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'Crítica'

Crítica – Nine

8 fevereiro, 2010
22:51

Se você gosta de cinema, não é preciso muitos argumentos para tentar convencê-lo a ver o filme Nine. Basta dar uma olhada no cartaz da produção e reparar a quantidade de nomes atores famosos que participam do filme para imaginar o quão interessante ele pode ser. Daniel Day Lewis, Nicole Kidman, Penélope Cruz, Sophia Loren, Judi Dench, Kate Hudson, Marion Cottilard e até mesmo a cantora Fergie são motivos mais do que suficientes para convencê-lo a comprar o ingresso.

Porém, qual a razão que torna o musical Nine, ao mesmo tempo em que é belo e ousado, chato e sonolento? Não é difícil explicar o porque. Porém, antes de tudo, é preciso entendê-lo para, assim, evitarmos algumas conclusões precipitadas. Nine nasceu como uma homenagem a aquele que talvez seja o mais importante dos filmes do diretor italiano Federico Fellini – 8 ½.

Lançado em 1963, o filme era uma espécie de autobiografia do diretor, que questionava o seu papel nas produções que tinha feito até então ao mesmo tempo em que sofria um bloqueio criativo para a produção daquele que seria seu nono filme – por isso o 8 ½ numa alusão a um filme que se apresentava inacabado. Na década de 80 a produção de Fellini foi adaptada para a Broadway, transformando-se num musical de grande sucesso.

A missão de trazer o musical da Broadway para o caminho inverso – readaptá-lo para o cinema – coube ao já falecido Anthony Minghella (Cold Mountain) e a Michael Tolkin (O Jogador). Para a direção o projeto foi entregue a Rob Marshall, que levou o filme Chicago ao Oscar de Melhor Filme em 2003. Com tantos nomes de peso envolvidos no projeto é difícil imaginar que um filme assim “não funcione”. Porém, após acompanhar a trajetória de Guido Contini (Daniel Day-Lewis) em quase duas horas de projeção a sensação que fica é mais de cansaço do que de encantamento.

Vamos por partes. Nine é, na verdade, muito mais do que um simples musical é uma verdadeira homenagem à concepção da sétima arte. Todos os processos criativos envolvidos em um filme são abordados e questionados. A concepção do roteiro, a escolha do elenco, a criação dos figurinos, o processo de direção, a pressão por parte da mídia, a industrialização do processo por parte dos produtores. O cinema, enquanto arte, caminha sobre uma linha tênue juntamente com a indústria. Ora pende para um lado, ora pende para outro, mas é somente juntas que acabam sobrevivendo.

Em termos visuais Nine é um espetáculo garantido. Os diversos cenários em que as canções são executadas são ricamente iluminados com cores vivas – quando a canção assim pede – ou cores neutras, mas de um contraste exuberante. Da mesma forma, a composição das coreografias é um elemento que agrega ritmo à narrativa, proporcionando ao espectador o desejo de estar na plateia de um espetáculo como esse.

O elenco de atores, da mesma forma, funciona em grande sintonia, com raríssimas exceções. Daniel Day Lewis, por exemplo, consegue transparecer claramente os momentos de tormento e angústia do seu personagem, bem como o seu deslumbramento diante de uma diva. Penélope Cruz, no papel da amante do grande diretor, enche os olhos em sua coreografia de dança e vai do momento cômico ao momento dramático de uma maneira tão suave que é difícil duvidar da verossimilhança de sua atuação. Marion Cotillard, da mesma forma chama atenção pela sua atuação contida, no papel da devotada esposa de Guido Contini. Apenas com o olhar ela consegue transparecer seus sentimentos, deixando claro o quanto sofre em função do seu amor.

Porém, diferente de Chicago, onde todos esses elementos estavam em sintonia, em Nine temos uma composição de roteiro e montagem parcimoniosa e anticlímax do que as próprias coreografias propõem. Em outras palavras, falta ritmo ao filme quando ele “foge” das sequências musicais. Por si só, o drama de Guido Contini é muito mais introspectivo do que qualquer outra coisa. As canções, nesse ponto acabam por contrapor um estado de espírito com outro e, no final das contas, o espectador que permanecer junto àquele espetáculo, sem precisar voltar para a vida de Guido.

Se por um lado a proposta era mesmo mostrar o diretor com uma vida enfadonha – ao menos sob o seu ponto de vista – em um período de turbulências e bloqueio criativo, por outro lado fica difícil para o espectador identificar-se com aquele personagem. É muito mais natural nos posicionarmos ao lado daquilo que parece colocar a trama adiante – as sequências musicais – do que daquele que, pos suas ações e atitudes, insiste em boicotar-se o tempo todo.

Assim, embora artisticamente o filme seja perfeito em sua concepção, para o espectador, mesmo o mais cinéfilo deles, que reconheça as referências da obra original de Fellini, fica no ar a sensação de alguma coisa está faltando para o filme ser completo. O tempo de duração – 118 minutos – também colabora para acentuar essa percepção. Seria possível editar ao menos uns vinte minutos sem que houvesse alguma perda significativa no andamento da produção. Pelo contrário. Seria benéfico e, talvez, colaborasse para dar mais ritmo à mesma.

Bem intencionado e tecnicamente bem concebido, Nine acerta por um lado em sua homenagem ao mundo do cinema e o faz com beleza e glamour dignos dos grandes filmes do passado ou do sucesso dos musicais da Broadway. Só se esquece de um “detalhe” fundamental e que talvez seja o mais importante de todos eles na história da sétima arte: o público. Afinal, de que adianta o artista conceber a mais importante das mensagens se o receptor delas – o grande público – não puder compreendê-las? Nesse caso entre o oito e o oitenta o meio termo, infelizmente, não é a melhor das opções.

Confira o trailer de Nine

Nota 7.

Crítica – High School Musical – O Desafio

6 fevereiro, 2010
22:45

É muito fácil apontar High School Musical – O Desafio como uma produção ruim. Para aqueles que não são fãs de uma das franquias de maior sucesso da Disney nos últimos anos, bem como aqueles que acreditam que Zac Efron e Vannessa Hudgens não acrescentam em nada à cinematografia mundial, uma versão nacional nos mesmos moldes da norte-americana é mais do que um prato cheio para críticas quanto à sua qualidade.

Por outro lado, a exemplo do fanatismo desmedido despertado nas adolescentes em filmes como Crepúsculo e Lua Nova, não tenha dúvida que também não faltarão defensores – e principalmente defensoras – ferrenhas dos ídolos musicais “do momento”, ainda que eles passem de meros desconhecidos a estrelas da noite para o dia. Porém, embora atinja públicos similares aos fãs dos vampiros e lobisomens de Stephenie Meyer, é possível ver muito mais propósitos nessa adaptação nacional do que em qualquer um dos outros filmes estrelados por Edward e Bella.

