Arquivo da seção:
'Crítica'

Crítica de Chico Xavier – O Filme

18 abril, 2010
21:47

Cinebiografias ainda são um gênero relativamente pouco explorado no cinema nacional. Infelizmente, apesar dos avanços que a retomada do cinema brasileiro trouxe para a nossa cinematografia, apenas dois ou três títulos do gênero chegam, em forma ficcional, ao grande público a cada ano.

Até então, talvez o mais eficiente deles tenha sido 2 Filhos de Francisco, lançado em 2005, conseguindo aliar qualidade com sucesso de bilheteria. Lula – O Filho do Brasil tentou no início seguir pelo mesmo caminho, mas esbarrou na superficialidade e acabou não se transformando no sucesso que era previsto. Chico Xavier – O Filme traz novamente ao gênero uma certa dose de qualidade, aliando um personagem carismático a uma direção segura e muita mais sugestiva do que indutiva para o espectador.

Aliás, uma direção segura é a mais agradável surpresa que se pode constatar na produção conduzida por Daniel Filho. O diretor que, até então, limitou-se a trabalhos muito mais novelescos do que cinematográficos, usando e abusando de uma linguagem televisiva para apresentar comédias como A Partilha e Se Eu Fosse Você, aqui dispõe dos elementos televisivos para construir um honesto contraponto entre a figura do médium Chico Xavier e a aceitação por parte do público perante aos seus dons.

Ambientado em três momentos distintos de sua vida – entre 1918 e 1922; entre 1931 e 1959; e entre 1969 e 1975 – a trama apresenta como elemento de condução a célebre entrevista concebida pelo espírita ao programa de TV Pinga-Fogo (disponível na íntegra em DVD) e que foi uma das responsáveis pela consolidação do nome de Chico Xavier com um dos mais importantes guias espirituais brasileiros.

Em todos os momentos, as atuações dos intérpretes do personagem principal se destacam. Porém é de Ângelo Antonio a grande atuação do filme. Sua composição de personagem é precisa e transmite a simplicidade e a inocência pregadas por Chico Xavier. O tom de voz ameno, os gestos delicados e o olhar confuso questionando os seus próprios dons são marcas características que contribuem para a verossimilhança com o verdadeiro Chico.

O ponto destoante fica por conta de André Dias (Emmanuel). Sua interpretação do espírito guia Emmanuel é extremamente teatral e, em muitos momentos, inexpressiva. Seus gestos e sua postura intimidante em nada combinam com as palavras que profere, criando uma figura muito mais arrogante e presunçosa do que espiritual.

Outro elemento que acrescenta muito à trama é o núcleo conduzido por Orlando (Tony Ramos), um dos editores do programa Pinga-Fogo. Ateu, Orlando vivencia uma crise com sua mulher depois da morte do filho do casal, em um acidente envolvendo um amigo do garoto. Cético e amargurado, um elemento importante relacionado ao médium faz com que ao final ele se transforme e, de maneira convincente, apresente um dos momentos mais dramáticos e emocionantes da produção e que certamente terá identificação imediata por parte do espectador.

Outra decisão acertada do filme é o fato de retratar Chico Xavier não como alguém imaculado, mas passível de erros e defeitos. Isso contribui para que, ainda que suas virtudes sejam significativamente maiores que os defeitos, o tornem menos artificial e muito mais humano aos olhos do público. Assim, vemos o médium em momentos (poucos) de vaidade e incredulidade diante de seus próprios dons.

O trabalho de reconstrução de época, mostrando o Brasil rural do interior de Minas Gerais é da mesma forma acertado. É bem verdade que em alguns momentos o filme deixa de empolgar e se mostra cansativo e repetitivo. Os primeiros quarenta minutos, por exemplo, bem poderiam ser resumidos sem prejuízo da história e mesmo o fato de Chico sofrer maus tratos de sua madrasta na infância, repetidas vezes, pouco acrescenta à biografia em si do personagem e à versão cinematográfica.

O sucesso de Chico Xavier – O Filme nas bilheterias prova que o mercado brasileiro tem público – e diversos tipos de público – e responde positivamente quando uma produção reúne elementos com apelo popular, com a figura de Chico, e um roteiro de qualidade. Com diversidade de histórias e fuga de lugares comum como o tripé favela/nordeste/comédia temos tudo para um dia ter um ritmo mais industrial de produção. Nesse caso, acreditar não custa nada.

Nota 7

Confira o trailer e a ficha técnica de Chico Xavier – O Filme

 

Crítica de Zona Verde

17 abril, 2010
14:11

Poucos diretores em Hollywood têm o privilégio de ter em mãos um orçamento de US$ 100 milhões para conduzir um filme. As opções ficam ainda mais reduzidas quando se trata de um diretor com poucos trabalhos em seu currículo. Com uma carreira que se desenvolveu nos últimos dez anos, Paul Greengrass passa a fazer parte de um seleto grupo ao assinar o filme Zona Verde.

Diretor de produções como A Supremacia Bourne, Vôo United 93 e O Ultimato Bourne Greengrass, em especial depois do sucesso do último episódio da trilogia Bourne, teve em suas mãos uma oportunidade que poucos negariam: uma produção com alto orçamento, Matt Damon como ator principal e a possibilidade de abordar um tema atual e ainda pouco explorado no cinema.

Zona Verde é o resultado deste conjunto de fatores e, embora o filme não tenha sido bem recebido nas bilheterias – e provavelmente fechará o balanço final com prejuízo – há muito mais motivos para apontar a produção como oportuna ao invés de oportunista. Tocar em um tema ainda tão fresco na mídia sem um devido tempo para reflexão ou distanciamento dos fatos é andar sobre um terreno espinhoso. E é graças a essa dificuldade que a produção mostra seu lado conservador.

Em termos técnicos Zona Verde se aproveita – e muito – do ritmo acelerado de edição do último episódio da trilogia Bourne. A ação acontece do começo ao fim, sem dar muito espaço ao espectador para respirar. O foco dos primeiros quarenta minutos, por exemplo, é praticamente único e exclusivo nas cenas de ação. Nesse aspecto, o fato de o tema estar ainda tão presente no imaginário popular – a invasão americana no Iraque com o pressuposto de encontrar armas clandestinas de destruição em massa – faz com que o diretor dispense mais explicações, limitando-se a apontar apenas alguns elementos em meio a diálogos sempre permeados por algum idealismo, ainda que cínico.

