Dizem por aí…

31 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Como uma criança que aprende pela repetição, o adulto ainda trás consigo este prazer primário e infantil que é o do olhar. Antes de fazer, olhar. O olhar é uma forma primitiva de obtenção de prazer. Ao olhar para o outro obtenho um prazer quase que anestésico na qual minha subjetividade aponta para um objeto externo e para a especulação sobre este mesmo objeto, criando a partir disso quase que uma relação de alienação. Esta especulação sobre objeto ou pessoa é um componente primordial para a fofoca.

Foi este conceito, que chamaremos aqui de “pulsão escópica” que permitiu à psicanálise restituir uma atividade para o olho como fonte de libido (não apenas como fonte de visão), uma vez que o escopismo é constituinte da própria libido, do próprio desejo.

O binômio “olhar e ser-olhado” é um binômio que não se separa, sempre há um voyeur para um exibicionista, há um fofoqueiro para quem aceita receber tais informações e topa participar da especulação sobre um outro, um curioso.  Pesquisa feita por uma empresa de recursos humanos aponta que o disse me disse em horário de serviço toma 65 horas de expediente por ano. Veja a matéria na íntegra publicada no site da Gazeta do Povo.

Mas a fofoca nos diz muito mais e por isso, novamente cito Freud: “O homem é dono do que cala e escravo do que fala. Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo.”

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Ganhar é fazer as pazes com a perda.

23 julho, 2014 às 10:38  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Já disse certa vez que o indivíduo é, em grande parte, aquele personagem que deseja ganhar na loteria mas nunca joga. Queremos sempre ganhar sem precisar perder. A perda faz parte do processo de ganho ou de um processo de permuta. Enquanto não se faz as pazes com a perda, não se abre a possibilidade do novo.

Escolher é fazer faltar. E nada mais necessário que a falta. É pela falta que se ama e se levanta da cama. É pela falta que se faz necessário trilhar caminhos que nos levem ao que desejamos. Mas escolher um caminho exige boa dose de implicação, responsabilidade e coragem, pois a escolha de um caminho exige, invariavelmente, a renúncia de todos os outros caminhos possíveis naquele momento.

A partir do momento em que renunciamos, desapegamos do antigo, do conhecido, abrimos espaço para a chegada do novo, do surpreendente…

Twitter: @wmaccormick

Saúde…

21 julho, 2014 às 10:53  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Desde Freud, sabemos que trabalhar e amar são dois dos grandes indicativos de saúde, mas igualmente, exigem para si grande dose de fantasia e imaginação.

Perguntas que recebo – 04

17 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

P: Como é a família de um executivo que vai parar no divã?

R: Há reações diferentes. Existem famílias que adotam uma postura passiva e aprendem, mesmo que reprimindo, a conviver com a ausência ou falta de intimidade, de convívio. Em outros casos existem posturas de questionamento, de exigências de algo que carece de atenção. Tudo passa pelo trato, pelas condições da união de um casal e como esse casal lida com presença x ausência, paternidade x maternidade e quão é prioritária a questão profissional ou pessoal. Vejo o ser humano como um ser de vários prazeres, e como elegemos um único prazer como o primordial ou como o profissional como o único aspecto de sua vida ( não como um dos) teremos provavelmente problemas.

Perguntas que recebo – 03

14 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

P: Os líderes não deveriam estar aptos a lidar com essas questões? Afinal, está tudo no holerite.

R: Deveriam? Na holerite vejo um número, um valor financeiro que dão para seu trabalho. Mas qual é realmente seu trabalho?
Não encaro como algo que venha com manual, só vejo o ser humano apto para lidar com alguma questão no momento em que realmente precisa lidar. Todas as questões são diferentes pois envolvem culturas, pessoas, situações econômicas e mercados diferentes… O que se enfrenta de desafio em uma empresa nunca será o mesmo que na outra.

Perguntas que recebo – 02

10 julho, 2014 às 06:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

P: Quais são as situações mais comuns que levam esses pacientes até você?

R: A liderança é campo atravessado por constante mal-estar, pois envolve pessoas, interesses, o trabalho e o capital em campos distintos, a autoridade e a produção.

São as situações comuns que o fazem buscar ajuda: Stress, problemas de saúde, pressão familiar… Mas são as situações incomuns que os mantém em um trabalho analítico: Culpa, fobias, questões familiares mal resolvidas e narcísicas, alienação ao grupo ou cristalização de uma identidade inventada mas que não condiz com o que acredita.  A velha crise do “ter de ser, sem saber o que se é”.

Perguntas que recebo – 01

7 julho, 2014 às 10:09  |  por Willian Mac-Cormick Maron

P: Explique o que está por trás da expressão “executivos no divã”. Eles não eram à prova de pressões?

