A arte de curar – Em homenagem aos colegas psicólogos.

27 agosto, 2014 às 09:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“A arte de curar”

Ouvir… de verdade, ouvir… a melodia do ser…
Perceber o tema, a essência do humano viver.
Discernir a dissonância do doentio padecer…
Sintonizar o poder do seu sadio querer.
Entender, compreender… bem querer…
Empatizar, se identificar… bem afinar
Para então… e só então:

Falar, dialogar, diagnosticar
Sugerir, intervir, agir.
Tratar, medicar, operar…

Com clara firmeza e… suave delicadeza,
Com profunda certeza e… harmônica beleza,
Reavivando a verdade; científica, fria, dura,
Com estética, artística… com bondade… com ternura.

Prof. Dr. Wilhelm Kenzler

A identificação, um povo e o seu estrangeiro.

8 agosto, 2014 às 09:42  |  por Willian Mac-Cormick Maron

     Toda relação de identificação é, de certa forma, uma relação de oposição. A minha identidade se constitui à medida em que posso afirmar que sou o que todos outros não são, ou seja, só posso ser eu mesmo em uma relação de diferença com um outro. Por inúmeras relações de identificação, nos constituímos como sujeitos. Nos identificamos ao pai, a um traço particular, a um grupo, a uma crença, a uma organização, ou qualidade de um grande número de pessoas. Assim construímos uma relação de identificação para então podemos nos separar, nos vermos como seres únicos em sua diferença radical, o que Jacques Lacan, psicanalista, chamara outrora de “a função do traço unário”, de unicidade. Bem, não irei tão afundo assim, mas há uma relação importante entre esta função e nossas relações em povos, grupos e organizações.

     Esta função de unicidade tem uma raiz Freudiana que a chamara, anteriormente, de “O narcisismo das pequenas diferenças”, ou seja, a “obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido”. Cita Freud que: “Cada indivíduo é separado dos demais por um tabu de isolamento pessoal’ e que constitui precisamente as pequenas diferenças em pessoas que, quanto ao resto, são semelhantes, que formam a base dos sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles”. E avança ao afirmar que “seria tentador desenvolver essa ideia e derivar desse ‘narcisismo das pequenas diferenças’ a hostilidade que em cada relação humana observamos lutar vitoriosamente contra os sentimentos de companheirismo e sobrepujar o mandamento de que todos os homens devem amar ao seu próximo.”

    Assim postula-se uma semente da formação do “Nós” em detrimento do “outro”, do estrangeiro. Pequenas rixas entre povos vizinhos (mesmo que não violentas como Brasil e Argentina) ou maiores tensões como temos em outros povos, seriam produtos de grande influência destas pequenas diferenças. São estas diferenças mínimas, mas reais, que impedem este outro, o estrangeiro a ser idêntico a mim, meu semelhante. Dessa forma podemos afirmar que é da proximidade e não da distância, que nasce o ódio.  Por mais que tentemos categorizar, homogeneizar ou igualar os seres humanos, precisamos ter claros em mente que não somos idênticos, apenas nos identificamos.

     O trecho abaixo é parte da introdução escrita por Joel Birman na obra “Freud e os não-europeus” de Edward Said e traduzida por Arlene Clemesha.

“Quando Said retoma esta leitura freudiana, interessa-lhe mostrar como, na atualidade, a política arqueológica do Estado de Israel busca apagar e silenciar suas origens não-europeias, indicando monumentos e traços arqueológicos que seriam estritamente judaicos desde a sua origem da Palestina. Vale dizer, essa arqueologia se orientaria pela concepção substancialista da identidade judaica e se contraporia à perspectiva diferencial presente nesta tradição.

Essa arqueologia seria então dirigida pelo imperativo de constituição da tríade Estado-nação-território que Israel pretende estabelecer para justificar a sua legitimidade sobre o território que ocupa. Não reconhece, com isso, a constituição diferencial da tradição judaica articulada com a tradição oriental, na qual diferentes povos se inscreviam naquele mesmo território. Enfim, aquele território não é apenas israelense, mas pertence a diferentes tradições de fato e de direito, inclusive a judaica, bem entendido.

