Arquivo da seção:
'Crítica'

[Crítica] Aparecida – O Milagre

18 December, 2010
20:51

O ano de 2010 pode ser considerado de certa forma um marco para o cinema nacional. Além do fato de Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro ter batido o recorde de público e arrecadação para um filme brasileiro, a pluralidade de temas, pela primeira vez, pode ser vista em diversas opções nas telas dos cinemas. Desde filmes para o público infantil, adolescente até as comédias e tradicionais documentários, todos os gêneros parecem ter sido contemplados com ao menos uma produção de relevância.

Dentro desses gêneros um deles até então inexplorado deus as caras com consistência pela primeira vez: o de filmes religiosos. Espíritas, evangélicos e católicos tiveram nas telas uma oportunidade para conhecer um pouco mais de sua doutrina, em produções em sua maioria com bom nível orçamentário e resultado satisfatório em termos de público e bilheteria.

Aparecida – O Milagre é, de certa forma, um investimento tardio no público católico. A religião que tem o maior número de adeptos no país carece de filmes voltados para os seus fieis e com o número de salas no interior ainda reduzido, perde diversas oportunidades de criar produções de bom nível técnico a um custo relativamente baixo e se fixar como um novo nicho de mercado no cinema brasileiro.

Um fato como mensagem de fé

Diferente de títulos como Chico Xavier – O FilmeNosso LarAparecida – O Milagre não se apoia em uma biografia ou em uma obra de referência para expressar alguns dos princípios da sua doutrina. Pelo contrário. O foco principal aqui é uma história de vida comum que tem seus pontos principais transformados pela presença da fé em Nossa Senhora de Aparecida.

Dessa forma o filme transmite a sua mensagem muito mais pela moral da história do que pela apresentação incisiva de um elemento religioso em si. O caminho adotado é interessante e funciona até certo ponto, mas se perde no roteiro excessivamente forçado e em alguns pontos de virada pouco convincentes.

Quando não basta um milagre

Aparecida – O Milagre desenvolve a sua trama a partir de dois momentos distintos na vida do empresário Marcos (Murilo Rosa). Quando criança, cresceu junto a uma família devota da santa, mas pobre e com poucos recursos. Com o sonho de se tornar um jogador de futebol, o menino faz um pedido para a santa e não é atendido. Para complicar a situação, dias depois o seu pai morre em um acidente. A partir de então ele cresce alimentando uma repulsa pela figura de Nossa Senhora.

Já na idade adulta, separado da esposa e com um filho em idade adulta, Marcos precisa enfrentar a falta de interesse do jovem em dar continuidade aos seus negócios. Aos poucos conhecemos os problemas de vida de Lucas (Jonatas Faro) e os desentendimentos entre ambos culminam em um acontecimento que coloca a prova a existência ou não de fé em Marcos.

A ideia básica inicial funciona durante a maior parte do tempo. É justamente a força motriz desse desentendimento que surge de maneira deslocada ao restante da trama que indica um caminho ruim para o restante do desenvolvimento. Marcos e Lucas discutem por uma razão que, até então, em momento algum havia sido sequer sugerida no roteiro. E, além disso, revela um certo clichê ao dualizar um artista (independente, livre) com um executivo (escravo do trabalho, sempre ocupado), atribuindo ao primeiro o uso de drogas como uma fuga “natural” ou característica do meio.

Entretanto, é no desfecho do filme que encontramos um ponto onde a diretora Tizuka Yamazaki se perde por completo. Na tentativa de dar mais impacto a um milagre, a sequência final é estruturada de uma forma tão teatral e pouco crível que gera o efeito contrário: é mais fácil desconfiar do milagre pela maneira como a cena é montada do que acreditar que ele poderia ser verdadeiro. A exemplificação clara desse aspecto é vermos um personagem saindo do estado de coma e se levantando, como se acabasse de acordar de uma noite de sono. Por mais que um milagre como esse seja possível dentro da fé católica, o desenrolar de um fato como esse não se daria de forma tão abrupta.

Independência ou inspiração

Embora não seja uma obra feita sob encomenda da igreja católica e inegável o viés adotado pela diretora para conduzir a narrativa, seja pela maneira como a fé é demonstrada ou pelas imagens documentais da Basílica de Nossa Senhora Aparecida apresentadas tanto no início quanto ao final da produção. Assim, temos uma narrativa não tão ecumênica e que pode desagradar aqueles que não professam da mesma ideologia.

Porém, se por um lado não há qualquer tipo de ingerência religiosa quanto ao conteúdo do filme, por outro fica clara a tentativa de “colar” a história junto ao público católico, como forma de atrair o espectador. Pode até funcionar em termos de bilheteria, mas em se tratando de qualidade a obra acaba recaindo em um meio termo perigoso, não empolgando católicos e menos ainda a espectadores de outras religiões. Simples, ingênuo e frágil.

Nota 5

 

[Crítica] Tron – O Legado

18 December, 2010
20:21

No início da década de 80, levar às telas produções de ficção científica não era uma tarefa das mais fáceis. Efeitos especiais limitados e acessíveis apenas a grandes orçamentos, incompreensão por parte do público, em especial pelo fato de a tecnologia não estar tão popular quanto hoje, e a sombra onipresente da saga Star Wars eram alguns dos empecilhos que fizeram com que muitas produções fracassassem nas telas ou, ainda pior, sequer chegassem a ser realizadas.

Entre as centenas de títulos lançados na década de 80 o simpático Tron – Uma Odisseia Eletrônica foi a aposta da Disney para unir aos seus conceitos familiares a ainda incipiente indústria dos vídeo games. Longe de serem o negócio bilionário que se transformaram, ela ainda engatinhava com jogos de baixa qualidade gráfica e parcos recursos, mas com uma criatividade inigualável capaz de fazer os games de hoje em dia parecerem efêmeros diante de títulos como Pac Man, Enduro ou River Raid.

Quase 30 anos depois, o panorama mudou consideravelmente em praticamente todos os aspectos. O mundo dos games se tornou um dos braços mais fortes do entretenimento, sendo responsável números astronômicos de faturamento e vendas de jogos e consoles. A tecnologia, antes escassa, hoje está mais do que nunca acessível a qualquer usuário, o que dizer então dos grandes estúdios. Fazer ficção científica hoje no cinema não precisa ser, necessariamente, uma aposta de dezenas de milhões. Até mesmo a Disney, com seu conceito de entretenimento familiar, aos poucos começa a se mostrar mais aberta e receptiva a projetos mais maduros e sombrios, porém não distantes do seu ideal.

