O moralista

13 dezembro, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Sempre que leio “sociedade moralista”, algo soa-me como pleonasmo. Toda coletividade (sejam pequenos grupos ou grandes sociedades), de certa forma, busca impor sua moral (seja ela qual for) de uma forma hegemônica. É onde o perigo ronda. O moralista pode se tornar um dos piores perversos e dos mais temidos opressores usando a questão “moral” como pano de fundo para expor, difundir e praticar seu atos perversos, assim reduzindo o outro à mero resto, escória.
Como disse Luciano Elia certa vez…: “O moralista é o subterrâneo do perverso, portanto, podemos considerá-lo o seu submundo…”

A negação

10 dezembro, 2014 às 14:35  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Pensando alto…

“O que supõe a negação? Toda negação supõe a afirmação sobre a qual ela se apóia.” (J. Lacan – Sem. 09)

Essa poderia ser tanto a lógica do homofóbico ou daquelas figuras políticas que, incansavelmente, se dizem “éticas”, rechaçando de forma efusiva qualquer envolvimento em esquemas de corrupção …
Parece-me que discurso radicalmente repetitivo é, de certa forma, o discurso do autoconvencimento.

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Segregação e as formações coletivas

1 dezembro, 2014 às 13:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Os vínculos comunitários e coletivos se dão a partir de uma exclusão de um de seus membros. A segregação ou a exclusão não é um efeito ou conseqüência cronológica de uma identificação coletiva, ela é base lógica. A exclusão é originária das relações coletivas. Para que seja possível uma identificação de grupo ou de massa, se faz necessário que já haja um outro, diferente, segregado. Não há um “nós” sem um “eles”.

Não há uma formação coletiva sem a segregação. A constituição das coletividades se dá a partir de algum tipo de exclusão. Sempre haverá exclusões; alguma forma de exclusão é a condição necessária da identidade subjetiva. A questão o que se faz com o adversário, o inimigo, o excluído ou segregado. Quando há um encaminhamento por um sistema repressivo, podemos ver uma saída perversa visando a destruição do outro. Quando temos um encaminhamento sublimatório perceber, desta sublimação, o surgimento de novas subjetividades e o entendimento do desejo do outro (mesmo que diferente do meu) como também legítimo.

Embora muito menos discutido, o primeiro embrião de uma identificação coletiva (como vemos em “Totem e tabu”) é em relação ao ódio em comum. Nos identificamos como irmãos pois odiamos o mesmo objeto (no caso o “pai da horda”). O fenômeno de uma identificação ao mesmo inimigo, ao mesmo objeto de ódio parece-me uma herança pré-totêmica.

O ódio é o irmão mais velho…

Falo também sobre segregação e exclusão no post: “A identificação, um povo e o seu estrangeiro”.

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Verdades e verdades…

14 outubro, 2014 às 15:48  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Que verdade é essa que esse outro me apresenta? Essa verdade que discorda da minha e que me causa estranheza pois aponta para um outro desejo. Desejo esse que questiona meu próprio desejo, minha própria verdade até então inquestionável.

Que verdade é essa que preciso eliminar, destruir com palavras ou até atos antes que coloque toda minha certeza em risco?
Logo eu que era tão seguro de minhas verdades, coloco-me em uma posição por vezes agressiva com o simples objetivo de eliminar o desejo e a verdade do outro?

Que verdade é essa que me violenta?
Que verdade é essa que eu violento?
Bem, qual era a minha verdade mesmo?

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Desembarques

7 outubro, 2014 às 10:37  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Quem desembarca, o faz de algo
De um voo alçado
De um oceano navegado
De um caminho trilhado

Se embarcado está, às vezes apenas não é hora de desembarcar … Às vezes ainda não chegou ao destino …
Às vezes ….
Não não preocupe-se tanto com o desembarque … Continue caminhando, voando, navegando … Quando tiver que descer, desembarcará, mas para embarcar novamente em outra jornada. Talvez a vida seja justamente esse grande saguão de aeroporto.
Cheio de embarques e desembarques
Chegadas e partidas
Boas vindas e despedidas.

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Algumas questões econômicas do sujeito

29 setembro, 2014 às 14:17  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Não… Não escreverei sobre aspectos econômicos de um país ou sobre temas financeiros. Falarei sobre os preços que pagamos e os custos que obtemos por ser quem realmente somos ou por nos inventarmos. Bem, não é novidade que a partir da psicanálise podemos olhar para os conceitos de pulsão e libido através de uma abordagem “econômica”, ou seja, uma quantidade de energia que é direcionada ou não até um objeto. Este investimento (ou catexia) aponta para um objeto externo e seu representante interno buscando experiências satisfatórias.

Mas também não é necessariamente disso que se trata aqui. Trata-se de algo que completa o que já escrevi no post “Ganhar é fazer as pazes com a perda”. Vejo que nosso desafio não é ser assim ou ser assado, mas pagar o preço por ser quem se é. É se bancar.

