Não foi nada fácil! O frio, o cinza no céu, as intermináveis chuvas, as mudanças climáticas (externas e internas), a sisudez das pessoas, mesmo muito bem vestidas e um misto de timidez e constrangimento entre elas me chamou atenção. O que se passa nessa cidade?
Esse foi meu questionamento, mas poderia ser de qualquer um que me lê e que não é “daqui”, que vem para trabalhar, estudar, visitar ou apenas amar.
Venho do Rio de Janeiro, onde parece-me que as características da “Curitibanidade” seriam impraticáveis, onde todos são (ou melhor, se comportam como) alegres, simpáticos e “felizes”, talvez até respondendo a um imperativo social.
Amo os dois locais. Para mim o Rio é a mãe que afaga e Curitiba é o pai que educa.
No Rio, quando se esta triste, a cidade lhe responde: “Mas filho, não fique assim. Olha o sol, olha o mar, olha a alegria das pessoas, olha a maravilha de paisagem. Porque não toma uma água de coco ou caminha no calçadão ou em volta da lagoa? Ponha um sorriso em seu rosto, filho.”
Em Curitiba, quando se está triste, a cidade lhe responde: “Te vira, filho! Cuide-se, é você, com você mesmo! Não esperem que os outros cuidem de ti.”
Por isso sou externamente grato a esta cidade. Que respira cultura, modernidade, mas ao mesmo tempo tradicionalismo e provincianismo. Curitiba é um paradoxo, uma ambivalência de sentimentos desde sua primeira estada.
Curitiba, acima de tudo, me ensinou a ser uma boa companhia para mim mesmo, me bancar. O poder desfrutar da delicia de uma solidão bem acompanhada.
O anonimato que Curitiba lhe dá é prazeroso, com é bom as vezes poder sentar em um café para ler um livro e ter a total certeza que ninguém nunca o abordará para puxar assunto e não o olhará com pena por estar só, pois sabe que talvez seja o que você realmente busca. Estar consigo mesmo.
Não foi fácil! Precisei ler “A Polaquinha”de Dalton Trevisan, as poesias de Paulo Leminski, as crônicas de Cristovão Tezza e Jaime Lerner em sua obra “Acupuntura Urbana” para esboçar entender Curitiba. Precisei ir à Rua VX, tomar um submarino no Bar do Alemão, passear pela feira do Largo da Ordem, Comer um pierogi da Barraca do Tadeu e um cachorro quente com duas “vinas” para sentir um pouco o que é a curitibanidade. Precisei subir na torre panorâmica da Telepar para para ver o quão grandiosa é esta cidade.
Amo Curitba justamente pelos mesmos motivo que muitas pessoas odeiam.
Os versos abaixo vão em sua homenagem:
“Pessoas vem e vão
Transitam pelas ruas gozando de sua discrição.
São vistas mas não notadas.
A dadiva da incógnita lhes foram dadas.
E a boa companhia que me faz a solidão
Me encontro, “trevisaneando”* salvo e são.”
Twitter: @wmaccormick
* Como bom “Curitibano” escrevo em sua homenagem uma semana depois de seu aniversário.
* Em homenagem a genialidade reclusa de Dalton Trevisan que usa sua escrita como forma de se comunicar com o mundo.