Se tanta coisa mudou e aquele mundo que vivíamos há três décadas era tão distinto de hoje, quais razões poderiam explicar a volta de Tron aos cinemas? Entre as muitas possibilidades, talvez a mais emblemática seja o ideal de transmitir um legado de uma geração para outra. Os filmes e séries que nossos pais viram no passado e que parte do público mais jovem conhece hoje apenas por relatos ou imagens de baixa qualidade, aos poucos se tornam acessíveis num ciclo de produção que parece cada vez mais natural. E é no cerne dessa premissa que reside tanto a aposta quanto o propósito de Tron estar de volta às telas.

Tal pai, tal filho

Entre todos os elementos que Kevin Flynn (Jeff Bridges) parece ter deixado como legado para o seu filho Sam Flynn (Garrett Hedlund), a obstinação parece estar longe deles. Enquanto o pai dedicou boa parte de sua vida a um projeto revolucionário, Sam parece pouco se importa com aquilo que possui. Seu estilo de vida, e as habilidades do jovem apresentadas logo no início da trama demonstram uma formação de caráter no mínimo dúbia: de um lado o menino brigão, pouco preocupado com alguma coisa que não seja si mesmo; de outro um jovem disposto a qualquer coisa apenas para manter vivo o ideal do pai.

Essa dualidade serve perfeitamente ao propósito da trama e, como posteriormente o espectador descobre, servirá de maneira singular para ilustrar o dilema vivido por Kevin, renegado à servidão do mundo que ele mesmo criou. A viagem de Flynn para o mundo de Tron funciona, num segundo plano, como uma viagem para dentro de si mesmo em busca de suas raízes.

Tron-Legacy-movie-image-new-collider

Um mundo de neon

Tudo parece perfeito no mundo de Tron. Embora o visual exuberante e recheado de luzes de neon seja o grande responsável pelo impacto visual, tanto as construções com aspecto moderno e amplos espaços, bem como os figurinos futuristas deixam claro que aquele não é um lugar como qualquer outro. O mundo de Tron, habitado pelos programas virtuais é exato, métrico e previsível.

Enquanto máquina, embora questione a sua dependência do usuário humano, cada um dos elementos presentes ali se vê submisso aos fatores incompreensíveis e imprevisíveis que só uma legítima forma de vida seria capaz de conceber. Como explicar de maneira lógica um Julio Verne? Ou descrever de forma objetiva como é a sensação de presenciar um pôr do sol?

De maneira inteligente, o roteiro de Edward Kitsis e Adam Horowitz (ambos autores de mais de 21 episódios da série Lost) contrapõe a ostentação visual com situações cotidianas às quais deveríamos, da mesma forma, nos maravilhar, mas que deixamos de lado por nos parecerem banais e corriqueiras. Essa contraposição, não só auxilia na composição das transformações dos personagens como também revela o aspecto ideológico de criador desse mundo, uma figura enigmática magistralmente personificada por Jeff Bridges.

Daft Punk e a ópera eletrônica

É impossível desvencilhar Tron – O Legado de sua trilha sonora. Composta pela dupla francesa Daft Punk, a música se faz onipresente do começo ao fim. Não há um segundo sequer de descanso. Mesmo nas sequências em que o argumento por si só seria capaz de criar uma tensão, a música pontua numa espécie de ópera eletrônica.

Ditando o ritmo da ação, a trilha embora dispensável em alguns momentos é uma das principais responsáveis por manter o clima do filme sempre em alerta, como se algo revelador pudesse ocorrer em qualquer momento. A sequência de luta que se passa em um bar, por exemplo, permite que a ação se torne mero recurso estético, uma espécie de videoclipe para mais uma de suas apresentações.

Para entender a importância da dupla na concepção estética, por exemplo, basta conferir videoclipes como o premiadoAround The World para notar ali, ainda que de forma mais simples, boa parte da estrutura de figurinos e gestual utilizadas em Tron – O Legado. Tamanha importância, em alguns poucos momentos, acaba pesando contra o filme, fazendo com que a trilha se sobreponha a obra em si.

O velho e o novo Bridges

Em geral, trabalhos de efeitos especiais e maquiagem que lidam com a necessidade de mostrar o passar dos anos de um personagem foca no seu envelhecimento como contraposição natural. Em Tron, temos o processo oposto: um Jeff Bridges tão jovem quanto o ator que estava presente no filme dos anos 80. O trabalho de concepção visual do seu rejuvenescimento se assemelha muito ao realizado no filme O Curioso Caso de Benjamin Button.

O resultado é curioso e, embora em algumas expressões seja nitidamente perceptível o rosto acentuadamente “perfeito” do ator não há como negar que o aspecto é primoroso. De fato, talvez esse seja um dos principais, senão o principal efeito especial do filme, tamanha é a sua significância para o desenrolar da trama em consequentemente, para que o filme funcione.

Além dos efeitos, Bridges empresta ao seu personagem uma atuação convincente e apaixonada. Com um olhar consegue se impor, mas com uma lacuna deixada no ar podemos notar toda a sua angústia. Jeff Bridges salta aos olhos nas cenas ao lado de Garrett Hedlund – fraco e sem muita personalidade, mas longe de uma atuação comprometedora – e Olivia Wilde – centrada, belíssima e, sem dúvida, a mais grata surpresa entre as atuações.

Nasce uma nova era?

Tron – O Legado certamente não estará na lista dos melhores filmes de 2010. No entanto, nem por isso ele deixa de ter o seu valor e consegue ir muito além do que uma simples revitalização da franquia para deixa-la com um visual mais moderno. A produção aposta numa trama simples, mas fiel às suas origens, funcional em termos técnicos e muito bem respaldada pela trilha sonora e pelos efeitos especiais.

A aposta da Disney não parece ser para apenas uma única temporada de inverno. A maior prova disso é o alto investimentotambém em um parque temático e uma infinidade de produtos licenciados tendo a marca antigo game como referencia para as vendas. É de se imaginar que a saga de Tron nos cinemas esteja apenas recomeçando. Por isso, não se espante se após os primeiros resultados de bilheteria, caso sejam positivos, surgir o anúncio de uma continuação.

Dar continuidade aos mitos que ela mesma cria é a maior aposta de um empresa que cresceu tornando-se referência para diversas gerações. Nada mais natural que a Disney se permita ousar um pouco mais para dar um novo sopro de vida às boas recordações do seu acervo. E, felizmente, nesse caso o legado deixado faz jus a expectativa criada e deixa no ar a sensação gostosa, como a de revisitar um velho amigo.

Nota 8

 

[Crítica] Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1

18 November, 2010
03:24

Adaptações literárias para o cinema sempre foram consideradas um terreno espinhoso e árduo para roteiristas e diretores. Se por um lado há a tentação fácil em pegar os pontos chaves de uma obra bem sucedida e levá-la para as telas ipsis literis, sem se preocupar muito com a distinção de linguagens entre os dois meios, por outro a impossibilidade de colocar um toque pessoal em algumas situações é uma das barreiras mais frustrantes para muitos profissionais renomados do meio.

