Um Beijo Roubado não foge ao perfil habitual dos filmes de Wong Kar Wai (2046 – Os Segredos dos Amor, Amor à Flor da Pele). As cores fortes e vibrantes, o ritmo acelerado da metrópole entremeando a vida dos personagens entre uma cena e outra e a presença marcante de sensações como ausência e solidão tem se tornado um referencial comum em suas produções.
Embora os destinos dos personagens se cruzem eles não são suficientes para mudar os rumos de suas vidas. É longe dos olhos, na solidão e na ausência que acontecem as transformações. Pequenas, é bem verdade. Mas não por isso menos significativas ou substanciais.
O papel de fio condutor da trama cabe a Elizabeth (Norah Jones) um jovem em busca de resoluções para os seus problemas interiores que parte em uma viagem pela América. Junto consigo ela carrega uma pesada carga de incertezas e o sonho de juntar algum dinheiro para comprar um carro. Pelo caminho ela conhece pessoas como o alcoólatra Arnie, numa excelente interpretação de David Strathairn (Boa Noite e Boa Sorte), e sua ex-mulher Sue Lynne (Rachel Weisz, de O Jardineiro Fiel) ou a inveterada jogadora de pôquer Leslie (Natalie Portman, de A Outra).

Elizabeth não é a responsável pelo que vem a seguir em seus destinos. No entanto é o seu destino, o seu caminho incerto que passa a ser definido através de suas novas experiências. E é através delas que molda sua nova personalidade, tornando-se alguém mais segura de si, porém ainda repleta de questionamentos.
Embora estreante nas telonas, a cantora Norah Jones – que também participa da bela e suave trilha sonora do filme – não compromete. Embora seja a atriz principal, são os coadjuvantes – Rachel Weisz, Natalie Portman e David Strathairn – que brilham com mais intensidade, em cenas longas e carregadas de uma forte carga emocional (e isso é muito bem ilustrado na cena em que Arnie admite seu alcoolismo, mostrando suas fichas na mesa do bar). Jeremy (Jude Law), o proprietário de um bar de Nova York completa o elenco de boas atuações da produção e sua naturalidade no papel também merece destaque.
Co-produção entre China e França, Um Beijo Roubado consegue unir ainda características do cinema dos dois países, como a parcimônia e o simbolismo do cinema oriental, com o diálogo intelectual e os movimentos de câmera quase que experimentais do cinema francês (do bom cinema francês, não do atual).
Por isso, não espere por um filme convencional, bem delineado e perfeitinho para os padrões de manuais de roteiro norte-americanos. Aqui há espaço para algumas ousadias e há uma permissividade de experimentação, de tentativas, de erros e acertos. Felizmente, no balanço final, há mais acertos do que erros. E como brinde ainda nos são oferecidos alguns momentos de reflexão bastante interessantes. Afinal de nada adianta a percepção de tantas mudanças se não houver espaço para que nós mesmos possamos pensar em colocar em ordem algumas questões mal-resolvidas.
Nota 8,0.