Crítica – Guerra ao Terror
Kathryn Bigelow nunca esteve no centro dos holofotes. Diretora de trabalhos como K-19 – The Widowmaker e O Peso da Água, embora seus filmes transmitam uma sensibilidade e um olhar diferenciado característicos de um apurado ponto de vista feminino, nenhum dos seus trabalhos até então eram tão relevantes a ponto de colocá-la lado a lado com grandes diretores do cinema.
É bem verdade que em seu currículo, Kathryn conta com participações em importantes festivais, tendo sido membro de júri em Berlim, Veneza e Sundance, características que apenas ressaltam a admiração e o respeito de seus colegas bem como o seu conhecimento profissional em cinema.
Entretanto mesmo levando em consideração todos os seus predicados é praticamente impossível não se surpreender com o belíssimo resultado apresentado pela diretora com Guerra ao Terror. O tema árido da presença norte-americana no Iraque aliado ao estilo predominantemente masculino dos filmes de guerra poderia muito bem representar para ela algum tipo de empecilho. Felizmente, não é esse o caso e o resultado final é uma obra riquíssima em simbolismos e com uma estrutura particular capaz de transmitir uma sensação de tensão constante, refletindo perfeitamente o cotidiano dos seus personagens.
Em Guerra ao Terror acompanhamos a Companhia Bravo, uma equipe militar do exército norte-americano responsável por desarmar bombas na capital iraquiana. Com a morte do principal especialista do grupo, o sargento William James (Jeremy Renner) é escalado para integrar a equipe. James se mostra um combatente nada convencional. Embora competente em sua função, o soldado nutre um forte desejo por adrenalina, o que faz com que encare todas as missões sem medo algum, mas não sem colocar em risco a segurança dos seus colegas.
Embora possua uma estrutura linear, com começo, meio e fim bem definidos, não é exatamente o desfecho da trama que importa em Guerra ao Terror. A produção funciona melhor se analisada como uma espécie de crônica sobre o dia a dia dos combatentes. Assim, o que importa não é o que irá acontecer ao final dos 40 dias restantes para o encerramento do rodízio de soldados no posto e, sim, o quão tensos podem ser cada um deles.
Aliás, tensão parece ser a palavra certa para definir tanto o clima em solo iraquiano quanto a sensação transmitida a cada nova missão enfrentada. Alternando uma câmera no estilo documental com planos tradicionais, Bigelow coloca o espectador como mais um integrante do grupo. Assim a cada nova bomba que precisa ser desarmada ou a cada incursão que precisa ser planejada com atenção, o espectador tem a nítida sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento – e de fato, em todos os casos, o desfecho é imprevisível.
Sustentando o clima de tensão apenas com a história e com as imagens que mostra, Kathryn acerta ao usar o mínimo possível os elementos da belíssima trilha sonora. Ela surge pontual em alguns poucos instantes do filme, não para induzir o espectador a ter determinado sentimento sobre um ou outro personagem, mas para acentuar o clima de desolação e o vazio das circunstâncias diante das quais o grupo – ou cada um dos soldados – é colocado.
Assim como a presença do exército dos Estados Unidos não é bem-vinda no Iraque, a produção ressalta esse elemento de uma maneira sutil e sensível, mostrando em diversos momentos planos com cidadão comuns olhando do alto de suas janelas com curiosidade a movimentação das tropas. Esses olhares inquietos, quando observados do ponto de vista dos soldados, colocam-nos em uma posição de alvos fáceis, de elementos destoantes em meio ao cotidiano, como se nos dissesse o quanto a presença das tropas por lá é inoportuna.
A crítica moral à guerra deflagrada contra o terror – que por si só já é um disparate na medida em que combate “terror com terror” – mostra-se presente em diálogos sutis ou cenas plasticamente perfeitas como, por exemplo, um plano que mostra uma série de caixas brancas, com pertences de soldados mortos em combate. Na ausência dos seus corpos as caixas funcionam como uma espécie de caixão simbólico, sendo os objetos dos soldados os únicos elementos a que as famílias tornarão a ver.
Da mesma forma, um diálogo entre William James e J. T. Sanborn (Anthony Mackie), logo na chegada do sargento ao grupo, nos explica que o acampamento Liberty (liberdade) mudou de nome e agora se chama acampamento Victory (vitória), um nome “mais apropriado” à missão do exército em solo iraquiano. Ou alguém mesmo imaginava que os EUA lutariam pela liberdade do povo do Iraque?
A direção de fotografia da produção, que fica a cargo do inglês Barry Ackroyd (À Procura de Eric), mostra acertada e contundente ao, da mesma forma, ilustrar os elementos simbólicos propostos pela direção. Dessa forma, assim como na guerra ao terror de George W. Bush, onde o inimigo não tem rosto, em momento algum os terroristas – ou inimigos – são mostrados. Eles são focalizados distantes, como sombras ou algo quase inatingível. O clima árido e desértico, bem como a necessidade de adaptação ao meio também são explicitadas de forma brilhante ao longo do filme e, em especial, numa angustiante sequência de combate entre atiradores de elite em pleno deserto.
Crítico em seu posicionamento, belo em sua estética e muitíssimo bem estruturado do ponto de vista técnico, Guerra ao Terror faz justiça a todas as atenções que vem ganhando nos principais prêmios do mundo do cinema bem como ao seu status de um dos melhores filmes do ano. O mérito maior, sem dúvida, é das escolhas de sua diretora que, com uma sensibilidade singular retrata um panorama cruel e realista dos resquícios despóticos deixados por Bush e companhia e que ainda são parte do dia a dia de famílias americanas e iraquianas. Filme para ser apreciado atentamente e, se possível, mais de uma vez.
Confira o trailer de Guerra ao Terror
Nota 9.
