Arquivo de janeiro, 2010

Crítica de Contatos de 4º Grau

2 janeiro, 2010
23:38

Subverter a realidade. Como você já deve ter percebido, nos últimos anos o número de produções que apostaram no formato documental misturado a ficção cresceu consideravelmente. Uma das razões responsável por boa parte destes fenômenos é mais a popularização do vídeo digital entre os espectadores.

Essa popularização permitiu não só que as imagens tremidas e de pouca qualidade passassem a ser uma linguagem aceita nas grandes produções como também ganharam maior simpatia por parte do público, graças a proximidade com que dialogam com ele e a verossimilhança que proporcionam.

Assim como A Bruxa de Blair, Cloverfield – Monstro e o recente sucesso Atividade Paranormal, Contatos de 4º Grau aposta na mesma linha de raciocínio, mas mescla os estilos documental e ficcional, dando a entender que o seu filme, na verdade, é uma versão dramatizada de ventos reais que teriam ocorrido entre 2000 e 2003 na desconhecida cidade de Nome, no Alasca.

A premissa do filme é que durante esse período uma série de ventos estranhos e similares teriam ocorrido na cidade e diversas pessoas teriam sido vítimas de abdução alienígena. O fio condutor da trama é a Drª. Abbey Tyler (Milla Jovovich), uma vez que todas as vítimas são seus pacientes e parecem descrever as mesmas visões e sensações.

Embora siga a mesma linha das produções citadas acima, em Contatos de 4º Grau o diretor Olatunde Osunsanmi faz uma aposta diferenciada. Logo no início do filme, Milla Jovovich (Resident Evil – O Hóspede Maldito) surge na tela e explica que ela é apenas uma atriz dramatizando os fatos supostamente acontecidos e fartamente documentados em imagens à época dos acontecimentos. Com isso, o diretor desvia, de certa forma, a atenção do filme para as imagens captadas de maneira amadora, uma vez que nos contrapõe claramente o que é real e o que é ficcional.

Essa dualidade fica clara logo adiante quando uma tela dividida em duas coloca lado a lado a Abbey Tyler “real” e a versão interpretada por Milla Jovovich. O que, em tese, poderia funcionar e servir para dar mais credibilidade à trama porém, desmorona com muita facilidade. Suas opções estéticas de, em alguns pontos, dividir o quadro em até quatro partes dão a falas sensação de dinamismo quando, em verdade, nada de mais está acontecendo em cena.

Com raros momentos de clímax criados pela narrativa a saída encontrada e trabalhar com uma trilha sonora contínua, com altos e baixos para criar uma clima de intriga e tensão. Seria algo normal e corriqueiro se fosse utilizado com moderação ao longo do filme. Porém, em Contatos de 4º Grau a música é incessante, do primeiro ao último minuto. Seu excesso acaba gerando um efeito contrário. Ao invés de ela pontuar os momentos de clímax, torna-se parte da “ambientação”, perdendo completamente o seu efeito.

Suas supostas imagens documentais, embora convincentes, esbarram em alguns outros problemas. Sozinhas elas não são suficientes para criar uma história convincente. Da mesma forma, se a história fosse apenas dramatizada, diante do apresentado dificilmente a trama se sustentaria sem cair no descrédito.

Obviamente não vou revelar o final da produção aqui, mas o fator principal que coloca em cheque a premissa do filme é uma prova documental de um crime que, claramente, deveria ser do conhecimento de todos os envolvidos já no início do filme. Seu surgimento no apenas no final da a clara impressão de um enxerto, de um truque simples encontrado para omitir do espectador uma informação que, obviamente, em momento algum ele poderia concluir. Em outras palavras, um pequeno “jogo sujo”.

Se por um lado o diretor tenta se mostrar isento, eximindo-se ao menos textualmente de qualquer conclusão quanto às causas e consequências da história, o mesmo não se pode dizer do que ele apresenta já que, questionando seu principal personagem com uma informação óbvia (omitida propositalmente durante o filme) ele destrói tudo aquilo que porventura tenha conseguido construir.

Ao assistir ao filme, pense na seguinte situação: qual seria a sua reação às alegações do personagem principal se, logo no início da história, a evidência que só é revelada no final (propositalmente, pois a história da a entender que ela perfeitamente poderia já ser do conhecimento de todos) fosse um dos fatos apresentados?