High School Musical – O Desafio não é nada inovador. Seu roteiro é previsível e segue os mesmos moldes das três versões norte-americanas. A livre adaptação, inclusive, acaba gerando pérolas risíveis como uma escola intitulada “High School Brasil” ou uma equipe de futebol universitária intitulada “lobos-guará”, numa clara alusão aos nomes de animais adotados pelas equipes universitárias nas ligas norte-americanas.

Some-se a isso um outro aspecto interessante relativo a estrutura dos musicais. Para o norte-americano a ideia de uma canção durante um filme funciona como uma espécie de fluxo de consciência. Em tese, raciocina-se que o personagem principal não para a sua ação para cantar uma música. O número musical reflete, nada mais do que a sua consciência, funcionando como uma espécie de aposto dramático, conduzindo a trama adiante sem que, necessariamente, a ação proclamada nos versos aconteça.

Dessa forma, não deixa de ser estranho perceber que essa “pausa para a canção” seja referenciada diretamente na história, como na sequência em que Olavo (Olavo Cavalheiro) se dirige a Renata (Renata Ferreira) e diz que gostou de ouvi-la cantando na porta da escola. Em tese, o momento musical aconteceu dentro de um fluxo de consciência – ou é plausível pensar que do nada uma rua inteira para e dança uma música? – e, sendo assim, sua referência é equivocada e absurda.

Apesar dos pesares, duas outras razões me impedem de apontar High School Musical – O Desafio como uma bomba cinematográfica. A primeira delas fica por conta da composição do elenco. Sim, entre os atores do filme está lá o nome de Wanessa Camargo. Não vou entrar no mérito se suas músicas são boas ou ruins – afinal, não sou crítico musical e cada um tem o seu gosto particular – mas sua presença enquanto atriz é tão pequena na produção que ela funciona mais como um chamariz de público do que como qualquer outra coisa.As verdadeiras estrelas da produção são os oito atores – quatro moças e quatro rapazes – em torno dos quais a trama principal se desenvolve. Embora o grupo tenha sido selecionado em meio àqueles concursos no estilo Ídolos, uma breve espiada na biografia de cada um deles revela um dado interessante: embora jovens, todos têm vários anos de dedicação a uma carreira artística, seja com aulas de canto, teatro ou música.

Em uma época em que ex-Big Brothers tornam-se atores e atrizes sem ter a menor ideia do que é expressão corporal, impostação vocal ou uma partitura, ver jovens que realmente estudaram tendo uma oportunidade dentro de sua profissão – e no Brasil – é algo digno de nota. Se irão ter uma carreira de sucesso ou se desenvolver em cada uma de suas áreas é uma outra história. O fato é que entre colocar apenas rostos bonitinhos ou estudantes de teatro há uma grande diferença.

O segundo aspecto que me leva a apontar High School Musical – O Desafio como uma boa notícia no cenário brasileiro é o gênero que o filme se enquadra. Temos uma indústria incipiente de cinema no país que, praticamente, produz apenas filmes com três temáticas: comédias, crítica social à pobreza e violência nas favelas. Não estou generalizando, mas não seria nenhum absurdo afirmar que 80% dos filmes produzidos no país hoje se enquadram nesse tripé. Sendo assim, ter um musical com espaço nas telas do cinema não só é uma notícia bem-vinda, como deixa no ar uma expectativa para que outros gêneros também possam desenvolvidos por aqui.

Por que não uma ficção científica brasileira? Por que não filmes de terror contando as lendas urbanas nacionais? Por que não mais dramas, com histórias universais de qualidade? É claro, adaptar uma história americana não é a melhor das coisas – longe disso. Mas nesse caso, já é um começo.

Que outras ideias como essas, que fujam da mesmice que é o cinema nacional, possam florescer e encontrar espaço para se desenvolver. E, principalmente, que o público mostre que está disposto a aceitar coisas novas e não apenas fique reduzido a idealizar novos ídolos. Sim, sei que posso estar sendo otimista até demais. Mas só de poder ir ao cinema e ver profissionais brasileiros fazendo outras coisas que não se resumam a pobreza, violência ou comédias novelescas, já uma exceção e tanto aos títulos comerciais nacionais que devem figurar nas telas em 2010.

Confira o trailer de High School Musical – O Desafio

Nota 5.

Crítica – Premonição 4

5 fevereiro, 2010
23:13

É difícil compreender a razão do sucesso de certas produções. A franquia Premonição, por exemplo, nunca foi nenhum primor. Pelo contrário. Já no primeiro filme, uma série de sequências absurdas e a insistência de tentar se levar a sério onde claramente não havia razão ou sentido fizeram que, ao menos em termos de qualidade, a produção se colocasse como mais um dos clichês do gênero “jovens bonitos e estúpidos prestem a serem mortos por um serial killer ou algum similar”.

Espantosamente (ou não) o resultado nas bilheterias foi positivo, o que em Hollywood é sinônimo de sequência. Assim, com a mesma fórmula, o segundo e o terceiros filmes amealharam o seu público cativo e, com isso, garantiram boas arrecadações novamente. Estava encerrada uma das trilogias mais fracas de terror e suspense surgidas nos últimos anos. Ou melhor, deveria ter sido encerrada.

Alguns produtores devem ter pensado: para que vamos encerrar algo que é uma mina de ouro se nem precisamos nos dar ao trabalho de fazer um filme decente? Basta apresentar qualquer coisa e o mesmo público, certamente, irá nos prestigiar. Não deu outra. Premonição 4, lançado em novembro de 2009 nos Estados Unidos novamente se saiu muito bem, em parte graças aos recursos 3D que, em tese, deveriam ser um sopro de novidade na já mais do que esgotada franquia.

Infelizmente, após assistir ao filme, certamente as únicas pessoas que devem ter ficado felizes foram mesmo os produtores Craig Perry e Warren Zide. Confesso que poucas vezes na vida me vi diante de um filme tão ruim e estúpido quanto Premonição 4. Tanto é que chega a ser difícil relacionar aqui quais são os seus pontos negativos, pois são tantos que certamente seria preciso escrever algumas páginas para dar conta de detalhá-los.

A exemplo do três filmes anteriores, não há renovação alguma na trama. A estrutura narrativa é exatamente a mesma. O que muda apenas é local da primeira grande sequência e os estúpidos jovens envolvidos na história em questão. Depois das premonições no avião ou na rodovia, o palco agora é um autódromo onde acontece uma prova de Nascar.

Bastam apenas alguns minutos para o espectador perceber que comprou gato por lebre. É aceitável imaginar que o tremor da pista, com a passagem dos carros em alta velocidade, possa provocar uma trepidação na cerca e, com isso afrouxar alguns parafusos. Mas é completamente inconcebível vê-los girando a toda velocidade como se alguma “misteriosa força invisível” os estivesse desparafusando e, a partir disso, toda uma série de catástrofes se desenrole.

