Crítica de Salt
Existe uma regra no mundo do cinema no que diz respeito a construção de roteiros que afirma o seguinte: se determinada cena não introduz novos elementos na história, não faz com que ela vá adiante e a falta dela não é sentida no filme, então ela deve ser cortada na edição. Parece um exercício simples e óbvio se analisarmos qualquer filme plano a plano, certo?
O que dizer então de uma produção que tem a sua premissa principal construída sobre uma sequência descartável do ponto de vista da trama? Este talvez seja o maior dos muitos erros da produção Salt, thriller de ação estrelado por Angelina Jolie. O filme havia sido concebido para quem um personagem masculino fosse o protagonista – Tom Cruise assumiria o papel -, mas com sua recusa coube a Angelina assumir a produção que teve o roteiro adaptado a ela.
Se a atriz já havia afirmado em entrevistas não querer voltar ao personagem Lara Croft, com o qual estrelou dois filmes, em Salt ela apresenta uma versão exacerbada e com mais roupas da arqueóloga nascida no mundo dos games, num estilo que mistura ainda James Bond e Jason Bourne com ação do começo ao fim.
Salt nasce sobre um problema estrutural. A sequência inicial em que Vassily Orlov (Daniel Olbrychski) se entrega aos agentes da CIA e informa que um atentado contra o presidente russo ocorrerá no dia seguinte é emblemática. Ela aparece, inclusive, no trailer da produção, dando a entender que esta é a razão maior de uma perseguição que terá início. Ele informa que o atentado será cometido por Evelyn Salt (Angelina Jolie), a agente da CIA que o entrevista.
A partir de então a trama ganha o seguinte o contorno: Salt precisa provar que não é uma agente dupla, encontrar o seu marido que está desaparecido e evitar que o atentado do dia seguinte ocorra e ela seja culpada. Até aí, tudo bem. Porém, ao final do filme, reconstrua a história em sua mente e se pergunte o seguinte: se, em momento algum, Orlov tivesse se entregado e colocado em xeque a identidade de Salt, o atentado não poderia ocorrer normalmente?
Obviamente não vou revelar spoilers aqui e recomendo que você veja o filme para entender esse ponto. No entanto, ao final fica claro que a premissa do filme é um mero pretexto para a construção de dezenas de sequências de ação que se sucedem após a fuga. De maneira quase sobre-humana Salt escapa de explosões, policiais armados, salta sobre veículos em movimento e é capaz de montar engenhocas em tempo recorde como se fosse uma espécie de MacGyver.
Embora dentro da proposta do personagem exista justificativa para o seu ótimo desempenho – nesse ponto o roteiro se mostra coerente -, por outro lado a tentativa de humanizar o personagem, acrescentando o drama familiar da busca pelo marido é de pouca valia, primeiramente em razão da frieza do perfil de Salt e segundo lugar pela real posição que ele ocupa em sua vida. Ou seja, se há uma justificativa para essa busca ela é tão frágil e tão sutil que beira a incoerência.
Sem acrescentar absolutamente nada de novo em termos de ação, apesar da boa construção de cenas de perseguição e mesmo de luta, Salt ao menos entretém, muito mais pelo seu ritmo do que pela trama em si. O centro de todas as ações é mesmo o personagem estrelado por Angelina Jolie, numa clara tentativa de se criar uma franquia “feminina” de filmes de agentes secretos e espionagem.
Aliás, muito do bom desempenho do filme se deve ao carisma da atriz, que não só se sai bem nas cenas de ação – característica com a qual ela já tem boa experiência, por sinal -como também se apresenta relativamente bem nas sequências que requerem maior apelo dramático, dissimulando suas emoções de maneira convincente. Salt, infelizmente, é apenas “mais um” filme em seu currículo e merece ser visto por aqueles que esperam apenas diversão, mas sem dúvida fará parte daquele grupo de produções que meses depois do lançamento acabam esquecidas por completo.
