Todos os punks e piratas estão na cozinha!

30 novembro, 2016 às 20:34  |  por Elaine de Lemos

DSC02861Uma das 157  cenas que eu mais amo no Ratatouille é aquela onde a souschef fala para o novato Linguini:”você está vendo aquele açougueiro ali? Dizem que matou um homem usando apenas o dedão esquerdo!”. O ambiente da cozinha  profissional  carrega consigo esta mística. Lar para os desajustados, ordem para os desorientados, sentimento de pertencer, tudo isso com um pé na malandragem (observações de uma diletante apaixonada).

E sai pra lá  masterchef-top-molecular-escabeche-de-formiga-em-leito-de-missô-desconstruído! Estamos falando da verdadeira cozinha, do porão de navio, dos 50 graus de calor intermitente, de garçons gritando pedidos enquanto você é atropelado por algum colega que passa por você com panelas fervendo e dizendo” Quente,quente! Frente! Trás! Sai daí!”. Estamos falando de cortes profundos, cicatrizes e queimaduras. Punks, piratas, misfits que se reinventaram através da cozinha. São eles que merecem o meu registro hoje. Em Curitiba existe toda uma turma que migrou direto do 92 graus, Bar do China ou similar para as cozinhas profissionais. Segue uma lista básica dos meliantes.

Chef Eva dos SantosDSC02866DSC02873A Eva começou sua prolífica carreira de chef no Bar do China (antes de Sheena, era China mesmo, o saudoso Vicente Meneghetti Jr). Primeira criação gastronômica: frango desfiado com milho, molho branco e batata palha (quem frequentava e comeu, não esquece). Depois disso ela foi a primeira souschef mulher do Restaurante Boulevard, do grande Celso Freire, e já ha alguns anos e muitos prêmios acumulados pilota os fogões do mais que reconhecido Bar do Victor. We have a Winner, minha gente!

Chef Germano Diedrichs : ex-Cervejas, ex-Frantic Flinstones  (tá bom já,né?), atual cozinheiro do Armazém Português, na Moises Marcondes.IMG_0919 IMG_0920

Chef Flávio Fardado. IMG_1121 IMG_1119

Este auto didata começou logo na infância como auxiliar de cozinha da guarda mirim, e assim foi se virando e aprendendo, indo na Biblioteca Pública,  no Mercado Municipal, trabalhando como assistente e depois chef já nos anos 90. Vocalista da banda Malkriados. Atualmente chef do Tuba’s Bar, no largo da Ordem.

Gerson Jourdani.

Image-1(1)Image-1(2)Nosso amigo punk de alma aqui frequentou todo e qualquer boteco que se possa imaginar dos anos 80, e era por assim dizer amigo da turma que deu origem à série do movimento em Curitiba. Hoje em dia ,ele é o bem sucedido proprietário do CurrytibaWurst, nas melhores feiras gastronômicas da cidade, por exemplo Praça da Ucrânia e Batel.

Gláucio Chemin.

Image-1(3)Image-1(4)Dá para dizer que já fez de um tudo e já foi de um tudo, inclusive punk. E faz de tudo na cozinha hoje em dia.

Last , but not least, menção mais que honrosa ao Chef Flavio Frenkelque sempre deu guarida em seu staff para stray cats, desviados de rota e amigos das antigas que se voltaram para a cozinha.

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Ahoy,piratas, o Fogão lhes pertence!!

Sobre comida mexicana de rua, tabus e emancipação. (por Karina Kuster)

13 novembro, 2016 às 21:02  |  por Elaine de Lemos

Texto da nossa correspondente internacional, Karina Kuster. Dá-lhe Karina!!!