Sequências atrozes como essa abundam ao longo do filme, atingindo o clímax da imbecilidade quando um vidro de perfume se move sozinho (sim, absolutamente sozinho) para próximo de um frisador elétrico que esquenta, explode a lata, que derruba um ventilador e… bem, as catástrofes em série prosseguem.

O grupo de personagens principais consegue, se isso é possível, se comportar de maneira ainda mais cretina do que os seus antecessores da trilogia Premonição. O resultado são sequências de mortes tão convincentes quanto um magricela de calça jeans afirmando para uma criança que ele é o Papai Noel.

E se você imaginou que os efeitos em 3D poderiam ser a cereja do bolo dessa grande festa das mutilações, tire o seu cavalinho da chuva. A “grande sacada”, além do já repetitivo e canhestro efeito de jogar objetos na tela, dando a impressão que o espectador será atingido, é colocá-lo frente a frente com objetos pontiagudos, causando a sensação de que uma faca, uma agulha ou algo assim, a qualquer momento, irá rasgar a tela e espetar os olhos do espectador.

Se o filme tentasse se firmar como um legítimo representante do gênero trash, talvez merecesse uma pontinha de crédito. Talvez. Afinal, mesmo se comparado aos mais fracos filmes do gênero, ainda assim, Premonição 4 deixa muito a desejar. Agora, tentar esboçar um mínimo de suspense em razão dos misteriosos desígnios da morte e apresentar algo tão cretino ao espectador chega a ser ofensivo com quem paga o ingresso. Sem dúvida, estamos diante de um dos favoritos a ocupar o posto de pior filme de 2010.

Confira o trailer de Premonição 4

Nota 2.

Crítica – Guerra ao Terror

4 fevereiro, 2010
20:49

Kathryn Bigelow nunca esteve no centro dos holofotes. Diretora de trabalhos como K-19 – The Widowmaker e O Peso da Água, embora seus filmes transmitam uma sensibilidade e um olhar diferenciado característicos de um apurado ponto de vista feminino, nenhum dos seus trabalhos até então eram tão relevantes a ponto de colocá-la lado a lado com grandes diretores do cinema.

É bem verdade que em seu currículo, Kathryn conta com participações em importantes festivais, tendo sido membro de júri em Berlim, Veneza e Sundance, características que apenas ressaltam a admiração e o respeito de seus colegas bem como o seu conhecimento profissional em cinema.

Entretanto mesmo levando em consideração todos os seus predicados é praticamente impossível não se surpreender com o belíssimo resultado apresentado pela diretora com Guerra ao Terror. O tema árido da presença norte-americana no Iraque aliado ao estilo predominantemente masculino dos filmes de guerra poderia muito bem representar para ela algum tipo de empecilho. Felizmente, não é esse o caso e o resultado final é uma obra riquíssima em simbolismos e com uma estrutura particular capaz de transmitir uma sensação de tensão constante, refletindo perfeitamente o cotidiano dos seus personagens.

Em Guerra ao Terror acompanhamos a Companhia Bravo, uma equipe militar do exército norte-americano responsável por desarmar bombas na capital iraquiana. Com a morte do principal especialista do grupo, o sargento William James (Jeremy Renner) é escalado para integrar a equipe. James se mostra um combatente nada convencional. Embora competente em sua função, o soldado nutre um forte desejo por adrenalina, o que faz com que encare todas as missões sem medo algum, mas não sem colocar em risco a segurança dos seus colegas.

Embora possua uma estrutura linear, com começo, meio e fim bem definidos, não é exatamente o desfecho da trama que importa em Guerra ao Terror. A produção funciona melhor se analisada como uma espécie de crônica sobre o dia a dia dos combatentes. Assim, o que importa não é o que irá acontecer ao final dos 40 dias restantes para o encerramento do rodízio de soldados no posto e, sim, o quão tensos podem ser cada um deles.

Aliás, tensão parece ser a palavra certa para definir tanto o clima em solo iraquiano quanto a sensação transmitida a cada nova missão enfrentada. Alternando uma câmera no estilo documental com planos tradicionais, Bigelow coloca o espectador como mais um integrante do grupo. Assim a cada nova bomba que precisa ser desarmada ou a cada incursão que precisa ser planejada com atenção, o espectador tem a nítida sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento – e de fato, em todos os casos, o desfecho é imprevisível.

Sustentando o clima de tensão apenas com a história e com as imagens que mostra, Kathryn acerta ao usar o mínimo possível os elementos da belíssima trilha sonora. Ela surge pontual em alguns poucos instantes do filme, não para induzir o espectador a ter determinado sentimento sobre um ou outro personagem, mas para acentuar o clima de desolação e o vazio das circunstâncias diante das quais o grupo – ou cada um dos soldados – é colocado.

Assim como a presença do exército dos Estados Unidos não é bem-vinda no Iraque, a produção ressalta esse elemento de uma maneira sutil e sensível, mostrando em diversos momentos planos com cidadão comuns olhando do alto de suas janelas com curiosidade a movimentação das tropas. Esses olhares inquietos, quando observados do ponto de vista dos soldados, colocam-nos em uma posição de alvos fáceis, de elementos destoantes em meio ao cotidiano, como se nos dissesse o quanto a presença das tropas por lá é inoportuna.

A crítica moral à guerra deflagrada contra o terror – que por si só já é um disparate na medida em que combate “terror com terror” – mostra-se presente em diálogos sutis ou cenas plasticamente perfeitas como, por exemplo, um plano que mostra uma série de caixas brancas, com pertences de soldados mortos em combate. Na ausência dos seus corpos as caixas funcionam como uma espécie de caixão simbólico, sendo os objetos dos soldados os únicos elementos a que as famílias tornarão a ver.

Da mesma forma, um diálogo entre William James e J. T. Sanborn (Anthony Mackie), logo na chegada do sargento ao grupo, nos explica que o acampamento Liberty (liberdade) mudou de nome e agora se chama acampamento Victory (vitória), um nome “mais apropriado” à missão do exército em solo iraquiano. Ou alguém mesmo imaginava que os EUA lutariam pela liberdade do povo do Iraque?

A direção de fotografia da produção, que fica a cargo do inglês Barry Ackroyd (À Procura de Eric), mostra acertada e contundente ao, da mesma forma, ilustrar os elementos simbólicos propostos pela direção. Dessa forma, assim como na guerra ao terror de George W. Bush, onde o inimigo não tem rosto, em momento algum os terroristas – ou inimigos – são mostrados. Eles são focalizados distantes, como sombras ou algo quase inatingível. O clima árido e desértico, bem como a necessidade de adaptação ao meio também são explicitadas de forma brilhante ao longo do filme e, em especial, numa angustiante sequência de combate entre atiradores de elite em pleno deserto.

