Pessôa sem modos
“Odeio cachorro que ladra (ou late, você decide), mulher que alterca e homem que encharca as mãos com perfume. Também odeio telefone celular.
Igualmente odeio mulher que ladra (ou late, você decide), cachorro que encharca com as mãos e homem que alterca. Também odeio telefone celular.
Ainda, e sempre igualmente, odeio homem que ladra (ou late, você decide), mulher que encharca as mãos com perfume e cachorro que alterca. Odeio também telefone celular.”
Carlos Alberto Pessôa.
Modos & Modas, o livro, estava de bunda pra cima na livraria. Ou seja, com a capa errada pra cima. Daí que gostei da bunda, quer dizer, da outra capa, onde pousa a trova acima. Entre folhear e comprar o livro demorei aproximados 47 segundos.
Mas aqui é um espaço sobre futebol. Então, vamos ao jogo. O iratiense Carlos Alberto Pessôa, o autor de Modos & Modas, é um dos dois grandes provocadores da imprensa esportiva de Curitiba. O outro é Augusto Mafuz. São dignos adjetivos variáveis: imbecil (2ª feira), genial (3ª), ultrapassado (4ª), retardado (5ª) e lírico (6ª). Só não merecem a alcunha de “lugar comum”.
Não sou amigo desta gentalha, mas dias atrás, na rua, parei o Pessôa, que só conhecia dos escritos e da escrota pose de lorde inglês que ele fazia no Mesa Redonda, da CNT, nos idos finais do século 20. Elogiei o livro e o condenei por um crime: o de ainda não ter escrito outro para desancar a megainfluência que eu, você e aquele senhor de chapéu ali na esquina atribuímos aos técnicos de futebol sobre os resultados das partidas.
Incomodado com este Olimpo que dedicamos aos professores, escrevi aqui há um ano (tópico O técnico vai falar): “Deve ser mesmo a notícia de última hora a fala do treinador. Nos canais de televisão a cabo, é possível acompanhar num espaço de dez minutos ao vivo trechos de quatro ou cinco entrevistas. Há um professor soltando a voz? Aqui estamos! Mas se você perdeu a voz do professor não perca o sono: nos boletins de almoço do dia seguinte, lá estará o mesmo técnico.”
Senhor de bom argumento, Pessôa vai além: “No basquete, o piso é o mesmo em qualquer continente, o espaço é menor, os jogadores ouvem o técnico o tempo todo, com a bola na mão e durante as paralisações, e a ordem é para cinco. No futebol, tem sol de 40 graus, temporal, buraco e montinho-artilheiro para estragar a lógica. Para consertar o estrago, o técnico só dispõe do intervalo. E a ordem é para 11, cara-pálida!”
Se você não concorda, se queixe no balcão do blog dele. Na resposta, Pessoa não vai poupar nem Elba de Pádua Lima, o lendário Tim do Coritiba de 1973: “Num jogo contra o Flamengo, o Hidalgo não cumpriu uma ordem do Tim. Ele percebeu que na prática a teoria estava furada. O Tim ficou possesso e o Coxa com a vitória.”
*****
Modos & Modas vasculha imprensa, senhores, política, bondes, futebol, Irati, cinema, literatura e sexo. Pessôa não curte drogas e rock’n roll, mas aprecia uma boa carnificina:
“Infelizmente ainda não importamos assassinatos de presidente. Espero estar vivo para a estreia. Qual será a arma? Comida de Santa Felicidade? O ar que se respira na prava brava de Caiobá? Insolação? Casquinha de siri da Bahia pra cima? Over de lança num camarote da Carlos Marques Sapucaí? Ou o ininterrupto aluvião de merda das tevês abertas?”

