobre como cuidar melhor do planeta, os participantes também têm um enorme prazer em se divertir. De verdade. Por todo lado reina a expressividade.

São pessoas oferecendo gongoterapia, reike, brincando com poi, bambolê, fazendo acrobacias, dançando com enormes pernas de pau, pintando quadros na beira do lago, grupos que se juntam para fazer uma roda de tambor ou mesmo para admirar um lindo pôr do sol.

As pessoas se vestem e se expressam como bem entendem. Não existe julgamento. Nem tão pouco expectativas. É a prática de viver o presente.

Toda a programação é em busca de um aperfeiçoamento da mente e do corpo em comunhão com lugar onde vivemos. Eu experimentei de tudo um pouco: fiz aula de yoga com música ao vivo, assisti palestras, vi performances diversas, cheguei pertinho do templo da meditação e posso dizer que foi uma experiência única e que levo comigo o aprendizado.

É uma grande celebração da criatividade, em todas as suas formas, com instalações de arte deslumbrantes. É um grande mergulho bem para dentro de nós mesmos.

Brasil bem representado no cenário musical do LIB

Outra parte essencial do festival é a cena musical. Com um lineup com mais de 80 atrações musicais, onde a música eletrônica reina quase que absoluta, a grande pegada do festival esse ano foi o dubstep, uma mistura de hip hop com timbres de trance e linhas de baixos ridicularmente potentes. Nomes consagrados do estilo porradão como Bassnectar e The Glitch Mob foram as atrações principais do festival. Não entendi muito bem qual é da barulheira mas têm agradado muito a ala juvenil.

A variedade de estilo musicais no festival foi ampla e por vários momentos eu reconhecia um som ou uma batida brasileira. E por falar em Brasil, o produtor e DJ Rafael Araújo, que já rodou o mundo tocando por mais de 15 países foi o único brasileiro curitibano (diga-se de passagem) que representou o “borogodó” brasileiro e levou  para o palco Woogie sua mais nova invenção, o “Cupcake Project” que é uma mistura de disco, funk e house e que fez a platéia lotada dançar como se não houvesse amanhã.

 

Como foi tocar no LIB? 

RA – Foi muito bom, fazia tempo que eu não sentia aquela sensação de tocar e ver as pessoas curtindo ao máximo. Foi a combinação perfeita entre estrutura da festa, sistema de som e público que passou aquela energia indescritível. É muito satisfatório poder tocar o meu som e ver que as pessoas estavam realmente curtindo. A salva de palmas no fim do set foi de arrepiar, fazia tempo que eu não sentia uma energia parecida.

Voce sentiu alguma diferença entre os outros festivais que você já tocou mundo afora? 

RA – Fui residente durante alguns anos de um festival em Londres chamado Antiworld. O Lightning in a Bottle me lembrou muito a vibe da Antiworld, mas a diferença é que aqui nos Estados Unidos os eventos tendem a ser mais bem organizados e a produção super profissional. O contato com os artistas pré e pós-festival foi excelente e impecável.

Como foi a sua experiência como participante do evento? O que te marcou? 

RA – Tirando o fato de poder tocar neste evento magnifico, ficar lá acampado e poder ter a chance de participar do evento não só como artista, mas como público também foi uma experiência incrível. Voce fica imerso naquele mundo, aprende muito sobre comportamento, reflete sobre pessoas, maneiras de se expressar, livre arbítrio, a maneira de se alimentar (toda a praça de alimentação do evento era vegan) e isso me fez pensar muito sobre minha vida. Realmente uma experiência única e que no ano que vem certamente quero repetir. Se estiver tocando novamente, melhor ainda!!

Fotos por Daniel Azulai Bittencourt

 “A melhor maneira de começar o dia é imaginar como poderemos dar alegria a pelo menos uma pessoa”.
- Friedrich Nietzche