Crítico em seu posicionamento, belo em sua estética e muitíssimo bem estruturado do ponto de vista técnico, Guerra ao Terror faz justiça a todas as atenções que vem ganhando nos principais prêmios do mundo do cinema bem como ao seu status de um dos melhores filmes do ano. O mérito maior, sem dúvida, é das escolhas de sua diretora que, com uma sensibilidade singular retrata um panorama cruel e realista dos resquícios despóticos deixados por Bush e companhia e que ainda são parte do dia a dia de famílias americanas e iraquianas. Filme para ser apreciado atentamente e, se possível, mais de uma vez.

Confira o trailer de Guerra ao Terror

Nota 9.

Crítica – Invictus

1 fevereiro, 2010
20:30

Entre todas as figuras políticas vivas do planeta, talvez o nome de Nelson Mandela seja um dos poucos a reunir em torno de si um apreço e um carisma que beiram a unanimidade. Sua história de vida, como alguém que passou trinta anos na prisão e, quando libertado, foi eleito presidente da África do Sul, por si só, já é argumento mais do que suficiente para o cinema.

Somado a isso conhecemos a luta de Mandela em diversas causas sociais e humanitárias, que renderam a ele diversas menções e condecorações mundo afora além do Prêmio Nobel da Paz em 1993. Assim, basta que a imagem do líder sul-africano surja por alguns minutos na tela para que a empatia do espectador seja completa.

Invictus não se propõe ser um filme biográfico. Acertadamente, a trama volta os olhos para um evento específico, que serve perfeitamente a dois propósitos: o primeiro é mostrar o lado mais pessoal de Mandela, acompanhando parte do seu dia a dia em um período conturbado em que ele acabava de assumir o governo do país; já o segundo é mostrar a maneira de pensar uma presidência, mostrando como uma causa simples e, aparentemente, distante dos interesses de um governo pode ter tanta influência direta no dia a dia da população.

A escolha de Morgan Freeman para interpretar o papel de Mandela é, sem dúvida, óbvia e fundamental para o filme. Primeiro porque Freeman e Mandela parecem ser irmãos gêmeos, tamanha é a semelhança. Outro ponto que leva a crer que ele é a escolha única para o personagem é o estilo de roteiro e os diálogos em si. Freeman coleciona ao longo de sua carreira uma série de papéis onde com poucas palavras, apresenta uma verdadeira lição de vida – ou de inteligência. Em Invictus, cada diálogo de Nelson Mandela parece ter sido concebido como uma aula inspiradora.

O estilo de poucas palavras e que parece dizer tudo apenas com um olhar também é de longa data uma das características do seu diretor, Clint Eastwood. Dessa forma ele fez fama com seus westerns e em Invictus, embora esteja longe de seus melhores trabalhos, Eastwood consegue conduzir de forma segura uma trama comovente sem ser apelativo ou se render com facilidade às trilhas melosas para fazer chorar.

A virilidade, outra característica dos seus personagens, também é bastante destaca na produção, com belas tomadas das partidas de rúgbi. Em alguns momentos têm-se a impressão que uma verdadeira manada de touros está se digladiando cabeça a cabeça. Em outros, a leveza de uma corrida ou a raça demonstrada pela conquista de um ponto ganham a tela de maneira soberba que, mesmo sem conhecer o esporte, é fácil se pegar torcendo por um ponto da equipe sul-africana.

A trama reserva ainda espaço para mostrar como pano de fundo o momento político enfrentado por Mandela em seus primeiros meses de mandato: um país dividido entre brancos e negros, ricos e pobres. Tomando-o como uma figura diferenciada, capaz de perdoar aqueles que o colocaram atrás das grades por 30 anos, Invictus não hesita em apontar as falhas de caráter de brancos e negros, tornando-os iguais diante das circunstâncias de poder.

Conciso, poucos elementos fazem com que o filme erre na dose. O clima constante de tensão, muito bem retratado na subtrama que acompanha o seu grupo de seguranças, contribui para o aumento da expectativa em todas as circunstâncias em que Mandela se expõe em público. Porém isso não impede o diretor de exagerar na dose como ao dar a entender, em uma ótima montagem paralela, que um avião poderia ter sido jogado contra o estádio no dia da grande final. Uma sequência interessante do ponto de vista dramática, mas pouco verossímil em seu desfecho.

Já no clímax do filme o uso de câmera lenta para acentuar os momentos de tensão e criar um clima com uma expectativa ainda maior também passa da medida. Sem o uso do artifício, por si só a condução da partida e o seu desfecho seriam elementos suficientes para cativar o espectador. O uso desmedido de câmera lenta acaba tendo o efeito contrário e, ao final, torna a sequência cansativa e ressalta alguns momentos que poderiam ser editados sem que isso interferisse na condução.

Pode não ser um dos melhores trabalhos de Clint Eastwood na direção. No entanto, em uma filmografia com títulos tão interessantes, é possível afirmar que o diretor mantém-se em uma ótima média e, com Invictus, a situação não é diferente. A produção reúne muito mais pontos positivos do que negativos, apresenta um roteiro coerente e conciso e, de quebra, transmite uma espécie de mensagem que, certamente, irá figurar em muitas palestras motivacionais quando o filme chegar ao mercado de home vídeo. Não é um filme para Oscar, Globo de Ouro ou melhores do ano, mas sem dúvida merece ser visto e analisado tanto pela arte quanto pelo aspecto histórico que apresenta.

Confira o trailer de Invictus

Nota 7.

Crítica – O Fada do Dente

27 janeiro, 2010
02:04

É curiosa a maneira como algumas coisas se estabelecem na indústria cinematográfica. Dwayne Johnson, conhecido também como The Rock, definitivamente não é um bom ator. O ex-lutador do circuito World Wrestling Entertainment, no entanto é dono de um carisma invejável, em especial junto ao público norte-americano, que fez com que desde a sua participação no filme O Retorno da Múmia sua carreira como ator deslanchasse.

Saindo das produções de ação e caminho rumo às comédias, Johnson encontrou em si próprio uma maneira de propor um contra-senso ao estereótipo do comediante. Por seu porte avantajado, vê-lo em situações cômicas ou caricatas por si só já soa como algo diferente. Aproveitando-se desse nicho de mercado, explorado anteriormente por Arnold Schwarzenegger e até por Vin Diesel, Dwayne criou um “tipo” e, agarrado a ele, segue fazendo boas bilheterias com seus filmes.

Infelizmente, boas bilheterias não são sinônimo de bons filmes e no caso de O Fada do Dente, culpar Dwayne Johnson pela má qualidade da produção seria um exagero, uma vez que sua atuação – fraquíssima – é o menor dos problemas do filme. Com o roteiro apresentado, a trama conduzida pelo diretor Michael Lembeck (Meu Papai é Noel 2) sem dúvida se transformaria em uma bomba nas mãos de qualquer outro ator.

