Um ano inteiro, do papel ao palco

13 dezembro, 2017 às 15:36  |  por Juliana Ribeiro

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Quando um ano começa, geralmente pensamos em tudo de novo que queremos fazer. Comigo não é diferente. E essa milhares de ideias que rondam minha cabeça inclui, já em janeiro, começar a “rabiscar” o espetáculo de fim de ano.

Já nessa época, começo a pensar em temas que podem guiar a apresentação de encerramento. Sempre levo um caderno comigo, afinal, as ideias chegam sem avisar. Pode parecer um período longo, mas o processo criativo leva tempo mesmo.

Quando chego a um tema central, começo os estudos. Começo minhas pesquisas a partir da tese de que a expressão do corpo é derivada do contexto histórico em que pertence, por isso, precisa ser algo contemporâneo. Trazendo para a realidade como todo o processo acontece, vou falar sobre o Ensõ – tema definido para este ano.

Para quem não sabe, na pintura zen budista, o Ensõ simboliza o momento no qual o artista se sente livre para deixar os sentidos criarem. Acredita-se que sua personalidade é revelada na maneira em que pinta e que apenas quem está mentalmente e espiritualmente completo pode pintar um verdadeiro Ensõ.

Além disso, o Ensõ simboliza iluminação, força, elegância, universo e o vazio. Para o espetáculo, vinculamos a ideia aos chakras, que querem dizer roda, disco ou centro. Eles são pontos de interseção entre planos e por meio deles o corpo se manifesta. Cada turma foi separada de acordo com um chakra específico e assim, criamos o espetáculo.

Aquilo que começou no papel em janeiro, em dezembro ganha vida e o olhar da plateia. E o grande momento de 2017 está chegando. É neste 15 de dezembro, às 20, no Teatro Marista. Que frio na barriga…

Juliana Ribeiro, coreógrafa e bailarina profissional especializada em dança contemporânea.

O significado de um espetáculo

6 dezembro, 2017 às 14:01  |  por Juliana Ribeiro

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Quem dança há algum tempo, ou tem um bailarino na família, sabe que nessa época do ano a programação de espetáculos é intensa. A maioria das escolas organiza apresentações com turmas de diversas modalidades, como ballet, jazz, dança contemporânea e outras.

Em geral, são cerca de 90 minutos de muita arte, cultura, dança e superação. Mas o que está por trás desses 90 minutos de show? Muita coisa. Do ponto de vista dos bailarinos que participam, aquele é um momento vivido desde muitos meses antes. A dedicação para assimilar, compreender e executar a coreografia é sempre uma jornada emocionante.

Não importa quantas vezes você já tenha subido ao palco, os dias que precedem o espetáculo são sempre de apreensão e ansiedade. Um filme passa pela cabeça, além de muitas perguntas. Vou dar conta? Sei todos os passos? E se eu errar? Todas as respostas serão encontradas apenas naqueles 90 minutos.

Do ponto de vista dos professores, diretores e coreógrafos, a ansiedade é igual. Ver acontecer, pelo movimento dos alunos, uma montagem idealizada, criada e ensinada por eles durante muito tempo é extremamente gratificante. É como estar no palco sem estar. Isso sem falar em toda a preparação paralela, de harmonização da música, figurino, cenário.

Quem vê isso acontecer de dentro do processo – como é o meu caso – sabe que naqueles 90 minutos cabem 365 dias de sonhos, amor e trabalho. A todos os envolvidos nessa arte tão apaixonante, desejo maravilhosos espetáculos!

Juliana Ribeiro, coreógrafa e bailarina profissional especializada em dança contemporânea.

O zouk veio pra ficar, com par ou sem par

29 novembro, 2017 às 13:38  |  por Juliana Ribeiro

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Embora o zouk não seja uma novidade – já tem alguns anos que a modalidade chegou com força no Brasil – a demanda e as possibilidades dessa dança continuam crescendo no país. Para quem ainda não conhece, explico: trata-se de um estilo musical que surgiu nas Antilhas, embora alguns estudos apontem que foi a cultura árabe que desenvolveu sua base.

Hoje, tanto no Brasil quanto em outros países, o Zouk está presente, com estilos diferentes (como o soul zouk, o reggaeton, entre outros) e se misturando a diversos outros ritmos. Quando vira dança, esse ritmo encanta pela fluidez e sensualidade. Deixo aqui, apenas como curiosidade, um vídeo entre muitos disponíveis no Youtube.

