Crítica – O Fada do Dente
É curiosa a maneira como algumas coisas se estabelecem na indústria cinematográfica. Dwayne Johnson, conhecido também como The Rock, definitivamente não é um bom ator. O ex-lutador do circuito World Wrestling Entertainment, no entanto é dono de um carisma invejável, em especial junto ao público norte-americano, que fez com que desde a sua participação no filme O Retorno da Múmia sua carreira como ator deslanchasse.
Saindo das produções de ação e caminho rumo às comédias, Johnson encontrou em si próprio uma maneira de propor um contra-senso ao estereótipo do comediante. Por seu porte avantajado, vê-lo em situações cômicas ou caricatas por si só já soa como algo diferente. Aproveitando-se desse nicho de mercado, explorado anteriormente por Arnold Schwarzenegger e até por Vin Diesel, Dwayne criou um “tipo” e, agarrado a ele, segue fazendo boas bilheterias com seus filmes.
Infelizmente, boas bilheterias não são sinônimo de bons filmes e no caso de O Fada do Dente, culpar Dwayne Johnson pela má qualidade da produção seria um exagero, uma vez que sua atuação – fraquíssima – é o menor dos problemas do filme. Com o roteiro apresentado, a trama conduzida pelo diretor Michael Lembeck (Meu Papai é Noel 2) sem dúvida se transformaria em uma bomba nas mãos de qualquer outro ator.
No filme acompanhamos a história de Dereck Thompson (Dwayne Johnson), um jogador de hóquei no gelo conhecido pela sua força física e que tem o apelido de “fada do dente” por quebrar os dentes dos seus adversários em jogadas truculentas. Totalmente cético com relação a contos de fadas e outras fantasias, Thompson não hesita em destruir os sonhos de quem quer que seja. É quando ele recebe um chamado, do mundo das fadas, seguido de um castigo: terá que passar uma semana agindo como fada do dente até que passe a acreditar que a fantasia realmente existe.
Embora a moral da história já fique clara nos primeiros trinta minutos de filme, e seja extremamente previsível que tudo irá se desenvolver até que de fato ele acredite que as fadas existem e que, manter vivo na memória alguns sonhos não faz mal a ninguém, a maneira como a trama se desenvolve é uma verdadeira decepção.
Embora nitidamente a história tenha um foco no público infantil, é desprezível perceber o quão rasteiros são os diálogos da produção. Toda conversa tende a terminar em uma piada ou um trocadilho infame. Não passa mais que um minuto sem que surja uma piada – ou tentativa de piada, na maioria das vezes – ainda que ela não seja cabível na cena.
Nesse quesito abro um parêntese: a versão que assisti foi a dublada e, nela, muitas das piadas foram claramente adaptadas para a realidade brasileira. Assim você ouvirá termos como “sambarilove” – surgido nos programas de Chico Anysio – e “brilhantes” trocadilhos como “fadarwin” – uma versão de Charles Darwin das fadas para explicar a evolução delas. Embora adaptado, o texto não foge – assim espero – da essência proposta pelo roteiro original, o que transfere o problema inteiramente para a equipe de roteiristas.
Dentre todas as atuações de Dwayne Johnson, talvez aqui seja a pior delas. Se com diálogos um pouco melhores seu desempenho já ficava abaixo do esperado, com um roteiro pobre em mãos o resultado é um desastre completo. Assim Dwayne se limita a fazer caras e bocas e, mesmo quando sua única missão é dar um grito de espanto, a impressão que se tem é que ele está rindo, tamanha é a descaracterização nesse sentido.
Sem acrescentar nada à carreira de nenhum dos envolvidos e, menos ainda, para o espectador, a produção não chega a ser ofensiva em nenhum momento, fugindo de piadas sexistas ou de humor duvidoso e apostando mais na ingenuidade e em situações tolas do que em qualquer outro artifício. Se por um lado enquanto cinema O Fada do Dente é ruim, por outro, enquanto mero entretenimento familiar, o filme consegue provocar alguns risos – ainda que sejam de indignação por trocadilhos tão infames e “divertidos” quanto uma piada contada pela décima vez.
Confira o trailer de O Fada do Dente
Nota 5.