No filme acompanhamos a história de Dereck Thompson (Dwayne Johnson), um jogador de hóquei no gelo conhecido pela sua força física e que tem o apelido de “fada do dente” por quebrar os dentes dos seus adversários em jogadas truculentas. Totalmente cético com relação a contos de fadas e outras fantasias, Thompson não hesita em destruir os sonhos de quem quer que seja. É quando ele recebe um chamado, do mundo das fadas, seguido de um castigo: terá que passar uma semana agindo como fada do dente até que passe a acreditar que a fantasia realmente existe.

Embora a moral da história já fique clara nos primeiros trinta minutos de filme, e seja extremamente previsível que tudo irá se desenvolver até que de fato ele acredite que as fadas existem e que, manter vivo na memória alguns sonhos não faz mal a ninguém, a maneira como a trama se desenvolve é uma verdadeira decepção.

Embora nitidamente a história tenha um foco no público infantil, é desprezível perceber o quão rasteiros são os diálogos da produção. Toda conversa tende a terminar em uma piada ou um trocadilho infame. Não passa mais que um minuto sem que surja uma piada – ou tentativa de piada, na maioria das vezes – ainda que ela não seja cabível na cena.

Nesse quesito abro um parêntese: a versão que assisti foi a dublada e, nela, muitas das piadas foram claramente adaptadas para a realidade brasileira. Assim você ouvirá termos como “sambarilove” – surgido nos programas de Chico Anysio – e “brilhantes” trocadilhos como “fadarwin” – uma versão de Charles Darwin das fadas para explicar a evolução delas. Embora adaptado, o texto não foge – assim espero – da essência proposta pelo roteiro original, o que transfere o problema inteiramente para a equipe de roteiristas.

Dentre todas as atuações de Dwayne Johnson, talvez aqui seja a pior delas. Se com diálogos um pouco melhores seu desempenho já ficava abaixo do esperado, com um roteiro pobre em mãos o resultado é um desastre completo. Assim Dwayne se limita a fazer caras e bocas e, mesmo quando sua única missão é dar um grito de espanto, a impressão que se tem é que ele está rindo, tamanha é a descaracterização nesse sentido.

Sem acrescentar nada à carreira de nenhum dos envolvidos e, menos ainda, para o espectador, a produção não chega a ser ofensiva em nenhum momento, fugindo de piadas sexistas ou de humor duvidoso e apostando mais na ingenuidade e em situações tolas do que em qualquer outro artifício. Se por um lado enquanto cinema O Fada do Dente é ruim, por outro, enquanto mero entretenimento familiar, o filme consegue provocar alguns risos – ainda que sejam de indignação por trocadilhos tão infames e “divertidos” quanto uma piada contada pela décima vez.

Confira o trailer de O Fada do Dente

Nota 5.

Crítica – Amor Sem Escalas

26 janeiro, 2010
02:22

Não importa o quão repetitiva uma ideia possa ser, sempre haverá uma possibilidade de executá-la de uma maneira diferente. E, o que é mais interessante, sempre haverá a possibilidade de encantar e conquistar o espectador ao colocá-lo frente a frente com situações limite, conquistá-lo e depois subverter suas expectativas.

Amor Sem Escalas não se enquadra apenas na categoria drama. É também comédia. É também romance. E nem por isso se perde, ou ainda pior, apela para a mesmice e a repetição característica de histórias do gênero. A ordem aqui é quebrar as expectativas. E isso é conseguido às custas de dois elementos-chave: um roteiro inteligente e atores carismáticos interpretando personagens tão verossímeis quanto eu ou você.

Escrito e dirigido por Jason Reitman (Juno) – assina ainda o roteiro Sheldon Turner (Big Stan – Arrebentando na Prisão), numa adaptação do livro de Walter Kirn – Amor Sem Escalas prenuncia algo de bom já em sua premissa e confirma a suspeita logo na apresentação dos seus personagens.

Na trama acompanhamos o dia a dia de Ryan Bingham (George Clooney), um alto executivo de uma empresa cuja missão não é das mais nobres: ele é o encarregado de demitir pessoas por todo os Estados Unidos, assumindo o papel em empresas que não tem coragem de dispensar seus próprios empregados. Sua vida é no ar. Dos 365 dias do ano, Ryan passa mais de 300 longe de casa. E se orgulha disso.

Consultor motivacional, suas palestras versam sobre o tema da liberdade como ponto de partida para a ousadia. Sem coisas, lugares e pessoas a se prendem, podemos voar mais alto e apostar sem medo de perder. Da mesma forma, Ryan não envolve em relacionamentos sérios – ou compromissos. Tudo se resume a parceiras de encontros casuais e pequenas aventuras.

Sua vida muda por completo quando a jovem psicóloga Natalie Keener (Anna Kendrick) é contratada pela empresa e, de imediato apresenta uma nova proposta: substituir as dispendiosas viagens aéreas para demissões presenciais por demissões online via videoconferência. E é nesse ponto que temos algo especial e diferente.

Embora Ryan, pelo seu perfil frio, metódico e calculista pareça insensível ou egoísta ele é o primeiro a se levantar contra a ideia “insensível” das demissões virtuais. Por outro lado Natalie, de quem poderia se esperar um pouco mais de compaixão mostra-se dura e decidida a seguir adiante com sua ideia. A proposta é colocada à prova em uma viagem sugerida pelo chefe de ambos, para que Ryan, mais velho, possa ensinar a ela os caminhos tortuosos da profissão.

É justamente a viagem que inicia uma jornada de transformação em ambos. Se Ryan por um lado é obrigado a suportar a convivência com outra pessoa, por outro Natalie conhece na prática como seus pré-conceitos e ideias podem soar como meros rótulos sem muito significado. Acostumada a um estilo de vida onde para que tudo fizesse sentido era preciso estar em busca de um ideal, a jovem é apresentada a um outro lado, mais despojado e realista.

Já Ryan, pela primeira vez, alimenta uma relação com uma recém-conhecida. Não Natalie, como seria óbvio numa comédia romântica, mas Alex Goran (Vera Farmiga), uma executiva da sua faixa etária e com um perfil muito similar: muitas viagens a negócios e satisfação por encontros casuais e nada mais.

A afinidade entre o trio impressiona. George Clooney e Vera Farmiga parecem formar um par perfeito. Clooney personifica o estereótipo do homem de negócios elegante, inteligente e irônico, do tipo que espera conquistar qualquer mulher apenas com um sorriso e um drink. Já Vera Farmiga conduz o papel de uma mulher que consegue se impor quando quer, fazendo às coisas à sua maneira, sem deixar de ser feminina ou perder sua sutiliza. Ambos, porém, são mais experientes e, com o currículo que têm não é nenhum espanto o bom desempenho.

A agradável surpresa fica por conta de Anna Kendrick (Lua Nova). Diferente de papéis inexpressivos de produções anteriores, em Amor Sem Escalas sua desenvoltura contribui muito a ponto de ela servir como um contraponto perfeito para o papel de George Clooney. Mais do que isso, sua personagem sofre profundas transformações ao longo da trama e, com muita naturalidade, a atriz conduz essa mudança sem soar forçada em nenhum momento, sendo responsável até mesmo por alguns bons momentos bem humorados.

