Arquivo da seção:
'Crítica'

Crítica de Salt

2 agosto, 2010
22:09

Existe uma regra no mundo do cinema no que diz respeito a construção de roteiros que afirma o seguinte: se determinada cena não introduz novos elementos na história, não faz com que ela vá adiante e a falta dela não é sentida no filme, então ela deve ser cortada na edição. Parece um exercício simples e óbvio se analisarmos qualquer filme plano a plano, certo?

O que dizer então de uma produção que tem a sua premissa principal construída sobre uma sequência descartável do ponto de vista da trama? Este talvez seja o maior dos muitos erros da produção Salt, thriller de ação estrelado por Angelina Jolie. O filme havia sido concebido para quem um personagem masculino fosse o protagonista – Tom Cruise assumiria o papel -, mas com sua recusa coube a Angelina assumir a produção que teve o roteiro adaptado a ela.

Se a atriz já havia afirmado em entrevistas não querer voltar ao personagem Lara Croft, com o qual estrelou dois filmes, em Salt ela apresenta uma versão exacerbada e com mais roupas da arqueóloga nascida no mundo dos games, num estilo que mistura ainda James Bond e Jason Bourne com ação do começo ao fim.

Salt nasce sobre um problema estrutural. A sequência inicial em que Vassily Orlov (Daniel Olbrychski) se entrega aos agentes da CIA e informa que um atentado contra o presidente russo ocorrerá no dia seguinte é emblemática. Ela aparece, inclusive, no trailer da produção, dando a entender que esta é a razão maior de uma perseguição que terá início. Ele informa que o atentado será cometido por Evelyn Salt (Angelina Jolie), a agente da CIA que o entrevista.

A partir de então a trama ganha o seguinte o contorno: Salt precisa provar que não é uma agente dupla, encontrar o seu marido que está desaparecido e evitar que o atentado do dia seguinte ocorra e ela seja culpada. Até aí, tudo bem. Porém, ao final do filme, reconstrua a história em sua mente e se pergunte o seguinte: se, em momento algum, Orlov tivesse se entregado e colocado em xeque a identidade de Salt, o atentado não poderia ocorrer normalmente?

Obviamente não vou revelar spoilers aqui e recomendo que você veja o filme para entender esse ponto. No entanto, ao final fica claro que a premissa do filme é um mero pretexto para a construção de dezenas de sequências de ação que se sucedem após a fuga. De maneira quase sobre-humana Salt escapa de explosões, policiais armados, salta sobre veículos em movimento e é capaz de montar engenhocas em tempo recorde como se fosse uma espécie de MacGyver.

Embora dentro da proposta do personagem exista justificativa para o seu ótimo desempenho – nesse ponto o roteiro se mostra coerente -, por outro lado a tentativa de humanizar o personagem, acrescentando o drama familiar da busca pelo marido é de pouca valia, primeiramente em razão da frieza do perfil de Salt e segundo lugar pela real posição que ele ocupa em sua vida. Ou seja, se há uma justificativa para essa busca ela é tão frágil e tão sutil que beira a incoerência.

Sem acrescentar absolutamente nada de novo em termos de ação, apesar da boa construção de cenas de perseguição e mesmo de luta, Salt ao menos entretém, muito mais pelo seu ritmo do que pela trama em si. O centro de todas as ações é mesmo o personagem estrelado por Angelina Jolie, numa clara tentativa de se criar uma franquia “feminina” de filmes de agentes secretos e espionagem.

Aliás, muito do bom desempenho do filme se deve ao carisma da atriz, que não só se sai bem nas cenas de ação – característica com a qual ela já tem boa experiência, por sinal -como também se apresenta relativamente bem nas sequências que requerem maior apelo dramático, dissimulando suas emoções de maneira convincente. Salt, infelizmente, é apenas “mais um” filme em seu currículo e merece ser visto por aqueles que esperam apenas diversão, mas sem dúvida fará parte daquele grupo de produções que meses depois do lançamento acabam esquecidas por completo.

Nota 6

Crítica de Predadores

23 julho, 2010
22:47

Nascida no final da década de 80, Predador se tornou uma das franquias mais icônicas do período, em especial por reunir fãs de ficção cientifica, terror e suspense sob uma premissa criativa e, até então, não muito utilizada nos cinemas. Estrelada por nomes como Arnold Schwarzenegger e Danny Glover, mesmo longe das telas o alienígena manteve um grupo fiel de fãs, ampliados por games, quadrinhos e outros produtos.

O retorno do personagem aos cinemas veio em 2004, num crossover de qualidade duvidosa com a série Alien. Longe de repetir o sucesso, a produção serviu para jogar uma pitada de desconfiança sobre a real necessidade do retorno da franquia para o novo século. As duvidas se esvaíram em Aliens vs. Predador 2. Com um roteiro péssimo e um trabalho ruim de direção, o duelo alienígena naufragou por completo e praticamente sepultou de uma vez por todas novas possibilidades de filmes com a dupla.

Trazer o Predador de volta às telas em 2010, portanto, não deixava de ser uma aposta temerosa. Coube a Robert Rodriguez planejar e produzir o retorno dos predadores ao cinema e, felizmente, é possível afirmar ao assistir a produção que, se está longe da qualidade dos seus antecessores, ao menos devolve a dignidade à franquia, resgatando alguns valores que haviam se perdido por completo e abrindo possibilidades para novos projetos.

Dirigido por Ninród Antal – dos poucos significativos Temos Vagas e Assalto ao Carro Blindado – o filme aposta em duas vertentes distintas ao longo da projeção e, em ambas, se comporta de maneira satisfatória. Na primeira metade o foco reside no suspense. Sem muita explicação Royce (Adrien Brody) surge em queda livre no céu. Logo, outros aparecem na mesma situação e, reunidos em uma selva, buscam entender o motivo de terem sido levados para aquele lugar bem como uma maneira de voltar para onde vieram.

Com sequências de caminhadas em meio à mata, discussões e pequenos mistérios, os trinta minutos iniciais de filme chegam a lembrar alguns episódios da primeira temporada de Lost, em que o foco era apresentar mistérios em meio à ilha muito mais do que resolvê-los. Nesse ínterim o roteiro aproveita não só para despertar a atenção por meio do mistério como também para aos poucos revelar características dos caçados e dos caçadores, inclusive remetendo a fatos do primeiro filme – como na sequência em que Isabelle (Alice Braga) cita os acontecimentos de 1987.