A conclusão é simples e polêmica. O projeto político da constituição de um Estado-nação israelense na Palestina apaga as marcas diferenciais da tradição judaica e se realiza em uma direção oposta a que foi concebida por Freud, em Moisés e o monoteísmo, quando Moisés foi inscrito na encruzilhada entre as tradições judaica e egípcia.”

     Para quem desconhece, no texto “Moisés e o monoteísmo” (acima citado) Freud toma posse da ideia de Ernst Sellin de que o homem Moisés, o grande líder e legislador do povo judeu era, na verdade um egípcio. A hipótese é de que o libertador e messias de um povo foi exatamente o seu estrangeiro. De certa forma, em 1939, Freud se via no final de sua vida e questionava de maneira sistemática sua própria relação com o judaísmo.

     O modelo do estado de Israel, por exemplo, funda-se a partir de sua relação com o estrangeiro, com o diferente que lhe é tão intimo que se busca eliminar pelo medo da incorporação que já não diferenciaria um do outro. A presença de um outro, um excluído, um segregado é constituinte das coletividades bem como de um povo. Não há um povo sem um estrangeiro como não há um eu sem um outro. Nossa questão crucial é o que se faz com este outro, o nosso diferente. As opções podem variar de uma aceitação do outro como sujeito detentor de um desejo legitimo até a busca do extermínio deste outro.

Assim chegamos em algumas ponderações importantes.

1 – O estranho, o estrangeiro desperta tanta fascinação quanto aversão. Fascina tanto quanto assusta.

2 – O diferente, o novo nos convoca a uma posição e a um movimento muitas vezes de repulsa, de segregação … Mas até para segregar, de certa forma, é preciso seguir….

3 – O processo de identificação é um fenômeno de espanto, de diferenciação ao estranho em uma relação de oposição.

4 – Nada nos é tão íntimo quanto esse estranho que nos habita. Estranho este que buscamos expulsar. O íntimo é o nosso estrangeiro e o estrangeiro é, de certa forma, o nosso íntimo.

Twitter: @wmaccormick

Dizem por aí…

31 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Como uma criança que aprende pela repetição, o adulto ainda trás consigo este prazer primário e infantil que é o do olhar. Antes de fazer, olhar. O olhar é uma forma primitiva de obtenção de prazer. Ao olhar para o outro obtenho um prazer quase que anestésico na qual minha subjetividade aponta para um objeto externo e para a especulação sobre este mesmo objeto, criando a partir disso quase que uma relação de alienação. Esta especulação sobre objeto ou pessoa é um componente primordial para a fofoca.

Foi este conceito, que chamaremos aqui de “pulsão escópica” que permitiu à psicanálise restituir uma atividade para o olho como fonte de libido (não apenas como fonte de visão), uma vez que o escopismo é constituinte da própria libido, do próprio desejo.

O binômio “olhar e ser-olhado” é um binômio que não se separa, sempre há um voyeur para um exibicionista, há um fofoqueiro para quem aceita receber tais informações e topa participar da especulação sobre um outro, um curioso.  Pesquisa feita por uma empresa de recursos humanos aponta que o disse me disse em horário de serviço toma 65 horas de expediente por ano. Veja a matéria na íntegra publicada no site da Gazeta do Povo.

Mas a fofoca nos diz muito mais e por isso, novamente cito Freud: “O homem é dono do que cala e escravo do que fala. Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.”

Twitter: @wmaccormick

Ganhar é fazer as pazes com a perda.

23 julho, 2014 às 10:38  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Já disse certa vez que o indivíduo é, em grande parte, aquele personagem que deseja ganhar na loteria mas nunca joga. Queremos sempre ganhar sem precisar perder. A perda faz parte do processo de ganho ou de um processo de permuta. Enquanto não se faz as pazes com a perda, não se abre a possibilidade do novo.