Com personagens não agindo da maneira como o público espera, teimando em surpreender não de maneira proposital, mas com muita sutileza, o belo trabalho de roteiro ainda apresenta diálogos convincentes e espelha, com muita propriedade, o pensamento cotidiano de grandes corporações bem como a maneira persuasiva que alguns dos seus funcionários desenvolvem para sobreviver no mercado.

O excelente roteiro e as boas atuações são complementados por bons trabalhos de edição e fotografia. O primeiro é utilizado com muita propriedade para ressaltar a “batalha em curso”. A sequencia inicial, com Ryan montando e desmontando sua mala enquanto passa por um aeroporto, se assemelha a um soldado preparando sua arma para o campo de combate. A alusão, nesse caso, é perfeita e a maneira como é ilustrada também. Alguns cortes secos entre sequência de sentidos distintos também contribuem para que o clima denso seja mantido.

Já o trabalho de fotografia – dirigido por Eric Stellberg (500 Dias Com Ela) – da mesma forma é extremamente feliz ao enquadrar momentos de solidão – há uma sequência quase no final do filme, em que Ryan e Nicole são mostrados de costas e apenas a silhueta de ambos se destaca diante de uma parede de vidro que é belíssima; em outro momento, uma Natalie sozinha em uma sala com cadeiras espalhadas por todos os lados indica que ele não pertence àquele lugar – ou ainda de revelação – outra cena com Ryan em um aeroporto diante do painel de destinos de embarque é composta de maneira exemplar, ressaltando a expectativa do personagem. Algumas tomadas aéreas, mostrando as cidades por onde o executivo passa de uma maneira nada convencional servem também para ilustrar o modo com que o personagem vê o mundo.

Em termos de cinema e desenvolvimento de roteiro Amor Sem Escalas é perfeito a ponto de conseguir causar uma quebra na expectativa do espectador tenha ele se colocado no lugar de qualquer um dos três personagens principais. As revelações finais são surpreendentes e acentuam ainda mais a transformação pela qual cada um deles passa.

Sozinho em meio à multidão Ryan Bingham se sente completo e feliz, carregando sobre os ombros uma mala vazia de esperanças. Sua transformação, ao final, se mostra realista e muito mais intimista do que explícita, num desfecho corajoso e, mais uma vez, longe do convencional do cinema hollywoodiano. Nem mesmo a infeliz tradução brasileira do título para Amor Sem Escalas – numa clara tentativa de vendê-lo ao público como comédia romântica – soará como propaganda enganosa. Afinal, se a ideia é surpreender e subverter as expectativas quem for ao cinema esperando uma boa dose de risadas com açúcar terá a oportunidade de saborear uma boa dose de realidade.

Confira o trailer de Amor Sem Escalas

Nota 9.

Crítica de Sherlock Holmes

8 janeiro, 2010
10:52

Esqueça tudo que você sabe sobre o detetive Sherlock Holmes. Essa é a melhor maneira de encarar a representação do clássico personagem nascido nos romances de Sir Arthur Conan Doyle ainda no final do século XIX. Com mais de um século de existência falar sobre “livre adaptação” de suas obras já é quase uma redundância, uma vez que pelas mãos do escritor o personagem apareceu apenas em quatro romances e outros cinco livros com uma série de contos.

A versão que chega às telas não é inspirada em nenhum deles. Do perfil literário, o Sherlock do cinema herda a brilhante lógica dedutiva, o método científico utilizado em suas investigações e a paixão pelo violino. É pouca coisa, mas o suficiente para manter em linhas gerais as características que tornaram o personagem uma referência cultural.

Como já é de praxe em trabalhos dirigidos pelo cineasta Guy Ritchie (Snatch – Porcos & Diamantes) três aspectos se sobressaem e tornam sua obra de fácil identificação: o ritmo acelerado com que a história se desenvolve, o uso desmedido de sequências em slow motion para ressaltar algum momento de clímax e o visual underground de histórias que se passam em meio ao submundo.

Sherlock Holmes apresenta um pouco de tudo isso, mas sem ser repetitivo ou abusar de nenhum dos elementos, o que é um ótimo sinal. A construção do roteiro, da mesma forma, parte de uma premissa inteligente. Na trama, o detetive precisa enfrentar o vilão Lord Blackwood (Mark Strong) que planeja um grande golpe que lhe dará poderes ilimitados no Reino Unido para coordenar uma invasão aos Estados Unidos.

Seus planos, no entanto, incluem uma série de ações que se assemelham muito à utilização de magia negra, misticismo e seitas secretas. O fato acaba se revelando um desafio intrigante para a mente lógica e racional de Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.). E é justamente na contraposição de ciência e magia que reside boa parte do sucesso do roteiro, uma vez que temos uma antítese real e plausível em pleno final de século XIX. Aliás, a época da revolução industrial é ilustrada em diversos momentos, seja pelas construções que fervilham nas ruas de Londres ou mesmo pelos comentários do detetive sobre a transformação pela qual a cidade está passando.

Diferente do estigma de nobreza que o detetive britânico carrega, o Sherlock Holmes de Robert Downey Jr. É praticamente um anti-herói. Holmes vive entocado em sua casa em meio a experiências nada convencionais, evita o quanto pode encontros sociais e comporta-se como uma verdadeira criança quando o assunto é levar alguma coisa, que não sejam as suas investigações, a sério. Esse perfil combina muito com as atuações de Robert Downey Jr., o que faz com que o ator se destaque e conquiste o espectador com o seu carisma.

Sua relação com o Dr. Watson (Jude Law) é peculiar. Embora em entrevista o ator tenha dado a entender que Holmes poderia ser um personagem homossexual, não há nenhuma referência direta nesse sentido. O que existe é o fato de ele evitar a todo custo que o amigo se case e deixe de formar a parceria com ele nas investigações. Se existe alguma relação entre ambos que vá além da amizade isso não fica claro e a discussão acerca disso nem de longe faz parte da proposta do filme. Pelo contrário.

Na produção Holmes e Watson se vêem envolvidos em diversas sequências de ação e luta onde podem mostrar toda a sua virilidade. Ambos parecem ter saído de uma academia de artes marciais e, quando preciso, encaram no braço qualquer tipo de adversário. Com um perfil mais desleixado e tendo em vista as situações em que se mete acabam sendo cabíveis as cenas do gênero, sendo um ponto positivo a fuga proposital do estilo mais “politicamente correto” da versão literária do detetive.

Vale ressaltar ainda a boa participação de Rachel McAdams, no papel de Irene Adler, confessa apaixonada pelo detetive e única a conseguir enganá-lo com facilidade. É sua paixão por Holmes que torna possível o desenrolar da trama e, embora o detetive fuja do relacionamento como o diabo foge da cruz, Irene é a única pessoa por quem ele se deixa levar e até mesmo ser manipulado.