Já a segunda parte abandona o mistério e parte para o embate mais brutal, servindo-se de cenas de luta, tiroteios e violência emblemática para justificar a caçada organizada pelos predadores. Nesse ponto o filme, de certa forma, destoa por soar menos sério – ou por não se levar tão a sério – do que na primeira parte. A linha que o separa do trash, em certos pontos, é tênue demais, mas de forma alguma isso compromete o desenrolar da história.

Se há muito mais pontos positivos do que negativos na estruturação da narrativa, infelizmente é impossível deixar de notar alguns clichês e falhas de edição que prejudicam sensivelmente o filme em alguns momentos. A ideia de se ter em cena um “representante” de cada raça ou gênero – temos um negro, um latino, um russo, uma mulher, um americano, um oriental, entre outros – recai no velho clichê politicamente correto, de agradar a todos os tipos de espectadores. No caso específico de Predadores a justificativa é válida – reunir os combatentes mais fortes do mundo, dentro de suas características -, porém não deixa de ser repetitiva e pouco criativa.

Já em relação à edição o problema é incômodo e prejudica o desempenho da história. Alguns cortes são abruptos demais, dando a sensação de uma montagem pouco cuidadosa e fluída. Em alguns pontos a trama passa de uma sequência para outra aos solavancos, tirando o espectador do filme em determinados momentos para que ele possa tornar inteligível a estrutura de ideias que acabou de ver. Um exemplo claro disso é uma sequência de fuga do grupo, já na metade do filme, em que Edwin (Topher Grace) se perde do grupo. De uma hora para outra ele some do grupo e surge dentro de uma outra sala pedindo ajuda. Não há fluidez alguma na transição e a sensação que fica é que um pedaço do filme foi suprimido, um erro simples demais para uma produção de grande porte.

Adrien Brody no papel do líder do grupo se sai muito bem. Contido em muitos momentos, o ator consegue impor uma espécie de liderança e estabelecer uma empatia (ou antipatia) com o espectador muito mais por meio da ação do que pela força física, algo que não é comum em filmes do gênero. A brasileira Alice Braga também se mostra eficiente, servindo como um contraponto ao perfil de Brody sem precisar para isso ser submissa ao personagem principal. Um dos pontos altos fica por conta da participação de Nolan (Laurence Fishburne). São pouco mais de dez minutos em cena, mas suficientes para mostrar um personagem tão perturbado quanto aterrorizador, capaz de ir de um extremo a outro em questão de segundos. É pena que sua saída de cena seja tão simplória e mal elaborada, não condizendo com o perfil construído pelo ator.

Longe de se tornar uma unanimidade ou ser capaz de reascender a franquia aos níveis em que já esteve, Predadores em resumo se apresenta como um filme eficiente dentro do que se propõe, se afastando um pouco mais da ficção científica para apostar no suspense e no terror. Se por um lado a produção tem seus méritos por retirar da UTI o personagem, por outro deixa no ar a sensação de que os predadores, ao menos no cinema, se encaminham para um outro patamar, longe dos blockbusters de alto orçamento e muito mais perto das produções alternativas para públicos cativos como Sexta-Feira 13, Halloween ou A Hora do Pesadelo. Não deixa de ser uma boa escolha. Afinal junto a produções desse nível, é possível que Predador possa estabelecer ao menos uma nova trilogia para os próximos anos.

Nota 7

Confira o trailer e a ficha técnica de Predadores

Crítica de Alice no País das Maravilhas

27 abril, 2010
03:20

É interessante notar o desenvolvimento de uma história ao longo dos anos no imaginário popular. Conheço muito poucas pessoas que leram os livros Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland) e Alice Através do Espelho (Through the Looking-Glass), lançados pelo escritor Lewis Carroll há mais de cento e quarenta anos. No entanto, graças a produção da Disney da década de 50, a obra – que já naquela época sofreu modificações – atravessou gerações e hoje é uma referência obrigatória, daquelas que mesmo sem ter visto o filme ou lido o livro já dá pra imaginar que tipo de história vem pela frente.

Aliado ao imaginário popular some-se dois nomes: Tim Burton e Johnny Depp. Responsáveis talvez por uma das maiores parcerias entre diretor-ator da história do cinema, são muitas as produções em que o visual gótico característico das obras do diretor em conjunto com o talento natural de Johhny Depp para interpretar personagens excêntricos extrapolaram os limites de um bom roteiro, deixando para o espectador não só fortes lembranças visuais como também personagens inesquecíveis – Edward Mãos de Tesoura (de Edward Mãos de Tesoura) e Willy Wonka (de A Fantástica Fabrica de Chocolates) só para citar alguns exemplos.

Sendo assim a expectativa criada em torno de Alice no País das Maravilhas – obviamente muito bem aproveitada pelo marketing da produção – foi imensa. Depois do sucesso de Avatar, praticamente criando uma nova linguagem para os efeitos em 3D, a expectativa recaiu toda sobre Tim Burton na esperança de que, de alguma forma, sua genialidade e ousadia fossem capazes de subverter o novo, trazendo o seu toque pessoal para a mais nova dimensão do cinema.

É inegável que o principal apelo ao espectador é o aspecto visual. Com cenários fabulosos construídos em computação gráfica, Burton cria um mundo onírico tão verossímil quanto possível, combinando um visual soturno de uma ameaça iminente com uma vegetação exuberante e multicolorida. Da mesma forma, os personagens que acompanham Alice durante a sua aventura pelo País das Maravilhas são construídos de maneira exemplar. Basta reparar na movimentação do Coelho Branco, por exemplo, e notar as texturas de pelagem para perceber o quanto o trabalho artístico foi desenvolvido com esmero.

Da mesma forma, os tons de vermelho do castelo da Rainha Vermelha em contraste com o branco quase absoluto dos domínios da Rainha Branca, não só transparecem a oposição de valores entre ambas – vaidade x pureza – como contam da forma visual mais didática possível parte importante da trama de Alice. Contudo, se nos aspectos de direção de arte e fotografia o filme não deixa em nada a desejar, infelizmente não se pode dizer o mesmo em outros quesitos.

