De tempos em tempos, a literatura se vê invadida por certos fenômenos. A maioria deles é breve e passageira. Alguns poucos marcam seu nome por toda a história. Mas, indubitavelmente, eternos ou efêmeros, todos deixam suas marcas e acabam, de certa forma, influenciando, bem ou mal futuras gerações.
J. K. Rowling e Dan Brown são dois exemplos recentes. Enquanto a primeira fez fortuna e fama com o bruxinho Harry Potter, chegando mesmo a ser mais conhecida ou mais influente, que a rainha do seu próprio país, o segundo conquistou, às custas de muita polêmica, a posição de um dos autores mais vendidos do novo século com o seu O Código Da Vinci (só este já vendeu mais de 40 milhões de exemplares).
Mas qual o segredo de fenômenos como esse? Pelo menos na literatura de Dan Brown, duas características chamam a atenção. Em primeiro lugar, obviamente, a polêmica. Envolver uma instituição “sagrada” como a Igreja Católica, em crimes, negociatas, seitas misteriosas e ocultação de verdades absolutas são coisas que, por si só, já geram mídia espontânea. E como se não bastasse tudo isso, o tom documental da narrativa, com seu personagem principal Robert Langdon apresentando provas e mais provas de que aquilo que diz e contradiz os dogmas seculares são a mais pura verdade, completam o quadro da curiosidade de céticos e fiéis de plantão.
No entanto, existe um segundo item que merece tanta importância quanto o anterior e, talvez, seja um dos principais responsáveis pelo filme funcionar tão bem no cinema. O seu ritmo. Escrito numa linguagem quase que visual, em capítulos curtos e cheios de “deixas” e/ou pistas, sua adaptação para o cinema se dá de maneira praticamente intuitiva. É o ritmo acelerado, que prende o leitor e o deixa curioso ao final de cada capítulo, que também faz com que sua versão cinematográfica apresente um ritmo intenso e repleto de pontos de virada que colocam a história em um novo rumo a cada momento.
Em Anjos & Demônios, Tom Hanks mais uma vez assume o papel do simbologista Robert Langdon. Agora sua aventura se passa na cidade do Vaticano. Em meio à capelas e igrejas ele e a cientista Vittoria Vetra (Ayelet Zurer) precisam localizar um artefato roubado, capaz de destruir toda a cidade numa explosão quântica. A suspeita recai sobre os Illuminati, grupo supostamente fundado por Galileo Galilei numa reação dos iluministas contra as perseguições da Igreja Católica.
Embora a “trama histórica” seja fundamental no filme, se ater a ela ou ficar procurando explicações para os fatos apresentados se são verdadeiros ou não é o maior erro que o espectador pode cometer. Se encarado como uma obra ficcional (que é o que realmente é), sem dúvida é possível se divertir e assistir a uma aventura bem produzida, mas extremamente óbvio do ponto de vista de sua direção.
Aliás, aqui vale a ressalva. É impressionante como Ron Howard tem um dom para fazer filmes “perfeitinhos”, sem nem um pouco da sua personalidade. O diretor, que esteve à frente de filmes como Uma Mente Brilhante, mais uma vez recai na falta de iniciativa e se contenta em fazer o feijão-com-arroz, mesmo tendo recursos e atores talentosos para arriscar alguma coisa mais pessoal.
Com menos alarde do que seu antecessor, O Código Da Vinci, Anjos & Demônios deve fazer sua parte nas bilheterias, trazendo bons lucros para os seus produtores e preparando o terreno para as próximas adaptações. Mas para o espectador ficará aquela sensação de que poderia ser feito algo melhor ou com mais personalidade. Afinal, um pouco de ousadia não faz mal a ninguém.
Nota 7,0.