Com um roteiro conciso e que flerta com a ação e o humor a todo instante, a maneira como o desfecho acontece deixa um pouco a desejar. Embora a história esteja bem amarrada e não deixe nenhuma pista ou fato sem explicação, a sutileza de algumas revelações é deixada completamente de lado. Não há tempo para o espectador deduzir algo ou montar os quebra-cabeças. Tudo é explicitado de maneira mastigada e didática, deixando claro que a proposta do filme é agradar a maior fatia de público possível.

Sem cerimônias, Sherlock Holmes não é uma releitura ou um resgate de um personagem clássico. É entretenimento pelo entretenimento, com direito a romance, tiradas bem-humoradas, bons efeitos especiais e, é claro, muita ação. O resultado, no final das contas, é agradável e é bem provável que o Sherlock do cinema seja o início de mais uma nova franquia. Vale a pena conferir a primeira boa opção a estrear no Brasil em 2010.

Nota 8.

Confira o trailer de Sherlock Holmes

Crítica de Contatos de 4º Grau

2 janeiro, 2010
23:38

Subverter a realidade. Como você já deve ter percebido, nos últimos anos o número de produções que apostaram no formato documental misturado a ficção cresceu consideravelmente. Uma das razões responsável por boa parte destes fenômenos é mais a popularização do vídeo digital entre os espectadores.

Essa popularização permitiu não só que as imagens tremidas e de pouca qualidade passassem a ser uma linguagem aceita nas grandes produções como também ganharam maior simpatia por parte do público, graças a proximidade com que dialogam com ele e a verossimilhança que proporcionam.

Assim como A Bruxa de Blair, Cloverfield – Monstro e o recente sucesso Atividade Paranormal, Contatos de 4º Grau aposta na mesma linha de raciocínio, mas mescla os estilos documental e ficcional, dando a entender que o seu filme, na verdade, é uma versão dramatizada de ventos reais que teriam ocorrido entre 2000 e 2003 na desconhecida cidade de Nome, no Alasca.

A premissa do filme é que durante esse período uma série de ventos estranhos e similares teriam ocorrido na cidade e diversas pessoas teriam sido vítimas de abdução alienígena. O fio condutor da trama é a Drª. Abbey Tyler (Milla Jovovich), uma vez que todas as vítimas são seus pacientes e parecem descrever as mesmas visões e sensações.

Embora siga a mesma linha das produções citadas acima, em Contatos de 4º Grau o diretor Olatunde Osunsanmi faz uma aposta diferenciada. Logo no início do filme, Milla Jovovich (Resident Evil – O Hóspede Maldito) surge na tela e explica que ela é apenas uma atriz dramatizando os fatos supostamente acontecidos e fartamente documentados em imagens à época dos acontecimentos. Com isso, o diretor desvia, de certa forma, a atenção do filme para as imagens captadas de maneira amadora, uma vez que nos contrapõe claramente o que é real e o que é ficcional.

Essa dualidade fica clara logo adiante quando uma tela dividida em duas coloca lado a lado a Abbey Tyler “real” e a versão interpretada por Milla Jovovich. O que, em tese, poderia funcionar e servir para dar mais credibilidade à trama porém, desmorona com muita facilidade. Suas opções estéticas de, em alguns pontos, dividir o quadro em até quatro partes dão a falas sensação de dinamismo quando, em verdade, nada de mais está acontecendo em cena.

Com raros momentos de clímax criados pela narrativa a saída encontrada e trabalhar com uma trilha sonora contínua, com altos e baixos para criar uma clima de intriga e tensão. Seria algo normal e corriqueiro se fosse utilizado com moderação ao longo do filme. Porém, em Contatos de 4º Grau a música é incessante, do primeiro ao último minuto. Seu excesso acaba gerando um efeito contrário. Ao invés de ela pontuar os momentos de clímax, torna-se parte da “ambientação”, perdendo completamente o seu efeito.

Suas supostas imagens documentais, embora convincentes, esbarram em alguns outros problemas. Sozinhas elas não são suficientes para criar uma história convincente. Da mesma forma, se a história fosse apenas dramatizada, diante do apresentado dificilmente a trama se sustentaria sem cair no descrédito.

Obviamente não vou revelar o final da produção aqui, mas o fator principal que coloca em cheque a premissa do filme é uma prova documental de um crime que, claramente, deveria ser do conhecimento de todos os envolvidos já no início do filme. Seu surgimento no apenas no final da a clara impressão de um enxerto, de um truque simples encontrado para omitir do espectador uma informação que, obviamente, em momento algum ele poderia concluir. Em outras palavras, um pequeno “jogo sujo”.

Se por um lado o diretor tenta se mostrar isento, eximindo-se ao menos textualmente de qualquer conclusão quanto às causas e consequências da história, o mesmo não se pode dizer do que ele apresenta já que, questionando seu principal personagem com uma informação óbvia (omitida propositalmente durante o filme) ele destrói tudo aquilo que porventura tenha conseguido construir.

Ao assistir ao filme, pense na seguinte situação: qual seria a sua reação às alegações do personagem principal se, logo no início da história, a evidência que só é revelada no final (propositalmente, pois a história da a entender que ela perfeitamente poderia já ser do conhecimento de todos) fosse um dos fatos apresentados?

Omitir fatos para que o espectador construa em quebra-cabeças durante a trama é uma coisa. Porém, omitir uma prova sem dar nenhuma evidência sobre ela e, ainda por cima, fazer com que ela tenha papel determinante na conclusão é outra completamente diferente. Um golpe baixo para que a estrutura da história funcione e, assim, possa proporcionar alguma tensão.

Embora interessante em sua premissa, Contatos de 4º Grau se perde na indecisão e na confusão de tentar tornar verdadeiro o que obviamente não é. E, por outro lado, da mesma forma perde a oportunidade de contar uma obra ficcional com suporte de imagens documentais. Na tentativa de ser eficiente nas duas pontas a produção, infelizmente, apresenta um resultado final mediano e decepcionante.

Confira o trailer de Contatos de 4º Grau

Nota 6.

Crítica de Lula – O Filho do Brasil

1 janeiro, 2010
20:32

Antes de analisar o filme Lula – O Filho do Brasil é preciso deixar claro algumas coisas. Obviamente os simpatizantes da política do atual presidente vão defendê-lo com unhas e dentes. Da mesma forma os oposicionistas vão atacá-lo com a mesma veemência. Nada disso importa. O que de fato pretendo analisar aqui é o filme em si e não a trajetória política do seu personagem principal. Assim, entrei na sala de cinema desarmado, sem nenhuma idéia pré-concebida do que veria pela frente. Por isso, antes que me acusem de ser simpatizante de um lado ou de outro estejam certos de que meu texto seria exatamente se o filme fosse Fernando – O Filho do Brasil ou José – O Filho do Brasil.