Como proceder então com a adaptação de um best seller, com milhões de fãs ao redor do planeta e que, certamente, conhecem mais os detalhes da obra literária do que boa parte dos nomes envolvidos em uma produção? E mais, como transformar essas páginas de uma história consagrada em uma obra audiovisual de qualidade capaz de ser compreendida tanto por aqueles que não leram os livros quanto pelos fãs mais afoitos que provavelmente vão reclamar a cada sequência que não seja incluída no resultado final?

Por mais difícil que essa missão possa parecer, não há como negar que o resultado alcançado pelo diretor David Yates neste sétimo filme da franquia é, sem dúvida, um dos melhores entre os filmes da série. A decisão de transformar o último livro em dois filmes, vista inicialmente como um simples truque mercadológico, felizmente comprova na tela que havia mesmo uma razão para que as 784 páginas do último volume tivessem um tratamento mais do que especial.

Harry Potter e as Relíquias da Morte

Com exatas 2h26, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 cumpre a sua missão ao fazer uma transição segura a partir do sexto filme e deixar no ar após a sua exibição um clima de expectativa e suspense para o desfecho da aventura no oitavo título da franquia. Mesmo a longa duração não é um empecilho para que a trama flua com naturalidade. Pelo contrário. O tempo corre a favor de Yates que, com competência, constrói sequências contemplativas e transições entre cenas que, de fato, deixam no ar a mesma sensação que um leitor poderia ter com o livro em mãos.

Um grande exemplo disso, e que você pode prestar atenção ao conferir a produção, são as transições de sequências utilizando o recurso fade out. Estamos acostumados na atualidade a acompanhar cenas em que há muito mais cortes de câmera do que podemos perceber. Em questão de segundos, dezenas de pequenos trechos, mostrados por ângulos distintos, insistem em criar sensações de impacto junto ao espectador. Relíquias da Morte se sobressai nesse aspecto justamente pelo oposto.

Em diversos momentos a câmera pouco se movimenta, colocando o espectador muito mais na posição “uma testemunha da história” do que na de um mero consumidor de um videoclipe frenético recheado de efeitos especiais. Essa característica sugere uma proximidade com o espectador, fato mais do que justificado após termos acompanhado a saga dos personagens ao longo dos últimos dez anos. Ao sair de um plano para outro, Yates aposta numa simples transição com a tela se apagando e som sendo diminuído. O corte, nesse caso, funciona com maestria. É como se virássemos uma página a cada nova sequência, algo que raramente prevalece no cinema de grande orçamento.

Harry Potter e as Relíquias da Morte

Se em Harry Potter e o Enigma do Príncipe o clima sombrio se tornou uma característica acentuada e os conflitos emocionais e amorosos dos personagens, em alguns pontos, chegassem mesmo a se mostrar inoportunos e sobrepostos ao foco da trama, neste sétimo filme a história pouco se fixa nesse mérito, tornando a preparação para o conflito final que está por vir a motivação maior do trio principal – Harry Potter (Daniel Radcliffe), Hermione Granger (Emma Watson) e Ron Weasley (Ruper Grint).

Com duas horcruxes destruídas nos filmes anteriores, o foco passa a ser a busca e a destruição das outras cinco existentes. Essa característica da trama faz com que o grupo precise colocar o pé na estrada, criando uma espécie de road movie – ainda que a trajetória do grupo seja feita a pé ou por meio de feitiços – lembrando muito nesse aspecto a segunda parte da trilogia de O Senhor dos Anéis. Não há tanta ação como muitos poderiam esperar, por outro lado há conflitos de sobra, uma ótima sequência de batalha aérea e momentos sublimes dignos do melhor estilo de filmes europeus.

Aliás, o adjetivo “europeu” cabe como uma luva na descrição do clima proposto em muitas das cenas do filme. Uma das sequências que melhor ilustram essa característica se passa quando Harry e Hermione ficam sozinhos e ela está triste pela partida de Ron. Harry não diz nada e, para consolá-la a pega pelas mãos e insiste para que os dois dancem. É impossível não deixar escapar um sorriso no canto do rosto tanto pela sutileza da abordagem quanto pela plasticidade da sua execução.

Harry Potter e as Relíquias da Morte

Como um velho amigo com quem convivemos por longa data e esta prestes a partir, Harry Potter se aproxima do seu público e, com muita parcimônia, revisita muitos dos momentos vividos ao longo das outras seis produções. São elementos simbólicos, que muitas vezes serão reconhecidos apenas pelos leitores dos livros, misturados a referências claras e pequenos flashbacks, gerando uma saborosa unicidade a todo o universo da franquia.

Se o período em Hogwarts tinha tudo para ser a época mais incrível na vida de cada um dos personagens e valores como amizade, lealdade e aprendizado deram o tom à moral dominante em toda a série, o desfecho dessa primeira parte certamente levará muitos às lágrimas, não só pela maneira triste como ela é concluída, mas principalmente pela lição de humildade e pelo exemplo de amizade verdadeira deixada por um dos personagens.

Harry Potter está chegando ao fim nos cinemas. Mas para toda uma geração que cresceu lendo as suas histórias e acompanhando o desenvolvimento de cada um dos personagens ao longo dos filmes, a hora do adeus representará nada mais do que um até logo. Para esses bastará apenas fechar os olhos e deixar a saudade revisitar as memórias do amigo Potter, companheiro cuja amizade feitiço nenhum será capaz de quebrar. Nem mesmo o tempo. Que venha a parte final e permita que Harry passe das telas do cinema para a história como uma das franquias mais bem-sucedidas que o mundo do cinema já viu.

Confira o trailer de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1

Nota 8

 

[Crítica] Atividade Paranormal 2

15 November, 2010
17:53

Depois de se tornar um dos filmes mais lucrativos da história do cinema era mais do que natural que Atividade Paranormal ganhasse uma continuação. Lançada em 2009 a produção independente custou pouco mais de US$ 15 mil em, tendo se destacado no circuito independente, teve a oportunidade de emplacar no grande circuito e não fez feio. Pelo contrário. A produção faturou mais de US$ 193 milhões, um lucro de quase 13000% sobre valor investido.

Simplicidade e um roteiro conciso foram algumas das características que tornaram o primeiro filme um sucesso. Apesar dos truques comuns e da filmagem com imagem precária em muitos momentos, o tom documental da narrativa tornava a trama verossímil e, assim cativava o espectador, trazendo o para dentro da história e transformando a sala de cinema em um prato cheio para “sustos sonoros” ou pequenos detalhes de edição.