Omitir fatos para que o espectador construa em quebra-cabeças durante a trama é uma coisa. Porém, omitir uma prova sem dar nenhuma evidência sobre ela e, ainda por cima, fazer com que ela tenha papel determinante na conclusão é outra completamente diferente. Um golpe baixo para que a estrutura da história funcione e, assim, possa proporcionar alguma tensão.

Embora interessante em sua premissa, Contatos de 4º Grau se perde na indecisão e na confusão de tentar tornar verdadeiro o que obviamente não é. E, por outro lado, da mesma forma perde a oportunidade de contar uma obra ficcional com suporte de imagens documentais. Na tentativa de ser eficiente nas duas pontas a produção, infelizmente, apresenta um resultado final mediano e decepcionante.

Confira o trailer de Contatos de 4º Grau

Nota 6.

 

Crítica de Lula – O Filho do Brasil

1 janeiro, 2010
20:32

Antes de analisar o filme Lula – O Filho do Brasil é preciso deixar claro algumas coisas. Obviamente os simpatizantes da política do atual presidente vão defendê-lo com unhas e dentes. Da mesma forma os oposicionistas vão atacá-lo com a mesma veemência. Nada disso importa. O que de fato pretendo analisar aqui é o filme em si e não a trajetória política do seu personagem principal. Assim, entrei na sala de cinema desarmado, sem nenhuma idéia pré-concebida do que veria pela frente. Por isso, antes que me acusem de ser simpatizante de um lado ou de outro estejam certos de que meu texto seria exatamente se o filme fosse Fernando – O Filho do Brasil ou José – O Filho do Brasil.

Dito isso, considero justificável a existência de um filme como esse. O fato é que Luiz Inácio Lula da Silva é o Presidente da República e é muito mais aceitável a produção de uma obra sobre alguém que ocupa o cargo mais importante do país do que sobre uma garota de programa que escreveu um livro ou um personagem fictício qualquer. A utilização que se fará dele, aí sim, é algo perigoso e que merece ser levado em consideração.

Embora não seja partidário de Lula, sua história, amplamente divulgada pela mídia, de um retirante nordestino pobre que ao longo de sua trajetória de vida é eleito presidente do Brasil é, em termos cinematográficos, um prato cheio. Com sua biografia é possível montar, sem nenhuma dificuldade, um roteiro que compreenda a estrutura padrão com todos os arcos dramáticos de uma história, desde as adversidades iniciais até a conseqüente transformação e superação no final da projeção.

Porém, há maneiras e maneiras de se contar uma história. E, infelizmente, a maneira escolhida pelo diretor Fábio Barreto (O Quatrilho) é uma das mais óbvias e maniqueístas possíveis, não em termos de alteração da história ou exibição de elementos inverídicos, mas pelo fato de em todos os momentos de clímax induzir o espectador à emoção ou a sensações que, talvez sem a sua interferência, não seriam transmitidas pela história.

Assim enquanto Lula, sua mãe e seus irmãos partem em um caminhão – o conhecido pau de arara – ouvimos uma trilha sonora com violinos, especialmente composta para criar um clima de piedade perante a um cenário repleto de dificuldades. Pequenas referências como “o caminhão da felicidade está partindo” contribuem para que, nos momentos em que a história não é suficiente para levar o espectador às lágrimas, o fato aconteça. Não estranhe se, com muita naturalidade, em pouco mais de cinco minutos de filme você já se sinta “identificado” com o personagem principal, algo naturalmente deveria ocorrer, nesse caso, mais à frente.

A figura de Aristides (Milhem Cortaz), o pai de Lula, surge demonizada e execrável, tornando-se o seu primeiro grande adversário. Uma câmera tremida e agitada torna a sua figura ainda mais deplorável nas vezes em que se dedica a bater nos filhos afirmando que “filho meu tem que trabalhar, e não estudar”. Embora a figura da mãe de Lula, Dona Lindu (Gloria Pires) seja o centro principal da trama nesse momento, sendo a responsável direta pela formação do caráter do jovem, suas ações servem apenas como coadjuvante para que o personagem principal consiga reforçar o seu sucesso.