Na dança, além dos bailes de zouk, nos quais os casais rodopiam lindamente, crescem os praticantes individuais. O zouk ladies, por exemplo, reúne mulheres de várias idades, em busca dos mais variados resultados e que, acima de tudo, trabalham mente e corpo por meio dessa modalidade.

Por isso hoje eu trouxe para vocês uma rápida entrevista que fiz com a professora de Zouk Ladies, Thamilla França, que contou algumas curiosidades sobre o ritmo:

Juliana Ribeiro: Para quem nunca praticou, como podemos descrever o zouk?

Thamilla França: O zouk é um ritmo muito sensual e suave. Mais do que isso: é muito divertido! É um ritmo que veio da lambada, porém dança músicas mais lentas, como a quizomba. Quem gosta desses dois gêneros, por exemplo, certamente vai adorar o zouk.

Juliana Ribeiro: Na dança, o que marca essa modalidade?

Thamilla França: O zouk trabalha fundamentos da dança de salão. Então explora técnicas de giros e movimentos de cabeça e braços. Com isso, o praticante acaba tendo como resultado o alongamento das pernas, o equilíbrio do corpo, a consciência corporal e a coordenação motora.

Juliana Ribeiro: E fisicamente, quais são os benefícios?

Thamilla França: São muitos. É um ritmo que trabalha movimentos do tronco e quadril, além de movimentos de braços, por ser uma dança fluida. Em uma hora de aula é possível perder de 400 a 500 calorias. Então ele contribui para a perda de peso e ainda tonifica o corpo. Outros benefícios são o aumenta da capacidade sanguínea e cardiorespiratória.

Juliana Ribeiro: É uma opção para quem também busca combater o estresse?

Thamilla França: Com certeza! Além de reduzir o estresse e a ansiedade, muitos praticantes relatam melhora na autoestima e na capacidade de socialização. Também uma prática muito indicada para quem está lutando contra a depressão.

Juliana Ribeiro: Qualquer um pode praticar?

Thamilla França: Sem dúvida. Pode ser praticado por qualquer pessoa, mesmo quem nunca fez aula de dança. Basta colocar uma roupa confortável, um calçado que deslize bem e vir dançar J

Juliana Ribeiro, coreógrafa e bailarina profissional especializada em dança contemporânea.

Pela liberdade das inquietações

22 novembro, 2017 às 17:06  |  por Juliana Ribeiro

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Há algumas semanas ocorreu um incidente triste em Caixas do Sul, no Rio Grande do Sul, que mexeu muito comigo. O bailarino da Companhia Municipal de Dança da cidade, Igor Cavalcante Medina, foi conduzido a um hospital psiquiátrico ao realizar uma performance em uma praça da cidade.

O motivo? A apresentação da performance “Fim”, que integrava o 8º Caxias em Movimento, evento cultural da cidade. A obra foi confundida com um surto psicótico, mesmo tendo autorização da prefeitura para ser realizada. O artista foi amarrado e levado à força para o hospital, onde ficou por cerca de oito horas até ser liberado por um médico que atestou sua lucidez e sanidade.

Outro exemplo aconteceu esta semana, em que o requerimento de um senador pediu a condução coercitiva do artista Wagner Schwartz e de Gaudêncio Fidelis, curador da exposição “Queermuseu”. Felizmente, ambas foram barradas no Supremo Tribunal Federal (STF).

Estes episódios me fazem refletir ainda mais sobre o papel do artista e a incompreensão da sociedade com tudo que escapa daquilo que os olhos estão acostumados. É estarrecedor saber que ainda hoje em dia bailarinos, músicos, enfim, todos que atuam em atividades artísticas fiquem à mercê de atitudes extremas, originadas no puro preconceito ou falta de conhecimento.

A dança contemporânea é uma expressão artística que desperta esse olhar de inquietação e, de certa forma, já me acostumei a ter que explicar do que se trata e como funciona. Inclusive acredito que este é meu papel como bailarina e coreógrafa, ajudar a desmitificar esta modalidade que me traz tantas alegrias e que acredito que deveria ser difundida e popularizada.

Julgar uma dança ou expressão artística simplesmente por não entendê-la é um desrespeito com os artistas, com o público, com a sociedade como um todo e a diversidade de pensamentos e manifestações.

