O RESTAURANTE NO FIM DO PARANÁ

22 março, 2017 às 17:27  |  por Elaine de Lemos
11

Foto: blog Londrina Baixa Gastronomia

“De Jacarezinho a Pato Branco, de Foz a Paranaguá…”, trecho do jingle da campanha do Jaime Lerner para governador. E era isso que a gente fazia, igual um bando de malucos: cruzava o Estado de cabo a rabo. Tive várias outras oportunidades de viajar pelo Paraná, em campanha, fazendo eventos pelo cerimonial em 3 gestões, ou produzindo ações promocionais não governamentais. A minha eterna pergunta era: onde vamos jantar? Pouco esganifada, mas vá lá, ainda acho que é o melhor jeito de conhecer a cultura de um local.

Nem todos nas diversas equipes de viagem – de motoristas à equipe jornalística, cerimonial, polícia militar, monitores, recepcionistas, enfim, de um tudo- tem o mesmo interesse pela comida. Seja porque não querem gastar ou não estão na vibe de socializar depois de 600 km rodados. Cansei de ir sozinha, não me arrependo. Na verdade, falta de companhia para jantar nunca foi um impedimento. De lá para cá muito deve ter mudado pelo interior, porém fiquei bem feliz,  fazendo uma mini pesquisa, vi que os lugares que eu adorava ainda estão lá! E, gente, tem muita coisa boa além das paradas de beira de estrada. Falando nelas, na volta de Cascavel:

acougue-500-71-2-detalheacougue-500-71-8-detalhe

Açougue e  Posto 500. Antes era um pequeno açougue sempre cheio, hoje em dia um supermercado. Eles tem a melhor cracóvia do Universo, nem Prudentópolis ganha deles. Tá, talvez a Cracóvia ganhe, mas só.  A Anila no caminho para Irati é outra que triplicou de tamanho, com direito a hotel e posto de gasolina, os valores também engordaram, mas os queijos e fiambres valem a parada. Por último mas não menos importante na beira da estrada, a salada de frutas gelada do Castelinho 100 km antes de chegar em  Foz do Iguaçu. Parada obrigatória.

Quando em Francisco Beltrão, não deixe de ir no KasaNostra, com cara de castelinho medieval e aquele brodo de agnolini que só o sudoeste gaudério sabe produzir.

03

Londrina?

blog Londrina Baixa Gastronomia

blog Londrina Baixa Gastronomia

Restaurante Rodeio, uma cruza de Bar Palácio com Nonna Giovanna, ali na esquina do Hotel Bourbon. Desde 1966, o filet à parmeggiana impera, mas também tem Steak Diana, ou seja, o lugar é um clássico pé vermelho imperdível.

casa-portuguesa-com-certeza

Se você for a Maringá e não comer uma vez na vida na Casa Portuguesa com Certeza, volte duas casas! De longe um dos melhores portugueses que ja tive a oportunidade de ir. Uma vez tentei comprar os doces do balcão para viagem, o dono não me deixou, disse” só posso lhe vender um. Se a minha senhora vê este balcão vazio, ela corre a fazer mais, e com esse problema na lombar…” Portugueses e seus raciocínios… A picanha do Casarão também costumava ser famosa. E boa.

cantina-di-colli-2

Campo Mourão tem o melhor restaurante estilo Santa Felicidade fora dela, um rodízio de massas com nome de bactéria: Cantina di Colli. Spaguetti aglioglio mandatório. E, lógico, durante as festividades na cidade o tal Carneiro no Buraco realmente vale o quanto pesa.

Paranavaí além do calor senegalesco, oferece a rara oportunidade de comer num restaurante alemão de alto nível, o Mein Haus, com filet suíno curado e defumado na casa e purê de maçã como acompanhamento. Deus é alemão! Nunca foi barato, porém.

De Umuarama lembro do Choppatinhas ( como esquecer ?) com chopp geladíssimo ao lado do hotel e aquelas porções de linguiça com aipim tamanho “Pedro e Bino”.

Em Cascavel a churrascaria Portal sempre teve como diferencial um farto buffet de saladas com uma preparadora que serve o que vc escolher cortadinho na hora, ideia boa, não? Chegando em Foz do Iguaçu,  já não tem mais o Antonio Maria, nesse caso minha sugestão é: ande mais um pouco, atravesse a fronteira e vá no ” El Quincho del Tio Querido”. No fim das contas o Restaurante no fim do Paraná fica na Argentina. Aproveite e me traga um saco de HARINA 0000, melhor para massas e pizzas no Brasil, não há. Por hoje é só pessoal!