Sempre quis ir ao México no dia dos mortos. O passado indígena glorioso, a sabedoria ancestral e a forma totalmente diferente de encarar a morte são fascinantes. Chegou a hora, convidei várias pessoas para irem junto (inclusive D. Minhoca) mas ninguém podia/queria.Comprei as passagens e decidi ir sozinha.Aí me deparei com o meu tabu particular: sentar sozinha nos restaurantes para comer. Fácil, vou comer só comida de rua, pensei. É mais barato, economiza tempo e o México tem tanta variedade de comidas diferentes que não vai dar pra repetir prato. Minha experiência Antony Bourdain particular.Primeira coisa que comi lá foram os churros. Sou a herege que nunca viu graça no Chaves, mas tinha vontade de provar só por ele. Os tradicionais são bem fininhos, compridos e não são recheados. Quase um bolinho de chuva. É gostoso, mas prefiro os brasileiros. Chaves não sabia o que era bom. 15045255_1219039984829364_1303955409_oAté aí tudo bem. Confort food. Tanto como os primeiros sanduíches, que além dos recheios tradicionais, vinham com abacate. Pão com abacate é algo a se adotar para a vida.

De repente, vieram os choques. Chicharrón, um torresmão que me parecia ter 1 m2 em algumas versões.
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Minhas coronárias não tiveram coragem e só tirei foto. Diz que é salgaaaaado e que vai muito bem se quebradinho nas sopas. Pra apaziguar a fome e refrescar, preferi um copinho de frutas picadinhas, que tem em todo lugar. São uma delícia e vêm com pimenta. Ainda estava jacuzona no começo.

No decorrer da viagem a ousadia foi crescendo. Lembro da primeira vez que ofereceram Chapolins, numa fila de museu. Achei quase ofensivo, agressivo. Até tomar coragem dias depois. Provei um e me veio um gosto familiar, minha mãe diz que quando pequena, era dada a comer tatu bolinha. Tem gosto de inseto, minha memória afetiva não mente. Mas é tão temperadinho, crocante. Trocaria hoje qualquer amendoim japonês por eles.15034387_1219043228162373_306383859_o (1)
Outra coisa que me impressionou é a habilidade desse povo com queijo. Queijólatra confessa, não fazia a ideia do queso oxaquenho. Ele vem numas bolotonas grandes em casas que só vendem isso.15044809_1219044448162251_2095601671_o

Mas para peticar, dá pra retirar fios dele. Quase como o nosso nozinho, mas diferente. Mais branquinho, mais gosto de leite.

E quando é pra fazer preparados, vale o queijo fundido. Marinado com molho e outras coisas que você preferir: cogumelo, frango, chorizo… Queijo puro derretido, o Céu deve ser feito disso.15053232_1219047624828600_1728098922_o

Também quis ver qual é dos tacos autênticos e me surpreendi com a variedade. Um nunca igual ao outro. Os mais gostoso não eram dobradinhos, mas retos, crocante, e recheados até o talo.15034359_1219048558161840_1137794631_o

Outra coisa que ficou no coração: marquesitas.. Uma casquinha crocante, levemente docinha e feita na chapa, na hora. Como quase tudo no México, você pode rechear com qualquer coisa doce ou salgada. A minha veio com queijo, o contraste doce/salgado me levou para a morada de Tlaloc.15045520_1219049721495057_297537201_o (1)

E assim foi entre tamales, tortillas, mezcal (que desce macio, mas faz tóin – by Minhoca), nopal, mole negro (e nunca imaginaria que chocolate combinasse tanto com frango).15053445_1219050191495010_1219519761_o
Até que no último dia, quis provar uma comida não só mexicana, mas autenticamente maia. Escolhi Conchinita Pibil. Um marinado rico, cozido na folha de bananeira, servido com muito tempero, cebola roxa, tortillas de milho, frijoles e uma pimentinha.15008102_1219050751494954_65905022_o

Sentei num restaurante, sozinha, dona do meu mundo, livre do tabu e fiquei horas ali, curtindo a minha própria individualidade, com a benção os deuses maias.

Costelão Bacacheri, ou: como pagar taxistas em costela.

10 novembro, 2016 às 16:14  |  por Elaine de Lemos
foto Daniel Grizza

foto Daniel Grizza

Neste  ano o guerreiro Costelão do Bacacha (para os íntimos) completa 13 anos de funcionamento. E bem vividos! Esses dias voltei lá por pura saudade, não só da carne, mas também das madrugadas que invariavelmente terminavam lá. Que me perdoe o Gato Preto, outro grande, mas o Bacacha de madrugada, além do churrasco bom a preços honestos, também tem seu quinhão de profissionais de futebol em ascensão ou decadência, acompanhados de moças que não sentem frio, policias civis à paisana (pleonasmo, não?) e outras tantas figuras ímpares. Me incluo nessa lista, afinal, até onde eu sei, sou a única pessoa que faz escambo da corrida do táxi até lá por costela e maionese; acho que nesses tempos de Uber isso não cola mais.