Um dos aspectos onde menos se imaginavam problemas é onde reside talvez a maior das decepções de Alice no País das Maravilhas: as atuações. É bem verdade que usar a palavra “problema” é um termo forte demais. No entanto a sensação que se tem é que falta um pouco de vida a alguns dos personagens. E isso fica mais evidente quando olhamos para Alice (Mia Wasikowska). Sua atuação é apática e, nas cenas fora do País das Maravilhas, extremamente teatral. Seu rosto é inexpressivo na maioria dos momentos tanto que, quando há um ponto de virada e ela precisa renovar forças para ir à luta, a mudança é muito mais visível em seus companheiros do que nela mesma.

Já o Chapeleiro Maluco de Johnny Depp é discreto, mas eficiente. O ator fica longe de alguns exageros que já praticou na carreira e se mostra de maneira comedida na maior parte do tempo, se é que isso pode ser dito na interpretação de um personagem maluco, não comprometendo em nenhum momento. Assim, no papel da despótica Rainha Vermelha, Helena Bonham Carter acaba proporcionando alguns dos melhores momentos entre o elenco, compondo uma personagem vaidosa e ao mesmo tempo megera, sem perder a linha de atuação a que se propõe.

Como é natural, a empatia dos personagens mais “fofinhos” como o Coelho Branco, a Lebre de Março e o cão Bayard, apenas para citar alguns, é enorme e diante de atuações tão apagadas seu brilho parece ainda maior. Bayard, por exemplo, é responsável por um dos momentos mais comoventes da produção quando sai em busca ou reencontra a sua família.

A livre adaptação de Tim Burton, utilizando elementos de dois livros do escritor, em nada prejudica a essência da obra original. Com pouco menos de duas horas de duração, o roteiro não chega a ser um primor, mas é eficiente, apresentando e conduzindo a história de maneira satisfatória. Um ponto negativo, e bastante acentuado, é o desfecho que, além de ser extremamente teatral e soar forçado graças a atuação de Mia, é executado de uma maneira tão rápida que a impressão que fica é que houve um corte brusco ou que alguém queria se livrar de imediato do texto.

Para quem imaginava um verdadeiro show em imagens 3D o que se vê é um uso moderado do recurso, mas acertado e sempre em função da história. Isso é bastante perceptível na chegada de Alice ao País das Maravilhas. Repare na profundidade de campo da sequência e como de alguma forma o efeito parece colocar o espectador dentro daquele mundo, dando a impressão que Alice está vindo nos encontrar.

Talvez pela falsa expectativa criada em torno de Alice no País das Maravilhas, para muitos o filme possa não funcionar. Mas afirmar categoricamente que ele é ruim ou está entre os piores trabalhos de Tim Burton certamente é um exagero. Dentro da expectativa da maior parte do público, Alice deveria ser mais entretenimento e menos enigma. No entanto a proposta de Burton vai ao encontro da filosofia do autor, que também era matemático, e adorava essa linha de raciocínio.

Se por um lado Alice no País das Maravilhas de Tim Burton não consegue o perfeito equilíbrio entre reflexão e entretenimento, por outro revela no espectador uma curiosidade em conhecer um pouco mais daquele mundo. E o melhor de tudo é que para visitá-lo não é preciso comer nenhum tipo de cogumelo. Basta ir até a livraria mais próxima e conhecer uma das obras mais influentes e interessantes que a literatura já produziu.

Nota 7

Confira o trailer e a ficha técnica de Alice no País das Maravilhas

Crítica de Caçador de Recompensas

19 abril, 2010
22:57

É impressionante como alguns atores e atrizes acabam se prendendo a tipos de personagens e, com as características deles, conseguem construir uma vasta filmografia, não necessariamente boa, mas eficiente e funcional em termos de bilheteria. Jennifer Aniston é um caso clássico que se encaixa neste perfil.

Pense nos últimos papéis que ela fez: O Amor Acontece, O Amor Pede Passagem, Separados Pelo Casamento e mesmo a série Friends. Em todos os casos a diferença entre os papéis é tão sutil e linha de condução dos filmes é tão similar que não é nem preciso assistir as produções para imaginar a atriz na história. Caçador de Recompensas não foge à regra e, de quebra traz outro estereótipo recente: o papel de galã de Gerard Butler.

O ator que ganhou notoriedade pela sua atuação em 300, já estrelou após essa produção outros dois filmes românticos – P.S. Eu Te Amo e A Verdade Nua e Crua, sempre abusando de olhares, do porte físico e de uma outra característica peculiar. O estilo ingênuo e romântico definitivamente não combina com o ator escocês então, como contraponto, em seus papéis Butler age como um “macho” desprezível, mas que no final das contas demonstra sensibilidade.

Caçador de Recompensas coloca ambos lado a lado e, além de utilizar esses artifícios já explorados em outras produções, reúne elementos de ação à la Sr. & Sra. Smith, num roteiro que contempla muitas locações, mas acaba recaindo num final óbvio e extremamente forçado.

Na trama Milo Boyd (Gerard Butler) é um ex-policial caçador de recompensas, atolado em dívidas. Seu trabalho é capturar foragidos e entregá-los à justiça para receber uma espécie de indenização. Até que, cai em suas mãos, a oportunidade de levar sua ex-mulher para a prisão. Nicole Hurley (Jennifer Aniston) está foragida depois de não comparecer a uma audiência para julgar um delito que cometeu.

Obviamente, para Milo localizá-la é apenas uma questão de tempo. Porém, Nicole está investigando um crime para o jornal que trabalha e os mafiosos envolvidos no caso, por coincidência, são os mesmos para quem Milo deve. É nesse ponto que as histórias se cruzam. Para aumentar o drama, ambos decidem relembrar o passado e as razões pelas quais o casamento não deu certo.

Embora haja alguns bons momentos, graças a situações divertidas em que os personagens são colocados, infelizmente na maior parte do tempo a produção soa clichê e se vale de uma fórmula repetida centenas de vezes no cinema norte-americano. Sim, funciona. Mas sim, em muitos momentos você terá a impressão de já ter visto um ou outro elemento em algum lugar.