P.S. Dedico este texto ao incomensurável Valter Chagas, mestre de cerimônias que é a voz do Paraná, grande companheiro de estrada!

 

 

Brot Frit: em busca do mingau perdido.

6 março, 2017 às 11:37  |  por Elaine de Lemos

POLENTINAMinha avó, Dona Barberina, e posteriormente minha mãe ( VJ-Véia Joanita para os íntimos), costumavam fazer um mingau de farinha de trigo com manteiga, água e sal. Algo entre molho bechamel e cola para cartaz de rua. Aquilo era um santo remédio para estômagos fracos, dores de barriga, gripe, mal estar, bronca de pai, praticamente a Maravilha Curativa do Dr.Humpfreys em forma de mingau. Brot Frit era o nome, meio ítalo-germânico, pelo jeito. Acontece que, para ter direito ao dito, a gente tinha que estar doente, senão, como diria o Soup Nazi do Seinfeld : no Brot Frit for you! Eu até hoje faço, como e posso atestar que cura inclusive mal de alma. Tentei levar a tradição adiante com os meus sobrinhos, não emplacou… Mas como eu estava determinada a ser  a ” tia-gente-boa-que-faz-aquela-comida-que-nunca-nos -esqueceremos”, improvisei  um mingauzão de Polentina com leite e manteiga no microondas. Bingo! Dois foram fisgados.

No fundo todos temos alguma memória da comida da infância que conforta, consola e alegra.

Para uma das minhas irmãs, por exemplo, não é o tal mingau e sim o abacate da casa da avó, recém colhido, aberto na hora e servido com açúcar e limão. Para mim ainda merece uma menção honrosa   a  aguinha do arroz borbulhante com alho que cozinhava na hora do almoço, quando chegávamos varados de fome do colégio.

Saindo do âmbito familiar, resolvi fazer uma pesquisinha básica  a respeito. Aqui está:

Foca Cruz(artista plástico)-euuu

” Desde que a família Cruz de mudou para Paranaguá, Dona Araci, com seus 5 filhos e somados todos os agregados, parentes e amigos tranformavam a casa numa espécie de clube da cidade. Dentre várias soluções práticas para alimentar essa tropa uma delas era minha favorita: grandes travessas de arroz com carne picada e molho de tomate por cima. Embaixo de tudo banana da terra frita cortada na longitudinal, ou, como dizem por lá:  de comprido, nunca de fianco. Como toda mãe amorosa que sabe do imaginário-afetivo dos filhos, sempre que ela quer me fazer um agrado, é esse o prato!”

Giselle Hishida (jornalista) – hishida” Sopa de fubá com alho e ovo inteiro no fundo; o macarrão caseiro da minha mãe;  bolinho de chuva com banana da minha avó. Entrada, prato principal e sobremesa!”

Rodrigo Barros Del Rei (músico) – rodrigão” Pão com leite condensado e nescau, preparados pela avó(mãe ou empregada não vale!). E pasta de dente escondida embaixo da cama… A fome vai por caminhos insondáveis.”

Marina Fontoura (terapeuta holística) -received_10212350013733853” Banana da terra fritinha com açúcar e canela, feita pela avó. Tanto em Curitiba, quanto em Castro, nas férias.”

Fernanda Pacheco Pereira (assessora técnica em comunicação e marketing)-IMG-20170302-WA0002 “Polenta amarela com miúdos, pé e pescoço de galinha. No dia seguinte raspávamos a panela de polenta para comer no café da manhã com açúcar  e leite quente.”

Ruy Machado Filho (chef de cozinha)-

Ruy Machado Filho

Ruy Machado Filho

” Passei parte de minha infância me deliciando com mingaus de maizena, de arroz e de farinha láctea, polvilhados com canela, feitos por minha mãe. Mais tarde, passei a sonhar com um belo bife a cavalo, daqueles de restaurante…”

Levir Culpi (técnico de futebol)-LEVIR “Maionese com batata, macarronada caseira e carne de panela feita pela minha mãe aos domingos.”

 

Este texto é dedicado à minha sobrinholândia: Alessandro, Rebeca, Otaviano, João Alberto e a binacional Maria Clara (esta ainda há de pegar gosto pelo brot frit!)