Sinto-me muito feliz em saber que, de certa forma, contribuo para quebrar barreiras e tornar as expressões artísticas mais acessíveis. É uma alegria saber que por meio do meu trabalho e do blog posso contribuir para um mundo com menos preconceito e menos violência. Conto com vocês nessa jornada!

Juliana Ribeiro, coreógrafa e bailarina profissional especializada em dança contemporânea.

Como foi trazer Gaga ao Brasil

21 novembro, 2017 às 07:12  |  por Juliana Ribeiro

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Contei aqui no blog como foi a minha viagem para participar do workshop Gaga Dancers Brasil, um curso para ensinar a linguagem Gaga desenvolvida pelo coreógrafo israelense Ohad Naharin, que aconteceu no dia 30 de setembro e 1º de outubro em São Paulo.

Foi uma experiência fora do comum, transformadora e muito, muito inspiradora. Para quem ainda não conhece Gaga, a linguagem promove a consciência corporal com flexibilidade, energia e agilidade, ampliando o senso de imaginação. Eu já recomendei algumas vezes, mas realmente vale a pena assistir ao o documentário Gaga – O Amor Pela Dança para entender um pouco mais deste universo tão único criado por Ohad Naharin.

O workshop em São Paulo foi ministrado pelo professor convidado Shamel Pitts, bailarino e pupilo de Naharin. Durante o tempo em que participei das aulas consegui conversar com a produtora Carolina Amares, responsável pelo workshop no Brasil, e pude conhecer mais sobre Gaga. Vou compartilhar com vocês esse bate papo:

Como surgiu a ideia de trazer o workshop Gaga Dancers para o Brasil?

Bom, a ideia partiu da Mirelle Martins, que hoje atua no duo Black Velvet que é coreografado pelo Shamel Pitts, o professor convidado do workshop de São Paulo.  A Mirelle conheceu Pitts quando estava em Nova York e fazia aulas de Gaga na cidade. Durante esse período, ficamos amigas e  começamos a conversar sobre trazer o projeto para o Brasil. Assim, iniciamos uma conversa com o Gaga Movement de Tela Aviv, em Israel, para coordenar essa ideia. De 2015 a 2016 organizamos a produção e trouxemos o workshop. Agora, em 2017, fiz a organização por meio da Philipina Cultura, produtora que sou sócia e diretora, que fica em Belo Horizonte.

Como foi a recepção aqui no Brasil?

A recepção foi maravilhosa. Nosso público cresceu bastante desde o primeiro ano e a cada edição ganha mais força e adeptos. O filme Gaga – o Amor Pela Dança, do diretor Tommer Heymman, também ajudou muito na publicidade do curso. Fizemos uma parceria com a Vitrine Filmes para a sua promoção e pudemos levar mais informação ao nosso público.

Existe previsão de acontecer em outras cidades, já que foram realizados apenas no Rio de Janeiro e São Paulo?

A ideia é que em 2018 tenhamos aulas e workshops de Gaga mais vezes durante o ano, em mais cidades, com mais professores, mas com o mesmo grupo na idealização.

Para os bailarinos que estão lendo a entrevista aqui no blog, como eles podem ter mais informações sobre os próximos workshops?

Para saber mais, basta enviar um e-mail para contato@philipina.art.br pedindo para se cadastrar em nosso mailing. Vale a pena curtir também as páginas Philipina Cultura e Gaga Brasil no Facebook para acompanhar as novidades.

Juliana Ribeiro, coreógrafa e bailarina profissional especializada em dança contemporânea.

A melhor aula de dança de toda a minha vida

21 novembro, 2017 às 07:02  |  por Juliana Ribeiro

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Recentemente me envolvi intensamente com a linguagem Gaga, desenvolvida pelo coreógrafo israelense Ohad Naharin para fazer bailarinos se reconectarem com a sua maneira de movimentar. E eu preciso contar pra vocês como foi que eu me reconectei <3

Semanas atrás embarquei para uma viagem a São Paulo, onde participei do workshop Gaga Dancers Brasil, ministrado por Shamel Pitts, bailarino e pupilo de Naharin. Mais do que isso, embarquei para uma viagem para dentro de mim.