Outro ponto que incomoda é a duração do filme, de quase duas horas. Muitas cenas, como a fuga de ambos para um chalé onde passaram a lua de mel ou mesmo a busca de Nicole por pistas de um de seus informantes, são desnecessariamente arrastadas e cansativas. Seria possível cortar ao menos uns vinte minutos de filme sem que ele perdesse suas características básicas. Ainda assim, muita coisa deixa de ser explicada e a opção final escolhida por Milo soa tão ridícula – ainda que uma outra surja evidente no mesmo momento – que chega a ser decepcionante.

Partindo para o básico ao invés de colocar algumas pitadas das características do seu olhar, o diretor Andy Tennant (do ótimo Hitch – Conselheiro Amoroso) opta por um trabalho meramente burocrático e comercial, que funciona até certo ponto graças ao carisma dos atores principais. No entanto, no final das contas, acrescenta muita pouco à cinematografia de todos os envolvidos e, menos ainda, para o espectador.

Nota 5

Confira o trailer e a ficha técnica de Caçador de Recompensas

Crítica de Chico Xavier – O Filme

18 abril, 2010
21:47

Cinebiografias ainda são um gênero relativamente pouco explorado no cinema nacional. Infelizmente, apesar dos avanços que a retomada do cinema brasileiro trouxe para a nossa cinematografia, apenas dois ou três títulos do gênero chegam, em forma ficcional, ao grande público a cada ano.

Até então, talvez o mais eficiente deles tenha sido 2 Filhos de Francisco, lançado em 2005, conseguindo aliar qualidade com sucesso de bilheteria. Lula – O Filho do Brasil tentou no início seguir pelo mesmo caminho, mas esbarrou na superficialidade e acabou não se transformando no sucesso que era previsto. Chico Xavier – O Filme traz novamente ao gênero uma certa dose de qualidade, aliando um personagem carismático a uma direção segura e muita mais sugestiva do que indutiva para o espectador.

Aliás, uma direção segura é a mais agradável surpresa que se pode constatar na produção conduzida por Daniel Filho. O diretor que, até então, limitou-se a trabalhos muito mais novelescos do que cinematográficos, usando e abusando de uma linguagem televisiva para apresentar comédias como A Partilha e Se Eu Fosse Você, aqui dispõe dos elementos televisivos para construir um honesto contraponto entre a figura do médium Chico Xavier e a aceitação por parte do público perante aos seus dons.

Ambientado em três momentos distintos de sua vida – entre 1918 e 1922; entre 1931 e 1959; e entre 1969 e 1975 – a trama apresenta como elemento de condução a célebre entrevista concebida pelo espírita ao programa de TV Pinga-Fogo (disponível na íntegra em DVD) e que foi uma das responsáveis pela consolidação do nome de Chico Xavier com um dos mais importantes guias espirituais brasileiros.

Em todos os momentos, as atuações dos intérpretes do personagem principal se destacam. Porém é de Ângelo Antonio a grande atuação do filme. Sua composição de personagem é precisa e transmite a simplicidade e a inocência pregadas por Chico Xavier. O tom de voz ameno, os gestos delicados e o olhar confuso questionando os seus próprios dons são marcas características que contribuem para a verossimilhança com o verdadeiro Chico.

O ponto destoante fica por conta de André Dias (Emmanuel). Sua interpretação do espírito guia Emmanuel é extremamente teatral e, em muitos momentos, inexpressiva. Seus gestos e sua postura intimidante em nada combinam com as palavras que profere, criando uma figura muito mais arrogante e presunçosa do que espiritual.

Outro elemento que acrescenta muito à trama é o núcleo conduzido por Orlando (Tony Ramos), um dos editores do programa Pinga-Fogo. Ateu, Orlando vivencia uma crise com sua mulher depois da morte do filho do casal, em um acidente envolvendo um amigo do garoto. Cético e amargurado, um elemento importante relacionado ao médium faz com que ao final ele se transforme e, de maneira convincente, apresente um dos momentos mais dramáticos e emocionantes da produção e que certamente terá identificação imediata por parte do espectador.

Outra decisão acertada do filme é o fato de retratar Chico Xavier não como alguém imaculado, mas passível de erros e defeitos. Isso contribui para que, ainda que suas virtudes sejam significativamente maiores que os defeitos, o tornem menos artificial e muito mais humano aos olhos do público. Assim, vemos o médium em momentos (poucos) de vaidade e incredulidade diante de seus próprios dons.

O trabalho de reconstrução de época, mostrando o Brasil rural do interior de Minas Gerais é da mesma forma acertado. É bem verdade que em alguns momentos o filme deixa de empolgar e se mostra cansativo e repetitivo. Os primeiros quarenta minutos, por exemplo, bem poderiam ser resumidos sem prejuízo da história e mesmo o fato de Chico sofrer maus tratos de sua madrasta na infância, repetidas vezes, pouco acrescenta à biografia em si do personagem e à versão cinematográfica.

O sucesso de Chico Xavier – O Filme nas bilheterias prova que o mercado brasileiro tem público – e diversos tipos de público – e responde positivamente quando uma produção reúne elementos com apelo popular, com a figura de Chico, e um roteiro de qualidade. Com diversidade de histórias e fuga de lugares comum como o tripé favela/nordeste/comédia temos tudo para um dia ter um ritmo mais industrial de produção. Nesse caso, acreditar não custa nada.

Nota 7

Confira o trailer e a ficha técnica de Chico Xavier – O Filme

Crítica de Zona Verde

17 abril, 2010
14:11

Poucos diretores em Hollywood têm o privilégio de ter em mãos um orçamento de US$ 100 milhões para conduzir um filme. As opções ficam ainda mais reduzidas quando se trata de um diretor com poucos trabalhos em seu currículo. Com uma carreira que se desenvolveu nos últimos dez anos, Paul Greengrass passa a fazer parte de um seleto grupo ao assinar o filme Zona Verde.

Diretor de produções como A Supremacia Bourne, Vôo United 93 e O Ultimato Bourne Greengrass, em especial depois do sucesso do último episódio da trilogia Bourne, teve em suas mãos uma oportunidade que poucos negariam: uma produção com alto orçamento, Matt Damon como ator principal e a possibilidade de abordar um tema atual e ainda pouco explorado no cinema.

