No fundo, tudo é vaidade…

28 fevereiro, 2017 às 01:07  |  por Adriane Werner

O que nos leva a postar cenas bizarras, mentiras sobre nós mesmos e boatos descarados nas redes sociais?

 

Umberto Eco causou polêmica ao dizer que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis. Sou fascinada com o potencial de comunicação que as redes possibilitam, pra diversão, contato, troca de informações e articulação entre as pessoas, mas, vendo alguns exemplos que pulam aos nossos olhos todos os dias, muitas vezes me pego dando razão ao pensador italiano.

Hoje mesmo me deparei com três exemplos em que a primeira coisa que me veio à mente foi um meme desses engraçadinhos que traz a mensagem “queria desver isso”. Mas as postagens nada tinham de engraçado.

Uma delas, compartilhada à exaustão, era o vídeo de um rapaz que chegou a um pronto-socorro baleado na boca. Usuário de crack, o rapaz dança e se remexe, como em surto, possivelmente por efeito da droga. Os profissionais, no entanto, em vez de socorrê-lo às pressas, começam a exorcizar supostos demônios do paciente. Incrível ter que acreditar que um grupo de profissionais da saúde tenha deixado de lado o compromisso profissional e esquecido completamente a ética. Aliás, ética também não foi o forte de quem teve a brilhante ideia de filmar e postar o vídeo do acontecido. E as centenas – talvez milhares – de pessoas que compartilharam o vídeo? Ingênuas, cegas pela crença, pessoas facilmente influenciáveis? Pra pensar…

A outra postagem é uma mensagem que volta e meia reaparece por aí. O sujeito coloca um texto dando a entender que morreu e que a mensagem foi postada por um familiar. Ao final, diz que é uma brincadeira, mas que a intenção foi fazer todo mundo pensar no quanto é importante valorizar as amizades. No fundo, a pessoa quer que todo mundo comente coisas como “que bom que você está vivo!”. Caramba! A que grau chega nossa carência, a ponto de fazermos os amigos pensarem que morremos, para então eles nos valorizarem?

Por fim, a eterna boa fé, aliada ao descompromisso com a informação repassada, que faz com que milhares e milhares de boatos e notícias falsas sejam compartilhadas aos punhados. Como é que as pessoas ainda acreditam que a criancinha cega irá receber R$ 0,10 cada vez que a mensagem for compartilhada? Quando iremos aprender a procurar no Google antes de compartilhar fotos de crianças supostamente desaparecidas, ou prêmios milionários para quem passar adiante alguma postagem?

No fundo, tudo isso é fruto da vaidade – o pecado capital que mexe com cada um de nós. Por vaidade, queremos mostrar que somos pessoas de fé, impressionadas com um espetáculo deprimente como o do rapaz baleado. Por vaidade, imploramos por declarações de amor e amizade, mesmo que para receber uma atençãozinha precisemos nos fingir de mortos… Por vaidade, queremos mostrar ao mundo que somos bons e nos sensibilizamos com a luta da criancinha cega… E por vaidade, somada à ganância, queremos a possibilidade de sermos brindados pela sorte, ganhando no sorteio virtual o automóvel ou a viagem que nunca teremos.

 

Fonte da foto: proveseuamor.com

Fonte da foto: proveseuamor.com

1 Comentários

2 ideias sobre “No fundo, tudo é vaidade…

  1. Marcelo

    Muito bom texto, Adriane. Bem objetivo. Quando vejo um texto “quilométrico” eu já nem começo a ler, rs. De fato, as redes sociais viraram um espetáculo da imbecilidade humana. Lembro da época que essas correntes e bizarrices só circulavam por e-mail. Agora o e-mail foi apenas substituído pelo Face e Whatsapp.

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  2. marcia sickel

    Adorei ! Mas acho que além da vaidade, tem muito de carência. Vivemos um mundo de menos abraços, menos beijos, menos olho no olho. Estamos carentes de afago e se o que nos resta são os “curtir”, apelamos a eles, sem dó nem piedade. Pode perceber. Quem está realmente bem, feliz e realizado emocionalmente, pouco se importa em mostrar isso em fotos e declarações. Quem tem que mostrar precisa,muitas vezes, convencer a si mesmo da própria felicidade.

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