[Crítica] Aparecida – O Milagre
O ano de 2010 pode ser considerado de certa forma um marco para o cinema nacional. Além do fato de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro ter batido o recorde de público e arrecadação para um filme brasileiro, a pluralidade de temas, pela primeira vez, pode ser vista em diversas opções nas telas dos cinemas. Desde filmes para o público infantil, adolescente até as comédias e tradicionais documentários, todos os gêneros parecem ter sido contemplados com ao menos uma produção de relevância.
Dentro desses gêneros um deles até então inexplorado deus as caras com consistência pela primeira vez: o de filmes religiosos. Espíritas, evangélicos e católicos tiveram nas telas uma oportunidade para conhecer um pouco mais de sua doutrina, em produções em sua maioria com bom nível orçamentário e resultado satisfatório em termos de público e bilheteria.
Aparecida – O Milagre é, de certa forma, um investimento tardio no público católico. A religião que tem o maior número de adeptos no país carece de filmes voltados para os seus fieis e com o número de salas no interior ainda reduzido, perde diversas oportunidades de criar produções de bom nível técnico a um custo relativamente baixo e se fixar como um novo nicho de mercado no cinema brasileiro.
Um fato como mensagem de fé
Diferente de títulos como Chico Xavier – O Filme e Nosso Lar, Aparecida – O Milagre não se apoia em uma biografia ou em uma obra de referência para expressar alguns dos princípios da sua doutrina. Pelo contrário. O foco principal aqui é uma história de vida comum que tem seus pontos principais transformados pela presença da fé em Nossa Senhora de Aparecida.
Dessa forma o filme transmite a sua mensagem muito mais pela moral da história do que pela apresentação incisiva de um elemento religioso em si. O caminho adotado é interessante e funciona até certo ponto, mas se perde no roteiro excessivamente forçado e em alguns pontos de virada pouco convincentes.
Quando não basta um milagre
Aparecida – O Milagre desenvolve a sua trama a partir de dois momentos distintos na vida do empresário Marcos (Murilo Rosa). Quando criança, cresceu junto a uma família devota da santa, mas pobre e com poucos recursos. Com o sonho de se tornar um jogador de futebol, o menino faz um pedido para a santa e não é atendido. Para complicar a situação, dias depois o seu pai morre em um acidente. A partir de então ele cresce alimentando uma repulsa pela figura de Nossa Senhora.
Já na idade adulta, separado da esposa e com um filho em idade adulta, Marcos precisa enfrentar a falta de interesse do jovem em dar continuidade aos seus negócios. Aos poucos conhecemos os problemas de vida de Lucas (Jonatas Faro) e os desentendimentos entre ambos culminam em um acontecimento que coloca a prova a existência ou não de fé em Marcos.
A ideia básica inicial funciona durante a maior parte do tempo. É justamente a força motriz desse desentendimento que surge de maneira deslocada ao restante da trama que indica um caminho ruim para o restante do desenvolvimento. Marcos e Lucas discutem por uma razão que, até então, em momento algum havia sido sequer sugerida no roteiro. E, além disso, revela um certo clichê ao dualizar um artista (independente, livre) com um executivo (escravo do trabalho, sempre ocupado), atribuindo ao primeiro o uso de drogas como uma fuga “natural” ou característica do meio.
Entretanto, é no desfecho do filme que encontramos um ponto onde a diretora Tizuka Yamazaki se perde por completo. Na tentativa de dar mais impacto a um milagre, a sequência final é estruturada de uma forma tão teatral e pouco crível que gera o efeito contrário: é mais fácil desconfiar do milagre pela maneira como a cena é montada do que acreditar que ele poderia ser verdadeiro. A exemplificação clara desse aspecto é vermos um personagem saindo do estado de coma e se levantando, como se acabasse de acordar de uma noite de sono. Por mais que um milagre como esse seja possível dentro da fé católica, o desenrolar de um fato como esse não se daria de forma tão abrupta.
Independência ou inspiração
Embora não seja uma obra feita sob encomenda da igreja católica e inegável o viés adotado pela diretora para conduzir a narrativa, seja pela maneira como a fé é demonstrada ou pelas imagens documentais da Basílica de Nossa Senhora Aparecida apresentadas tanto no início quanto ao final da produção. Assim, temos uma narrativa não tão ecumênica e que pode desagradar aqueles que não professam da mesma ideologia.
Porém, se por um lado não há qualquer tipo de ingerência religiosa quanto ao conteúdo do filme, por outro fica clara a tentativa de “colar” a história junto ao público católico, como forma de atrair o espectador. Pode até funcionar em termos de bilheteria, mas em se tratando de qualidade a obra acaba recaindo em um meio termo perigoso, não empolgando católicos e menos ainda a espectadores de outras religiões. Simples, ingênuo e frágil.
Nota 5
