Se por um lado o diretor repete sua fórmula de sucesso nesse quesito, por outro não abre espaço algum para inovação. Aliás, a maior novidade em termos visuais fica por conta da utilização de uma câmera na mão noturna, criando um estilo quase documental nas imagens e proporcionando um maior ritmo à ação. Eficiente em alguns momentos, ela se torna cansativa e desnecessária em muitos outros – em especial no clímax final. O resultado são imagens granuladas, naturais do processo de filmagem, mas incômodas e passíveis de serem evitadas em certas ocasiões sem que a linguagem proposta fosse afetada.

Baseado no livro A Vida Imperial na Cidade Esmeralda, de Rajiv Chandrasekaran, o roteiro da produção prefere deixar os contrastes encontrados na chamada Zona Verde – área ocupada pelo exército norte-americano em que os seus membros vivem com todas as regalias possíveis – para poucos momentos como plano de fundo. Os aspectos mais relevantes são deixados para os diálogos dos personagens, todos eles representando estereótipos já consagrados em filmes do gênero. Assim temos o soldado idealista – Miller (Matt Damon); o vilão sem escrúpulos – Clark Poundstone (Greg Kinnear); o mentor que aponta os caminhos ao herói – Martin Brown (Brendan Gleeson); o “inimigo” que se torna o amigo – Freddy (Khalid Abdalla).

Os papéis de Matt Damon e Khalid Abdalla ilustram bem a maneira simplória como os personagens são abordados. Miller, mesmo sendo um líder questionador, capaz de discutir com seus superiores por não entender o porque do recebimento de pistas falsas, em outros momentos se porta de maneira inocente, parecendo não entender o “mau caráter” de alguns dos seus chefes. Matt Damon não compromete em sua atuação, porém seu papel exige muito pouco do ator.

Já Freddy é a versão iraquiana de Miller. Ele surge na trama de maneira inesperada e pouco verossímil. Seus diálogos, quase sempre, são verdadeiros discursos pró-liberdade ao povo iraquiano. Sua história, no entanto, é pouco explorada e acabamos por conhecer muito pouco do personagem, embora ele tenha papel fundamental na produção.

O desenvolvimento burocrático da trama, no entanto, é amenizado graças à relevância e a importância do tema. Ainda que abordado de um ponto de vista óbvio, em um caso como esse é preferível mil vezes uma produção de qualidade razoável que relembre ao mundo o circo armado em torno das supostas armas clandestinas no Iraque, do que o silêncio ou a ausência do assunto nas telas.

Em termos de conteúdo, Zona Verde acrescenta muito pouco àquilo que já foi noticiado e pode ser considerado senso comum sobre o assunto. No entanto, apesar dos seus pontos fracos, o filme funciona e não compromete, algo que filmes como Rede de Mentiras, por exemplo, lançado no ano passado e ambientado na mesma região não deu conta de fazer.

Tão certo como as armas no Iraque procuradas pelo governo norte-americano provavelmente nunca existiram, Zona Verde se apresenta como um retrato relevante de um momento político importante da história mundial e, apenas por este aspecto, já vale a pena ser visto. E se além de mero entretenimento conseguir atingir alguns espectadores de modo que reflitam sobre o tema ou mesmo passem a questionar um pouco mais as verdades absolutas propagadas pelos governos anteriores, sem dúvida já terá feito um bom trabalho.

Nota 7

Confira o trailer e a ficha técnica de Zona Verde

 

Crítica – Um Sonho Possível

22 março, 2010
02:14

O ano de 2009, com certeza, será um dos mais memoráveis para a atriz Sandra Bullock. Figura conhecida do público desde a década de 90, a atriz se estabeleceu junto ao público, com raras exceções, em comédias e romances, sempre de qualidade razoável e, na maior parte das vezes, aceitáveis graças ao carisma que Bullock apresenta em cada cena.

Dessa forma, pode causar espanto ao ver um drama como Um Sonho Possível se tornar não só maior sucesso de público de sua carreira como também lhe render um dos pontos mais altos de sua carreira, numa interpretação de reconhecida qualidade pela crítica e que rendeu a atriz uma merecida indicado ao Oscar.

Um Sonho Possível é o exemplo típico de filme que divide o público e a crítica especializada. Enquanto o espectador comum se encanta com a mensagem da produção, que é belíssima e, por si só, já vale o ingresso, por outro lado um olhar mais apurado certamente irá encontrar alguns defeitos, pequenos é bem verdade, mas suficientes para colocar em lados antagônicos crítico e leitor.

Baseado numa história real, a produção traz a história do jovem Michael Oher (Quinton Aaron), um menino desamparado pela família e com um histórico de quase nenhuma oportunidade em sua vida. Grande e intimidador graças ao seu avantajado porte físico, Michael ganha uma oportunidade de mudar sua vida ao sensibilizar a mãe de um de seus amigos de escola, Leigh Ann Tuohy (Sandra Bullock).

É junto de sua família que o garoto encontra um lar, educação e esperança para ir busca dos seus sonhos. Não por escolha própria. As dificuldades da vida e o seu temperamento fechado e de poucas palavras ficariam contentes com apenas um teto para dormir por uma noite. Mas é na insistência de Leigh Ann que reside boa parte do mérito da lição de vida apresentada em Um Sonho Possível.

Com um alto padrão de vida, Leigh Ann nem de longe se parece com suas colegas com quem almoça. Recatadas, cheias de preconceitos e preocupadas única e exclusivamente com status, todas eles se comportam como uma perfeita antítese do personagem de Bullock. Aliás, sobre ela vale fazer duas menções especiais, ambas em benefício da atriz.

A primeira delas se refere ao papel em si. Repare que tanto Leigh Ann, quanto toda a sua família – Sean Tuohy (Tim McGraw), S. J. Tuohy (Jae Head) e Collins Tuohy (Lily Collins) – vivem em um mundo perfeito. O relacionamento do casal é maravilhoso, os filhos são educados e estudiosos e nada, absolutamente nada, parece ser capaz de sequer macular sua reputação. Obviamente, é bem possível que um ambiente assim seja completamente verdadeiro, no entanto chega a ser um incômodo a maneira unidimensional como tudo é exibido. De um lado, a família perfeita segundo os valores cristãos. De outro a sociedade com seus preconceitos.

Ao mesmo tempo essa feliz relação poderia gerar a Sandra Bullock um papel simplório ou de “apenas mais uma mãe no cinema”. O que acontece é justamente o contrário. Sua personalidade e o timimg certo de quem está acostumada a comandar tanto momentos românticos quanto comédias, coloca a atriz como uma mulher imponente diante de marginais, mas que é capaz de chorar com um simples olhar. E é nessa humanidade emprestada pela atriz ao personagem que reside muito do mérito da produção.