Escolher é fazer faltar. E nada mais necessário que a falta. É pela falta que se ama e se levanta da cama. É pela falta que se faz necessário trilhar caminhos que nos levem ao que desejamos. Mas escolher um caminho exige boa dose de implicação, responsabilidade e coragem, pois a escolha de um caminho exige, invariavelmente, a renúncia de todos os outros caminhos possíveis naquele momento.

A partir do momento em que renunciamos, desapegamos do antigo, do conhecido, abrimos espaço para a chegada do novo, do surpreendente…

Twitter: @wmaccormick

Saúde…

21 julho, 2014 às 10:53  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Desde Freud, sabemos que trabalhar e amar são dois dos grandes indicativos de saúde, mas igualmente, exigem para si grande dose de fantasia e imaginação.

Perguntas que recebo – 04

17 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

P: Como é a família de um executivo que vai parar no divã?

R: Há reações diferentes. Existem famílias que adotam uma postura passiva e aprendem, mesmo que reprimindo, a conviver com a ausência ou falta de intimidade, de convívio. Em outros casos existem posturas de questionamento, de exigências de algo que carece de atenção. Tudo passa pelo trato, pelas condições da união de um casal e como esse casal lida com presença x ausência, paternidade x maternidade e quão é prioritária a questão profissional ou pessoal. Vejo o ser humano como um ser de vários prazeres, e como elegemos um único prazer como o primordial ou como o profissional como o único aspecto de sua vida ( não como um dos) teremos provavelmente problemas.

Perguntas que recebo – 03

14 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

P: Os líderes não deveriam estar aptos a lidar com essas questões? Afinal, está tudo no holerite.

R: Deveriam? Na holerite vejo um número, um valor financeiro que dão para seu trabalho. Mas qual é realmente seu trabalho?
Não encaro como algo que venha com manual, só vejo o ser humano apto para lidar com alguma questão no momento em que realmente precisa lidar. Todas as questões são diferentes pois envolvem culturas, pessoas, situações econômicas e mercados diferentes… O que se enfrenta de desafio em uma empresa nunca será o mesmo que na outra.

Perguntas que recebo – 02

10 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

P: Quais são as situações mais comuns que levam esses pacientes até você?

R: A liderança é campo atravessado por constante mal-estar, pois envolve pessoas, interesses, o trabalho e o capital em campos distintos, a autoridade e a produção.

São as situações comuns que o fazem buscar ajuda: Stress, problemas de saúde, pressão familiar… Mas são as situações incomuns que os mantém em um trabalho analítico: Culpa, fobias, questões familiares mal resolvidas e narcísicas, alienação ao grupo ou cristalização de uma identidade inventada mas que não condiz com o que acredita.  A velha crise do “ter de ser, sem saber o que se é”.

Perguntas que recebo – 01

7 julho, 2014 às 10:09  |  por Willian Mac-Cormick Maron

P: Explique o que está por trás da expressão “executivos no divã”. Eles não eram à prova de pressões?

R: Essa é uma demanda ilusória.  Eles são cobrados para serem super heróis por toda uma construção social e de marketing a fim de criar um “mito” do líder, o que ajuda diretamente do envolvimento de investidores, acionistas e comprometimento dos profissionais que acabam buscando este modelo de identificação. O fato é que vivemos em um mercado que só recompensa e reconhece os fortes. Não se pode ter medo, angustia ou insegurança. Ou seja, não se pode ser humano. Como Freud já dizia “Somos feitos de carne mas vivemos como se fossemos de ferro”

Somos de carne e osso…

27 junho, 2014 às 12:02  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”. (Sigmund Freud)

Mas também…

Somos (de)feitos de carne e osso…
Somos (des)feitos de carne e osso…
Somos (re)feitos de carne e osso…
Somos (mal)feitos de carne e osso…
Somos (per)feitos de carne e osso…