 

 

ELEGIA À SOPA FRIA

23 fevereiro, 2017 às 14:59  |  por Elaine de Lemos

Texto publicado originalmente no site Rêve de Mode.

Lembra daquele verão de 2014 em Curitiba, que fez Paranaguá parecer uma cidade fresca? Vai ser assim quando a gente lembrar desses dias de calor senegalesco. Hell’s Kitchen e Bangu já estão perdendo em graus para nós …

E comer o quê com esse calor ? Frio, tudo frio. E que venham os rosbifes, caponatas, galantines, cocktails de camarão, carpaccios, saladas de frutas e sorvetes… Tenho até vontade de comer salada. Mas o bom mesmo, pra mim, são as sopas frias e os bons drinks gelados (inclusive café, gelado na coqueteleira com nata batida). As duas sopas mais balsâmicas que conheço para esses dias de “Mad Max além da Cúpula do Trovão” são a Vichyssoise (agora também em versão vegana, pra quem é seguidor), e o bom e velho Gazpacho; desde o “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos” ele entrou pro meu repertório culinário e de lá não sai, só não ponho os morfidales da Carmen Maura, ainda…

Apresento então as minhas versões, baseadas em sopas reais.

A Vichyssoise, mais francesa que a Brigitte Bardot;

Ingredientes:

3 batatas médias descascadas e cortadas em cubos;
3 talos de alho-poró (não é aipo!), só a parte branca, picados;
1 cebola picada;
1,5 l de caldo de galinha (se for usar cubos knorr, nunca mais fale comigo…);
3 colheres de sopa de manteiga e 1 de azeite de oliva;
1/2 xícara de chá de creme de mesa fresco;

1 fio de molho pesto (esse até pode ser do tipo Hemmer de vidrinho).

Preparo:

Derreta a manteiga com o azeite, refogue a cebola, o alho-poró, adicione a batata, depois de 10 minutos coloque o caldo quente e deixe em fogo baixo por mais 20 minutos. Atire tudo no liquidificador e deixe até formar um creme. Adicione o creme de mesa e ponha para gelar. Na hora de servir, decore com cebolinha micro picada e um fio de pesto, voilá!

Gazpacho al borde de un ataque de nervios;

Ingredientes:

2 kg de tomates italianos muito maduros;

1 dente de alho médio;

Vinagre de vinho tinto (+ ou – 4 colheres de sopa);

Azeite de oliva (+ ou – 6 colheres de sopa);

Pimenta tabasco e pimenta do reino;

Sal (se for daqueles caros, fica melhor…);

1 pimentão amarelo picado;

1 pimentão verde picado;

1 cebola branca picada;

2 pepinos, tipo japonês, picados;

3 pães franceses fritos na manteiga com alho picados (croutons);

Preparo:

No liquidificador, bata os tomates com casca junto com o alho, tempere com o azeite, o vinagre, a pimenta e o sal. Coe tudo e ponha pra gelar. Separe os outros ingredientes em tigelinhas e ponha na mesa pra tigrada se servir! Observação muito importante: eu sei que os espanhóis misturam tudo no processador, tem gente que põe até maionese, mas o meu é assim. Salut i força al canut!

 

MEU PECADO PREDILETO

26 janeiro, 2017 às 11:43  |  por Elaine de Lemos

banqueteSão 7 os pecados capitais ,certo?

Gula;

Luxúria;

Vaidade;

Soberba;

Inveja;

Ira;

Avareza.

Dia 26 de janeiro alguém definiu ser o dia da Gula. Desde sempre meu mais amado e querido de todos. Tenho certeza que assim que eu chegar no purgatório, o elevador vai me levar direto pro subsolo por conta desse aí.

Mas afinal, como definir gula? Como não sou boa em dissertações, vou na já clássica listinha :

Gula dos Reis – gota .

Gula Hipster-larica.

Gula com culpa- bulimia.

Gula sem culpa – Gordura.

O rei dos ingredientes da gula-bacon .

Os vice – reis dos ingredientes da gula – manteiga e creme de leite.

Gula com Sal – hipertensão.

Gula Vegana – “evoulída”, porém sem graça.

Gula intolerante – sem lactose .

Gula por compensação imediata – uma bela visita com cartão de crédito sem limites ao Mercado Municipal .

Gula Permissiva- um belo de um jantar no Ile de France .

Gula Pernóstica- uma harmonização de espuma de sapo com foie de Whatever acompanhada de Chateau Mouton Cadet Pêra Manca

Gula Romana – banquetes de porcos recheados com frangos recheados com codornas ,comidos com as mãos

Gula dos Médici – você janta e a pobrada só assiste .