Quinton Aaron, a quem cabe o papel de Michael Oher, infelizmente não se mostra eficiente da mesma maneira. É bem verdade que a sua atuação em momento algum compromete a trama e é uma característica do seu personagem a de ser pouco expressivo. Porém, mesmo nos momentos em que é preciso demonstrar um pouco da expressão é difícil distinguir entre o riso e a tristeza, algo que poderia estar estampado com mais naturalidade.

De qualquer forma Quinton Aaron, que já esteve em produções anteriores como Rebobine, Por Favor, mostra que pode conseguir o seu espaço como ator secundário em boas produções. Possivelmente não com um papel que lhe dê tanta visibilidade como esse, mas podemos esperar para ver seu rosto em outras produções em breve.

Embora Um Sonho Possível seja previsível em sua estrutura e o final claramente fique evidente até mesmo pela conotação do filme, não há como classificar como falha, em nenhum quesito, uma história em que a mensagem parece se sobrepor a qualquer elemento técnico ou enquadramento que se possa criticar.

O filme tem como mérito o fato de colocar alguns valores como a educação acima de qualquer coisa, o afeto de uma família e, principalmente, a oportunidade de desenvolvimento pessoal, fatores que sem dúvida são alguns dos maiores responsáveis por altos índices de criminalidade e desrespeito aos diretos humanos em todos os lugares. Ao resgatar uma vida das incertezas da falta de caminho e apresentá-la a diversas possibilidades de vida, a história de Um Sonho Possível fala por si só. E não tenha dúvidas de que, ao ir ao cinema, você deve levar um lenço no bolso e estar preparado para se emocionar bastante.

Felizmente, o melhor de tudo é descobrir que esta é uma história onde a arte imita a vida e saber que existem pessoas como Leigh Ann Tuohy talvez seja a melhor das lições que poderíamos tirar no cinema. Um filme perfeito? Não, não é. Está longe disso. Mas quem precisa de perfeição quando há a possibilidade de devolver a vida a um ser humano? Basta fechar os olhos e seguir o coração.

Nota 8.

 

Crítica – Nine

8 fevereiro, 2010
22:51

Se você gosta de cinema, não é preciso muitos argumentos para tentar convencê-lo a ver o filme Nine. Basta dar uma olhada no cartaz da produção e reparar a quantidade de nomes atores famosos que participam do filme para imaginar o quão interessante ele pode ser. Daniel Day Lewis, Nicole Kidman, Penélope Cruz, Sophia Loren, Judi Dench, Kate Hudson, Marion Cottilard e até mesmo a cantora Fergie são motivos mais do que suficientes para convencê-lo a comprar o ingresso.

Porém, qual a razão que torna o musical Nine, ao mesmo tempo em que é belo e ousado, chato e sonolento? Não é difícil explicar o porque. Porém, antes de tudo, é preciso entendê-lo para, assim, evitarmos algumas conclusões precipitadas. Nine nasceu como uma homenagem a aquele que talvez seja o mais importante dos filmes do diretor italiano Federico Fellini – 8 ½.

Lançado em 1963, o filme era uma espécie de autobiografia do diretor, que questionava o seu papel nas produções que tinha feito até então ao mesmo tempo em que sofria um bloqueio criativo para a produção daquele que seria seu nono filme – por isso o 8 ½ numa alusão a um filme que se apresentava inacabado. Na década de 80 a produção de Fellini foi adaptada para a Broadway, transformando-se num musical de grande sucesso.

A missão de trazer o musical da Broadway para o caminho inverso – readaptá-lo para o cinema – coube ao já falecido Anthony Minghella (Cold Mountain) e a Michael Tolkin (O Jogador). Para a direção o projeto foi entregue a Rob Marshall, que levou o filme Chicago ao Oscar de Melhor Filme em 2003. Com tantos nomes de peso envolvidos no projeto é difícil imaginar que um filme assim “não funcione”. Porém, após acompanhar a trajetória de Guido Contini (Daniel Day-Lewis) em quase duas horas de projeção a sensação que fica é mais de cansaço do que de encantamento.

Vamos por partes. Nine é, na verdade, muito mais do que um simples musical é uma verdadeira homenagem à concepção da sétima arte. Todos os processos criativos envolvidos em um filme são abordados e questionados. A concepção do roteiro, a escolha do elenco, a criação dos figurinos, o processo de direção, a pressão por parte da mídia, a industrialização do processo por parte dos produtores. O cinema, enquanto arte, caminha sobre uma linha tênue juntamente com a indústria. Ora pende para um lado, ora pende para outro, mas é somente juntas que acabam sobrevivendo.

Em termos visuais Nine é um espetáculo garantido. Os diversos cenários em que as canções são executadas são ricamente iluminados com cores vivas – quando a canção assim pede – ou cores neutras, mas de um contraste exuberante. Da mesma forma, a composição das coreografias é um elemento que agrega ritmo à narrativa, proporcionando ao espectador o desejo de estar na plateia de um espetáculo como esse.

O elenco de atores, da mesma forma, funciona em grande sintonia, com raríssimas exceções. Daniel Day Lewis, por exemplo, consegue transparecer claramente os momentos de tormento e angústia do seu personagem, bem como o seu deslumbramento diante de uma diva. Penélope Cruz, no papel da amante do grande diretor, enche os olhos em sua coreografia de dança e vai do momento cômico ao momento dramático de uma maneira tão suave que é difícil duvidar da verossimilhança de sua atuação. Marion Cotillard, da mesma forma chama atenção pela sua atuação contida, no papel da devotada esposa de Guido Contini. Apenas com o olhar ela consegue transparecer seus sentimentos, deixando claro o quanto sofre em função do seu amor.

Porém, diferente de Chicago, onde todos esses elementos estavam em sintonia, em Nine temos uma composição de roteiro e montagem parcimoniosa e anticlímax do que as próprias coreografias propõem. Em outras palavras, falta ritmo ao filme quando ele “foge” das sequências musicais. Por si só, o drama de Guido Contini é muito mais introspectivo do que qualquer outra coisa. As canções, nesse ponto acabam por contrapor um estado de espírito com outro e, no final das contas, o espectador que permanecer junto àquele espetáculo, sem precisar voltar para a vida de Guido.

Se por um lado a proposta era mesmo mostrar o diretor com uma vida enfadonha – ao menos sob o seu ponto de vista – em um período de turbulências e bloqueio criativo, por outro lado fica difícil para o espectador identificar-se com aquele personagem. É muito mais natural nos posicionarmos ao lado daquilo que parece colocar a trama adiante – as sequências musicais – do que daquele que, pos suas ações e atitudes, insiste em boicotar-se o tempo todo.