Seu Flávio (o senhorzinho do caixa que dá pirulito mas sorriso não) pode atestar por mim nessas madrugadas. Algumas vezes fiz o ritual sozinha e nunca tive  problema de nenhum tipo de assédio ( já os outros clientes…tadinhos). Em verdade,o Bacacha acaba sendo mais democrático que seu avô Bar Palácio, o qual durante muitos anos não atendia clientes do sexo feminino desacompanhadas. Outros tempos, afinal “o mundo gira, a Lusitana roda”. Sem contar que a nobre churracascaria é verdadeiramente 24 horas: na Av. Prefeito Erasto Gaertner, 26, você sempre pode assistir ao espetáculo de costelas bailando naquela vitrine (vegetarianos e veganos: fujam!) de um alvorecer ao outro.

Este post é dedicado ao jornalista Rodrigo Morosini, grande companheiro de manhãs, tardes e madrugadas no Bacacha e fora dele!IMG_1031(1)

Endereço: Av. Pref. Erasto Gaertner, 26 – Bacacheri, Curitiba – PR

Horário: aberto diariamente 24 horas

14º Festa Latino Americana: meu sangue latino…

8 outubro, 2016 às 04:54  |  por Elaine de Lemos

14199394_10210483571951665_5973132028277943145_nQuando era meninota, parafraseando  Helena Kolody, meu sonho era ingressar na brilhante e promissora carreira das artes. Primeira tentativa: aulas de baixo.Namorei o professor e hoje em dia não toco nem “Smoke on the Water”. Segunda tentativa, bem mais frutífera: Solar do Barão, 1982.Grupo de zampoñas de Curitiba: 35 hippies de boutique(eu), equatorianos (Pancho Pinsag), filhos de nisseis parnanguaras(Edna, que veio a casar com o Pancho), estudantes de arquitetura, filosofia, jornalismo, geologia, teatro, etc. Todos sob a talentosa e dedicada batuta de Fredy Estupiñan Carranza, peruano, grande músico e grande professor de tudo. Enfim, era o paraíso na Terra. Definitivamente não para a minha família, que teve que aturar os excruciantes ensaios solitários em casa de “Ojos Azules”,”El Condor Pasa”, enfim, todo o cancioneiro latino que eu conseguia ou não executar.professor Fredy  Estupiñan Carranza, Edna ,eu . Alvaro

O grupo se apresentou no Teatro Guaíra, e também tocamos no histórico comício da Diretas já! Sim, entre José Richa e Tancredo Neves, nosotros!!! Frequentei muito a feirinha para tocar com a turma aos domingos (tá bom, nunca mais reclamo do Plá!).

Desde então, desenvolvi um amor mais forte e duradouro pela cultura latino americana que o do Galeano( vem ne mim, Veias Abertas da America Latina!). Viajei a trabalho para a Bolívia, uma experiência por demais enriquecedora, onde pude ver de perto tanto a cultura, quanto o sofrimento dessa gente.

Há 14 anos , as várias etnias latino americanas residentes em Curitiba , abraçadas e apoiadas pela Pastoral do Imigrante, organizam a Festa Latino Americana. Includente, simpática, com toda aquela verve latina.  Tem de “um tudo” : vinhos argentinos com choripán (pão com linguiça beeeem temperada), ceviche peruano, e meu predileto ever: o anticucho (espeto de coração de boi. No dia que a senhorinha que faz não aparecer mais lá, vou entrar em depressão), sopa paraguaia(que é uma torta salgada), alfajores, tacos, burritos, tamales venezuelanos,salteñas bolivianas, picarones de batata doce… é muita comida boa! O combo de Gastronomia, Cultura , Música e Dança é matador.

