Crítica – Nine
Se você gosta de cinema, não é preciso muitos argumentos para tentar convencê-lo a ver o filme Nine. Basta dar uma olhada no cartaz da produção e reparar a quantidade de nomes atores famosos que participam do filme para imaginar o quão interessante ele pode ser. Daniel Day Lewis, Nicole Kidman, Penélope Cruz, Sophia Loren, Judi Dench, Kate Hudson, Marion Cottilard e até mesmo a cantora Fergie são motivos mais do que suficientes para convencê-lo a comprar o ingresso.
Porém, qual a razão que torna o musical Nine, ao mesmo tempo em que é belo e ousado, chato e sonolento? Não é difícil explicar o porque. Porém, antes de tudo, é preciso entendê-lo para, assim, evitarmos algumas conclusões precipitadas. Nine nasceu como uma homenagem a aquele que talvez seja o mais importante dos filmes do diretor italiano Federico Fellini – 8 ½.
Lançado em 1963, o filme era uma espécie de autobiografia do diretor, que questionava o seu papel nas produções que tinha feito até então ao mesmo tempo em que sofria um bloqueio criativo para a produção daquele que seria seu nono filme – por isso o 8 ½ numa alusão a um filme que se apresentava inacabado. Na década de 80 a produção de Fellini foi adaptada para a Broadway, transformando-se num musical de grande sucesso.
A missão de trazer o musical da Broadway para o caminho inverso – readaptá-lo para o cinema – coube ao já falecido Anthony Minghella (Cold Mountain) e a Michael Tolkin (O Jogador). Para a direção o projeto foi entregue a Rob Marshall, que levou o filme Chicago ao Oscar de Melhor Filme em 2003. Com tantos nomes de peso envolvidos no projeto é difícil imaginar que um filme assim “não funcione”. Porém, após acompanhar a trajetória de Guido Contini (Daniel Day-Lewis) em quase duas horas de projeção a sensação que fica é mais de cansaço do que de encantamento.
Vamos por partes. Nine é, na verdade, muito mais do que um simples musical é uma verdadeira homenagem à concepção da sétima arte. Todos os processos criativos envolvidos em um filme são abordados e questionados. A concepção do roteiro, a escolha do elenco, a criação dos figurinos, o processo de direção, a pressão por parte da mídia, a industrialização do processo por parte dos produtores. O cinema, enquanto arte, caminha sobre uma linha tênue juntamente com a indústria. Ora pende para um lado, ora pende para outro, mas é somente juntas que acabam sobrevivendo.
Em termos visuais Nine é um espetáculo garantido. Os diversos cenários em que as canções são executadas são ricamente iluminados com cores vivas – quando a canção assim pede – ou cores neutras, mas de um contraste exuberante. Da mesma forma, a composição das coreografias é um elemento que agrega ritmo à narrativa, proporcionando ao espectador o desejo de estar na plateia de um espetáculo como esse.
O elenco de atores, da mesma forma, funciona em grande sintonia, com raríssimas exceções. Daniel Day Lewis, por exemplo, consegue transparecer claramente os momentos de tormento e angústia do seu personagem, bem como o seu deslumbramento diante de uma diva. Penélope Cruz, no papel da amante do grande diretor, enche os olhos em sua coreografia de dança e vai do momento cômico ao momento dramático de uma maneira tão suave que é difícil duvidar da verossimilhança de sua atuação. Marion Cotillard, da mesma forma chama atenção pela sua atuação contida, no papel da devotada esposa de Guido Contini. Apenas com o olhar ela consegue transparecer seus sentimentos, deixando claro o quanto sofre em função do seu amor.
Porém, diferente de Chicago, onde todos esses elementos estavam em sintonia, em Nine temos uma composição de roteiro e montagem parcimoniosa e anticlímax do que as próprias coreografias propõem. Em outras palavras, falta ritmo ao filme quando ele “foge” das sequências musicais. Por si só, o drama de Guido Contini é muito mais introspectivo do que qualquer outra coisa. As canções, nesse ponto acabam por contrapor um estado de espírito com outro e, no final das contas, o espectador que permanecer junto àquele espetáculo, sem precisar voltar para a vida de Guido.
Se por um lado a proposta era mesmo mostrar o diretor com uma vida enfadonha – ao menos sob o seu ponto de vista – em um período de turbulências e bloqueio criativo, por outro lado fica difícil para o espectador identificar-se com aquele personagem. É muito mais natural nos posicionarmos ao lado daquilo que parece colocar a trama adiante – as sequências musicais – do que daquele que, pos suas ações e atitudes, insiste em boicotar-se o tempo todo.
Assim, embora artisticamente o filme seja perfeito em sua concepção, para o espectador, mesmo o mais cinéfilo deles, que reconheça as referências da obra original de Fellini, fica no ar a sensação de alguma coisa está faltando para o filme ser completo. O tempo de duração – 118 minutos – também colabora para acentuar essa percepção. Seria possível editar ao menos uns vinte minutos sem que houvesse alguma perda significativa no andamento da produção. Pelo contrário. Seria benéfico e, talvez, colaborasse para dar mais ritmo à mesma.
Bem intencionado e tecnicamente bem concebido, Nine acerta por um lado em sua homenagem ao mundo do cinema e o faz com beleza e glamour dignos dos grandes filmes do passado ou do sucesso dos musicais da Broadway. Só se esquece de um “detalhe” fundamental e que talvez seja o mais importante de todos eles na história da sétima arte: o público. Afinal, de que adianta o artista conceber a mais importante das mensagens se o receptor delas – o grande público – não puder compreendê-las? Nesse caso entre o oito e o oitenta o meio termo, infelizmente, não é a melhor das opções.