Sim, foi um momento pessoal muito importante, tanto tecnicamente quanto emocional e energeticamente. Por isso vou contar por partes e transcrever com carinho cada detalhe que aquele momento merece. E por isso esse não é o primeiro e nem será o último post sobre o curso, ok?

Bem, o workshop foi divido em dois: o Gaga Dancers, para bailarinos profissionais acima de 18 anos; e o Gaga People, destinado a qualquer pessoa que tivesse vontade de experimentar seu corpo em movimento. Participei do primeiro.

Na primeira aula, foram 1h30 trabalhando técnica e mais 1h30 de repertório da Batsheva Dance Company, escola-berço de Gaga. Nesse primeiro momento, não existiram muitos movimentos predeterminados pelo professor. Pitts foi nos guiando pelo descobrimento de novos espaços, novas movimentações, novas formas de executar e sentir.

Como ele fez isso? Falando sobre imagens que nos ajudaram a chegar em determinados lugares. Ele foi meguiando por meio da imaginação. Fui sentindo as minhas fraquezas e as superando. Como numa viagem, Pitts me direcionou muito mais para sensações e os movimentos provocados por elas do que para uma “forma de dançar”.

Percebi que o professor não estava interessado no meu correto alinhamento, ou em quão bem eu era capaz de imitar qualquer coisa. Pelo contrario, ele explorou o máximo as minhas sensibilidades e disponibilidade para o movimento, para descobrir infinitas e novas possibilidades com o corpo (e não com corpos perfeitos para a dança).

Essa valorização do eu, de como e quanto você acessa os diferentes movimentos, sempre foi um dos pilares do meu trabalho. E por isso aquele momento me emocionou para sempre. Foi um encontro entre mim e Gaga e, ao mesmo tempo, um reencontro meu comigo mesma. Foi a melhor aula que já fiz em toda a minha vida na dança.

Isso pra mim é dançar: me sentir viva. Muito mais do que apenas uma movimentação, sentir meu corpo vivo. E, de onde veio tudo isso, tem muito mais! Acompanhem os próximos posts.

Juliana Ribeiro, coreógrafa e bailarina profissional especializada em dança contemporânea.

Uma reflexão sobre dança e violência

21 novembro, 2017 às 06:53  |  por Juliana Ribeiro

JULIANA

Todo dia 1º de setembro, Dia da Bailarina, olho para trás e penso na minha carreira. Quantas lembranças lindas em cima do palco, prêmios que me orgulham e aquela felicidade plena de fazer – e ensinar – o que amo. Mas também revivo momentos não tão agradáveis e até traumáticos, marcados pelas agressões físicas e verbais sempre tão comuns nas escolas de ballet por onde passei.

Era normal as professoras falarem que nunca seríamos bailarinas por conta de nossos corpos, nos criticarem por comer um iogurte após o treino e até baterem com um pedaço de pau nas nossas pernas, durante a execução errada de um movimento. Hoje, como diretora de um studio de dança, não abro mão de uma formação totalmente humanizada para os meus alunos.

É triste pensar que filmes como Cisne Negro ou reality shows como Dance Moms, que mostram esse “estereótipo” da pressão psicológica enfrentada no mundo da dança, não estão muito longe da realidade. Até hoje ainda recebo no meu studio famílias que estão fugindo de situações como essas. E sei que crianças e adolescentes que passam por isso em outros lugares muitas vezes acabam achando que é correto, que só assim conseguirão se tonar bailarinos.

Lembro de quando, ainda adolescente, eu mesma escondia da minha mãe as sapatilhas sujas de sangue. Ela brigava comigo quando via que eu havia ultrapassado os limites do meu corpo. Mas do outro lado a pr

ofessora de ballet brigava se eu não o fizesse – e dizia que aquela era a única forma de eu me tornar uma bailarina de verdade.

Se depender de mim, nenhuma outra criança passará por isso. Seja no ballet clássico, na dança contemporânea, na salsa, no jazz ou qualquer outra modalidade. Acredito piamente que a dança possa ser ensinada com amor, para que meus alunos se tornem, além de bailarinos, pessoas capazes de acreditar e construir amizade e coletividade dentro do ambiente do ballet.

A todos que ensinam e praticam o ballet humanizado, meus parabéns pelo Dia dos Bailarinos!

Juliana Ribeiro, coreógrafa e bailarina profissional especializada em dança contemporânea.