Zona Verde é o resultado deste conjunto de fatores e, embora o filme não tenha sido bem recebido nas bilheterias – e provavelmente fechará o balanço final com prejuízo – há muito mais motivos para apontar a produção como oportuna ao invés de oportunista. Tocar em um tema ainda tão fresco na mídia sem um devido tempo para reflexão ou distanciamento dos fatos é andar sobre um terreno espinhoso. E é graças a essa dificuldade que a produção mostra seu lado conservador.

Em termos técnicos Zona Verde se aproveita – e muito – do ritmo acelerado de edição do último episódio da trilogia Bourne. A ação acontece do começo ao fim, sem dar muito espaço ao espectador para respirar. O foco dos primeiros quarenta minutos, por exemplo, é praticamente único e exclusivo nas cenas de ação. Nesse aspecto, o fato de o tema estar ainda tão presente no imaginário popular – a invasão americana no Iraque com o pressuposto de encontrar armas clandestinas de destruição em massa – faz com que o diretor dispense mais explicações, limitando-se a apontar apenas alguns elementos em meio a diálogos sempre permeados por algum idealismo, ainda que cínico.

Se por um lado o diretor repete sua fórmula de sucesso nesse quesito, por outro não abre espaço algum para inovação. Aliás, a maior novidade em termos visuais fica por conta da utilização de uma câmera na mão noturna, criando um estilo quase documental nas imagens e proporcionando um maior ritmo à ação. Eficiente em alguns momentos, ela se torna cansativa e desnecessária em muitos outros – em especial no clímax final. O resultado são imagens granuladas, naturais do processo de filmagem, mas incômodas e passíveis de serem evitadas em certas ocasiões sem que a linguagem proposta fosse afetada.

Baseado no livro A Vida Imperial na Cidade Esmeralda, de Rajiv Chandrasekaran, o roteiro da produção prefere deixar os contrastes encontrados na chamada Zona Verde – área ocupada pelo exército norte-americano em que os seus membros vivem com todas as regalias possíveis – para poucos momentos como plano de fundo. Os aspectos mais relevantes são deixados para os diálogos dos personagens, todos eles representando estereótipos já consagrados em filmes do gênero. Assim temos o soldado idealista – Miller (Matt Damon); o vilão sem escrúpulos – Clark Poundstone (Greg Kinnear); o mentor que aponta os caminhos ao herói – Martin Brown (Brendan Gleeson); o “inimigo” que se torna o amigo – Freddy (Khalid Abdalla).

Os papéis de Matt Damon e Khalid Abdalla ilustram bem a maneira simplória como os personagens são abordados. Miller, mesmo sendo um líder questionador, capaz de discutir com seus superiores por não entender o porque do recebimento de pistas falsas, em outros momentos se porta de maneira inocente, parecendo não entender o “mau caráter” de alguns dos seus chefes. Matt Damon não compromete em sua atuação, porém seu papel exige muito pouco do ator.

Já Freddy é a versão iraquiana de Miller. Ele surge na trama de maneira inesperada e pouco verossímil. Seus diálogos, quase sempre, são verdadeiros discursos pró-liberdade ao povo iraquiano. Sua história, no entanto, é pouco explorada e acabamos por conhecer muito pouco do personagem, embora ele tenha papel fundamental na produção.

O desenvolvimento burocrático da trama, no entanto, é amenizado graças à relevância e a importância do tema. Ainda que abordado de um ponto de vista óbvio, em um caso como esse é preferível mil vezes uma produção de qualidade razoável que relembre ao mundo o circo armado em torno das supostas armas clandestinas no Iraque, do que o silêncio ou a ausência do assunto nas telas.

Em termos de conteúdo, Zona Verde acrescenta muito pouco àquilo que já foi noticiado e pode ser considerado senso comum sobre o assunto. No entanto, apesar dos seus pontos fracos, o filme funciona e não compromete, algo que filmes como Rede de Mentiras, por exemplo, lançado no ano passado e ambientado na mesma região não deu conta de fazer.

Tão certo como as armas no Iraque procuradas pelo governo norte-americano provavelmente nunca existiram, Zona Verde se apresenta como um retrato relevante de um momento político importante da história mundial e, apenas por este aspecto, já vale a pena ser visto. E se além de mero entretenimento conseguir atingir alguns espectadores de modo que reflitam sobre o tema ou mesmo passem a questionar um pouco mais as verdades absolutas propagadas pelos governos anteriores, sem dúvida já terá feito um bom trabalho.

Nota 7

Confira o trailer e a ficha técnica de Zona Verde

Crítica – Um Sonho Possível

22 março, 2010
02:14

O ano de 2009, com certeza, será um dos mais memoráveis para a atriz Sandra Bullock. Figura conhecida do público desde a década de 90, a atriz se estabeleceu junto ao público, com raras exceções, em comédias e romances, sempre de qualidade razoável e, na maior parte das vezes, aceitáveis graças ao carisma que Bullock apresenta em cada cena.

Dessa forma, pode causar espanto ao ver um drama como Um Sonho Possível se tornar não só maior sucesso de público de sua carreira como também lhe render um dos pontos mais altos de sua carreira, numa interpretação de reconhecida qualidade pela crítica e que rendeu a atriz uma merecida indicado ao Oscar.

Um Sonho Possível é o exemplo típico de filme que divide o público e a crítica especializada. Enquanto o espectador comum se encanta com a mensagem da produção, que é belíssima e, por si só, já vale o ingresso, por outro lado um olhar mais apurado certamente irá encontrar alguns defeitos, pequenos é bem verdade, mas suficientes para colocar em lados antagônicos crítico e leitor.

Baseado numa história real, a produção traz a história do jovem Michael Oher (Quinton Aaron), um menino desamparado pela família e com um histórico de quase nenhuma oportunidade em sua vida. Grande e intimidador graças ao seu avantajado porte físico, Michael ganha uma oportunidade de mudar sua vida ao sensibilizar a mãe de um de seus amigos de escola, Leigh Ann Tuohy (Sandra Bullock).

É junto de sua família que o garoto encontra um lar, educação e esperança para ir busca dos seus sonhos. Não por escolha própria. As dificuldades da vida e o seu temperamento fechado e de poucas palavras ficariam contentes com apenas um teto para dormir por uma noite. Mas é na insistência de Leigh Ann que reside boa parte do mérito da lição de vida apresentada em Um Sonho Possível.

