Crítica de Alice no País das Maravilhas
É interessante notar o desenvolvimento de uma história ao longo dos anos no imaginário popular. Conheço muito poucas pessoas que leram os livros Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland) e Alice Através do Espelho (Through the Looking-Glass), lançados pelo escritor Lewis Carroll há mais de cento e quarenta anos. No entanto, graças a produção da Disney da década de 50, a obra – que já naquela época sofreu modificações – atravessou gerações e hoje é uma referência obrigatória, daquelas que mesmo sem ter visto o filme ou lido o livro já dá pra imaginar que tipo de história vem pela frente.
Aliado ao imaginário popular some-se dois nomes: Tim Burton e Johnny Depp. Responsáveis talvez por uma das maiores parcerias entre diretor-ator da história do cinema, são muitas as produções em que o visual gótico característico das obras do diretor em conjunto com o talento natural de Johhny Depp para interpretar personagens excêntricos extrapolaram os limites de um bom roteiro, deixando para o espectador não só fortes lembranças visuais como também personagens inesquecíveis – Edward Mãos de Tesoura (de Edward Mãos de Tesoura) e Willy Wonka (de A Fantástica Fabrica de Chocolates) só para citar alguns exemplos.
Sendo assim a expectativa criada em torno de Alice no País das Maravilhas – obviamente muito bem aproveitada pelo marketing da produção – foi imensa. Depois do sucesso de Avatar, praticamente criando uma nova linguagem para os efeitos em 3D, a expectativa recaiu toda sobre Tim Burton na esperança de que, de alguma forma, sua genialidade e ousadia fossem capazes de subverter o novo, trazendo o seu toque pessoal para a mais nova dimensão do cinema.
É inegável que o principal apelo ao espectador é o aspecto visual. Com cenários fabulosos construídos em computação gráfica, Burton cria um mundo onírico tão verossímil quanto possível, combinando um visual soturno de uma ameaça iminente com uma vegetação exuberante e multicolorida. Da mesma forma, os personagens que acompanham Alice durante a sua aventura pelo País das Maravilhas são construídos de maneira exemplar. Basta reparar na movimentação do Coelho Branco, por exemplo, e notar as texturas de pelagem para perceber o quanto o trabalho artístico foi desenvolvido com esmero.
Da mesma forma, os tons de vermelho do castelo da Rainha Vermelha em contraste com o branco quase absoluto dos domínios da Rainha Branca, não só transparecem a oposição de valores entre ambas – vaidade x pureza – como contam da forma visual mais didática possível parte importante da trama de Alice. Contudo, se nos aspectos de direção de arte e fotografia o filme não deixa em nada a desejar, infelizmente não se pode dizer o mesmo em outros quesitos.
Um dos aspectos onde menos se imaginavam problemas é onde reside talvez a maior das decepções de Alice no País das Maravilhas: as atuações. É bem verdade que usar a palavra “problema” é um termo forte demais. No entanto a sensação que se tem é que falta um pouco de vida a alguns dos personagens. E isso fica mais evidente quando olhamos para Alice (Mia Wasikowska). Sua atuação é apática e, nas cenas fora do País das Maravilhas, extremamente teatral. Seu rosto é inexpressivo na maioria dos momentos tanto que, quando há um ponto de virada e ela precisa renovar forças para ir à luta, a mudança é muito mais visível em seus companheiros do que nela mesma.
Já o Chapeleiro Maluco de Johnny Depp é discreto, mas eficiente. O ator fica longe de alguns exageros que já praticou na carreira e se mostra de maneira comedida na maior parte do tempo, se é que isso pode ser dito na interpretação de um personagem maluco, não comprometendo em nenhum momento. Assim, no papel da despótica Rainha Vermelha, Helena Bonham Carter acaba proporcionando alguns dos melhores momentos entre o elenco, compondo uma personagem vaidosa e ao mesmo tempo megera, sem perder a linha de atuação a que se propõe.
Como é natural, a empatia dos personagens mais “fofinhos” como o Coelho Branco, a Lebre de Março e o cão Bayard, apenas para citar alguns, é enorme e diante de atuações tão apagadas seu brilho parece ainda maior. Bayard, por exemplo, é responsável por um dos momentos mais comoventes da produção quando sai em busca ou reencontra a sua família.
A livre adaptação de Tim Burton, utilizando elementos de dois livros do escritor, em nada prejudica a essência da obra original. Com pouco menos de duas horas de duração, o roteiro não chega a ser um primor, mas é eficiente, apresentando e conduzindo a história de maneira satisfatória. Um ponto negativo, e bastante acentuado, é o desfecho que, além de ser extremamente teatral e soar forçado graças a atuação de Mia, é executado de uma maneira tão rápida que a impressão que fica é que houve um corte brusco ou que alguém queria se livrar de imediato do texto.
Para quem imaginava um verdadeiro show em imagens 3D o que se vê é um uso moderado do recurso, mas acertado e sempre em função da história. Isso é bastante perceptível na chegada de Alice ao País das Maravilhas. Repare na profundidade de campo da sequência e como de alguma forma o efeito parece colocar o espectador dentro daquele mundo, dando a impressão que Alice está vindo nos encontrar.
Talvez pela falsa expectativa criada em torno de Alice no País das Maravilhas, para muitos o filme possa não funcionar. Mas afirmar categoricamente que ele é ruim ou está entre os piores trabalhos de Tim Burton certamente é um exagero. Dentro da expectativa da maior parte do público, Alice deveria ser mais entretenimento e menos enigma. No entanto a proposta de Burton vai ao encontro da filosofia do autor, que também era matemático, e adorava essa linha de raciocínio.
Se por um lado Alice no País das Maravilhas de Tim Burton não consegue o perfeito equilíbrio entre reflexão e entretenimento, por outro revela no espectador uma curiosidade em conhecer um pouco mais daquele mundo. E o melhor de tudo é que para visitá-lo não é preciso comer nenhum tipo de cogumelo. Basta ir até a livraria mais próxima e conhecer uma das obras mais influentes e interessantes que a literatura já produziu.
Nota 7
Confira o trailer e a ficha técnica de Alice no País das Maravilhas