A fórmula sempre funcionou em filme de terror e o simples fato de ela poder ser utilizada até mesmo em um filme de baixíssimo orçamento e com praticamente apenas dois atores em cena é a maior prova da importância do gênero como porta de entrada para diretores e atores estreantes. Mas com uma produção aceitável do ponto de vista técnico e com roteiro interessante, justamente pelo seu desfecho inesperado e pela condução “descompromissada” da trama, o que poderia ser acrescentado em uma nova produção para manter o mesmo nível?

Um dos maiores exemplos de fracasso a partir desse desenvolvimento é A Bruxa de Blair 2 – O Livro das Sombras. A produção que no início da década abriu as portas para muitos filmes do gênero ganhou uma continuação medíocre anos depois, justamente por tornar ficcional o que, num primeiro momento, tentou transparecer como documental. Atividade Paranormal 2 parece ter aprendido com esse erro e opta por dar continuidade ao mesmo discurso, acrescentando elementos anteriores aos fatos ocorridos no primeiro filme.

Se do ponto de vista da abordagem a proposta parece ser a mais correta, em termos de execução não se pode dizer o mesmo. O filme segue a rotina de produções do gênero, com a apresentação dos personagens principais nos vinte minutos iniciais, até mesmo como forma de ambientar o espectador e trazê-lo para dentro da realidade do casal Daniel (Brian Boland) e Kristi (Sprague Grayden). Após a ambientação, o clima torna-se propício para que o espectador seja surpreendido. E é justamente nesse ponto que reside o problema: a maior surpresa é o fato de não haver surpresas.

Durante a primeira hora de filme, em linhas gerais, nada acontece. A trama caminha de forma linear e pouco empolgante, cabendo a um aspirador de pó o papel principal nos primeiros sessenta minutos. Isso, em um filme de pouco mais de noventa minutos de duração, significa mais de dois terços do tempo, literalmente, jogado fora ou, no mínimo, passíveis de serem reduzidos em menos da metade.

Claramente funcionando como uma espécie de enxerto ao primeiro filme, a produção peca por não conseguir desenvolver a sua trama de maneira satisfatória, já que tanto a premissa quanto o final do filme, de fato, contribuem para melhor explicar a produção de 2009. Porém, na prática, tudo aquilo que realmente interessa em Atividade Paranormal 2 poderia ser resumido em um curta-metragem, tornando a sessão uma verdadeira tortura para o espectador. Além disso, muito daquilo que cativa o público é mérito do primeiro filme, já que as atenções se voltam para as explicações possíveis e para a maneira como a trama se encaixa na história anterior.

Assim, embora não se possa dizer que Atividade Paranormal 2 é um filme desnecessário, a produção se resume apenas a um filme suportável, não pelos seus próprios méritos, mas muito em parte pelo construiu na versão de 2009, essa sim digna de atenção e de um melhor conceito.

Confira o trailer do filme Atividade Paranormal 2

Nota 6

 

[Crítica] Um Parto de Viagem

7 November, 2010
14:03

Todo produto que é vendido em grande quantidade segue, necessariamente, uma fórmula de fabricação. Não importa em qual objeto você pense, saiba que em seu processo de fabricação existem regras definidas e uma metodologia de trabalho que visa produzir sempre a maior quantidade de itens ao menor custo unitário possível.

Sendo a maior indústria de cinema do mundo, em Hollywood as coisas não são diferentes. O problema maior consiste em encontrar uma fórmula de sucesso. Quando isso acontece, além dos lucros provenientes dela, uma série de novos produtos similares surge dia após dia até que essa fórmula seja saturada ou superada por outra de maior eficácia. Esse é um ciclo padrão na indústria do cinema norte-americano.

Quando Se Beber, Não Case estreou nos cinemas em 2009, a receptividade do público e da crítica forma as melhores possíveis. O filme faturou mais de US$ 400 milhões mundo afora e se converteu em uma nova fórmula: uma comédia com ritmo acelerado, roteiro repleto de reviravoltas e elementos absurdos, um personagem principal mais sério e outro secundário servindo de escada para as piadas.

Não demorou para que a fórmula começasse a ser colocada em prática. O primeiro da listas foi A Ressaca. Se Beber, Não Case já tem continuação confirmada para 2011 e Um Parto de Viagem, também dirigido por Todd Phillips, segue o mesmo padrão, inclusive repetindo um dos atores do “filme matriz”. Porém, não estamos falando de parafusos ou bolachas. Estamos falando de um produto cultural e, nesse caso, uma fórmula perfeita repetida à exaustão, nem sempre é garantia de sucesso.

No filme Peter Highman (Robert Downey Jr.) é um pai de primeira viagem cuja esposa dará à luz em cinco dias. Enquanto tenta pegar um voo para sua casa em Atlanta e chegar a tempo de ficar ao lado de sua mulher, suas boas intenções vão para o espaço quando ele se encontra com o aspirante a ator Ethan Tremblay (Zach Galifianakis) e uma série de acontecimentos o obrigam a pegar uma carona com ele, numa longa viagem pelo país.
Desde o cartaz até o estilo de filmagem, passando pela estrutura do roteiro tudo em Um Parto de Viagem lembra o filme Se Beber, Não Case. Porém, diferente do primeiro onde mesmo as situações mais inverossímeis se encaixavam com naturalidade no desenvolvimento da trama e as piadas, de bom ou mau gosto, funcionavam perfeitamente dentro da estrutura do filme aqui o que acompanhamos é uma boa premissa, mas que se perde em pontos-chave da trama e chega até mesmo a constranger em alguns momentos com situações completamente forçadas e desnecessárias.

Zach Galifianakis mais uma vez interpreta o papel do típico imbecil, que faz as coisas mais estúpidas possíveis, mas sem perder o seu ar inocente. Em alguns momentos, o ator que é um dos grandes responsáveis pelo sucesso do filme anterior, exagera com traços exacerbados que soam como uma caricatura de si próprio. Sem naturalidade no desempenho, ponto forte de sua atuação, algumas piadas soam forçadas ou, para ser mais preciso, mal encaixadas no roteiro.

Uma das sequências que ilustra esse conceito acontece quando Ethan e Peter estão discutindo à beira de um penhasco. Ao sair correndo do carro Ethan corre em círculos e, indo em direção à porta do carro aberta, atropela-a e arranca. Mesmo dentro de um contexto de comédia, essa não é uma situação plausível e uma situação que deveria tender par o cômico com naturalidade soa como se estivesse inserida em uma comédia pastelão. Exemplos como são freqüentes na produção.