Com um alto padrão de vida, Leigh Ann nem de longe se parece com suas colegas com quem almoça. Recatadas, cheias de preconceitos e preocupadas única e exclusivamente com status, todas eles se comportam como uma perfeita antítese do personagem de Bullock. Aliás, sobre ela vale fazer duas menções especiais, ambas em benefício da atriz.

A primeira delas se refere ao papel em si. Repare que tanto Leigh Ann, quanto toda a sua família – Sean Tuohy (Tim McGraw), S. J. Tuohy (Jae Head) e Collins Tuohy (Lily Collins) – vivem em um mundo perfeito. O relacionamento do casal é maravilhoso, os filhos são educados e estudiosos e nada, absolutamente nada, parece ser capaz de sequer macular sua reputação. Obviamente, é bem possível que um ambiente assim seja completamente verdadeiro, no entanto chega a ser um incômodo a maneira unidimensional como tudo é exibido. De um lado, a família perfeita segundo os valores cristãos. De outro a sociedade com seus preconceitos.

Ao mesmo tempo essa feliz relação poderia gerar a Sandra Bullock um papel simplório ou de “apenas mais uma mãe no cinema”. O que acontece é justamente o contrário. Sua personalidade e o timimg certo de quem está acostumada a comandar tanto momentos românticos quanto comédias, coloca a atriz como uma mulher imponente diante de marginais, mas que é capaz de chorar com um simples olhar. E é nessa humanidade emprestada pela atriz ao personagem que reside muito do mérito da produção.

Quinton Aaron, a quem cabe o papel de Michael Oher, infelizmente não se mostra eficiente da mesma maneira. É bem verdade que a sua atuação em momento algum compromete a trama e é uma característica do seu personagem a de ser pouco expressivo. Porém, mesmo nos momentos em que é preciso demonstrar um pouco da expressão é difícil distinguir entre o riso e a tristeza, algo que poderia estar estampado com mais naturalidade.

De qualquer forma Quinton Aaron, que já esteve em produções anteriores como Rebobine, Por Favor, mostra que pode conseguir o seu espaço como ator secundário em boas produções. Possivelmente não com um papel que lhe dê tanta visibilidade como esse, mas podemos esperar para ver seu rosto em outras produções em breve.

Embora Um Sonho Possível seja previsível em sua estrutura e o final claramente fique evidente até mesmo pela conotação do filme, não há como classificar como falha, em nenhum quesito, uma história em que a mensagem parece se sobrepor a qualquer elemento técnico ou enquadramento que se possa criticar.

O filme tem como mérito o fato de colocar alguns valores como a educação acima de qualquer coisa, o afeto de uma família e, principalmente, a oportunidade de desenvolvimento pessoal, fatores que sem dúvida são alguns dos maiores responsáveis por altos índices de criminalidade e desrespeito aos diretos humanos em todos os lugares. Ao resgatar uma vida das incertezas da falta de caminho e apresentá-la a diversas possibilidades de vida, a história de Um Sonho Possível fala por si só. E não tenha dúvidas de que, ao ir ao cinema, você deve levar um lenço no bolso e estar preparado para se emocionar bastante.

Felizmente, o melhor de tudo é descobrir que esta é uma história onde a arte imita a vida e saber que existem pessoas como Leigh Ann Tuohy talvez seja a melhor das lições que poderíamos tirar no cinema. Um filme perfeito? Não, não é. Está longe disso. Mas quem precisa de perfeição quando há a possibilidade de devolver a vida a um ser humano? Basta fechar os olhos e seguir o coração.

Nota 8.

Crítica – Nine

8 fevereiro, 2010
22:51

Se você gosta de cinema, não é preciso muitos argumentos para tentar convencê-lo a ver o filme Nine. Basta dar uma olhada no cartaz da produção e reparar a quantidade de nomes atores famosos que participam do filme para imaginar o quão interessante ele pode ser. Daniel Day Lewis, Nicole Kidman, Penélope Cruz, Sophia Loren, Judi Dench, Kate Hudson, Marion Cottilard e até mesmo a cantora Fergie são motivos mais do que suficientes para convencê-lo a comprar o ingresso.

Porém, qual a razão que torna o musical Nine, ao mesmo tempo em que é belo e ousado, chato e sonolento? Não é difícil explicar o porque. Porém, antes de tudo, é preciso entendê-lo para, assim, evitarmos algumas conclusões precipitadas. Nine nasceu como uma homenagem a aquele que talvez seja o mais importante dos filmes do diretor italiano Federico Fellini – 8 ½.

Lançado em 1963, o filme era uma espécie de autobiografia do diretor, que questionava o seu papel nas produções que tinha feito até então ao mesmo tempo em que sofria um bloqueio criativo para a produção daquele que seria seu nono filme – por isso o 8 ½ numa alusão a um filme que se apresentava inacabado. Na década de 80 a produção de Fellini foi adaptada para a Broadway, transformando-se num musical de grande sucesso.

A missão de trazer o musical da Broadway para o caminho inverso – readaptá-lo para o cinema – coube ao já falecido Anthony Minghella (Cold Mountain) e a Michael Tolkin (O Jogador). Para a direção o projeto foi entregue a Rob Marshall, que levou o filme Chicago ao Oscar de Melhor Filme em 2003. Com tantos nomes de peso envolvidos no projeto é difícil imaginar que um filme assim “não funcione”. Porém, após acompanhar a trajetória de Guido Contini (Daniel Day-Lewis) em quase duas horas de projeção a sensação que fica é mais de cansaço do que de encantamento.

Vamos por partes. Nine é, na verdade, muito mais do que um simples musical é uma verdadeira homenagem à concepção da sétima arte. Todos os processos criativos envolvidos em um filme são abordados e questionados. A concepção do roteiro, a escolha do elenco, a criação dos figurinos, o processo de direção, a pressão por parte da mídia, a industrialização do processo por parte dos produtores. O cinema, enquanto arte, caminha sobre uma linha tênue juntamente com a indústria. Ora pende para um lado, ora pende para outro, mas é somente juntas que acabam sobrevivendo.

Em termos visuais Nine é um espetáculo garantido. Os diversos cenários em que as canções são executadas são ricamente iluminados com cores vivas – quando a canção assim pede – ou cores neutras, mas de um contraste exuberante. Da mesma forma, a composição das coreografias é um elemento que agrega ritmo à narrativa, proporcionando ao espectador o desejo de estar na plateia de um espetáculo como esse.