Nos últimos 3 anos as trincheiras receberam reforços dos nossos mais novos concidadãos, os haitianos animadézimos (sem comntar que o francês que eles falam é bem melhor que o nosso…). Como o padre Agler está assoberbado de trabalho, pedi um alô do multifuncional Chef Peruano Fernando Matsushita, proprietário do Peruano Bistrô e um dos organizadores desta edição da festa:

“Este é o décimo quarto ano que se realiza a festa latino americana, organizada pela Pastoral do Imigrante de Santa Felicidade. A cada ano tentamos aprimorar mais, oferecer melhores produtos e espetáculos.  Desta vez a ala gastronômica contará com a participação de: Argentina, Bolívia, Colômbia, Equador, Haiti, México Paraguai, Peru e Uruguai. Todos com os mais representativos pratos de sua culinária, feita tanto por mãos profissionais quanto por amas de casa naturais de cada país.”

Já escrevi sobre esta festa antes, mas agora escrevo ANTES DA FESTA, para que assim a turma tenha a chance de vivenciar in loco toda essa diversão.

Para quem possa ter outro tipo de raciocínio e relação aos imigrantes, seja de primeira , segunda ou décima quinta geração, só lembrem: nossos bisavós e avós chegaram nesta terra com mesma esperança de um lugar melhor e mais justo para sua família crescer, prosperar e viver com mais qualidade.

“TODAS LAS VOCES, TODAS! TODAS LAS MANOS ,TODAS!”                                                                   l

London Calling: a Âncora e a Raposa!

4 outubro, 2016 às 11:47  |  por Elaine de Lemos

Risos, palmas, alegria geral! Estamos, eu e a familia, em Londres, comemorando 8  décadas da VJ (para quem não sabe, Veia Joanita, a matriarca). Programas turístico/gastronômico/culturais. Na real, o bom e velho turismo cafona e superdivertido. Comida típica e também comida contemporânea, além de criativa e substanciosa, nada daquelas espuminhas de sapo com 3 ervilhas desconstruídas por baixo.

E Pubs, ah os Pubs… A proporção de Pubs por habitante nessa cidade deve ser algo assim como a de cachorros por habitante do Bairro Alto (1×5).

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About the Fox and the Anchor

Hoje o pub ao lado do Hotel faz 185 anos, com direito a bolo para todo mundo que entrar.

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Raposa, pela relação carne/caça. Âncora, porque a turma é especializada em frutos do mar. Afinal, this is London, darrrling…

O bar fica praticamente na frente do Smithfield Market, mercado atacadista de carne desde a idade média, totalmente reformado no período vitoriano e alvo de bombardeios na Segunda Guerra Mundial.

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O grande trunfo da Raposa e da Âncora é que há 185 anos eles são o ÚNICO pub londrino que abre as 7h00. Isso mesmo, as 7h00 da matina, para atender os funcionários de frigoríficos que atravessam a noite pegando no pesado e terminam seu turno com aquele belíssimo café inglês reforçado: ovos, bacon, salsicha, feijão e uma stout ou uma ale, ou as duas. Bela Gil desmaiaria num pico de colesterol alto…

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Hoje em dia, boa parte dos antigos butchers foi substituída por executivos e demais profissionais que fazem o turno da noite em empresas de informática (The It crowd). Talvez eles não comam o feijão com ovo. , mas todos vao firme nas ales. Alias, preferencia disparada entre as varias draft beers disponiveis.

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Falei com o assistente da gerência, Slav, que me confirmou, o maior consumo de ales e stouts éno verão, cidra, MUITA cidra (eu mesma me converti ). E, pasmem, os chopps IPA (indian pale ale) lógico que são bem lupulados, mas com uma baixa graduação alcóolica (Curitiba 1 x 0 Londres), de 3,8% a 5%, no máximo. O raciocínio da turma não difere do brasileiro. A ideia é tomar vários e ainda conseguir pegar o busão/metrô para casa. Infelizmente, o pub (que também é um hotel boutique, onde antigamente residia a família que montou o negócio, no andar de cima do prédio) atualmente é gerenciado por uma grande corporação que nem lembra o nome da famíliaque começou tudo. Hoje em dia a vida é assim: uma selfie de pedra …

Curiosidades sobre o Smithfield Market

 

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Foi para cá que, em 1305, o grande herói da Resistência escocesa William Wallace (vocês sabem, o Mel Gibson…) foi arrastado por cavalos, enforcado e esquartejado em quatro pedaços; açougueiros sempre serão açougueiros, enfim.