Apesar de situações embaraçosas como essas, não se pode negar que Um Parto de Viagem funciona. A fórmula é eficiente, a premissa é válida e Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis são carismáticos o suficiente para segurarem sozinhos boa parte da produção. No melhor estilo road movie,  grande parte das sequências se passam dentro de um carro e ambos são predominantes nos diálogos ao longo do filme. Juntos são capazes de conduzir momentos de altíssimo nível, com no momento em que Ethan encena alguns monólogos em um banheiro ou quando ele e Peter param para comprar drogas com Heidi (Juliette Lewis, numa pequena e simpática participação). Aliás, seu papel no filme funciona como uma espécie de teaser já que a atriz está escalada para interpretar o mesmo personagem em Se Beber, Não Case 2.

Embora divirta, Um Parto de Viagem é claramente uma reciclagem da fórmula criada pelo próprio diretor, e funciona muito mais como um laboratório para a produção que estreia em 2011 do que como uma comédia original ou que acrescente algo para o formato ou para o espectador. Talvez com um pouco mais de cuidado e menos oportunismo, no sentido ruim da palavra, a produção poderia ser também uma grata surpresa como o filme que a inspirou já que, como é apresentada, certamente não repetirá o mesmo bom desempenho nas bilheterias.

Nota 6

 

[Crítica] A Suprema Felicidade

1 November, 2010
23:52

Em entrevista sobre o filme A Suprema Felicidade, Arnaldo Jabor afirmou que decidiu voltar ao cinema depois de quase vinte anos afastado da sétima arte por se sentir “envenenado” de tanto escrever sobre política no dia a dia. E, embora defina a produção como uma obra sem caráter autobiográfico, claramente a maneira como o roteiro expõe as suas memórias e as lembranças dos filmes que formaram o caráter do diretor denotam exatamente o oposto. E este talvez seja o maior dos problemas do completamente dispensável novo filme de Jabor.

Em comparação com o restante da obra de Arnaldo Jabor, A Suprema Felicidade é o retrato claro de que o ácido crítico do sistema se transformou em um homem rancoroso e amargo, parando no tempo quando o assunto é cinema, mas há anos-luz daquele artista que, com sua obra, refletia e fazia refletir, ainda que de maneira tecnicamente imperfeita. E, em se tratando de qualidade, é pouco provável que se Jabor fosse um homem de fora da grande mídia tivesse os cerca de R$ 12 milhões que teve à disposição para a realização da produção.

A trama se passa entre as décadas de 40 e 50. Com o fim da Segunda Guerra Mundial o menino Paulo, de apenas oito anos, vive um período de descobertas e precisa lidar com as frustrações dos seus pais e a vida dura no colégio jesuíta. Sua adolescência é um período de revelações e enquanto enfrenta pela primeira vez dilemas como a paixão e o amor, Paulo ouve os conselhos do avô Noel, um funcionário público boêmio que parece conhecer tudo aquilo que a vida oferece de melhor.

Contada em tom de crônica, a trama não se preocupa em ser fiel a um ou outro momento da vida de Arnaldo Jabor. O personagem Paulo, seu alter ego na tela, parte de lembranças vividas pelo autor, mas tem liberdade ficcional para contar a sua própria história na trama. Entre muitas idas e vindas o roteiro se revela, infelizmente, uma abominável colcha de retalhos pontuada por sequências desconexas entre si e desnecessárias por si próprias.

Assim, embora Jabor encontre espaço para fazer todas as referências que gostaria, num exercício jocoso de alguém que faz um filme apenas para satisfazer a sua própria vaidade, elas pouco dizem para o espectador que poderá, se muito atento, pescar uma ou outra referência a alguns clássicos da cinematografia mundial dirigidos por Fellini, Godard e outros cineastas renomados.

Se diante das citações a produções consagradas o diretor se comporta como um espectador respeitoso, o mesmo não se pode dizer a respeito de sua obsessão pelo olhar voyeur. A mulher, enquanto figura em sequência, sempre se encaminha de um ponto para outro como um elemento submisso, ainda que demonstre alguma vontade própria. Simbolicamente ela se torna um mero objeto de desejo, caracterizado em especial pelos insistentes detalhes nos seios, seja a cena relevante ou não. É como se o autor procurasse a transgressão, algo que poderia ser até justificado há vinte anos, ao exibir nudez, fato que nos dias de hoje é insignificante diante da saturação de imagens que vemos em cada produção.

Com uma única exceção, as personagens em geral se comportam como se representassem meros esquetes teatrais. Assim temos uma sequência que se assemelha a um quadro de Zorra Total, seguida de um plano poético e de belíssima fotografia e outra cena com diálogos tão teatrais que fazem parecer que outro filme começou. Aliás, se um elemento que evoluiu na cinematografia brasileira, em se tratando de roteiro, foram os diálogos, cada vez mais coloquiais e próximos ao cotidiano do espectador. Em A Suprema Felicidade vemos exatamente o oposto, ora com falas teatrais, ora com situações inverossímeis ou completamente desnecessárias.

Um exemplo dessa situação é o personagem do pipoqueiro Bené (Marcos Jorge). Todas as sequências em que surge são destinadas única e exclusivamente a terminar em um trocadilho ou uma piadinha de duplo sentido. Como possível lembrança da infância de Jabor e menção dentro do filme o personagem é valido. Como entremeio entre um arco e outro, maneira como é utilizado à exaustão, torna-se cansativo e faz o favor de empurrar o espectador para fora do filme repetidamente.

De todo o elenco, o único a se salvar é Marco Nanini, no papel de Noel. Sua personificação vai do sutil ao cômico de um instante para outro com muita naturalidade e, embora explorado em excesso, em especial nos trinta minutos finais do filme, Noel destoa completamente de tudo que é apresentado, se sobressaindo positivamente em “seu filme”, um dos “muitos filmes” dentro de A Suprema Felicidade.

O alto orçamento, em parte, justifica o resultado final de outro ponto que chama a atenção positivamente: a direção de arte. O trabalho de reconstrução de época e figurino é de alta qualidade para os padrões nacionais e tanto nos ambientes externos quanto internos, de alguma forma ou de outra, é possível sentir que há um clima de outra época presente. Essa qualidade é acentuada pela competente direção de fotografia de Lauro Escorel e salva a produção do desastre completo.

No que depende das escolhas da direção parece não haver noção alguma de bom senso. Repare, por exemplo, na sequência final com Marco Nanini em que ele samba em uma das ruas do Rio de Janeiro. A bela fotografia externa num piscar de olhos funde-se com uma imagem panorâmica da cidade e revela Nanini dançando diante de um chroma key. O resultado visual nesse ponto lembra o das piores produções dos anos 80 e sepulta de uma vez por todas qualquer esperança do espectador em encontrar alguma razão para compartilhar da viagem conduzida por Arnaldo Jabor.