Dito isso, considero justificável a existência de um filme como esse. O fato é que Luiz Inácio Lula da Silva é o Presidente da República e é muito mais aceitável a produção de uma obra sobre alguém que ocupa o cargo mais importante do país do que sobre uma garota de programa que escreveu um livro ou um personagem fictício qualquer. A utilização que se fará dele, aí sim, é algo perigoso e que merece ser levado em consideração.

Embora não seja partidário de Lula, sua história, amplamente divulgada pela mídia, de um retirante nordestino pobre que ao longo de sua trajetória de vida é eleito presidente do Brasil é, em termos cinematográficos, um prato cheio. Com sua biografia é possível montar, sem nenhuma dificuldade, um roteiro que compreenda a estrutura padrão com todos os arcos dramáticos de uma história, desde as adversidades iniciais até a conseqüente transformação e superação no final da projeção.

Porém, há maneiras e maneiras de se contar uma história. E, infelizmente, a maneira escolhida pelo diretor Fábio Barreto (O Quatrilho) é uma das mais óbvias e maniqueístas possíveis, não em termos de alteração da história ou exibição de elementos inverídicos, mas pelo fato de em todos os momentos de clímax induzir o espectador à emoção ou a sensações que, talvez sem a sua interferência, não seriam transmitidas pela história.

Assim enquanto Lula, sua mãe e seus irmãos partem em um caminhão – o conhecido pau de arara – ouvimos uma trilha sonora com violinos, especialmente composta para criar um clima de piedade perante a um cenário repleto de dificuldades. Pequenas referências como “o caminhão da felicidade está partindo” contribuem para que, nos momentos em que a história não é suficiente para levar o espectador às lágrimas, o fato aconteça. Não estranhe se, com muita naturalidade, em pouco mais de cinco minutos de filme você já se sinta “identificado” com o personagem principal, algo naturalmente deveria ocorrer, nesse caso, mais à frente.

A figura de Aristides (Milhem Cortaz), o pai de Lula, surge demonizada e execrável, tornando-se o seu primeiro grande adversário. Uma câmera tremida e agitada torna a sua figura ainda mais deplorável nas vezes em que se dedica a bater nos filhos afirmando que “filho meu tem que trabalhar, e não estudar”. Embora a figura da mãe de Lula, Dona Lindu (Gloria Pires) seja o centro principal da trama nesse momento, sendo a responsável direta pela formação do caráter do jovem, suas ações servem apenas como coadjuvante para que o personagem principal consiga reforçar o seu sucesso.

Não há dúvidas que o espectador irá se identificar com momentos como o primeiro diploma, o primeiro emprego, a conquista do sonho da casa própria ou o momento da conquista da primeira namorada. Fatos como esse são parte da vida de qualquer pessoa e, obviamente, quando os vemos pelos olhos de outra pessoa é natural que a reação seja de alegria ou de emoção. E, repare, que em todos os momentos a belíssima trilha com violinos está lá pontuando todas essas conquistas.

Numa emoção que poderia ser verdadeira, mas nos soa manipulada, temos aqui sim mensagens maniqueístas de associando Lula à casa própria, ao primeiro emprego ou a conquista de um diploma. Note que a exibição destes momentos é indispensável à história. O aspecto apelativo aqui fica por conta da maneira como a coisa é exibida, num tom dramático propositalmente exacerbado.

Num comparativo direto de outro filme nacional que segue a mesma linha podemos citar o ótimo 2 Filhos de Francisco como referência. Enquanto o filme que conta a história da dupla Zezé di Camargo & Luciano evita a trilha sonora manipulada – ainda que pudesse fazer uso dela com mais frequência por se tratar de uma dupla musical – e opta por colocar o foco sobre quem realmente tem papel importante na história – no caso Francisco, o pai dos irmãos cantores – em Lula – O Filho do Brasil a aposta é centrar o foco no personagem principal, tornando-o uma espécie de escolhido e fazendo com que o espectador sinta aquela sensação de “tudo é possível”. Sinceramente, um título como O Filho de Dona Lindu seria uma opção muito mais honesta para a produção.

A partir da evolução de Lula como líder sindical, o diretor Fabio Barreto faz uma opção acertada em mesclar imagens documentais da época com cenas gravadas na atualidade. Essa mistura proporciona mais verossimilhança e dinamismo, em especial nas sequências onde as grandes greves do final da década de 70 e início da década de 80 no ABC paulista serviam não só como um embate sindical, mas como um grito de liberdade em meio a ditadura que assolava o país.

Vale a menção: após a chapa composta por Lula ser eleita pela primeira vez para a presidência do sindicato dos metalúrgicos, surge um momento de merchandising constrangedor para o filme: Durante a comemoração pela vitória em um bar, Cláudio Feitosa (Marcos Cesana), presidente eleito do Sindicato vira para a câmera e dispara um “vamos beber porque aqui só tem brahmeiro”, numa referência direta ao atual comercial da cerveja Brahma, uma das patrocinadoras do filme.

O grande momento do filme talvez fique por conta da atuação de Rui Ricardo Diaz no papel principal. Em uma sequência onde Lula faz o seu primeiro discurso como membro do sindicato são impressionantes a semelhança dos aspectos gestuais, da fala e mesmo dos traços do ator com a figura de Luiz Inácio à época dos fatos. Retratar um personagem que é parte do doa a dia do público é uma tarefa difícil, por justamente ser difícil diferenciar ficção e realidade. Nesse caso, sua atuação força-nos a acreditar da maneira mais convincente possível que ele é de fato quem interpreta. Sua atuação de estreia é digna de grandes atores e, a seguir por este caminho, sem dúvida estamos diante de uma grande promessa para futuras obras.

Apesar das suas falhas e da maneira maniqueísta como conduz a história é bem provável que o filme faça sucesso e ganhe a simpatia por parte do público. E é justamente esse o ponto mais preocupante: o que será feito do filme depois de lançado. Como sabemos não é a maioria das pessoas que têm aptidão para analisar ou refletir acerca de detalhes de uma obra visual. E, infelizmente, também não é maioria o grupo daqueles que têm acesso à críticas cinematográficas ou textos que se proponham a analisar, com enfoque menor nos aspetos políticos, o filme em questão.

Assim, certamente, muitos tomarão como verdade absoluta e inquestionável cada momento exibido na projeção. E, sim, associarão a figura de Lula a momentos como a conquista da casa própria, ao primeiro emprego ou ao diploma educacional conquistado a duras penas. Como disse anteriormente, o que é exibido na projeção é verdadeiro e de fato aconteceu. Mas a maneira como é exibido induz a dramatização em momentos que, não necessariamente, seriam tão doces ou amargos como pareceram. E isso faz toda a diferença entre criar uma obra que conte parte importante da história do país ou criar uma obra que se torne peça-chave numa próxima eleição.

Confira o trailer de Lula – O Filho do Brasil e uma entrevista com o diretor Fabio Barreto

Nota 6.

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