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Era aqui também que maridos descontentes com suas esposas traziam –nas para venda ou troca(!!!).

A duas quadras do Mercado fica o local onde finalmente isolaram o DNA da devastadora peste bubônica, bem pertinho das carnes…

Por hoje é só, pessoal! While my eyes go looking for flying saucers in the sky…

ALCACHOFRAS: O BEIJO NO FÍGADO.

3 setembro, 2016 às 13:25  |  por Elaine de Lemos

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Alcachofras são iguais à homens: você se mata pra achar uma boa,  porque nunca está na época certa,  quando consegue achar dá um trabalhão preparar pra comer,  e quando finalmente você vai às vias de fato,  quanto mais perto chega do coração mais espinho tem!

Feita esta colocação, vamos à elas: estamos na temporada de alcachofras novamente! Risos, palmas, alegria geral !! Desde criança,  e 99,9% por causa da minha avó,  sou doente por alcachofras. Comida ritualística, daquela que dá trabalho pra comer,  é comigo mesmo. E você, caro amigo, que já de largada diz, nunca comi e não gostei, tsc , tsc, tsc … erro rude … principalmente porque a alcachofra está na mesma  categoria do palmito e do champignon: a gente se criou achando que nasciam num pé de  vidros de conservas da Hemmer,  quando in natura  estes produtos tem outro gosto,  são imbatíveis. E de mais a mais,  se Dona Barberina e Julio Cortazar amam,  quem somos nós pra dizer o contrário?

Minha receita é uma só,  a que aprendi olhando minha vó fazer:

Ponha 4 ou 5 alcachofras num panelão com água,  muito azeite de oliva (+ou- 50 ml), vinagre de vinho (30 ml), 2 cebolas grosseiramente picadas (sempre quis escrever isso),  4 dentes de alho,  algumas folhas de louro,  sálvia e  tomilho.  Deixe cozinhar por aproximadamente 35 minutos, quando você puxar a folha e sair fácil, “it’s showtime”.  Sirva num prato de sopa,  acompanhadas  com pão (óbvio) e se você for chegado numa viadagem como eu, molho de manteiga quente com alcaparras e um vinagretezinho básico.  O figadão velho de guerra vai agradecer  o afago!

TE CUIDA, TADEU!

26 agosto, 2016 às 11:50  |  por Elaine de Lemos

TE CUIDA

Pierogue, pirogi, piroshki, varéneke, perohghê, perohê, pelmehni. Cada país do leste europeu tem sua versão: tanto na grafia quanto no recheio, as variações são inúmeras, cada família de imigrantes tem a sua, com batata, repolho, carne, linguiça, bacon, ricota, requeijão, cogumelos, enfim… vareia, como diz o polaco.

Quem é curitibano não precisa ser eslavo para ter se criado na tradição de comer pierogues. Desde que eu me conheço por gente, o Tadeu, Rei do pierogue já estava lá na feirinha de domingo; com o poster do Karol Wojtyla, a vodka de cereja (essa “no hay más”) e o bigodão. Tem até dissidência: o Mirogue, pierogue do Miro. Sem contar o clássico pierogue da Dona Danuta do Bosque do Papa, o parque da estátua malévola. Ou o vareneke hipster do Barbaran. E, claro, se você for milionário, há a opção diamante, no Durski, pelo preço de uma prestação do Minha Casa, Minha Vida…

PIEROGUE

Pra quem gosta de mão na massa, é facinho, facinho de fazer. Essa é a minha versão, ficou tão boa que estou pensando em entrar na concorrência com o Rei!