Gula Renascentista – com garfo.

Gula Napoleônica – piéces montés de Carême .

Gula de Domingo – Pizza.

Gula de Sábado – Feijoada.

Gula de Praia – Camarão frito à milanesa.

Essa lista nunca vai terminar antes de acabar com a saúde e o bolso da gente. E viva a auto indulgência decadente da Gula !

Hoje pode tudo,turma!!

(PUBLICADO ORIGINALMENTE NO BLOG RÊVE DE MODE)

MEU TIO JOÃO ALBERTO E O PIZZICATO.

13 janeiro, 2017 às 15:52  |  por Elaine de Lemos
forno à lenha, com orgulho.

O forno à lenha, com orgulho.

Os eternos Gilson e José.

Os eternos Gilson e José.

Duas gerações dos Nicolella

Duas gerações dos Nicolella

Dr,João Alberto Leschkau. Meu tio.

Dr.João Alberto Leschkau. Meu tio.

“ Olho pro céu e vejo o Atlético jogando bola…Olho pro Inferno e vejo o Coritiba pedindo esmola, Jesus Cristo”… e foi assim que aprendi a primeira de centenas de musiquinhas da rixa mais clássica da cidade. Jaime  Lerner x Requião são fichinha perto de qualquer Atletiba que se preze.

Pois bem, este era meu tio, Dr. João Alberto Leschkau. Irmão caçula da digníssima genitora Joanita, advogado por profissão e diplomata e relações públicas por vocação. Todos s seus clientes eram de uma fidelidade daquelas que passa de uma geração para outra. Assim era o seu compromisso e parceria com todos , como diria Gardel:”el tiempo viejo que lloro e que nunca volvera…”. Tempos de fio do bigode, não de barbearia hipster.

Dentre as boas lembranças e coisas bacanas que meu tio me ensinou (e olha que Trétis é Trétis), tem o Pizzicato, passei minha infância ouvindo falar de tudo de lá. Novamente, clientes que se transformaram em amigos e parceiros.

PIZZICATO: A ORIGEM DO CALZONE.

 

Se existem estabelecimentos que merecem louros, elogios e principalmente, a frequência da clientela, são lugares como o Pizzicato.

Fundado por Aurelio Nicolella e sua esposa Carolina em 1971. Ela, responsável pelo molho de tomate mais secreto que senha do 007. A receita veio com dona Carolina desde Nápoles, nos anos 50, quando o casal imigrou para o Brasil e eventualmente, sentaram praça em Curitiba.

O Pizzicato foi a segunda pizzaria em Curitiba com forno à lenha. A primeira também foi do Seu Aurélio.

Hoje em dia , o negócio é tocado pelos filhos, primos e neto. O fato de que todos se chamam ou Gennaro, ou Rafael ou Danielle faz a gente se sentir um pouco dentro da história do “Cem anos de solidão”, onde todas as gerações carregam o mesmo nome.

Voltando ao molho : entrei na cozinha, escoltada pelos simpaticíssimos garçons Gilson(36 anos de casa, tricampeão da corrida dos garçons na Rua XV) e José(40 anos de casa, precisa mais pra imaginar a importância da criatura no lugar?).

Tentei em vão descobrir a receita centenária com as cozinheiras Solange, Janete e Helena. Mas achei que era melhor sair da cozinha ignorante porém, viva (trilha sonora sugerida: THE GODFATHER).

O Pizzicato é daquelas cantinas que tem pratos já que há tempos estão fora do cardápio”mas é só pedir que a gente faz”, como o ragu de carneiro, alegria dos sábados do Dr.Marcos Kleiner. Ou aquele calzone que só meu primo acerta pedir(com o tal molho dentro). Esta deveria entrar em definitivo para o cardápio.

Preços honestíssimos, massa caseira, o mesmo sabor há 45 anos, que mais se pode querer?

Fillet parmiggina/Pizzas/Maltagliatti com tomate, posta e ricota(dos Deuses). E tem sopa de Capeletti, minha gente!

 

Moral da história Nº1: Viva meu Tio João Alberto!

Moral da história nº2: quando você, caro amigo leitor, tiver vontade ou oportunidade de ir numa cantina italiana, comer uma pizza, massa, enfim, que tal uma volta às raízes que fizeram desta cidade o que ela é?

