Selton Mello se consolidou com o um dos maiores atores da nova geração brasileira. Nos últimos anos circulou com muita desenvoltura em sucessos comerciais como Meu Nome Não é Johnny e o Auto da Compadecida e produções mais densas como O Cheiro do Ralo ou Árido Movie.
Em Curitiba para acompanhar a participação no Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino de seu primeiro longa-metragem como diretor, Feliz Natal [com estréia nacional prevista para 21 de novembro], Mello falou da sua estréia na direção. “Me ver diante das câmeras será uma coisa cada vez mais rara a partir de agora”, destacou ele que se diz insatisfeito por não encontrar papéis que possam mostrar o que realmente quer dizer.

Sobre o filme
Faço aniversário no dia 30 de dezembro e meu pai, no dia 25 de dezembro. Então nessa época do ano sempre vivenciei um certo clima de melancolia nas reuniões com a família. A história de Feliz Natal não é de forma alguma, autobiográfica. As situações que acontecem no filme de forma alguma eu vivenciei. São apenas sentimentos que eu gostaria de expressar. Poderia ter dito isso através de uma música ou de um texto, mas escolhi contar isso por meio de um filme. E foi uma boa experiência, me senti muito à vontade com ela. Daqui pra frente me ver diante das câmeras vai ser uma coisa cada vez mais rara. Não tenho encontrado espaço para expressar como ator os sentimentos que gostaria.
A construção do roteiro
Se eu ficasse esperando a construção do roteiro ideal, não iria filmar nunca. Então o que eu e o Marcelo [Marcelo Vindicatto – co-roteirista] desenvolvemos foi uma espécie de esqueleto, que foi bastante alterado pelos atores, por exemplo, e por mim durante as filmagens. Gosto muito da palavra roteiro em espanhol, guión [guia]. Acho que nesse caso ele funcionou exatamente assim, como um guia.
Um ator diretor
Acho que eu fato de eu ser essencialmente um ator me ajudou na direção. Já trabalhei com diretores que tiraram o meu couro, com diretores extremamente técnicos, delicados e com diretores que não tinham a menor idéia do que estavam fazendo. Acho que o diálogo e, acima de tudo, o respeito, são fundamentais nessa relação. Não sou eu quem tem que impor o que determinado ator deve fazer. Prefiro dar espaço que para que cada um possa construir o personagem da melhor maneira possível. Isso fez com que o nosso ambiente de trabalho fosse muito leve, apesar de ser um filme denso. Se alguém estava alguns minutos atrasado, tudo bem. Podíamos filmar outras coisas enquanto isso, sem ficar com essas preocupações.
Referências estéticas e de linguagem
Considero Feliz Natal um filho distante de Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, um filme que além de me influenciar muito, mudou a minha vida. De certa forma os temas abordados são muito similares. Gosto muito também do novo cinema argentino, como o de Lucrecia Martel, e acho há um pouco de tudo isso neste trabalho.
Sobre a expectativa de reação do público
Feliz Natal é um trabalho realizado com muita sinceridade. Não imagino qual será a reação do público diante dele, mas espero que seja positiva. Este o tipo de filme que não acaba no final da sessão. Já recebi e-mails de pessoas que viram o filme e na hora não sabiam o que dizer, mas uma semana depois me escreveram um texto enorme sobre ele. Então espero que as pessoas, de alguma forma, sejam tocadas por ele.