Partindo do nada para chegar a lugar algum, A Suprema Felicidade não poupa o espectador nem mesmo na duração do filme que tem arrastadas duas horas e cinco minutos. Infelizmente, talvez muito mais por razões alheias a qualidade técnica do que qualquer outra coisa, a volta de Arnaldo Jabor à direção faz com que ele se revele muito aquém até mesmo dos seus primeiros trabalhos nas décadas de 60 e 70. Se a campanha de marketing da produção pergunta ao espectador o que é a felicidade, certamente a resposta não se encontra no filme. Aliás, a única sensação de felicidade suprema proporcionada pelo filme é o momento em que sobem os créditos finais indicando o fim da desastrosa projeção.

Nota 3

 

Crítica de Salt

2 August, 2010
22:09

Existe uma regra no mundo do cinema no que diz respeito a construção de roteiros que afirma o seguinte: se determinada cena não introduz novos elementos na história, não faz com que ela vá adiante e a falta dela não é sentida no filme, então ela deve ser cortada na edição. Parece um exercício simples e óbvio se analisarmos qualquer filme plano a plano, certo?

O que dizer então de uma produção que tem a sua premissa principal construída sobre uma sequência descartável do ponto de vista da trama? Este talvez seja o maior dos muitos erros da produção Salt, thriller de ação estrelado por Angelina Jolie. O filme havia sido concebido para quem um personagem masculino fosse o protagonista – Tom Cruise assumiria o papel -, mas com sua recusa coube a Angelina assumir a produção que teve o roteiro adaptado a ela.

Se a atriz já havia afirmado em entrevistas não querer voltar ao personagem Lara Croft, com o qual estrelou dois filmes, em Salt ela apresenta uma versão exacerbada e com mais roupas da arqueóloga nascida no mundo dos games, num estilo que mistura ainda James Bond e Jason Bourne com ação do começo ao fim.

Salt nasce sobre um problema estrutural. A sequência inicial em que Vassily Orlov (Daniel Olbrychski) se entrega aos agentes da CIA e informa que um atentado contra o presidente russo ocorrerá no dia seguinte é emblemática. Ela aparece, inclusive, no trailer da produção, dando a entender que esta é a razão maior de uma perseguição que terá início. Ele informa que o atentado será cometido por Evelyn Salt (Angelina Jolie), a agente da CIA que o entrevista.

A partir de então a trama ganha o seguinte o contorno: Salt precisa provar que não é uma agente dupla, encontrar o seu marido que está desaparecido e evitar que o atentado do dia seguinte ocorra e ela seja culpada. Até aí, tudo bem. Porém, ao final do filme, reconstrua a história em sua mente e se pergunte o seguinte: se, em momento algum, Orlov tivesse se entregado e colocado em xeque a identidade de Salt, o atentado não poderia ocorrer normalmente?

Obviamente não vou revelar spoilers aqui e recomendo que você veja o filme para entender esse ponto. No entanto, ao final fica claro que a premissa do filme é um mero pretexto para a construção de dezenas de sequências de ação que se sucedem após a fuga. De maneira quase sobre-humana Salt escapa de explosões, policiais armados, salta sobre veículos em movimento e é capaz de montar engenhocas em tempo recorde como se fosse uma espécie de MacGyver.

Embora dentro da proposta do personagem exista justificativa para o seu ótimo desempenho – nesse ponto o roteiro se mostra coerente -, por outro lado a tentativa de humanizar o personagem, acrescentando o drama familiar da busca pelo marido é de pouca valia, primeiramente em razão da frieza do perfil de Salt e segundo lugar pela real posição que ele ocupa em sua vida. Ou seja, se há uma justificativa para essa busca ela é tão frágil e tão sutil que beira a incoerência.

Sem acrescentar absolutamente nada de novo em termos de ação, apesar da boa construção de cenas de perseguição e mesmo de luta, Salt ao menos entretém, muito mais pelo seu ritmo do que pela trama em si. O centro de todas as ações é mesmo o personagem estrelado por Angelina Jolie, numa clara tentativa de se criar uma franquia “feminina” de filmes de agentes secretos e espionagem.

Aliás, muito do bom desempenho do filme se deve ao carisma da atriz, que não só se sai bem nas cenas de ação – característica com a qual ela já tem boa experiência, por sinal -como também se apresenta relativamente bem nas sequências que requerem maior apelo dramático, dissimulando suas emoções de maneira convincente. Salt, infelizmente, é apenas “mais um” filme em seu currículo e merece ser visto por aqueles que esperam apenas diversão, mas sem dúvida fará parte daquele grupo de produções que meses depois do lançamento acabam esquecidas por completo.

Nota 6

 

Crítica de Predadores

23 July, 2010
22:47

Nascida no final da década de 80, Predador se tornou uma das franquias mais icônicas do período, em especial por reunir fãs de ficção cientifica, terror e suspense sob uma premissa criativa e, até então, não muito utilizada nos cinemas. Estrelada por nomes como Arnold Schwarzenegger e Danny Glover, mesmo longe das telas o alienígena manteve um grupo fiel de fãs, ampliados por games, quadrinhos e outros produtos.

O retorno do personagem aos cinemas veio em 2004, num crossover de qualidade duvidosa com a série Alien. Longe de repetir o sucesso, a produção serviu para jogar uma pitada de desconfiança sobre a real necessidade do retorno da franquia para o novo século. As duvidas se esvaíram em Aliens vs. Predador 2. Com um roteiro péssimo e um trabalho ruim de direção, o duelo alienígena naufragou por completo e praticamente sepultou de uma vez por todas novas possibilidades de filmes com a dupla.

Trazer o Predador de volta às telas em 2010, portanto, não deixava de ser uma aposta temerosa. Coube a Robert Rodriguez planejar e produzir o retorno dos predadores ao cinema e, felizmente, é possível afirmar ao assistir a produção que, se está longe da qualidade dos seus antecessores, ao menos devolve a dignidade à franquia, resgatando alguns valores que haviam se perdido por completo e abrindo possibilidades para novos projetos.

Dirigido por Ninród Antal – dos poucos significativos Temos Vagas e Assalto ao Carro Blindado – o filme aposta em duas vertentes distintas ao longo da projeção e, em ambas, se comporta de maneira satisfatória. Na primeira metade o foco reside no suspense. Sem muita explicação Royce (Adrien Brody) surge em queda livre no céu. Logo, outros aparecem na mesma situação e, reunidos em uma selva, buscam entender o motivo de terem sido levados para aquele lugar bem como uma maneira de voltar para onde vieram.

Com sequências de caminhadas em meio à mata, discussões e pequenos mistérios, os trinta minutos iniciais de filme chegam a lembrar alguns episódios da primeira temporada de Lost, em que o foco era apresentar mistérios em meio à ilha muito mais do que resolvê-los. Nesse ínterim o roteiro aproveita não só para despertar a atenção por meio do mistério como também para aos poucos revelar características dos caçados e dos caçadores, inclusive remetendo a fatos do primeiro filme – como na sequência em que Isabelle (Alice Braga) cita os acontecimentos de 1987.