Não há dúvidas que o espectador irá se identificar com momentos como o primeiro diploma, o primeiro emprego, a conquista do sonho da casa própria ou o momento da conquista da primeira namorada. Fatos como esse são parte da vida de qualquer pessoa e, obviamente, quando os vemos pelos olhos de outra pessoa é natural que a reação seja de alegria ou de emoção. E, repare, que em todos os momentos a belíssima trilha com violinos está lá pontuando todas essas conquistas.

Numa emoção que poderia ser verdadeira, mas nos soa manipulada, temos aqui sim mensagens maniqueístas de associando Lula à casa própria, ao primeiro emprego ou a conquista de um diploma. Note que a exibição destes momentos é indispensável à história. O aspecto apelativo aqui fica por conta da maneira como a coisa é exibida, num tom dramático propositalmente exacerbado.

Num comparativo direto de outro filme nacional que segue a mesma linha podemos citar o ótimo 2 Filhos de Francisco como referência. Enquanto o filme que conta a história da dupla Zezé di Camargo & Luciano evita a trilha sonora manipulada – ainda que pudesse fazer uso dela com mais frequência por se tratar de uma dupla musical – e opta por colocar o foco sobre quem realmente tem papel importante na história – no caso Francisco, o pai dos irmãos cantores – em Lula – O Filho do Brasil a aposta é centrar o foco no personagem principal, tornando-o uma espécie de escolhido e fazendo com que o espectador sinta aquela sensação de “tudo é possível”. Sinceramente, um título como O Filho de Dona Lindu seria uma opção muito mais honesta para a produção.

A partir da evolução de Lula como líder sindical, o diretor Fabio Barreto faz uma opção acertada em mesclar imagens documentais da época com cenas gravadas na atualidade. Essa mistura proporciona mais verossimilhança e dinamismo, em especial nas sequências onde as grandes greves do final da década de 70 e início da década de 80 no ABC paulista serviam não só como um embate sindical, mas como um grito de liberdade em meio a ditadura que assolava o país.

Vale a menção: após a chapa composta por Lula ser eleita pela primeira vez para a presidência do sindicato dos metalúrgicos, surge um momento de merchandising constrangedor para o filme: Durante a comemoração pela vitória em um bar, Cláudio Feitosa (Marcos Cesana), presidente eleito do Sindicato vira para a câmera e dispara um “vamos beber porque aqui só tem brahmeiro”, numa referência direta ao atual comercial da cerveja Brahma, uma das patrocinadoras do filme.

O grande momento do filme talvez fique por conta da atuação de Rui Ricardo Diaz no papel principal. Em uma sequência onde Lula faz o seu primeiro discurso como membro do sindicato são impressionantes a semelhança dos aspectos gestuais, da fala e mesmo dos traços do ator com a figura de Luiz Inácio à época dos fatos. Retratar um personagem que é parte do doa a dia do público é uma tarefa difícil, por justamente ser difícil diferenciar ficção e realidade. Nesse caso, sua atuação força-nos a acreditar da maneira mais convincente possível que ele é de fato quem interpreta. Sua atuação de estreia é digna de grandes atores e, a seguir por este caminho, sem dúvida estamos diante de uma grande promessa para futuras obras.

Apesar das suas falhas e da maneira maniqueísta como conduz a história é bem provável que o filme faça sucesso e ganhe a simpatia por parte do público. E é justamente esse o ponto mais preocupante: o que será feito do filme depois de lançado. Como sabemos não é a maioria das pessoas que têm aptidão para analisar ou refletir acerca de detalhes de uma obra visual. E, infelizmente, também não é maioria o grupo daqueles que têm acesso à críticas cinematográficas ou textos que se proponham a analisar, com enfoque menor nos aspetos políticos, o filme em questão.

Assim, certamente, muitos tomarão como verdade absoluta e inquestionável cada momento exibido na projeção. E, sim, associarão a figura de Lula a momentos como a conquista da casa própria, ao primeiro emprego ou ao diploma educacional conquistado a duras penas. Como disse anteriormente, o que é exibido na projeção é verdadeiro e de fato aconteceu. Mas a maneira como é exibido induz a dramatização em momentos que, não necessariamente, seriam tão doces ou amargos como pareceram. E isso faz toda a diferença entre criar uma obra que conte parte importante da história do país ou criar uma obra que se torne peça-chave numa próxima eleição.

Confira o trailer de Lula – O Filho do Brasil e uma entrevista com o diretor Fabio Barreto

Nota 6.

 

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