Seu Aurelio e Dona Carolina: a origem da série

Seu Aurelio e Dona Carolina: a origem da série

P.S.: O Pizzicato atende torcedores de todos os times, a questão do Tretis é da minha família, não do restaurante. E claro, este texto é dedicado para a minha tia Regina e primos Luiz Alberto e Luciana.

Pizzicato Pizzaria

Endereço: Av. Silva Jardim, 1121 – Rebouças, Curitiba – PR, 80230-000
Aberto hoje das 18:30 às 23:30h

 

 

BRANDADE DE BACALHAU “NA MINHA COZINHA MANDO EU”.

12 dezembro, 2016 às 12:32  |  por Elaine de Lemos
Brandade de Bacalhau

Brandade de Bacalhau

Qual cozinheiro diletante nunca se deparou, entre pré preparos e cocções, com a amigável participação dos comensais sob a forma de sugestões, palpites,etc.  O famoso: eu se fosse você… Ou então: por que você não coloca os tomates no forno, seca, tira a pele e a semente, acrescenta tomilho, orégano, deixa uma hora e depois centrifuga?

A verdade é que na cozinha (mesmo na versão lúdica) existe um momento onde a atividade tem que passar a ter um só cacique, no caso o dono da casa, ou a pessoa que passou o cartão na hora das compras, enfim: o dono da bola, da trave e do campinho.

E quando o palpite procede? O que fazer quando a sugestão é boa?  Meu “causo” mais clássico foi quando, pela segunda vez na vida, estava fazendo a tal Brandade de Bacalhau e a amiga incauta me avisou: chega de creme de leite! Depois disso , só lembro de enxergar tudo preto, a raiva tomou conta. O pior é que ela tinha razão, mas sabe como é, pessoas morreram por muito menos que isso…

De lá para cá, fiquei mais velha, mais experiente e menos sujeita a ataques de fúria. Há um bom tempo, sempre que troco serviços gastronômicos por $, o chef Ruy Machado Filho está na escalação como atacante. Esta colaboração tem sido um privilégio e, acima de tudo, um grande aprendizado. Por conta dele mudei o mantra “mando eu ” para “manda quem  sabe, obedece quem quer aprender”.

Ruy Machado Filho

Ruy Machado Filho

No episódio de hoje amiguinhos, vou ensinar a minha receita de Brandade de Bacalhau. Não a certa, não a francesa, não a do Bourdain.  A minha.

VOCÊ VAI PRECISAR DE:

1,5 kg de batatas asterix (a rosa);

1,5 kg do melhor bacalhau que você puder adquirir. Sim, é para desfiar, mas do meio lombo para o ” tipo bacalhau” são léguas em qualidade;

2 cebolas grandes micropicadas;

Tomilho e sávia frescos picados, noz moscada e pimenta do reino (ao gosto do freguês);

2 dentes de alho esmagadaos (depois você pesca lá dentro);

150 gr de manteiga sem sal;

1 pote e meio grandes  de creme de mesa fresco (gosto não se discute);

COMO FAZER:

Refogue a cebola com o alho, na manteiga e um pouco de azeite, pesque o alho (já deu);

Acrescente o bacalhau desfiado, a batata em purê, o creme de mesa, corrija a pimenta, o sal e noz moscada;

Coloque em potinhos refratários, cubra com farinha de rosca e (disparo final do colesterol) pedacinhos de manteiga,leve ao forno, de preferência com gratinador por cima , doure e seja feliz!

Serve 14 amigos sem intolerância à lactose como entrada ou 6 pratos principais .

P.S.: Este texto é dedicado às amigas  Jaqueline Carvalho, que por uma brandade quase morreu assassinada, Cristiane Mocellin, quem primeiro encomendou a brandade para mim, e à Daniela Garcia, grande companheira dentro e fora da cozinha!

Todos os punks e piratas estão na cozinha!

30 novembro, 2016 às 20:34  |  por Elaine de Lemos

DSC02861Uma das 157  cenas que eu mais amo no Ratatouille é aquela onde a souschef fala para o novato Linguini:”você está vendo aquele açougueiro ali? Dizem que matou um homem usando apenas o dedão esquerdo!”. O ambiente da cozinha  profissional  carrega consigo esta mística. Lar para os desajustados, ordem para os desorientados, sentimento de pertencer, tudo isso com um pé na malandragem (observações de uma diletante apaixonada).