Assim, embora artisticamente o filme seja perfeito em sua concepção, para o espectador, mesmo o mais cinéfilo deles, que reconheça as referências da obra original de Fellini, fica no ar a sensação de alguma coisa está faltando para o filme ser completo. O tempo de duração – 118 minutos – também colabora para acentuar essa percepção. Seria possível editar ao menos uns vinte minutos sem que houvesse alguma perda significativa no andamento da produção. Pelo contrário. Seria benéfico e, talvez, colaborasse para dar mais ritmo à mesma.

Bem intencionado e tecnicamente bem concebido, Nine acerta por um lado em sua homenagem ao mundo do cinema e o faz com beleza e glamour dignos dos grandes filmes do passado ou do sucesso dos musicais da Broadway. Só se esquece de um “detalhe” fundamental e que talvez seja o mais importante de todos eles na história da sétima arte: o público. Afinal, de que adianta o artista conceber a mais importante das mensagens se o receptor delas – o grande público – não puder compreendê-las? Nesse caso entre o oito e o oitenta o meio termo, infelizmente, não é a melhor das opções.

Confira o trailer de Nine

Nota 7.

 

Crítica – High School Musical – O Desafio

6 fevereiro, 2010
22:45

É muito fácil apontar High School Musical – O Desafio como uma produção ruim. Para aqueles que não são fãs de uma das franquias de maior sucesso da Disney nos últimos anos, bem como aqueles que acreditam que Zac Efron e Vannessa Hudgens não acrescentam em nada à cinematografia mundial, uma versão nacional nos mesmos moldes da norte-americana é mais do que um prato cheio para críticas quanto à sua qualidade.

Por outro lado, a exemplo do fanatismo desmedido despertado nas adolescentes em filmes como Crepúsculo e Lua Nova, não tenha dúvida que também não faltarão defensores – e principalmente defensoras – ferrenhas dos ídolos musicais “do momento”, ainda que eles passem de meros desconhecidos a estrelas da noite para o dia. Porém, embora atinja públicos similares aos fãs dos vampiros e lobisomens de Stephenie Meyer, é possível ver muito mais propósitos nessa adaptação nacional do que em qualquer um dos outros filmes estrelados por Edward e Bella.

High School Musical – O Desafio não é nada inovador. Seu roteiro é previsível e segue os mesmos moldes das três versões norte-americanas. A livre adaptação, inclusive, acaba gerando pérolas risíveis como uma escola intitulada “High School Brasil” ou uma equipe de futebol universitária intitulada “lobos-guará”, numa clara alusão aos nomes de animais adotados pelas equipes universitárias nas ligas norte-americanas.

Some-se a isso um outro aspecto interessante relativo a estrutura dos musicais. Para o norte-americano a ideia de uma canção durante um filme funciona como uma espécie de fluxo de consciência. Em tese, raciocina-se que o personagem principal não para a sua ação para cantar uma música. O número musical reflete, nada mais do que a sua consciência, funcionando como uma espécie de aposto dramático, conduzindo a trama adiante sem que, necessariamente, a ação proclamada nos versos aconteça.

Dessa forma, não deixa de ser estranho perceber que essa “pausa para a canção” seja referenciada diretamente na história, como na sequência em que Olavo (Olavo Cavalheiro) se dirige a Renata (Renata Ferreira) e diz que gostou de ouvi-la cantando na porta da escola. Em tese, o momento musical aconteceu dentro de um fluxo de consciência – ou é plausível pensar que do nada uma rua inteira para e dança uma música? – e, sendo assim, sua referência é equivocada e absurda.

Apesar dos pesares, duas outras razões me impedem de apontar High School Musical – O Desafio como uma bomba cinematográfica. A primeira delas fica por conta da composição do elenco. Sim, entre os atores do filme está lá o nome de Wanessa Camargo. Não vou entrar no mérito se suas músicas são boas ou ruins – afinal, não sou crítico musical e cada um tem o seu gosto particular – mas sua presença enquanto atriz é tão pequena na produção que ela funciona mais como um chamariz de público do que como qualquer outra coisa.As verdadeiras estrelas da produção são os oito atores – quatro moças e quatro rapazes – em torno dos quais a trama principal se desenvolve. Embora o grupo tenha sido selecionado em meio àqueles concursos no estilo Ídolos, uma breve espiada na biografia de cada um deles revela um dado interessante: embora jovens, todos têm vários anos de dedicação a uma carreira artística, seja com aulas de canto, teatro ou música.

Em uma época em que ex-Big Brothers tornam-se atores e atrizes sem ter a menor ideia do que é expressão corporal, impostação vocal ou uma partitura, ver jovens que realmente estudaram tendo uma oportunidade dentro de sua profissão – e no Brasil – é algo digno de nota. Se irão ter uma carreira de sucesso ou se desenvolver em cada uma de suas áreas é uma outra história. O fato é que entre colocar apenas rostos bonitinhos ou estudantes de teatro há uma grande diferença.

O segundo aspecto que me leva a apontar High School Musical – O Desafio como uma boa notícia no cenário brasileiro é o gênero que o filme se enquadra. Temos uma indústria incipiente de cinema no país que, praticamente, produz apenas filmes com três temáticas: comédias, crítica social à pobreza e violência nas favelas. Não estou generalizando, mas não seria nenhum absurdo afirmar que 80% dos filmes produzidos no país hoje se enquadram nesse tripé. Sendo assim, ter um musical com espaço nas telas do cinema não só é uma notícia bem-vinda, como deixa no ar uma expectativa para que outros gêneros também possam desenvolvidos por aqui.

Por que não uma ficção científica brasileira? Por que não filmes de terror contando as lendas urbanas nacionais? Por que não mais dramas, com histórias universais de qualidade? É claro, adaptar uma história americana não é a melhor das coisas – longe disso. Mas nesse caso, já é um começo.

Que outras ideias como essas, que fujam da mesmice que é o cinema nacional, possam florescer e encontrar espaço para se desenvolver. E, principalmente, que o público mostre que está disposto a aceitar coisas novas e não apenas fique reduzido a idealizar novos ídolos. Sim, sei que posso estar sendo otimista até demais. Mas só de poder ir ao cinema e ver profissionais brasileiros fazendo outras coisas que não se resumam a pobreza, violência ou comédias novelescas, já uma exceção e tanto aos títulos comerciais nacionais que devem figurar nas telas em 2010.

Confira o trailer de High School Musical – O Desafio

Nota 5.