Já a segunda parte abandona o mistério e parte para o embate mais brutal, servindo-se de cenas de luta, tiroteios e violência emblemática para justificar a caçada organizada pelos predadores. Nesse ponto o filme, de certa forma, destoa por soar menos sério – ou por não se levar tão a sério – do que na primeira parte. A linha que o separa do trash, em certos pontos, é tênue demais, mas de forma alguma isso compromete o desenrolar da história.

Se há muito mais pontos positivos do que negativos na estruturação da narrativa, infelizmente é impossível deixar de notar alguns clichês e falhas de edição que prejudicam sensivelmente o filme em alguns momentos. A ideia de se ter em cena um “representante” de cada raça ou gênero – temos um negro, um latino, um russo, uma mulher, um americano, um oriental, entre outros – recai no velho clichê politicamente correto, de agradar a todos os tipos de espectadores. No caso específico de Predadores a justificativa é válida – reunir os combatentes mais fortes do mundo, dentro de suas características -, porém não deixa de ser repetitiva e pouco criativa.

Já em relação à edição o problema é incômodo e prejudica o desempenho da história. Alguns cortes são abruptos demais, dando a sensação de uma montagem pouco cuidadosa e fluída. Em alguns pontos a trama passa de uma sequência para outra aos solavancos, tirando o espectador do filme em determinados momentos para que ele possa tornar inteligível a estrutura de ideias que acabou de ver. Um exemplo claro disso é uma sequência de fuga do grupo, já na metade do filme, em que Edwin (Topher Grace) se perde do grupo. De uma hora para outra ele some do grupo e surge dentro de uma outra sala pedindo ajuda. Não há fluidez alguma na transição e a sensação que fica é que um pedaço do filme foi suprimido, um erro simples demais para uma produção de grande porte.

Adrien Brody no papel do líder do grupo se sai muito bem. Contido em muitos momentos, o ator consegue impor uma espécie de liderança e estabelecer uma empatia (ou antipatia) com o espectador muito mais por meio da ação do que pela força física, algo que não é comum em filmes do gênero. A brasileira Alice Braga também se mostra eficiente, servindo como um contraponto ao perfil de Brody sem precisar para isso ser submissa ao personagem principal. Um dos pontos altos fica por conta da participação de Nolan (Laurence Fishburne). São pouco mais de dez minutos em cena, mas suficientes para mostrar um personagem tão perturbado quanto aterrorizador, capaz de ir de um extremo a outro em questão de segundos. É pena que sua saída de cena seja tão simplória e mal elaborada, não condizendo com o perfil construído pelo ator.

Longe de se tornar uma unanimidade ou ser capaz de reascender a franquia aos níveis em que já esteve, Predadores em resumo se apresenta como um filme eficiente dentro do que se propõe, se afastando um pouco mais da ficção científica para apostar no suspense e no terror. Se por um lado a produção tem seus méritos por retirar da UTI o personagem, por outro deixa no ar a sensação de que os predadores, ao menos no cinema, se encaminham para um outro patamar, longe dos blockbusters de alto orçamento e muito mais perto das produções alternativas para públicos cativos como Sexta-Feira 13, Halloween ou A Hora do Pesadelo. Não deixa de ser uma boa escolha. Afinal junto a produções desse nível, é possível que Predador possa estabelecer ao menos uma nova trilogia para os próximos anos.

Nota 7

Confira o trailer e a ficha técnica de Predadores

 

Crítica de Alice no País das Maravilhas

27 April, 2010
03:20

É interessante notar o desenvolvimento de uma história ao longo dos anos no imaginário popular. Conheço muito poucas pessoas que leram os livros Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland) e Alice Através do Espelho (Through the Looking-Glass), lançados pelo escritor Lewis Carroll há mais de cento e quarenta anos. No entanto, graças a produção da Disney da década de 50, a obra – que já naquela época sofreu modificações – atravessou gerações e hoje é uma referência obrigatória, daquelas que mesmo sem ter visto o filme ou lido o livro já dá pra imaginar que tipo de história vem pela frente.

Aliado ao imaginário popular some-se dois nomes: Tim Burton e Johnny Depp. Responsáveis talvez por uma das maiores parcerias entre diretor-ator da história do cinema, são muitas as produções em que o visual gótico característico das obras do diretor em conjunto com o talento natural de Johhny Depp para interpretar personagens excêntricos extrapolaram os limites de um bom roteiro, deixando para o espectador não só fortes lembranças visuais como também personagens inesquecíveis – Edward Mãos de Tesoura (de Edward Mãos de Tesoura) e Willy Wonka (de A Fantástica Fabrica de Chocolates) só para citar alguns exemplos.

Sendo assim a expectativa criada em torno de Alice no País das Maravilhas – obviamente muito bem aproveitada pelo marketing da produção – foi imensa. Depois do sucesso de Avatar, praticamente criando uma nova linguagem para os efeitos em 3D, a expectativa recaiu toda sobre Tim Burton na esperança de que, de alguma forma, sua genialidade e ousadia fossem capazes de subverter o novo, trazendo o seu toque pessoal para a mais nova dimensão do cinema.

É inegável que o principal apelo ao espectador é o aspecto visual. Com cenários fabulosos construídos em computação gráfica, Burton cria um mundo onírico tão verossímil quanto possível, combinando um visual soturno de uma ameaça iminente com uma vegetação exuberante e multicolorida. Da mesma forma, os personagens que acompanham Alice durante a sua aventura pelo País das Maravilhas são construídos de maneira exemplar. Basta reparar na movimentação do Coelho Branco, por exemplo, e notar as texturas de pelagem para perceber o quanto o trabalho artístico foi desenvolvido com esmero.

Da mesma forma, os tons de vermelho do castelo da Rainha Vermelha em contraste com o branco quase absoluto dos domínios da Rainha Branca, não só transparecem a oposição de valores entre ambas – vaidade x pureza – como contam da forma visual mais didática possível parte importante da trama de Alice. Contudo, se nos aspectos de direção de arte e fotografia o filme não deixa em nada a desejar, infelizmente não se pode dizer o mesmo em outros quesitos.

Um dos aspectos onde menos se imaginavam problemas é onde reside talvez a maior das decepções de Alice no País das Maravilhas: as atuações. É bem verdade que usar a palavra “problema” é um termo forte demais. No entanto a sensação que se tem é que falta um pouco de vida a alguns dos personagens. E isso fica mais evidente quando olhamos para Alice (Mia Wasikowska). Sua atuação é apática e, nas cenas fora do País das Maravilhas, extremamente teatral. Seu rosto é inexpressivo na maioria dos momentos tanto que, quando há um ponto de virada e ela precisa renovar forças para ir à luta, a mudança é muito mais visível em seus companheiros do que nela mesma.