E sai pra lá  masterchef-top-molecular-escabeche-de-formiga-em-leito-de-missô-desconstruído! Estamos falando da verdadeira cozinha, do porão de navio, dos 50 graus de calor intermitente, de garçons gritando pedidos enquanto você é atropelado por algum colega que passa por você com panelas fervendo e dizendo” Quente,quente! Frente! Trás! Sai daí!”. Estamos falando de cortes profundos, cicatrizes e queimaduras. Punks, piratas, misfits que se reinventaram através da cozinha. São eles que merecem o meu registro hoje. Em Curitiba existe toda uma turma que migrou direto do 92 graus, Bar do China ou similar para as cozinhas profissionais. Segue uma lista básica dos meliantes.

Chef Eva dos SantosDSC02866DSC02873A Eva começou sua prolífica carreira de chef no Bar do China (antes de Sheena, era China mesmo, o saudoso Vicente Meneghetti Jr). Primeira criação gastronômica: frango desfiado com milho, molho branco e batata palha (quem frequentava e comeu, não esquece). Depois disso ela foi a primeira souschef mulher do Restaurante Boulevard, do grande Celso Freire, e já ha alguns anos e muitos prêmios acumulados pilota os fogões do mais que reconhecido Bar do Victor. We have a Winner, minha gente!

Chef Germano Diedrichs : ex-Cervejas, ex-Frantic Flinstones  (tá bom já,né?), atual cozinheiro do Armazém Português, na Moises Marcondes.IMG_0919 IMG_0920

Chef Flávio Fardado. IMG_1121 IMG_1119

Este auto didata começou logo na infância como auxiliar de cozinha da guarda mirim, e assim foi se virando e aprendendo, indo na Biblioteca Pública,  no Mercado Municipal, trabalhando como assistente e depois chef já nos anos 90. Vocalista da banda Malkriados. Atualmente chef do Tuba’s Bar, no largo da Ordem.

Gerson Jourdani.

Image-1(1)Image-1(2)Nosso amigo punk de alma aqui frequentou todo e qualquer boteco que se possa imaginar dos anos 80, e era por assim dizer amigo da turma que deu origem à série do movimento em Curitiba. Hoje em dia ,ele é o bem sucedido proprietário do CurrytibaWurst, nas melhores feiras gastronômicas da cidade, por exemplo Praça da Ucrânia e Batel.

Gláucio Chemin.

Image-1(3)Image-1(4)Dá para dizer que já fez de um tudo e já foi de um tudo, inclusive punk. E faz de tudo na cozinha hoje em dia.

Last , but not least, menção mais que honrosa ao Chef Flavio Frenkelque sempre deu guarida em seu staff para stray cats, desviados de rota e amigos das antigas que se voltaram para a cozinha.

Maringas Maciel-8072

Maringas Maciel-8080Maringas Maciel-8085

Ahoy,piratas, o Fogão lhes pertence!!

Sobre comida mexicana de rua, tabus e emancipação. (por Karina Kuster)

13 novembro, 2016 às 21:02  |  por Elaine de Lemos

Texto da nossa correspondente internacional, Karina Kuster. Dá-lhe Karina!!!

Sempre quis ir ao México no dia dos mortos. O passado indígena glorioso, a sabedoria ancestral e a forma totalmente diferente de encarar a morte são fascinantes. Chegou a hora, convidei várias pessoas para irem junto (inclusive D. Minhoca) mas ninguém podia/queria.Comprei as passagens e decidi ir sozinha.Aí me deparei com o meu tabu particular: sentar sozinha nos restaurantes para comer. Fácil, vou comer só comida de rua, pensei. É mais barato, economiza tempo e o México tem tanta variedade de comidas diferentes que não vai dar pra repetir prato. Minha experiência Antony Bourdain particular.Primeira coisa que comi lá foram os churros. Sou a herege que nunca viu graça no Chaves, mas tinha vontade de provar só por ele. Os tradicionais são bem fininhos, compridos e não são recheados. Quase um bolinho de chuva. É gostoso, mas prefiro os brasileiros. Chaves não sabia o que era bom. 15045255_1219039984829364_1303955409_oAté aí tudo bem. Confort food. Tanto como os primeiros sanduíches, que além dos recheios tradicionais, vinham com abacate. Pão com abacate é algo a se adotar para a vida.