Para a massa:

1 kg de farinha de trigo (da boa, por favor); 300 ml de água morna;

5 colheres de sopa de óleo de girassol;

1 colher de sopa de sal;

Misture tudo e reserve (adoro escrever isso) na geladeira;

Para o recheio:

5 batatas grandes cozidas;

400gr de ricota fresca;

1 copo de requeijão.Obs.:se você comprar a ricota com nata da Panificadora Vianna(Hosana nas Alturas!),não precisa do requeijão;

1 cebola grande micropicada (também adoro escrever isso) e bem frita na manteiga;

Cebolinha, noz moscada, sal e pimenta do reino a gosto;

Como fazer:

Abra a massa na máquina ate o numero 5 , ou abra no braço mesmo até ficar fina.Corte discos de aproximadamente 7 cm de diâmetro com um copo ou anel, recheie, feche com o dedo molhado na água e sele com o garfo. Cozinhe rapidamente em água salgada.

Para o molho:

1 pacote de manteiga (ninguém disse que era light…);

250 gr de linguiça mista desmanchada;

1 cebola picada;

Sálvia fresca, noz moscada e pimenta;

Frite tudo, ponha por cima do molho e sirva. Se quiser entupir a aorta de vez, taque uma colherada de nata sem bater por cima;

Rende aproximadamente 50 unidades, ou seja, dá pra meia cidade de Prudentópolis jantar!

Texto publicado originalmente no blog Rêve de Mode.

JUVEVÊ INTERNACIONAL OU JUVEVILA?

12 agosto, 2016 às 15:53  |  por Elaine de Lemos

A turma do não tão bem sucedido Geocook (aquela proposta horrorosa de gentrificação dos nomes de bairros com vocação gastronômica da cidade) que me perdoe, mas tenho a minha própria divisão do bairro onde moro, o Juvevê. São dois polos: O Juvevê Internacional (Bresser, Madero, Babilônia, Graciosa Country Club e adjacências) e o Juvevila (termo proveniente do Zeitgeitst local, ou talvez do Ari, assíduo frequentador).

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Ari e a turma do Tchubernoise (batidinha de limão com underberg).

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Hoje falaremos do Juvevila e alguns de seus mais ilustres filhos.

O Juvevila é o primo roots do Internacional. Seus pontos altos são a Pastelaria Juvevê, onde trabalhadores das construções em volta dividem sua mesa com os inevitáveis hipsters que o progresso traz. E também alguns amigos, vai. Pastel grande, muito recheado e sempre good price. Isso sem contar a água de valeta (é um drink, minha gente…) que o Seu Ricado, da pastelaria, prepara! Ainda na João Gualberto temos o Lanches Aquarius, com direito à mesa de sinuca e espetinhos na chapa pilotada pelo Dio (Dionísio para os não íntimos).

Dionísio, Lanchonete Aquarius.

Dionísio, Lanchonete Aquarius.

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Ele mesmo não come os espetinhos, mas sim uma marmita quase vegetariana preparada por sua dedicada esposa Elizabete. No mesmo lado da rua, o mais que clássico Bar do Luzitano (com z). Lá, sempre dá pra ver alguém da velha guarda da intelectualidade curitibana tomando uma Brahma ou lendo seu jornal, tipo o icônico Luis Geraldo Mazza, e ainda assistindo o jogo do coxa (sic). Jaime Lerner conta uma passagem ótima. Estava ele e alguns amigos, isso nos anos 70, tomando uma cervejinha num sábado pela manhã, quando deu de cara com o jornalista Nireu Teixeira, de pijama, pulseirinha de identificação de plástico, e pedindo uma Antártica. O Jaime, desconfiado, pergunta: Nireu, por onde você anda? E ele: To aqui no Hospital São Lucas, só desci tomar uminha porque vi vocês da janela …

Enfim, todos estes bares trazem consigo tanta história, que são os verdadeiros heróis de um Juvevê que resiste e sobrevive às mudanças. E, como estrela gastronômica barateza do Juvevila, apresento-lhes a:

