Arquivo da tag: povo andino

De Cusco a Machu Picchu – uma viagem ao passado da América – Parte I

8 novembro, 2012 às 00:15  |  por Candice Bittencourt

Preciso confessar que a experiência de conhecer o Peru foi mais uma oportunidade de percurso do que um planejamento de viagem (como faz a maioria dos turistas) ainda mais visitando Cusco e Machu Picchu, um dos destinos mais visitados na América Latina.

O planejamento desde o início era visitar o Brasil para reunir amigos e família para o fim do ano. Depois de inúmeras pesquisas em companhias aéreas escolhemos voar (pela primeira vez) pela famosa peruana Taca.

Nesse ínterim, como era obrigatória uma conexão em Lima (tanto na ida quanto na volta) perguntei quanto custaria estender a viagem pelo país e descobri que por apenas 100 dólares a mais no valor final do ticket,  tínhamos uma “perna” bate volta com direito a seis noites entre Cusco e Machu Picchu. Bati o martelo! Se valeu a pena? Mil vezes sim!

E aí vai minha primeira dica: leve o mínimo necessário de bagagem. Esqueça o glamour porque simplesmente luxo não combina com Cusco/Machu Picchu. Eu como estava voltando com uma mala grande e uma pequena do Brasil, fiz a redução mágica e viajei apenas com a minha “carry on”. A outra mala grande estacionei no Left Luggage no aeroporto em Lima que fica bem na saída do desembarque doméstico e custa 21 soles (cerca de 8 dólares) por dia.

O Vôo de Lima para Cusco é pá pum. Depois dos primeiros 60 minutos, pela janela do avião começa a surgir um cenário lindo com montanhas enormes e vem a voz do comandante: “tripulação preparar para a aterrissagem”. Agora vou dizer: a sensação de pousar em Cusco é uma experiência única.

Como o aeroporto é um dos mais altos do mundo, a 10.860 pés (3.310 metros) de altitude e ao redor de Cusco tem montanhas ainda mais altas (algumas com mais de 4.500 metros) vai imaginando os contornos insanos que o piloto precisa fazer para pousar na cidade.

A vista da janela do avião é estonteante e deixa qualquer um impressionado pela imensidão das montanhas. Esse foi o primeiro momento que me veio o pensamento: a natureza por aqui é grandiosa.

O aeroporto de Cusco é pequeno, bem simples e cheio de nativos querendo te acompanhar como guia turístico e cheios de dicas de locais que você deve conhecer e tal.

Como não tínhamos planejamento de nada, seguimos em um táxi comum até próximo da famosa Praça Del Armas. Já no caminho, o taxista ofereceu um hostel no bairro de San Blas chamado “Los Monarcas” pela bagatela de 28 dólares o quarto. Decidimos encarar. Nosso hotel tirando o chuveiro que era algo formidável de forte, nada era muito atraente. Tudo bem simples.

A essa altura você já começa a sentir algo diferente no seu corpo. Um cansaço além “das alturas” toma conta e qualquer esforço parece o fim. Incrível como a altitude me pegou de jeito. Chá de coca e cama.


Essa foi a receita para as primeiras horas em Cusco. Depois de ler bastante a respeito sobre os efeitos da altitude no corpo ( falta de ar, cansaço, sangramento no nariz, entre outros) tirei um cochilo e no final de tarde arriscamos uma caminhada até a Plaza Del Armas para jantar e caminhar pela cidade.

Na primeira noite, o passeio foi no estilo tartaruga. O coração ainda disparava e longas caminhadas estavam fora de cogitação. O que fazer? mangiare que te fa bene!

Por um acaso, passeando pelo setor histórico da cidade arriscamos um restaurante chamado Pasta Brava e Grill (recém reformado) e qual a nossa surpresa! Que maravilha de comida. Atendimento impecável e preço justo.

A conta saiu 26 dólares com prato principal, bebida alcoólica e sobremesa inclusa para duas pessoas. Tudo no estilo gourmet!

Depois do jantar caminhamos até o bairro boêmio San Blas, experimentamos o popular Pisco Sour ao som de um show acústico dos Beatles em um bar chamado Km 0, mas o passeio durou pouco porque o cansaço no corpo do ar rarefeito estava punk. Chamamos um táxi e voltamos para o hotel.


Na manha seguinte, dia 18 de janeiro, acordamos mais dispostos para o café da manhã: pão, manteiga, geléia,  queijo branco, chá de coca, café e suco de laranja. Mochila leve nas costas e lá fomos nós para uma das partes mais bacanas da viagem: explorar o desconhecido!

Como ainda não tínhamos garantia alguma de entrada para  Machu Picchu (não aconselho isso para ninguém) fomos até a Praça Del Armas providenciar os tickets e passagens de trem.

Na própria loja da Perurail, (empresa que te leva de trem até Aguas Calientes, cidade mais próxima do Machu Picchu) você emite os bilhetes e se quiser pode comprar as entradas para a cidade perdida dos Incas. Ingressos nas mãos, lá fomos nós explorar o centro histórico de Cusco.