 “Devemos pagar caro pelos nossos erros se quisermos ver-nos livres deles, e depois podemos até dizer que temos sorte” (Johann Goethe)

 Talvez devamos pagar pelos nossos acertos também, pelos avanços e sucessos. A frase de Goethe vale para suas finanças quanto para sua atitude como sujeito. Pague pelo que puder pagar antes, pois para todo parcelamento ou atraso, acrescentam-se juros consideravelmente sofríveis. Na vida, como em um banco, os juros são altos e os juros das juras são os mais custosos. Com juros e com juras parcela-se a vida do neurótico, via crediário, e a perder-se de vista.

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XII Congresso de Filosofia Contemporânea e do I Congresso Internacional de Direitos Humanos

1 setembro, 2014 às 12:25  |  por Willian Mac-Cormick Maron

A pesquisadora Chantal Mouffe, da University of Westminster, estará na PUCPR no dia 2 de setembro, das 9h30 às 11h30. Ela irá ministrar palestra com o tema “Politica agonistica, practicas hegemonicas y radicalizacion de la democracia”, na aberturado XII Congresso de Filosofia Contemporânea e do I Congresso Internacional de Direitos Humanos.

O congresso segue até o dia 5 de setembro e tem como tema Políticas da Memória e Políticas do Esquecimento. Irá promover uma reflexão sobre a memória política e a atualidade dos Direitos Humanos no Brasil e na América Latina. Os interessados em apresentar trabalhos científicos no evento devem fazer a inscrição até o dia 15 de agosto. As inscrições para participar do congresso devem ser feitas até o dia 1° de setembro, ambos pelo site.

A discussão sobre a consolidação dos regimes democráticos e o respeito aos Direitos Humanos diante da memória dos regimes ditatoriais que, desde anos sessenta do século XX, assolaram grande parte das nações latino-americanas estará no centro dos debates.  Além do mais, o Congresso objetiva pensar a  relação entre Teoria Política, Filosofia Política e Direitos Humanos no âmbito da  pesquisa e do ensino, promovendo,  deste modo, a troca de experiências e ideias sobre Direitos Humanos através do contato com estudantes e professores/pesquisadores.

Participarei coordenando mesa de trabalhos e apresentando um trabalho sobre “A formação e os problemas das coletividades na psicanálise”.
Dia 03/09/2014 Sala A10 (Escola de Educação e Humanidades)
A partir de 13:30h

congressofilosofia

A arte de curar – Em homenagem aos colegas psicólogos.

27 agosto, 2014 às 09:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“A arte de curar”

Ouvir… de verdade, ouvir… a melodia do ser…
Perceber o tema, a essência do humano viver.
Discernir a dissonância do doentio padecer…
Sintonizar o poder do seu sadio querer.
Entender, compreender… bem querer…
Empatizar, se identificar… bem afinar
Para então… e só então:

Falar, dialogar, diagnosticar
Sugerir, intervir, agir.
Tratar, medicar, operar…

Com clara firmeza e… suave delicadeza,
Com profunda certeza e… harmônica beleza,
Reavivando a verdade; científica, fria, dura,
Com estética, artística… com bondade… com ternura.

Prof. Dr. Wilhelm Kenzler

A identificação, um povo e o seu estrangeiro.

8 agosto, 2014 às 09:42  |  por Willian Mac-Cormick Maron

     Toda relação de identificação é, de certa forma, uma relação de oposição. A minha identidade se constitui à medida em que posso afirmar que sou o que todos outros não são, ou seja, só posso ser eu mesmo em uma relação de diferença com um outro. Por inúmeras relações de identificação, nos constituímos como sujeitos. Nos identificamos ao pai, a um traço particular, a um grupo, a uma crença, a uma organização, ou qualidade de um grande número de pessoas. Assim construímos uma relação de identificação para então podemos nos separar, nos vermos como seres únicos em sua diferença radical, o que Jacques Lacan, psicanalista, chamara outrora de “a função do traço unário”, de unicidade. Bem, não irei tão a fundo assim, mas há uma relação importante entre esta função e nossas relações em povos, grupos e organizações.

     Esta função de unicidade tem uma raiz Freudiana que a chamara, anteriormente, de “O narcisismo das pequenas diferenças”, ou seja, a “obsessão por diferenciar-se daquilo que resulta mais familiar e parecido”. Cita Freud que: “Cada indivíduo é separado dos demais por um tabu de isolamento pessoal’ e que constitui precisamente as pequenas diferenças em pessoas que, quanto ao resto, são semelhantes, que formam a base dos sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles”. E avança ao afirmar que “seria tentador desenvolver essa ideia e derivar desse ‘narcisismo das pequenas diferenças’ a hostilidade que em cada relação humana observamos lutar vitoriosamente contra os sentimentos de companheirismo e sobrepujar o mandamento de que todos os homens devem amar ao seu próximo.”