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Cantina Di Domenico (vencedora do triângulo dos fuzillets: prêmio criado por mim mesma). Há 25 anos neste mês, os dois irmãos Sérgio e Aldo di Domenico vieram de mala e cuia de Anta Gorda-RS para montar sua cantina italiana, na rua Moisés Marcondes. Foram muito felizes. O restaurante de dia tem buffet por quilo e sábado buffet de feijoada. À noite, durante o frio, um honesto buffet de sopas a R$23,90 por vivente. Tem inclusive a sopa de capelleti gaúcho (não é o agnolini, mas quebra um galho). Com boa parte da equipe trabalhando desde os primeiros tempos, a cozinheira se aposentou por invalidez há pouco tempo, mas Luzia, a substituta, pilota os fogões com competência há pelo menos 8 anos. Sem contar o Paulo, garçom e vizinho, com pelo menos 15 anos de casa. Ele tem um ótima capacidade de convencimento (ninguém consegue tomar meia garrafa de vinho quando ele atende…). Por fim, a Cantina di Domenico tem boas pizzas e o melhor e mais barato fuzillet da região. No primo rico, restaurante O Fornão, custa R$ 120,00, e sem nada que justifique isso. O Mamma Carmela (onde acredito ter começado a onda de fuzillets nos anos 80) deve estar em torno de 89,00. Na Di Domenico sai por R$ 65,90 e serve bem duas pessoas. E não deve nada à nenhum dos supra citados. E ah, para os saudosistas de plantão, a cantina fica em frente às não menos antigas Lojas Emilie!!!

Claro que não temos só isso no Juvevila. Tem a Cantina Açores na Euzebio da Mota, tem o Barista Coffee bar, também na Moisés Marcondes; na Rocha Pombo com a Euzébio da Mota temos o Sushi Yama, o único japonês barato que conheço… Nenhum supermercado bom, muitas velhinhas simpáticas e cada vez mais homeless perambulando pelas marquises, sinal dos tempos. Mesmo assim, não troco por outro bairro. VIVA O JUVEVILA!!!

CROQ MONSIEUR, O ÚNICO CROCS QUE NÃO É CAFONA.

30 julho, 2016 às 10:47  |  por Elaine de Lemos

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Assim como o cupcake é tido como um bolinho metido à besta, o Croq Monsieur é um misto quente que subiu na vida, mas vamos combinar que ele já nasceu mais digno. Dizem que surgiu pela primeira vez em 1910 em um café  parisiense  e em 1919  foi eternizado por Marcel Proust no livro  À sombra das moças em florAliás,  Proust também  tornou famosas as Madeleines (era lariquento, o rapaz…)

São muitas as variações de Croq Monsieur, entre elas a com ovo por cima: Croq Madame,  com tomate: Croq Provençal,  e com presunto cru substituindo o cozido: Croq Garçon,  que é de longe minha predileta e cuja receita (minha versão) humildemente divido com vocês.

Croq Garçon ideal é feito com pão de brioche,  mas na falta vai o pão de manteiga de supermercado mesmo. Bata uma cebola pequena no liquidificador com 1 litro de leite e 2 colheres de sopa de farinha, ponha na panela pra aquecer mexendo MUITO até engrossar, acrescente umas 3 folhas de louro, 4 pitadas de noz moscada e sal (1 colher de cafe), quando esfriar ponha uma gema, mexa mais e cubra com filme plástico. Tá pronto o molho branco (sim, eu faço a versão truque do molho branco!).  Rale 250 gr de queijo gruyére e rasgue umas 150gr de presunto tipo parma. Unte uma forma, ponha os pães,  passe um pouco de mostarda preta, ponha molho branco, daí  queijo, ponha presunto, coloque o pão, por cima mais molho, mais queijo, mais presunto e mais um pouco de molho (NÃO ENCHARQUE, senão vira pão de lanche recheado de velha rica). Ponha pra gratinar  aproximadamente 10min, abra uma garrafa de beaujolais e na vitrolinha Jacques Brel e/ou Piaf. Bon appetit  et à la prochaine!!!

Curitiba e a febre do Lúpulo.

14 julho, 2016 às 17:23  |  por Elaine de Lemos
Foto Daniela Garcia

Foto Daniela Garcia

Mesopotâmia, 8000 A.C. Como sempre, algum esquecido larga um tipo de grão fermentando e, da mesma forma que surge o pão, surge a cerveja: salve Ninkasi (Deusa Suméria da bebida)! Corta para Curitiba, 2007 D.C. numa tarde de sábado na Casa da Vila, Rua Mateus Leme. Show (impecável) do Hillbilly Rawhide e eu pensando: mas, como pode a cerveja ser mais cara que a banda? E como é mais forte e amarga… De lá pra cá, muita água maltada rolou dos tempos de Eisenbahn e Baden Baden para Way e Diabólica, que acredito serem as primeiras neste formato da cidade.

