Quando JK encontra Odorico Paraguaçu
Na história do Atlético Paranaense, Mario Celso Petraglia é Juscelino Kubitschek: traçou um plano de metas que atraiu investidores estrangeiros, transformou um time de província num campeão nacional, promoveu o milagre da multiplicação de sócios e fortaleceu a camisa vermelha e preta como grife ($$$) de shopping.
Ao alavancar o futebol no cardápio da economia formal paranaense, o modernizador dirigente não apenas acelerou o crescimento atleticano como forçou o Coritiba a sair do alto das glórias passadas (como vimos em 2003/04 e domingo passado).
Para se ter uma idéia da ambição rubro-negra antes de Petraglia cito 1989, o ano em que o Atlético caiu silenciosamente para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Não houve levante, nem passeata dos 3 mil (que freqüentavam o Pinheirão), nem candidato de oposição.
Os anos 80 foram bons de taça (quatro estaduais: 1982/83,85 e 88) e ruins de grana. Patrocínios? Por favor: Jofran Veículos, do diretor João de Oliveira Franco Neto; Parnaplast, do presidente Valmor Zimermann. Você viu Adidas na camisa de 1988? Apenas fornecimento de uniforme e só para o elenco profissional (sem dinheiro). Coca-Cola? O refrigerante estava na camisa de quase todos. Bastava pertencer à primeira divisão.
Na velha, pobre e romanceada Baixada, a oposição resumia-se a uns xingões na arquibancada. Era difícil encontrar um mecenas, digo um candidato à presidente. Imagine dois…
Oposição pra valer só a que o conselheiro Mario Celso Petraglia praticou em 1995 contra o presidente Hussein Zraik, bom administrador (com poucos recursos à mão) que renunciou dias após o fatídico domingo de Páscoa de 1995: Coritiba 5 a 1. Um golpe de estado (aqui nada de Juscelino) que resultou numa revolução.
Mas o JK aqui descrito não raro incorpora o coronel Odorico Paraguaçu, personagem de O Bem Amado, do dramaturgo Dias Gomes. Assim como o folclórico prefeito da fictícia Sucupira, o poderoso chefão da Arena da Baixada atropela direitos dos adversários (como o de receber um troféu) e tenta calar críticos (Airton Cordeiro e a Rádio Transamérica precisaram de liminar, em 2007, para entrar no estádio; Valmir Gomes, anos atrás, foi tirado à força da cabine).
Ontem, segundo o repórter André Pugliesi, da Gazeta do Povo, Odorico mandou seus capangas expulsarem da assembléia o sócio Isaías Andrade, que parecia importuná-lo com algumas perguntas. Isaías talvez seja um dos oito oposicionistas que votaram contra a prorrogração até dezembro do mandato dos presidentes Petraglia, do Conselho Deliberativo, e de João Augusto Fleury da Rocha, do Conselho Gestor.
A favor da continuidade, mais de 300. Confesso que, apesar dos pesares, estaria neste bloco se possuísse carteirinha de sócio, afinal acredito que o plano de metas ainda vai recolocar o Atlético na Libertadores da América (o elenco atual não é desprezível).
Interpretado por Paulo Gracindo, o maior ator da televisão brasileira, Odorico Paraguaçu morreu no último capítulo da novela O Bem Amado, em 1973, mas ressuscitou na estréia do seriado homônimo, em 1980. Para o bem do Atlético Paranaense, o modernizador JK precisa matar de vez o coronel Odorico. Dias Gomes não conseguiu.
Vídeo: trecho do seriado O Bem Amado, TV Globo (duração: 2min02s).
6 Maio, 2008 às 15:13
Detonou!
Excelente leitura da recente história atleticana.
6 Maio, 2008 às 21:23
Daqui a pouco ele bloqueia seu blog..cuidado com o Darth Veder do Paraná..
7 Maio, 2008 às 00:22
Matou a pau. A melhor análise já feita sobre este indigesto assunto. Fião, Odemilson Minotauro, Konduz, Jofran, Alceu Toalha e aquele sorveteiro que gritava “é coco e maaangaaaa”. Ah, que saudades do Pinheirão