 

Crítica – Premonição 4

5 fevereiro, 2010
23:13

É difícil compreender a razão do sucesso de certas produções. A franquia Premonição, por exemplo, nunca foi nenhum primor. Pelo contrário. Já no primeiro filme, uma série de sequências absurdas e a insistência de tentar se levar a sério onde claramente não havia razão ou sentido fizeram que, ao menos em termos de qualidade, a produção se colocasse como mais um dos clichês do gênero “jovens bonitos e estúpidos prestem a serem mortos por um serial killer ou algum similar”.

Espantosamente (ou não) o resultado nas bilheterias foi positivo, o que em Hollywood é sinônimo de sequência. Assim, com a mesma fórmula, o segundo e o terceiros filmes amealharam o seu público cativo e, com isso, garantiram boas arrecadações novamente. Estava encerrada uma das trilogias mais fracas de terror e suspense surgidas nos últimos anos. Ou melhor, deveria ter sido encerrada.

Alguns produtores devem ter pensado: para que vamos encerrar algo que é uma mina de ouro se nem precisamos nos dar ao trabalho de fazer um filme decente? Basta apresentar qualquer coisa e o mesmo público, certamente, irá nos prestigiar. Não deu outra. Premonição 4, lançado em novembro de 2009 nos Estados Unidos novamente se saiu muito bem, em parte graças aos recursos 3D que, em tese, deveriam ser um sopro de novidade na já mais do que esgotada franquia.

Infelizmente, após assistir ao filme, certamente as únicas pessoas que devem ter ficado felizes foram mesmo os produtores Craig Perry e Warren Zide. Confesso que poucas vezes na vida me vi diante de um filme tão ruim e estúpido quanto Premonição 4. Tanto é que chega a ser difícil relacionar aqui quais são os seus pontos negativos, pois são tantos que certamente seria preciso escrever algumas páginas para dar conta de detalhá-los.

A exemplo do três filmes anteriores, não há renovação alguma na trama. A estrutura narrativa é exatamente a mesma. O que muda apenas é local da primeira grande sequência e os estúpidos jovens envolvidos na história em questão. Depois das premonições no avião ou na rodovia, o palco agora é um autódromo onde acontece uma prova de Nascar.

Bastam apenas alguns minutos para o espectador perceber que comprou gato por lebre. É aceitável imaginar que o tremor da pista, com a passagem dos carros em alta velocidade, possa provocar uma trepidação na cerca e, com isso afrouxar alguns parafusos. Mas é completamente inconcebível vê-los girando a toda velocidade como se alguma “misteriosa força invisível” os estivesse desparafusando e, a partir disso, toda uma série de catástrofes se desenrole.

Sequências atrozes como essa abundam ao longo do filme, atingindo o clímax da imbecilidade quando um vidro de perfume se move sozinho (sim, absolutamente sozinho) para próximo de um frisador elétrico que esquenta, explode a lata, que derruba um ventilador e… bem, as catástrofes em série prosseguem.

O grupo de personagens principais consegue, se isso é possível, se comportar de maneira ainda mais cretina do que os seus antecessores da trilogia Premonição. O resultado são sequências de mortes tão convincentes quanto um magricela de calça jeans afirmando para uma criança que ele é o Papai Noel.

E se você imaginou que os efeitos em 3D poderiam ser a cereja do bolo dessa grande festa das mutilações, tire o seu cavalinho da chuva. A “grande sacada”, além do já repetitivo e canhestro efeito de jogar objetos na tela, dando a impressão que o espectador será atingido, é colocá-lo frente a frente com objetos pontiagudos, causando a sensação de que uma faca, uma agulha ou algo assim, a qualquer momento, irá rasgar a tela e espetar os olhos do espectador.

Se o filme tentasse se firmar como um legítimo representante do gênero trash, talvez merecesse uma pontinha de crédito. Talvez. Afinal, mesmo se comparado aos mais fracos filmes do gênero, ainda assim, Premonição 4 deixa muito a desejar. Agora, tentar esboçar um mínimo de suspense em razão dos misteriosos desígnios da morte e apresentar algo tão cretino ao espectador chega a ser ofensivo com quem paga o ingresso. Sem dúvida, estamos diante de um dos favoritos a ocupar o posto de pior filme de 2010.

Confira o trailer de Premonição 4

Nota 2.

 

Crítica – Guerra ao Terror

4 fevereiro, 2010
20:49

Kathryn Bigelow nunca esteve no centro dos holofotes. Diretora de trabalhos como K-19 – The Widowmaker e O Peso da Água, embora seus filmes transmitam uma sensibilidade e um olhar diferenciado característicos de um apurado ponto de vista feminino, nenhum dos seus trabalhos até então eram tão relevantes a ponto de colocá-la lado a lado com grandes diretores do cinema.

É bem verdade que em seu currículo, Kathryn conta com participações em importantes festivais, tendo sido membro de júri em Berlim, Veneza e Sundance, características que apenas ressaltam a admiração e o respeito de seus colegas bem como o seu conhecimento profissional em cinema.

Entretanto mesmo levando em consideração todos os seus predicados é praticamente impossível não se surpreender com o belíssimo resultado apresentado pela diretora com Guerra ao Terror. O tema árido da presença norte-americana no Iraque aliado ao estilo predominantemente masculino dos filmes de guerra poderia muito bem representar para ela algum tipo de empecilho. Felizmente, não é esse o caso e o resultado final é uma obra riquíssima em simbolismos e com uma estrutura particular capaz de transmitir uma sensação de tensão constante, refletindo perfeitamente o cotidiano dos seus personagens.

Em Guerra ao Terror acompanhamos a Companhia Bravo, uma equipe militar do exército norte-americano responsável por desarmar bombas na capital iraquiana. Com a morte do principal especialista do grupo, o sargento William James (Jeremy Renner) é escalado para integrar a equipe. James se mostra um combatente nada convencional. Embora competente em sua função, o soldado nutre um forte desejo por adrenalina, o que faz com que encare todas as missões sem medo algum, mas não sem colocar em risco a segurança dos seus colegas.

Embora possua uma estrutura linear, com começo, meio e fim bem definidos, não é exatamente o desfecho da trama que importa em Guerra ao Terror. A produção funciona melhor se analisada como uma espécie de crônica sobre o dia a dia dos combatentes. Assim, o que importa não é o que irá acontecer ao final dos 40 dias restantes para o encerramento do rodízio de soldados no posto e, sim, o quão tensos podem ser cada um deles.