De repente, vieram os choques. Chicharrón, um torresmão que me parecia ter 1 m2 em algumas versões.
15007946_1219041211495908_1088494532_o
Minhas coronárias não tiveram coragem e só tirei foto. Diz que é salgaaaaado e que vai muito bem se quebradinho nas sopas. Pra apaziguar a fome e refrescar, preferi um copinho de frutas picadinhas, que tem em todo lugar. São uma delícia e vêm com pimenta. Ainda estava jacuzona no começo.

No decorrer da viagem a ousadia foi crescendo. Lembro da primeira vez que ofereceram Chapolins, numa fila de museu. Achei quase ofensivo, agressivo. Até tomar coragem dias depois. Provei um e me veio um gosto familiar, minha mãe diz que quando pequena, era dada a comer tatu bolinha. Tem gosto de inseto, minha memória afetiva não mente. Mas é tão temperadinho, crocante. Trocaria hoje qualquer amendoim japonês por eles.15034387_1219043228162373_306383859_o (1)
Outra coisa que me impressionou é a habilidade desse povo com queijo. Queijólatra confessa, não fazia a ideia do queso oxaquenho. Ele vem numas bolotonas grandes em casas que só vendem isso.15044809_1219044448162251_2095601671_o

Mas para peticar, dá pra retirar fios dele. Quase como o nosso nozinho, mas diferente. Mais branquinho, mais gosto de leite.

E quando é pra fazer preparados, vale o queijo fundido. Marinado com molho e outras coisas que você preferir: cogumelo, frango, chorizo… Queijo puro derretido, o Céu deve ser feito disso.15053232_1219047624828600_1728098922_o

Também quis ver qual é dos tacos autênticos e me surpreendi com a variedade. Um nunca igual ao outro. Os mais gostoso não eram dobradinhos, mas retos, crocante, e recheados até o talo.15034359_1219048558161840_1137794631_o

Outra coisa que ficou no coração: marquesitas.. Uma casquinha crocante, levemente docinha e feita na chapa, na hora. Como quase tudo no México, você pode rechear com qualquer coisa doce ou salgada. A minha veio com queijo, o contraste doce/salgado me levou para a morada de Tlaloc.15045520_1219049721495057_297537201_o (1)

E assim foi entre tamales, tortillas, mezcal (que desce macio, mas faz tóin – by Minhoca), nopal, mole negro (e nunca imaginaria que chocolate combinasse tanto com frango).15053445_1219050191495010_1219519761_o
Até que no último dia, quis provar uma comida não só mexicana, mas autenticamente maia. Escolhi Conchinita Pibil. Um marinado rico, cozido na folha de bananeira, servido com muito tempero, cebola roxa, tortillas de milho, frijoles e uma pimentinha.15008102_1219050751494954_65905022_o

Sentei num restaurante, sozinha, dona do meu mundo, livre do tabu e fiquei horas ali, curtindo a minha própria individualidade, com a benção os deuses maias.

Costelão Bacacheri, ou: como pagar taxistas em costela.

10 novembro, 2016 às 16:14  |  por Elaine de Lemos
foto Daniel Grizza

foto Daniel Grizza

Neste  ano o guerreiro Costelão do Bacacha (para os íntimos) completa 13 anos de funcionamento. E bem vividos! Esses dias voltei lá por pura saudade, não só da carne, mas também das madrugadas que invariavelmente terminavam lá. Que me perdoe o Gato Preto, outro grande, mas o Bacacha de madrugada, além do churrasco bom a preços honestos, também tem seu quinhão de profissionais de futebol em ascensão ou decadência, acompanhados de moças que não sentem frio, policias civis à paisana (pleonasmo, não?) e outras tantas figuras ímpares. Me incluo nessa lista, afinal, até onde eu sei, sou a única pessoa que faz escambo da corrida do táxi até lá por costela e maionese; acho que nesses tempos de Uber isso não cola mais.

Seu Flávio (o senhorzinho do caixa que dá pirulito mas sorriso não) pode atestar por mim nessas madrugadas. Algumas vezes fiz o ritual sozinha e nunca tive  problema de nenhum tipo de assédio ( já os outros clientes…tadinhos). Em verdade,o Bacacha acaba sendo mais democrático que seu avô Bar Palácio, o qual durante muitos anos não atendia clientes do sexo feminino desacompanhadas. Outros tempos, afinal “o mundo gira, a Lusitana roda”. Sem contar que a nobre churracascaria é verdadeiramente 24 horas: na Av. Prefeito Erasto Gaertner, 26, você sempre pode assistir ao espetáculo de costelas bailando naquela vitrine (vegetarianos e veganos: fujam!) de um alvorecer ao outro.