    Assim postula-se uma semente da formação do “Nós” em detrimento do “outro”, do estrangeiro. Pequenas rixas entre povos vizinhos (mesmo que não violentas como Brasil e Argentina) ou maiores tensões como temos em outros povos, seriam produtos de grande influência destas pequenas diferenças. São estas diferenças mínimas, mas reais, que impedem este outro, o estrangeiro a ser idêntico a mim, meu semelhante. Dessa forma podemos afirmar que é da proximidade e não da distância, que nasce o ódio.  Por mais que tentemos categorizar, homogeneizar ou igualar os seres humanos, precisamos ter claros em mente que não somos idênticos, apenas nos identificamos.

     O trecho abaixo é parte da introdução escrita por Joel Birman na obra “Freud e os não-europeus” de Edward Said e traduzida por Arlene Clemesha.

“Quando Said retoma esta leitura freudiana, interessa-lhe mostrar como, na atualidade, a política arqueológica do Estado de Israel busca apagar e silenciar suas origens não-europeias, indicando monumentos e traços arqueológicos que seriam estritamente judaicos desde a sua origem da Palestina. Vale dizer, essa arqueologia se orientaria pela concepção substancialista da identidade judaica e se contraporia à perspectiva diferencial presente nesta tradição.

Essa arqueologia seria então dirigida pelo imperativo de constituição da tríade Estado-nação-território que Israel pretende estabelecer para justificar a sua legitimidade sobre o território que ocupa. Não reconhece, com isso, a constituição diferencial da tradição judaica articulada com a tradição oriental, na qual diferentes povos se inscreviam naquele mesmo território. Enfim, aquele território não é apenas israelense, mas pertence a diferentes tradições de fato e de direito, inclusive a judaica, bem entendido.

A conclusão é simples e polêmica. O projeto político da constituição de um Estado-nação israelense na Palestina apaga as marcas diferenciais da tradição judaica e se realiza em uma direção oposta a que foi concebida por Freud, em Moisés e o monoteísmo, quando Moisés foi inscrito na encruzilhada entre as tradições judaica e egípcia.”

     Para quem desconhece, no texto “Moisés e o monoteísmo” (acima citado) Freud toma posse da ideia de Ernst Sellin de que o homem Moisés, o grande líder e legislador do povo judeu era, na verdade um egípcio. A hipótese é de que o libertador e messias de um povo foi exatamente o seu estrangeiro. De certa forma, em 1939, Freud se via no final de sua vida e questionava de maneira sistemática sua própria relação com o judaísmo.

     O modelo do estado de Israel, por exemplo, funda-se a partir de sua relação com o estrangeiro, com o diferente que lhe é tão intimo que se busca eliminar pelo medo da incorporação que já não diferenciaria um do outro. A presença de um outro, um excluído, um segregado é constituinte das coletividades bem como de um povo. Não há um povo sem um estrangeiro como não há um eu sem um outro. Nossa questão crucial é o que se faz com este outro, o nosso diferente. As opções podem variar de uma aceitação do outro como sujeito detentor de um desejo legitimo até a busca do extermínio deste outro.

Assim chegamos em algumas ponderações importantes.

1 – O estranho, o estrangeiro desperta tanta fascinação quanto aversão. Fascina tanto quanto assusta.

2 – O diferente, o novo nos convoca a uma posição e a um movimento muitas vezes de repulsa, de segregação … Mas até para segregar, de certa forma, é preciso seguir….

3 – O processo de identificação é um fenômeno de espanto, de diferenciação ao estranho em uma relação de oposição.

4 – Nada nos é tão íntimo quanto esse estranho que nos habita. Estranho este que buscamos expulsar. O íntimo é o nosso estrangeiro e o estrangeiro é, de certa forma, o nosso íntimo.

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Dizem por aí…

31 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Como uma criança que aprende pela repetição, o adulto ainda trás consigo este prazer primário e infantil que é o do olhar. Antes de fazer, olhar. O olhar é uma forma primitiva de obtenção de prazer. Ao olhar para o outro obtenho um prazer quase que anestésico na qual minha subjetividade aponta para um objeto externo e para a especulação sobre este mesmo objeto, criando a partir disso quase que uma relação de alienação. Esta especulação sobre objeto ou pessoa é um componente primordial para a fofoca.

Foi este conceito, que chamaremos aqui de “pulsão escópica” que permitiu à psicanálise restituir uma atividade para o olho como fonte de libido (não apenas como fonte de visão), uma vez que o escopismo é constituinte da própria libido, do próprio desejo.

O binômio “olhar e ser-olhado” é um binômio que não se separa, sempre há um voyeur para um exibicionista, há um fofoqueiro para quem aceita receber tais informações e topa participar da especulação sobre um outro, um curioso.  Pesquisa feita por uma empresa de recursos humanos aponta que o disse me disse em horário de serviço toma 65 horas de expediente por ano. Veja a matéria na íntegra publicada no site da Gazeta do Povo.

Mas a fofoca nos diz muito mais e por isso, novamente cito Freud: “O homem é dono do que cala e escravo do que fala. Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.”

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