Aliás, tensão parece ser a palavra certa para definir tanto o clima em solo iraquiano quanto a sensação transmitida a cada nova missão enfrentada. Alternando uma câmera no estilo documental com planos tradicionais, Bigelow coloca o espectador como mais um integrante do grupo. Assim a cada nova bomba que precisa ser desarmada ou a cada incursão que precisa ser planejada com atenção, o espectador tem a nítida sensação de que algo pode acontecer a qualquer momento – e de fato, em todos os casos, o desfecho é imprevisível.

Sustentando o clima de tensão apenas com a história e com as imagens que mostra, Kathryn acerta ao usar o mínimo possível os elementos da belíssima trilha sonora. Ela surge pontual em alguns poucos instantes do filme, não para induzir o espectador a ter determinado sentimento sobre um ou outro personagem, mas para acentuar o clima de desolação e o vazio das circunstâncias diante das quais o grupo – ou cada um dos soldados – é colocado.

Assim como a presença do exército dos Estados Unidos não é bem-vinda no Iraque, a produção ressalta esse elemento de uma maneira sutil e sensível, mostrando em diversos momentos planos com cidadão comuns olhando do alto de suas janelas com curiosidade a movimentação das tropas. Esses olhares inquietos, quando observados do ponto de vista dos soldados, colocam-nos em uma posição de alvos fáceis, de elementos destoantes em meio ao cotidiano, como se nos dissesse o quanto a presença das tropas por lá é inoportuna.

A crítica moral à guerra deflagrada contra o terror – que por si só já é um disparate na medida em que combate “terror com terror” – mostra-se presente em diálogos sutis ou cenas plasticamente perfeitas como, por exemplo, um plano que mostra uma série de caixas brancas, com pertences de soldados mortos em combate. Na ausência dos seus corpos as caixas funcionam como uma espécie de caixão simbólico, sendo os objetos dos soldados os únicos elementos a que as famílias tornarão a ver.

Da mesma forma, um diálogo entre William James e J. T. Sanborn (Anthony Mackie), logo na chegada do sargento ao grupo, nos explica que o acampamento Liberty (liberdade) mudou de nome e agora se chama acampamento Victory (vitória), um nome “mais apropriado” à missão do exército em solo iraquiano. Ou alguém mesmo imaginava que os EUA lutariam pela liberdade do povo do Iraque?

A direção de fotografia da produção, que fica a cargo do inglês Barry Ackroyd (À Procura de Eric), mostra acertada e contundente ao, da mesma forma, ilustrar os elementos simbólicos propostos pela direção. Dessa forma, assim como na guerra ao terror de George W. Bush, onde o inimigo não tem rosto, em momento algum os terroristas – ou inimigos – são mostrados. Eles são focalizados distantes, como sombras ou algo quase inatingível. O clima árido e desértico, bem como a necessidade de adaptação ao meio também são explicitadas de forma brilhante ao longo do filme e, em especial, numa angustiante sequência de combate entre atiradores de elite em pleno deserto.

Crítico em seu posicionamento, belo em sua estética e muitíssimo bem estruturado do ponto de vista técnico, Guerra ao Terror faz justiça a todas as atenções que vem ganhando nos principais prêmios do mundo do cinema bem como ao seu status de um dos melhores filmes do ano. O mérito maior, sem dúvida, é das escolhas de sua diretora que, com uma sensibilidade singular retrata um panorama cruel e realista dos resquícios despóticos deixados por Bush e companhia e que ainda são parte do dia a dia de famílias americanas e iraquianas. Filme para ser apreciado atentamente e, se possível, mais de uma vez.

Confira o trailer de Guerra ao Terror

Nota 9.

 

Crítica – Invictus

1 fevereiro, 2010
20:30

Entre todas as figuras políticas vivas do planeta, talvez o nome de Nelson Mandela seja um dos poucos a reunir em torno de si um apreço e um carisma que beiram a unanimidade. Sua história de vida, como alguém que passou trinta anos na prisão e, quando libertado, foi eleito presidente da África do Sul, por si só, já é argumento mais do que suficiente para o cinema.

Somado a isso conhecemos a luta de Mandela em diversas causas sociais e humanitárias, que renderam a ele diversas menções e condecorações mundo afora além do Prêmio Nobel da Paz em 1993. Assim, basta que a imagem do líder sul-africano surja por alguns minutos na tela para que a empatia do espectador seja completa.

Invictus não se propõe ser um filme biográfico. Acertadamente, a trama volta os olhos para um evento específico, que serve perfeitamente a dois propósitos: o primeiro é mostrar o lado mais pessoal de Mandela, acompanhando parte do seu dia a dia em um período conturbado em que ele acabava de assumir o governo do país; já o segundo é mostrar a maneira de pensar uma presidência, mostrando como uma causa simples e, aparentemente, distante dos interesses de um governo pode ter tanta influência direta no dia a dia da população.

A escolha de Morgan Freeman para interpretar o papel de Mandela é, sem dúvida, óbvia e fundamental para o filme. Primeiro porque Freeman e Mandela parecem ser irmãos gêmeos, tamanha é a semelhança. Outro ponto que leva a crer que ele é a escolha única para o personagem é o estilo de roteiro e os diálogos em si. Freeman coleciona ao longo de sua carreira uma série de papéis onde com poucas palavras, apresenta uma verdadeira lição de vida – ou de inteligência. Em Invictus, cada diálogo de Nelson Mandela parece ter sido concebido como uma aula inspiradora.

O estilo de poucas palavras e que parece dizer tudo apenas com um olhar também é de longa data uma das características do seu diretor, Clint Eastwood. Dessa forma ele fez fama com seus westerns e em Invictus, embora esteja longe de seus melhores trabalhos, Eastwood consegue conduzir de forma segura uma trama comovente sem ser apelativo ou se render com facilidade às trilhas melosas para fazer chorar.

A virilidade, outra característica dos seus personagens, também é bastante destaca na produção, com belas tomadas das partidas de rúgbi. Em alguns momentos têm-se a impressão que uma verdadeira manada de touros está se digladiando cabeça a cabeça. Em outros, a leveza de uma corrida ou a raça demonstrada pela conquista de um ponto ganham a tela de maneira soberba que, mesmo sem conhecer o esporte, é fácil se pegar torcendo por um ponto da equipe sul-africana.

A trama reserva ainda espaço para mostrar como pano de fundo o momento político enfrentado por Mandela em seus primeiros meses de mandato: um país dividido entre brancos e negros, ricos e pobres. Tomando-o como uma figura diferenciada, capaz de perdoar aqueles que o colocaram atrás das grades por 30 anos, Invictus não hesita em apontar as falhas de caráter de brancos e negros, tornando-os iguais diante das circunstâncias de poder.