Este post é dedicado ao jornalista Rodrigo Morosini, grande companheiro de manhãs, tardes e madrugadas no Bacacha e fora dele!IMG_1031(1)

Endereço: Av. Pref. Erasto Gaertner, 26 – Bacacheri, Curitiba – PR

Horário: aberto diariamente 24 horas

14º Festa Latino Americana: meu sangue latino…

8 outubro, 2016 às 04:54  |  por Elaine de Lemos

14199394_10210483571951665_5973132028277943145_nQuando era meninota, parafraseando  Helena Kolody, meu sonho era ingressar na brilhante e promissora carreira das artes. Primeira tentativa: aulas de baixo.Namorei o professor e hoje em dia não toco nem “Smoke on the Water”. Segunda tentativa, bem mais frutífera: Solar do Barão, 1982.Grupo de zampoñas de Curitiba: 35 hippies de boutique(eu), equatorianos (Pancho Pinsag), filhos de nisseis parnanguaras(Edna, que veio a casar com o Pancho), estudantes de arquitetura, filosofia, jornalismo, geologia, teatro, etc. Todos sob a talentosa e dedicada batuta de Fredy Estupiñan Carranza, peruano, grande músico e grande professor de tudo. Enfim, era o paraíso na Terra. Definitivamente não para a minha família, que teve que aturar os excruciantes ensaios solitários em casa de “Ojos Azules”,”El Condor Pasa”, enfim, todo o cancioneiro latino que eu conseguia ou não executar.professor Fredy  Estupiñan Carranza, Edna ,eu . Alvaro

O grupo se apresentou no Teatro Guaíra, e também tocamos no histórico comício da Diretas já! Sim, entre José Richa e Tancredo Neves, nosotros!!! Frequentei muito a feirinha para tocar com a turma aos domingos (tá bom, nunca mais reclamo do Plá!).

Desde então, desenvolvi um amor mais forte e duradouro pela cultura latino americana que o do Galeano( vem ne mim, Veias Abertas da America Latina!). Viajei a trabalho para a Bolívia, uma experiência por demais enriquecedora, onde pude ver de perto tanto a cultura, quanto o sofrimento dessa gente.

Há 14 anos , as várias etnias latino americanas residentes em Curitiba , abraçadas e apoiadas pela Pastoral do Imigrante, organizam a Festa Latino Americana. Includente, simpática, com toda aquela verve latina.  Tem de “um tudo” : vinhos argentinos com choripán (pão com linguiça beeeem temperada), ceviche peruano, e meu predileto ever: o anticucho (espeto de coração de boi. No dia que a senhorinha que faz não aparecer mais lá, vou entrar em depressão), sopa paraguaia(que é uma torta salgada), alfajores, tacos, burritos, tamales venezuelanos,salteñas bolivianas, picarones de batata doce… é muita comida boa! O combo de Gastronomia, Cultura , Música e Dança é matador.

Nos últimos 3 anos as trincheiras receberam reforços dos nossos mais novos concidadãos, os haitianos animadézimos (sem comntar que o francês que eles falam é bem melhor que o nosso…). Como o padre Agler está assoberbado de trabalho, pedi um alô do multifuncional Chef Peruano Fernando Matsushita, proprietário do Peruano Bistrô e um dos organizadores desta edição da festa:

“Este é o décimo quarto ano que se realiza a festa latino americana, organizada pela Pastoral do Imigrante de Santa Felicidade. A cada ano tentamos aprimorar mais, oferecer melhores produtos e espetáculos.  Desta vez a ala gastronômica contará com a participação de: Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Haiti, México Paraguai, Peru e Uruguai. Todos com os mais representativos pratos de sua culinária, feita tanto por mãos profissionais quanto por amas de casa naturais de cada país.”

Já escrevi sobre esta festa antes, mas agora escrevo ANTES DA FESTA, para que assim a turma tenha a chance de vivenciar in loco toda essa diversão.

Para quem possa ter outro tipo de raciocínio e relação aos imigrantes, seja de primeira , segunda ou décima quinta geração, só lembrem: nossos bisavós e avós chegaram nesta terra com mesma esperança de um lugar melhor e mais justo para sua família crescer, prosperar e viver com mais qualidade.

“TODAS LAS VOCES, TODAS! TODAS LAS MANOS ,TODAS!”                                                                   l