Hoje em dia são mais de 50 micro cervejarias artesanais consolidadas só em Curitiba. Não dá para ignorar este mercado, né? Já temos inclusive Festivais de cerveja que fazem a Oktoberfest parecer coisa de amador (tá, exagerei nessa, mas são tão caros quanto). Outro programa muito bacana de se fazer são as visitas nas fábricas, a Bodebrown faz visita guiada com degustação, por exemplo. Esse dias fui no aniversário da Swamp, com Hillbilly (onipresente nos eventos cervejeiros) tocando e a turma muito “à vonts”, cada um levando lanche de casa, fazendo churrasquinho, tudo divertido e familiar. É só pagar a entrada para adquirir a caneca e comprar a cerveja por um bom preço ou levar o famoso growler para encher e tomar por lá mesmo.

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Growler Foto: Daniela Garcia

E VIVA O GROWLER

Nada mais é que um garrafão de cerâmica ou aço que segura a pressão da cerveja e que, usualmente acaba saindo mais barato no custo benefício, visto que a grande maioria dos bares que servem cerveja artesanal de pressão tem o dia do “pague dois, leve 3”.

TIPOS DE CERVEJA: COMO FAZER PARA NÃO ERRAR O PEDIDO

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E a tal Reinheitsgebot?

Não, não é um xingamento, é a lei alemã da pureza, promulgada em 1516, determina que água, cevada e lúpulo são os únicos ingredientes permitidos para a produção de uma cerveja “pura”. Como toda lei, boa de citar para parecer conhecedor, e difícil de por em prática.

Hoje em dia serve mais para lenda do que receita, afinal faz tempo que malte, trigo, açúcar, café, arroz(clássico das cervejas kaiser/skol da vida) abóbora, até banana entraram na dança. Pra vocês terem uma ideia, esse quadro abaixo não tem nem um quinto do que existe de variações de cerveja por aí, mas já ajuda.

tipos de cerveja

Livros foram escritos com tudo o que não sei sobre este assunto. Segundo Rogério Sprada , médico veterinário e o primeiro zitolibador que conheci (algo como um enólogo de cerveja): “a grande vantagem das cervejas especias/artesanais é que com elas entramos no universo da degustação e apreciação”. Como ele já é profissional no assunto, é fã das Ipas : AIPA (American Indian Pale Ale, estilo californiano), IPA(Indian Pale Ale) ,Imperial Ipa(toda vez que você ouvir Imperial é porque tem o dobro de lúpulo,ou seja, faz TÓIN) .

Rogerio Sprada, o zitolibador e medico veterinário.

Rogerio Sprada, o zitolibador e medico veterinário.

Para concluir, termino com uma listinha de lugares legais para tomar um bela cerveja que faz TÓIN. Afinal, pode ser cara, mas não precisa de muitas para deixar o vivente alegrete:

Trapista: peça a cerveja da casa, o aboburguer e seja feliz.

Rockabirra: muitos e muitos rótulos de artesanais, especias, de Curitiba e de fora. Nos fins de semana sempre tem um food truck e um lugar ao sol pra tomar um chopp bom.

Quintal do Monge: parada obrigatória na feirinha de domingo, carta de chopps extensa e comida boa.

Clube do Malte Juvevê: bastante variedade nos tipos de cerveja de pressão e garrafas, e é perto de casa…

Beer N’ Brew: Uma loja que vende tudo para você fazer cerveja caseira,inclusive ministram cursos.

Empório Weiss: uma das pioneiríssimas. Rua Eduardo Sprada, 416.

Sugestões da amiga Dani Garcia, que vai onde o lúpulo está:

Beer-To-Go: ide, enchei vosso Growler e sê feliz!

Schmitz Bierhaus: a mais nova descoberta.

Por hoje é só, pessoal, e pra cima com o Lúpulo,moçada!