E aí vai minha segunda dica: procure se informar para entender o valor do legado que Cusco deixou para a história da humanidade. A cidade também conhecida como “umbigo do mundo” (como o povo andino gostava de chama-la) é um gigantesco museu a céu aberto onde conforme você vai ouvindo suas histórias, a imaginação voa longe e te transporta fácil para o apogeu do Império Inca (1432 até 1532) até a chegada esmagadora dos espanhóis que coloca no chão Tupac Amaro um dos últimos resistentes indígenas na época. 

Cusco através de suas ruelas, muros e igrejas vai revelando suas incríveis histórias (quantas delas tão inocentes) e nos deixando apaixonados pela cidade. Mas o melhor da cidade eu ainda não contei…

Viver Cusco é mergulhar no olhar desse povo tão encantador. O cusquenho é amigável,  carinhoso, humilde e carrega um sorriso puro e meio que tímido por onde passa. 

 As crianças encantam com suas roupas coloridas e as mulheres gostam de adornar o cabelo com lindas tranças.


Se prepare pois você será abordado na rua inúmeras vezes com a famosa e clássica: “compre amigo” mas basta um “não obrigada” e tudo fica mais fácil. São vendedores ambulantes inofensivos tentando vender algum trabalho manual, bem comum na cidade.

Outra curiosidade em Cusco é a quantidade de cães nas ruas. Repare. De várias cores e tamanhos. Em uma dessas conversas com uma nativa, ela me contou que os cães tem donos e que a noite eles voltam para suas casas.

Para o povo cusquenho, o cão traz sorte e representa o guardião da casa.

PREÇOS

Cusco é uma cidade barata. Só para ter uma idéia:

Cada 10 dólares vale 27 soles.

Em média, uma refeição completa sai em torno de 25/30 soles.

Táxi é quase de graça: qualquer volta pela região do centro histórico (ou proximidades) sai entre 3 a 6 soles.

Uma diária em um hostel mediano (3 estrelas) gira em torno de 100 soles.

Um gorro ou um cachecol de artesãos de rua sai em torno de 20 soles.

Ticket de trem (via Ollantaytambo) ida e volta para Águas Calientes: 230 soles (85 dolares)

Entrada para Machu Picchu: 126 soles (46 dólares)

Contratar um taxista durante um dia todo (5 horas) pra dar uma banda pelos arredores de Cusco (Maras, Moray, Valle Sagrado) custa entre 80 a 120 soles.

Pelos arredores de Cusco – Maras e Moray

Sempre que possível busco fazer turismo da maneira mais livre possível, por isso um transporte particular (ou pelo menos independente) onde você tem a liberdade de parar para admirar uma paisagem ou mesmo fotografar um momento único quando quiser é para mim uma diferença relevante na viagem! Em uma excursão esses momentos não existem.

E foi com o novo amigo Jimmy, um taxista que conhecemos na Plaza Del Armas que fechamos por 100 soles nossa ida até Maras e Moray, cidades vizinhas localizadas no Valle Sagrado a 40 quilômetros de Cusco.

Já na saída de Cusco o cenário foi se modificando aos poucos. Seguimos por uma estrada (que lembra as brasileiras) por quase 45 minutos até que a paisagem se transformou em lindos campos sem fim e no fundo gigantescas montanhas do Valle Sagrado dos Incas. 

 Seguindo por uma estradinha de terra, lá de longe surgiam rebanhos de cabras quase sempre com duas crianças (entre 8 a 10 anos) no comando.



Fotografamos demais. Uma cenário de filme mesmo.


O povoado de Maras é um outro mundo. As casas feitas de adobe, as poucas pessoas nas ruas, os animais…parece que o tempo parou e por ali ficou…

Em Maras também visitamos a salineira Marasal e vimos  o quanto forte é a relação que o povo Inca tem com a natureza, seja ela através da agricultura, de cerimonias de adoração ao sol, entre outras…

De Maras seguimos em uma outra estradinha e mais sete quilômetros uma placa indicava o sitio arqueológico. Para visitar Moray, o maior laboratório de pesquisa agrícola Inca, você precisa desembolsar 10 soles. Como chegamos quase no fim do dia, pegamos Moray sem uma alma viva e que frio fazia naquele cair de tarde..

O guarda muito simpático nos acompanhou no passeio enquanto nos explicava toda a história desse lugar mágico. Mais uma vez a comprovação incrível da relação dos Incas com a natureza estava ali estampada na nossa cara.

O sol estava quase se pondo e longe você via uma nuvem escura se formando com um lindo arco-íris despontando no céu. Hora de voltar para Cusco e descansar para o dia seguinte.

***Próxima parada: Pisac, Urubamba, e Ollantaytambo. E a noite o trem que te leva até Águas Calientes. Destino: Machu Picchu!