Nesses anos de jornalismo tive a oportunidade de conhecer todo tipo de profissional. Os subservientes, que se limitam seguir as regras do jogo; os carregadores de piano, que se ocupam em trabalhar e fazer a engrenagem funcionar enquanto o jogo acontece; os suicidas, que ousam desafiar as regras do jogo; os persistentes, que insistem em discutir as regras para que se tornem mais justas; os revoltados, que criticam sem argumentos e, quando os tem, não tem coragem de publicá-los. E tantos outros que poderia elencar por vários parágrafos. Os exemplos não se resumem ao jornalismo. Certamente na sua profissão também caberiam como uma luva.
Jornalistas não são melhores, nem piores do que nenhum um outro profissional. Sua influência no dia a dia da população pode ser grande, mas não é maior do que a de um advogado ou de um médico, por exemplo. Sem demérito, de que adianta um jornalista descobrir que uma lei não está sendo cumprida, se há um advogado, ou todo um sistema jurídico por trás, que não está em busca da verdade, mas apenas se presta a provar uma versão? De que adianta um jornalista apontar uma irregularidade na área de saúde, se há um sistema nos bastidores que premia o médico que economiza em uma cirurgia, mesmo que isso signifique uma recuperação mais lenta de um paciente? E de que adianta médicos e advogados agirem de maneira ética e profissional, se a imprensa vira as costas e insiste em se voltar para a mais recente crise histérica da Britney Spears ou para algum novo escândalo envolvendo a Amy Winehouse?
Simon Hunt (Richard Gere) não é nenhum herói, nem tampouco algum tipo de exemplo. Ele é o estereótipo fiel do jornalista que acostumamos a ver nos cinemas. Totalmente despreocupado consigo mesmo, bebendo em excesso, caminhando no limite entre a ética e a ilegalidade, cheio de dívidas e sem oportunidade de levar ao público as verdades que conhece pelo caminho. Deve haver pelo menos uma dezena de filmes em que essa descrição caberia para o personagem “jornalista” retratado no cinema (Aliás aqui cabe algumas perguntas: somos mesmo assim? O que fizemos para que nos vissem dessa maneira? E se não somos assim, como somos?).

Mas há méritos em A Caçada. E, talvez, o maior deles, seja proporcionar essa reflexão dos limites entre a ética e o interesse público, entre a responsabilidade e a total insensatez, entre a vida pessoal e a vida pública, entre a verdade e a mentira, não só da profissão, mas da política e de todo um sistema organizacional de poder que teima em por à prova todos aqueles que pendem para qualquer um dos lados da linha.
Em A Caçada tudo isso é mostrado de maneira simplista, previsível, ingênua até. Mas quem disse que o objetivo é ser levado a sério ou ser fiel a uma história trágica, como a da guerra da Bósnia? E é justamente esse desprendimento, essa certeza de que é mais importante transmitir uma mensagem do que elaborar um roteiro mirabolante, cheio de explosões ou reviravoltas absurdas, é que torna a produção dirigida por Richard Shepard (do também muito bom O Matador) tão agradável e, ao mesmo tempo, tão rica em informações.
Regras são transgredidas em prol de um interesse público, de um público que não está interessado em mudar seus próprios valores, que são ditados e coagidos por organismos de poder tão corrompidos que fica difícil perceber quem são mesmo os caras malvados. Eximir o público e a mídia da alimentação deste círculo vicioso é tão improvável quanto separar os dois lados de uma moeda.
Mas enquanto o jornalismo ficar reduzido a anexo de departamentos comerciais, órgão oficial de grandes corporações ou mera opção de entretenimento na TV, em nenhum momento “o fato em primeiro lugar” será respeitado. Pois no show business apenas uma regra é seguida à risca: “o show tem que continuar”, custe o que custar.
Não espero que o jornalismo sirva apenas para apontar mocinhos ou bandidos, ou se torne mero reflexo dos fatos que presencia no dia a dia. Até porque mocinhos ou bandidos não existem e os fatos nos mostram que mesmo o pior dos caracteres é capaz de rompantes de bondade de fazer Madre Teresa de Calcutá sorrir de alegria. Onde quero chegar com tudo isso então?
Se você em sua leitura chegou até esse último parágrafo espero que possa aproveitar algo de útil dos oito parágrafos anteriores. Que você ao menos possa refletir sobre o assunto e, quem sabe, quando estiver outra vez diante de um limite você possa decidir por escolher o lado certo. Ainda que ele pareça certo apenas para o seu coração. Afinal, é sempre muito mais fácil julgar qualquer decisão tomada do que encarar qualquer novo caminho quando não se conhece o seu final.
Nota 8,0