Crítica – Invictus
Entre todas as figuras políticas vivas do planeta, talvez o nome de Nelson Mandela seja um dos poucos a reunir em torno de si um apreço e um carisma que beiram a unanimidade. Sua história de vida, como alguém que passou trinta anos na prisão e, quando libertado, foi eleito presidente da África do Sul, por si só, já é argumento mais do que suficiente para o cinema.
Somado a isso conhecemos a luta de Mandela em diversas causas sociais e humanitárias, que renderam a ele diversas menções e condecorações mundo afora além do Prêmio Nobel da Paz em 1993. Assim, basta que a imagem do líder sul-africano surja por alguns minutos na tela para que a empatia do espectador seja completa.
Invictus não se propõe ser um filme biográfico. Acertadamente, a trama volta os olhos para um evento específico, que serve perfeitamente a dois propósitos: o primeiro é mostrar o lado mais pessoal de Mandela, acompanhando parte do seu dia a dia em um período conturbado em que ele acabava de assumir o governo do país; já o segundo é mostrar a maneira de pensar uma presidência, mostrando como uma causa simples e, aparentemente, distante dos interesses de um governo pode ter tanta influência direta no dia a dia da população.
A escolha de Morgan Freeman para interpretar o papel de Mandela é, sem dúvida, óbvia e fundamental para o filme. Primeiro porque Freeman e Mandela parecem ser irmãos gêmeos, tamanha é a semelhança. Outro ponto que leva a crer que ele é a escolha única para o personagem é o estilo de roteiro e os diálogos em si. Freeman coleciona ao longo de sua carreira uma série de papéis onde com poucas palavras, apresenta uma verdadeira lição de vida – ou de inteligência. Em Invictus, cada diálogo de Nelson Mandela parece ter sido concebido como uma aula inspiradora.
O estilo de poucas palavras e que parece dizer tudo apenas com um olhar também é de longa data uma das características do seu diretor, Clint Eastwood. Dessa forma ele fez fama com seus westerns e em Invictus, embora esteja longe de seus melhores trabalhos, Eastwood consegue conduzir de forma segura uma trama comovente sem ser apelativo ou se render com facilidade às trilhas melosas para fazer chorar.
A virilidade, outra característica dos seus personagens, também é bastante destaca na produção, com belas tomadas das partidas de rúgbi. Em alguns momentos têm-se a impressão que uma verdadeira manada de touros está se digladiando cabeça a cabeça. Em outros, a leveza de uma corrida ou a raça demonstrada pela conquista de um ponto ganham a tela de maneira soberba que, mesmo sem conhecer o esporte, é fácil se pegar torcendo por um ponto da equipe sul-africana.
A trama reserva ainda espaço para mostrar como pano de fundo o momento político enfrentado por Mandela em seus primeiros meses de mandato: um país dividido entre brancos e negros, ricos e pobres. Tomando-o como uma figura diferenciada, capaz de perdoar aqueles que o colocaram atrás das grades por 30 anos, Invictus não hesita em apontar as falhas de caráter de brancos e negros, tornando-os iguais diante das circunstâncias de poder.
Conciso, poucos elementos fazem com que o filme erre na dose. O clima constante de tensão, muito bem retratado na subtrama que acompanha o seu grupo de seguranças, contribui para o aumento da expectativa em todas as circunstâncias em que Mandela se expõe em público. Porém isso não impede o diretor de exagerar na dose como ao dar a entender, em uma ótima montagem paralela, que um avião poderia ter sido jogado contra o estádio no dia da grande final. Uma sequência interessante do ponto de vista dramática, mas pouco verossímil em seu desfecho.
Já no clímax do filme o uso de câmera lenta para acentuar os momentos de tensão e criar um clima com uma expectativa ainda maior também passa da medida. Sem o uso do artifício, por si só a condução da partida e o seu desfecho seriam elementos suficientes para cativar o espectador. O uso desmedido de câmera lenta acaba tendo o efeito contrário e, ao final, torna a sequência cansativa e ressalta alguns momentos que poderiam ser editados sem que isso interferisse na condução.
Pode não ser um dos melhores trabalhos de Clint Eastwood na direção. No entanto, em uma filmografia com títulos tão interessantes, é possível afirmar que o diretor mantém-se em uma ótima média e, com Invictus, a situação não é diferente. A produção reúne muito mais pontos positivos do que negativos, apresenta um roteiro coerente e conciso e, de quebra, transmite uma espécie de mensagem que, certamente, irá figurar em muitas palestras motivacionais quando o filme chegar ao mercado de home vídeo. Não é um filme para Oscar, Globo de Ouro ou melhores do ano, mas sem dúvida merece ser visto e analisado tanto pela arte quanto pelo aspecto histórico que apresenta.
Nota 7.