O elenco de atores, da mesma forma, funciona em grande sintonia, com raríssimas exceções. Daniel Day Lewis, por exemplo, consegue transparecer claramente os momentos de tormento e angústia do seu personagem, bem como o seu deslumbramento diante de uma diva. Penélope Cruz, no papel da amante do grande diretor, enche os olhos em sua coreografia de dança e vai do momento cômico ao momento dramático de uma maneira tão suave que é difícil duvidar da verossimilhança de sua atuação. Marion Cotillard, da mesma forma chama atenção pela sua atuação contida, no papel da devotada esposa de Guido Contini. Apenas com o olhar ela consegue transparecer seus sentimentos, deixando claro o quanto sofre em função do seu amor.

Porém, diferente de Chicago, onde todos esses elementos estavam em sintonia, em Nine temos uma composição de roteiro e montagem parcimoniosa e anticlímax do que as próprias coreografias propõem. Em outras palavras, falta ritmo ao filme quando ele “foge” das sequências musicais. Por si só, o drama de Guido Contini é muito mais introspectivo do que qualquer outra coisa. As canções, nesse ponto acabam por contrapor um estado de espírito com outro e, no final das contas, o espectador que permanecer junto àquele espetáculo, sem precisar voltar para a vida de Guido.

Se por um lado a proposta era mesmo mostrar o diretor com uma vida enfadonha – ao menos sob o seu ponto de vista – em um período de turbulências e bloqueio criativo, por outro lado fica difícil para o espectador identificar-se com aquele personagem. É muito mais natural nos posicionarmos ao lado daquilo que parece colocar a trama adiante – as sequências musicais – do que daquele que, pos suas ações e atitudes, insiste em boicotar-se o tempo todo.

Assim, embora artisticamente o filme seja perfeito em sua concepção, para o espectador, mesmo o mais cinéfilo deles, que reconheça as referências da obra original de Fellini, fica no ar a sensação de alguma coisa está faltando para o filme ser completo. O tempo de duração – 118 minutos – também colabora para acentuar essa percepção. Seria possível editar ao menos uns vinte minutos sem que houvesse alguma perda significativa no andamento da produção. Pelo contrário. Seria benéfico e, talvez, colaborasse para dar mais ritmo à mesma.

Bem intencionado e tecnicamente bem concebido, Nine acerta por um lado em sua homenagem ao mundo do cinema e o faz com beleza e glamour dignos dos grandes filmes do passado ou do sucesso dos musicais da Broadway. Só se esquece de um “detalhe” fundamental e que talvez seja o mais importante de todos eles na história da sétima arte: o público. Afinal, de que adianta o artista conceber a mais importante das mensagens se o receptor delas – o grande público – não puder compreendê-las? Nesse caso entre o oito e o oitenta o meio termo, infelizmente, não é a melhor das opções.

Confira o trailer de Nine

Nota 7.

Crítica – High School Musical – O Desafio

6 fevereiro, 2010
22:45

É muito fácil apontar High School Musical – O Desafio como uma produção ruim. Para aqueles que não são fãs de uma das franquias de maior sucesso da Disney nos últimos anos, bem como aqueles que acreditam que Zac Efron e Vannessa Hudgens não acrescentam em nada à cinematografia mundial, uma versão nacional nos mesmos moldes da norte-americana é mais do que um prato cheio para críticas quanto à sua qualidade.

Por outro lado, a exemplo do fanatismo desmedido despertado nas adolescentes em filmes como Crepúsculo e Lua Nova, não tenha dúvida que também não faltarão defensores – e principalmente defensoras – ferrenhas dos ídolos musicais “do momento”, ainda que eles passem de meros desconhecidos a estrelas da noite para o dia. Porém, embora atinja públicos similares aos fãs dos vampiros e lobisomens de Stephenie Meyer, é possível ver muito mais propósitos nessa adaptação nacional do que em qualquer um dos outros filmes estrelados por Edward e Bella.

High School Musical – O Desafio não é nada inovador. Seu roteiro é previsível e segue os mesmos moldes das três versões norte-americanas. A livre adaptação, inclusive, acaba gerando pérolas risíveis como uma escola intitulada “High School Brasil” ou uma equipe de futebol universitária intitulada “lobos-guará”, numa clara alusão aos nomes de animais adotados pelas equipes universitárias nas ligas norte-americanas.

Some-se a isso um outro aspecto interessante relativo a estrutura dos musicais. Para o norte-americano a ideia de uma canção durante um filme funciona como uma espécie de fluxo de consciência. Em tese, raciocina-se que o personagem principal não para a sua ação para cantar uma música. O número musical reflete, nada mais do que a sua consciência, funcionando como uma espécie de aposto dramático, conduzindo a trama adiante sem que, necessariamente, a ação proclamada nos versos aconteça.

Dessa forma, não deixa de ser estranho perceber que essa “pausa para a canção” seja referenciada diretamente na história, como na sequência em que Olavo (Olavo Cavalheiro) se dirige a Renata (Renata Ferreira) e diz que gostou de ouvi-la cantando na porta da escola. Em tese, o momento musical aconteceu dentro de um fluxo de consciência – ou é plausível pensar que do nada uma rua inteira para e dança uma música? – e, sendo assim, sua referência é equivocada e absurda.

Apesar dos pesares, duas outras razões me impedem de apontar High School Musical – O Desafio como uma bomba cinematográfica. A primeira delas fica por conta da composição do elenco. Sim, entre os atores do filme está lá o nome de Wanessa Camargo. Não vou entrar no mérito se suas músicas são boas ou ruins – afinal, não sou crítico musical e cada um tem o seu gosto particular – mas sua presença enquanto atriz é tão pequena na produção que ela funciona mais como um chamariz de público do que como qualquer outra coisa.As verdadeiras estrelas da produção são os oito atores – quatro moças e quatro rapazes – em torno dos quais a trama principal se desenvolve. Embora o grupo tenha sido selecionado em meio àqueles concursos no estilo Ídolos, uma breve espiada na biografia de cada um deles revela um dado interessante: embora jovens, todos têm vários anos de dedicação a uma carreira artística, seja com aulas de canto, teatro ou música.