Conciso, poucos elementos fazem com que o filme erre na dose. O clima constante de tensão, muito bem retratado na subtrama que acompanha o seu grupo de seguranças, contribui para o aumento da expectativa em todas as circunstâncias em que Mandela se expõe em público. Porém isso não impede o diretor de exagerar na dose como ao dar a entender, em uma ótima montagem paralela, que um avião poderia ter sido jogado contra o estádio no dia da grande final. Uma sequência interessante do ponto de vista dramática, mas pouco verossímil em seu desfecho.

Já no clímax do filme o uso de câmera lenta para acentuar os momentos de tensão e criar um clima com uma expectativa ainda maior também passa da medida. Sem o uso do artifício, por si só a condução da partida e o seu desfecho seriam elementos suficientes para cativar o espectador. O uso desmedido de câmera lenta acaba tendo o efeito contrário e, ao final, torna a sequência cansativa e ressalta alguns momentos que poderiam ser editados sem que isso interferisse na condução.

Pode não ser um dos melhores trabalhos de Clint Eastwood na direção. No entanto, em uma filmografia com títulos tão interessantes, é possível afirmar que o diretor mantém-se em uma ótima média e, com Invictus, a situação não é diferente. A produção reúne muito mais pontos positivos do que negativos, apresenta um roteiro coerente e conciso e, de quebra, transmite uma espécie de mensagem que, certamente, irá figurar em muitas palestras motivacionais quando o filme chegar ao mercado de home vídeo. Não é um filme para Oscar, Globo de Ouro ou melhores do ano, mas sem dúvida merece ser visto e analisado tanto pela arte quanto pelo aspecto histórico que apresenta.

Confira o trailer de Invictus

Nota 7.

 

Crítica – O Fada do Dente

27 janeiro, 2010
02:04

É curiosa a maneira como algumas coisas se estabelecem na indústria cinematográfica. Dwayne Johnson, conhecido também como The Rock, definitivamente não é um bom ator. O ex-lutador do circuito World Wrestling Entertainment, no entanto é dono de um carisma invejável, em especial junto ao público norte-americano, que fez com que desde a sua participação no filme O Retorno da Múmia sua carreira como ator deslanchasse.

Saindo das produções de ação e caminho rumo às comédias, Johnson encontrou em si próprio uma maneira de propor um contra-senso ao estereótipo do comediante. Por seu porte avantajado, vê-lo em situações cômicas ou caricatas por si só já soa como algo diferente. Aproveitando-se desse nicho de mercado, explorado anteriormente por Arnold Schwarzenegger e até por Vin Diesel, Dwayne criou um “tipo” e, agarrado a ele, segue fazendo boas bilheterias com seus filmes.

Infelizmente, boas bilheterias não são sinônimo de bons filmes e no caso de O Fada do Dente, culpar Dwayne Johnson pela má qualidade da produção seria um exagero, uma vez que sua atuação – fraquíssima – é o menor dos problemas do filme. Com o roteiro apresentado, a trama conduzida pelo diretor Michael Lembeck (Meu Papai é Noel 2) sem dúvida se transformaria em uma bomba nas mãos de qualquer outro ator.

No filme acompanhamos a história de Dereck Thompson (Dwayne Johnson), um jogador de hóquei no gelo conhecido pela sua força física e que tem o apelido de “fada do dente” por quebrar os dentes dos seus adversários em jogadas truculentas. Totalmente cético com relação a contos de fadas e outras fantasias, Thompson não hesita em destruir os sonhos de quem quer que seja. É quando ele recebe um chamado, do mundo das fadas, seguido de um castigo: terá que passar uma semana agindo como fada do dente até que passe a acreditar que a fantasia realmente existe.

Embora a moral da história já fique clara nos primeiros trinta minutos de filme, e seja extremamente previsível que tudo irá se desenvolver até que de fato ele acredite que as fadas existem e que, manter vivo na memória alguns sonhos não faz mal a ninguém, a maneira como a trama se desenvolve é uma verdadeira decepção.

Embora nitidamente a história tenha um foco no público infantil, é desprezível perceber o quão rasteiros são os diálogos da produção. Toda conversa tende a terminar em uma piada ou um trocadilho infame. Não passa mais que um minuto sem que surja uma piada – ou tentativa de piada, na maioria das vezes – ainda que ela não seja cabível na cena.

Nesse quesito abro um parêntese: a versão que assisti foi a dublada e, nela, muitas das piadas foram claramente adaptadas para a realidade brasileira. Assim você ouvirá termos como “sambarilove” – surgido nos programas de Chico Anysio – e “brilhantes” trocadilhos como “fadarwin” – uma versão de Charles Darwin das fadas para explicar a evolução delas. Embora adaptado, o texto não foge – assim espero – da essência proposta pelo roteiro original, o que transfere o problema inteiramente para a equipe de roteiristas.

Dentre todas as atuações de Dwayne Johnson, talvez aqui seja a pior delas. Se com diálogos um pouco melhores seu desempenho já ficava abaixo do esperado, com um roteiro pobre em mãos o resultado é um desastre completo. Assim Dwayne se limita a fazer caras e bocas e, mesmo quando sua única missão é dar um grito de espanto, a impressão que se tem é que ele está rindo, tamanha é a descaracterização nesse sentido.

Sem acrescentar nada à carreira de nenhum dos envolvidos e, menos ainda, para o espectador, a produção não chega a ser ofensiva em nenhum momento, fugindo de piadas sexistas ou de humor duvidoso e apostando mais na ingenuidade e em situações tolas do que em qualquer outro artifício. Se por um lado enquanto cinema O Fada do Dente é ruim, por outro, enquanto mero entretenimento familiar, o filme consegue provocar alguns risos – ainda que sejam de indignação por trocadilhos tão infames e “divertidos” quanto uma piada contada pela décima vez.

Confira o trailer de O Fada do Dente

Nota 5.

 

Crítica – Amor Sem Escalas

26 janeiro, 2010
02:22

Não importa o quão repetitiva uma ideia possa ser, sempre haverá uma possibilidade de executá-la de uma maneira diferente. E, o que é mais interessante, sempre haverá a possibilidade de encantar e conquistar o espectador ao colocá-lo frente a frente com situações limite, conquistá-lo e depois subverter suas expectativas.

Amor Sem Escalas não se enquadra apenas na categoria drama. É também comédia. É também romance. E nem por isso se perde, ou ainda pior, apela para a mesmice e a repetição característica de histórias do gênero. A ordem aqui é quebrar as expectativas. E isso é conseguido às custas de dois elementos-chave: um roteiro inteligente e atores carismáticos interpretando personagens tão verossímeis quanto eu ou você.