Já o Chapeleiro Maluco de Johnny Depp é discreto, mas eficiente. O ator fica longe de alguns exageros que já praticou na carreira e se mostra de maneira comedida na maior parte do tempo, se é que isso pode ser dito na interpretação de um personagem maluco, não comprometendo em nenhum momento. Assim, no papel da despótica Rainha Vermelha, Helena Bonham Carter acaba proporcionando alguns dos melhores momentos entre o elenco, compondo uma personagem vaidosa e ao mesmo tempo megera, sem perder a linha de atuação a que se propõe.

Como é natural, a empatia dos personagens mais “fofinhos” como o Coelho Branco, a Lebre de Março e o cão Bayard, apenas para citar alguns, é enorme e diante de atuações tão apagadas seu brilho parece ainda maior. Bayard, por exemplo, é responsável por um dos momentos mais comoventes da produção quando sai em busca ou reencontra a sua família.

A livre adaptação de Tim Burton, utilizando elementos de dois livros do escritor, em nada prejudica a essência da obra original. Com pouco menos de duas horas de duração, o roteiro não chega a ser um primor, mas é eficiente, apresentando e conduzindo a história de maneira satisfatória. Um ponto negativo, e bastante acentuado, é o desfecho que, além de ser extremamente teatral e soar forçado graças a atuação de Mia, é executado de uma maneira tão rápida que a impressão que fica é que houve um corte brusco ou que alguém queria se livrar de imediato do texto.

Para quem imaginava um verdadeiro show em imagens 3D o que se vê é um uso moderado do recurso, mas acertado e sempre em função da história. Isso é bastante perceptível na chegada de Alice ao País das Maravilhas. Repare na profundidade de campo da sequência e como de alguma forma o efeito parece colocar o espectador dentro daquele mundo, dando a impressão que Alice está vindo nos encontrar.

Talvez pela falsa expectativa criada em torno de Alice no País das Maravilhas, para muitos o filme possa não funcionar. Mas afirmar categoricamente que ele é ruim ou está entre os piores trabalhos de Tim Burton certamente é um exagero. Dentro da expectativa da maior parte do público, Alice deveria ser mais entretenimento e menos enigma. No entanto a proposta de Burton vai ao encontro da filosofia do autor, que também era matemático, e adorava essa linha de raciocínio.

Se por um lado Alice no País das Maravilhas de Tim Burton não consegue o perfeito equilíbrio entre reflexão e entretenimento, por outro revela no espectador uma curiosidade em conhecer um pouco mais daquele mundo. E o melhor de tudo é que para visitá-lo não é preciso comer nenhum tipo de cogumelo. Basta ir até a livraria mais próxima e conhecer uma das obras mais influentes e interessantes que a literatura já produziu.

Nota 7

Confira o trailer e a ficha técnica de Alice no País das Maravilhas

 

Crítica de Caçador de Recompensas

19 April, 2010
22:57

É impressionante como alguns atores e atrizes acabam se prendendo a tipos de personagens e, com as características deles, conseguem construir uma vasta filmografia, não necessariamente boa, mas eficiente e funcional em termos de bilheteria. Jennifer Aniston é um caso clássico que se encaixa neste perfil.

Pense nos últimos papéis que ela fez: O Amor Acontece, O Amor Pede Passagem, Separados Pelo Casamento e mesmo a série Friends. Em todos os casos a diferença entre os papéis é tão sutil e linha de condução dos filmes é tão similar que não é nem preciso assistir as produções para imaginar a atriz na história. Caçador de Recompensas não foge à regra e, de quebra traz outro estereótipo recente: o papel de galã de Gerard Butler.

O ator que ganhou notoriedade pela sua atuação em 300, já estrelou após essa produção outros dois filmes românticos – P.S. Eu Te Amo e A Verdade Nua e Crua, sempre abusando de olhares, do porte físico e de uma outra característica peculiar. O estilo ingênuo e romântico definitivamente não combina com o ator escocês então, como contraponto, em seus papéis Butler age como um “macho” desprezível, mas que no final das contas demonstra sensibilidade.

Caçador de Recompensas coloca ambos lado a lado e, além de utilizar esses artifícios já explorados em outras produções, reúne elementos de ação à la Sr. & Sra. Smith, num roteiro que contempla muitas locações, mas acaba recaindo num final óbvio e extremamente forçado.

Na trama Milo Boyd (Gerard Butler) é um ex-policial caçador de recompensas, atolado em dívidas. Seu trabalho é capturar foragidos e entregá-los à justiça para receber uma espécie de indenização. Até que, cai em suas mãos, a oportunidade de levar sua ex-mulher para a prisão. Nicole Hurley (Jennifer Aniston) está foragida depois de não comparecer a uma audiência para julgar um delito que cometeu.

Obviamente, para Milo localizá-la é apenas uma questão de tempo. Porém, Nicole está investigando um crime para o jornal que trabalha e os mafiosos envolvidos no caso, por coincidência, são os mesmos para quem Milo deve. É nesse ponto que as histórias se cruzam. Para aumentar o drama, ambos decidem relembrar o passado e as razões pelas quais o casamento não deu certo.

Embora haja alguns bons momentos, graças a situações divertidas em que os personagens são colocados, infelizmente na maior parte do tempo a produção soa clichê e se vale de uma fórmula repetida centenas de vezes no cinema norte-americano. Sim, funciona. Mas sim, em muitos momentos você terá a impressão de já ter visto um ou outro elemento em algum lugar.

Outro ponto que incomoda é a duração do filme, de quase duas horas. Muitas cenas, como a fuga de ambos para um chalé onde passaram a lua de mel ou mesmo a busca de Nicole por pistas de um de seus informantes, são desnecessariamente arrastadas e cansativas. Seria possível cortar ao menos uns vinte minutos de filme sem que ele perdesse suas características básicas. Ainda assim, muita coisa deixa de ser explicada e a opção final escolhida por Milo soa tão ridícula – ainda que uma outra surja evidente no mesmo momento – que chega a ser decepcionante.

Partindo para o básico ao invés de colocar algumas pitadas das características do seu olhar, o diretor Andy Tennant (do ótimo Hitch – Conselheiro Amoroso) opta por um trabalho meramente burocrático e comercial, que funciona até certo ponto graças ao carisma dos atores principais. No entanto, no final das contas, acrescenta muita pouco à cinematografia de todos os envolvidos e, menos ainda, para o espectador.

Nota 5

Confira o trailer e a ficha técnica de Caçador de Recompensas

 

Próxima Página »