Em uma época em que ex-Big Brothers tornam-se atores e atrizes sem ter a menor ideia do que é expressão corporal, impostação vocal ou uma partitura, ver jovens que realmente estudaram tendo uma oportunidade dentro de sua profissão – e no Brasil – é algo digno de nota. Se irão ter uma carreira de sucesso ou se desenvolver em cada uma de suas áreas é uma outra história. O fato é que entre colocar apenas rostos bonitinhos ou estudantes de teatro há uma grande diferença.

O segundo aspecto que me leva a apontar High School Musical – O Desafio como uma boa notícia no cenário brasileiro é o gênero que o filme se enquadra. Temos uma indústria incipiente de cinema no país que, praticamente, produz apenas filmes com três temáticas: comédias, crítica social à pobreza e violência nas favelas. Não estou generalizando, mas não seria nenhum absurdo afirmar que 80% dos filmes produzidos no país hoje se enquadram nesse tripé. Sendo assim, ter um musical com espaço nas telas do cinema não só é uma notícia bem-vinda, como deixa no ar uma expectativa para que outros gêneros também possam desenvolvidos por aqui.

Por que não uma ficção científica brasileira? Por que não filmes de terror contando as lendas urbanas nacionais? Por que não mais dramas, com histórias universais de qualidade? É claro, adaptar uma história americana não é a melhor das coisas – longe disso. Mas nesse caso, já é um começo.

Que outras ideias como essas, que fujam da mesmice que é o cinema nacional, possam florescer e encontrar espaço para se desenvolver. E, principalmente, que o público mostre que está disposto a aceitar coisas novas e não apenas fique reduzido a idealizar novos ídolos. Sim, sei que posso estar sendo otimista até demais. Mas só de poder ir ao cinema e ver profissionais brasileiros fazendo outras coisas que não se resumam a pobreza, violência ou comédias novelescas, já uma exceção e tanto aos títulos comerciais nacionais que devem figurar nas telas em 2010.

Confira o trailer de High School Musical – O Desafio

Nota 5.

Crítica – Premonição 4

5 fevereiro, 2010
23:13

É difícil compreender a razão do sucesso de certas produções. A franquia Premonição, por exemplo, nunca foi nenhum primor. Pelo contrário. Já no primeiro filme, uma série de sequências absurdas e a insistência de tentar se levar a sério onde claramente não havia razão ou sentido fizeram que, ao menos em termos de qualidade, a produção se colocasse como mais um dos clichês do gênero “jovens bonitos e estúpidos prestem a serem mortos por um serial killer ou algum similar”.

Espantosamente (ou não) o resultado nas bilheterias foi positivo, o que em Hollywood é sinônimo de sequência. Assim, com a mesma fórmula, o segundo e o terceiros filmes amealharam o seu público cativo e, com isso, garantiram boas arrecadações novamente. Estava encerrada uma das trilogias mais fracas de terror e suspense surgidas nos últimos anos. Ou melhor, deveria ter sido encerrada.

Alguns produtores devem ter pensado: para que vamos encerrar algo que é uma mina de ouro se nem precisamos nos dar ao trabalho de fazer um filme decente? Basta apresentar qualquer coisa e o mesmo público, certamente, irá nos prestigiar. Não deu outra. Premonição 4, lançado em novembro de 2009 nos Estados Unidos novamente se saiu muito bem, em parte graças aos recursos 3D que, em tese, deveriam ser um sopro de novidade na já mais do que esgotada franquia.

Infelizmente, após assistir ao filme, certamente as únicas pessoas que devem ter ficado felizes foram mesmo os produtores Craig Perry e Warren Zide. Confesso que poucas vezes na vida me vi diante de um filme tão ruim e estúpido quanto Premonição 4. Tanto é que chega a ser difícil relacionar aqui quais são os seus pontos negativos, pois são tantos que certamente seria preciso escrever algumas páginas para dar conta de detalhá-los.

A exemplo do três filmes anteriores, não há renovação alguma na trama. A estrutura narrativa é exatamente a mesma. O que muda apenas é local da primeira grande sequência e os estúpidos jovens envolvidos na história em questão. Depois das premonições no avião ou na rodovia, o palco agora é um autódromo onde acontece uma prova de Nascar.

Bastam apenas alguns minutos para o espectador perceber que comprou gato por lebre. É aceitável imaginar que o tremor da pista, com a passagem dos carros em alta velocidade, possa provocar uma trepidação na cerca e, com isso afrouxar alguns parafusos. Mas é completamente inconcebível vê-los girando a toda velocidade como se alguma “misteriosa força invisível” os estivesse desparafusando e, a partir disso, toda uma série de catástrofes se desenrole.

Sequências atrozes como essa abundam ao longo do filme, atingindo o clímax da imbecilidade quando um vidro de perfume se move sozinho (sim, absolutamente sozinho) para próximo de um frisador elétrico que esquenta, explode a lata, que derruba um ventilador e… bem, as catástrofes em série prosseguem.

O grupo de personagens principais consegue, se isso é possível, se comportar de maneira ainda mais cretina do que os seus antecessores da trilogia Premonição. O resultado são sequências de mortes tão convincentes quanto um magricela de calça jeans afirmando para uma criança que ele é o Papai Noel.

E se você imaginou que os efeitos em 3D poderiam ser a cereja do bolo dessa grande festa das mutilações, tire o seu cavalinho da chuva. A “grande sacada”, além do já repetitivo e canhestro efeito de jogar objetos na tela, dando a impressão que o espectador será atingido, é colocá-lo frente a frente com objetos pontiagudos, causando a sensação de que uma faca, uma agulha ou algo assim, a qualquer momento, irá rasgar a tela e espetar os olhos do espectador.

Se o filme tentasse se firmar como um legítimo representante do gênero trash, talvez merecesse uma pontinha de crédito. Talvez. Afinal, mesmo se comparado aos mais fracos filmes do gênero, ainda assim, Premonição 4 deixa muito a desejar. Agora, tentar esboçar um mínimo de suspense em razão dos misteriosos desígnios da morte e apresentar algo tão cretino ao espectador chega a ser ofensivo com quem paga o ingresso. Sem dúvida, estamos diante de um dos favoritos a ocupar o posto de pior filme de 2010.

Confira o trailer de Premonição 4

Nota 2.

Próxima Página »