Escrito e dirigido por Jason Reitman (Juno) – assina ainda o roteiro Sheldon Turner (Big Stan – Arrebentando na Prisão), numa adaptação do livro de Walter Kirn – Amor Sem Escalas prenuncia algo de bom já em sua premissa e confirma a suspeita logo na apresentação dos seus personagens.

Na trama acompanhamos o dia a dia de Ryan Bingham (George Clooney), um alto executivo de uma empresa cuja missão não é das mais nobres: ele é o encarregado de demitir pessoas por todo os Estados Unidos, assumindo o papel em empresas que não tem coragem de dispensar seus próprios empregados. Sua vida é no ar. Dos 365 dias do ano, Ryan passa mais de 300 longe de casa. E se orgulha disso.

Consultor motivacional, suas palestras versam sobre o tema da liberdade como ponto de partida para a ousadia. Sem coisas, lugares e pessoas a se prendem, podemos voar mais alto e apostar sem medo de perder. Da mesma forma, Ryan não envolve em relacionamentos sérios – ou compromissos. Tudo se resume a parceiras de encontros casuais e pequenas aventuras.

Sua vida muda por completo quando a jovem psicóloga Natalie Keener (Anna Kendrick) é contratada pela empresa e, de imediato apresenta uma nova proposta: substituir as dispendiosas viagens aéreas para demissões presenciais por demissões online via videoconferência. E é nesse ponto que temos algo especial e diferente.

Embora Ryan, pelo seu perfil frio, metódico e calculista pareça insensível ou egoísta ele é o primeiro a se levantar contra a ideia “insensível” das demissões virtuais. Por outro lado Natalie, de quem poderia se esperar um pouco mais de compaixão mostra-se dura e decidida a seguir adiante com sua ideia. A proposta é colocada à prova em uma viagem sugerida pelo chefe de ambos, para que Ryan, mais velho, possa ensinar a ela os caminhos tortuosos da profissão.

É justamente a viagem que inicia uma jornada de transformação em ambos. Se Ryan por um lado é obrigado a suportar a convivência com outra pessoa, por outro Natalie conhece na prática como seus pré-conceitos e ideias podem soar como meros rótulos sem muito significado. Acostumada a um estilo de vida onde para que tudo fizesse sentido era preciso estar em busca de um ideal, a jovem é apresentada a um outro lado, mais despojado e realista.

Já Ryan, pela primeira vez, alimenta uma relação com uma recém-conhecida. Não Natalie, como seria óbvio numa comédia romântica, mas Alex Goran (Vera Farmiga), uma executiva da sua faixa etária e com um perfil muito similar: muitas viagens a negócios e satisfação por encontros casuais e nada mais.

A afinidade entre o trio impressiona. George Clooney e Vera Farmiga parecem formar um par perfeito. Clooney personifica o estereótipo do homem de negócios elegante, inteligente e irônico, do tipo que espera conquistar qualquer mulher apenas com um sorriso e um drink. Já Vera Farmiga conduz o papel de uma mulher que consegue se impor quando quer, fazendo às coisas à sua maneira, sem deixar de ser feminina ou perder sua sutiliza. Ambos, porém, são mais experientes e, com o currículo que têm não é nenhum espanto o bom desempenho.

A agradável surpresa fica por conta de Anna Kendrick (Lua Nova). Diferente de papéis inexpressivos de produções anteriores, em Amor Sem Escalas sua desenvoltura contribui muito a ponto de ela servir como um contraponto perfeito para o papel de George Clooney. Mais do que isso, sua personagem sofre profundas transformações ao longo da trama e, com muita naturalidade, a atriz conduz essa mudança sem soar forçada em nenhum momento, sendo responsável até mesmo por alguns bons momentos bem humorados.

Com personagens não agindo da maneira como o público espera, teimando em surpreender não de maneira proposital, mas com muita sutileza, o belo trabalho de roteiro ainda apresenta diálogos convincentes e espelha, com muita propriedade, o pensamento cotidiano de grandes corporações bem como a maneira persuasiva que alguns dos seus funcionários desenvolvem para sobreviver no mercado.

O excelente roteiro e as boas atuações são complementados por bons trabalhos de edição e fotografia. O primeiro é utilizado com muita propriedade para ressaltar a “batalha em curso”. A sequencia inicial, com Ryan montando e desmontando sua mala enquanto passa por um aeroporto, se assemelha a um soldado preparando sua arma para o campo de combate. A alusão, nesse caso, é perfeita e a maneira como é ilustrada também. Alguns cortes secos entre sequência de sentidos distintos também contribuem para que o clima denso seja mantido.

Já o trabalho de fotografia – dirigido por Eric Stellberg (500 Dias Com Ela) – da mesma forma é extremamente feliz ao enquadrar momentos de solidão – há uma sequência quase no final do filme, em que Ryan e Nicole são mostrados de costas e apenas a silhueta de ambos se destaca diante de uma parede de vidro que é belíssima; em outro momento, uma Natalie sozinha em uma sala com cadeiras espalhadas por todos os lados indica que ele não pertence àquele lugar – ou ainda de revelação – outra cena com Ryan em um aeroporto diante do painel de destinos de embarque é composta de maneira exemplar, ressaltando a expectativa do personagem. Algumas tomadas aéreas, mostrando as cidades por onde o executivo passa de uma maneira nada convencional servem também para ilustrar o modo com que o personagem vê o mundo.

Em termos de cinema e desenvolvimento de roteiro Amor Sem Escalas é perfeito a ponto de conseguir causar uma quebra na expectativa do espectador tenha ele se colocado no lugar de qualquer um dos três personagens principais. As revelações finais são surpreendentes e acentuam ainda mais a transformação pela qual cada um deles passa.

Sozinho em meio à multidão Ryan Bingham se sente completo e feliz, carregando sobre os ombros uma mala vazia de esperanças. Sua transformação, ao final, se mostra realista e muito mais intimista do que explícita, num desfecho corajoso e, mais uma vez, longe do convencional do cinema hollywoodiano. Nem mesmo a infeliz tradução brasileira do título para Amor Sem Escalas – numa clara tentativa de vendê-lo ao público como comédia romântica – soará como propaganda enganosa. Afinal, se a ideia é surpreender e subverter as expectativas quem for ao cinema esperando uma boa dose de risadas com açúcar terá a oportunidade de saborear uma boa dose de realidade.

Confira o trailer de Amor Sem Escalas

Nota 9.

 

« Página Anterior - Próxima Página »