R: Essa é uma demanda ilusória.  Eles são cobrados para serem super heróis por toda uma construção social e de marketing a fim de criar um “mito” do líder, o que ajuda diretamente do envolvimento de investidores, acionistas e comprometimento dos profissionais que acabam buscando este modelo de identificação. O fato é que vivemos em um mercado que só recompensa e reconhece os fortes. Não se pode ter medo, angustia ou insegurança. Ou seja, não se pode ser humano. Como Freud já dizia “Somos feitos de carne mas vivemos como se fossemos de ferro”

Somos de carne e osso…

27 junho, 2014 às 12:02  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”. (Sigmund Freud)

Mas também…

Somos (de)feitos de carne e osso…
Somos (des)feitos de carne e osso…
Somos (re)feitos de carne e osso…
Somos (mal)feitos de carne e osso…
Somos (per)feitos de carne e osso…

Adaptação

15 junho, 2014 às 06:30  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Em “Crime e Castigo”, Dostoiévski escreve que “nada apavora mais o homem do que aquilo que muda seus hábitos”.

Penso que o humano se adapta a quase tudo.
Só não se adapta ao fato de ter que sempre se adaptar.

Sobre meninos e organizações.

14 junho, 2014 às 06:30  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“A história de como minha experiência com meninos de rua me ajudou a entender muito mais as organizações e seus atores que qualquer outro guru de BUSINESS.”

 Era meu primeiro dia de estágio em uma instituição que abrigava menores em de rua ou em sitação de risco na região metropolitana de Curitiba. Era meu último ano de formação no curso de psicologia e estaria alí uma, duas vezes por semana o ano todo. Era um local afastado da capital, uma boa viagem para ir e para voltar. Mal sabia eu que aquele local mudaria vida e minha forma de ver as coletividades.

Ao chegar, estava confiante, já me sentia um “psicólogo” e fizera planos para as atividades com os meninos. Eram meninos entre 08 e 13 anos e eu um estudante empolgado com um novo desafio.

Pensava eu que, ao chegar, os colocaria em uma “roda de conversa”, me apresentaria, diria o que estaria fazendo por lá e assim poderia os ajudar. Era o que eu acreditava.

Ao começar a falar, reparei que estavam dispersos, um questionou o outro, que o xingou, levantou e deu um soco no rosto do primeiro. Bem, eu estava a 10 minutos no local e já havia perdido todo o controle da situação (se é que em algum momento eu o tive). Em suma iniciei o dia conversando com 16 crianças e terminei com 09 (que não brigaram ou cometeram algum tipo de indisciplina).

Erro delas? De forma alguma. Meu trabalho começou totalmente equivocado. Minha pretensão de salvá-las era quase que patética, meu desafio real era abrir um ambiente de escuta, de projeção em forma de escrita, de desenhos, e deixa-las produzir alí seus conteúdos para tomarem posse. Nas semanas seguintes chamei uma a uma, separadamente e o desenvolvimento foi visível e fantástico. Em um ambiente seguro, o que elas desenvolveram e que tipos de sentimentos e afetos circularam era extraordinário.

De forma alguma as salvei, era muito pouco o que eu fazia alí, talvez o inverso tenha verdadeiramente acontecido. Elas, me ajudaram muito mais. Descobri algo que parece óbvio agora mas precisei sentir na pele para entender que isoladamente eram crianças que tinham medos, anseios, desejos, mágoas, carinhos como qualquer outra criança, mas que quando voltavam ao grupo voltavam a se portar como meninos de rua, agressivos, tentando não serem tragados pela instituição, pois esta era a única forma de reação que conheciam ou a única que funcianava em relação aos ambientes e situações hostis que bem conheciam.

Franco Basaglia publicou em 1985 o livro “A instituição negada” na qual relatava casos de pacientes em hospitais psiquiátricos que pode muito bem ser descolada para outros tipos de instituições. Ele diria que estas reações em grupo de agressividade e o que parece um sintoma poderia ser forma de resistir à mortificação, último recurso de produção de si mesmo. Este menino é já unicamente um corpo institucionalizado, que vive como um objeto e que, às vezes, tenta – quando ainda não está completamente domado – reconquistar mediante estas reações, aparentemente incompreensíveis, os caracteres de um corpo pessoal, de um corpo vivido, recusando identificar-se com a instituição, que lhe é negada – de forma concreta e explícita – a possibilidade de reconstruir um corpo próprio que consiga dialetizar o mundo.

Em minhas andanças depois pelas empresas e organizações hierárquicas não vi coisas muito diferentes disso, até porque se falamos de um adulto, executivo, empresário, também falamos com a criança que ele foi. “Raspem o adulto e encontrarão a criança”, diria Sandór Ferenczi, um dos mais íntimos colaboradores da psicanálise.

Ambientes hostis, até repressivos das organizações geram, de formas similares, reações, agressividades e outros comportamentos que não seriam aparentes individualmente. Falamos de um mercado que só exalta os fortes, onde não se pode ter medo, dúvida, angustia ou insegurança. Ou seja, não se pode ser humano.

O teatro das coletividades sempre nos faz reagir de forma melhor aceita ou adaptável ao grupo que estamos naquele momento e expõe nossas facetas do ego que já citei no post “O lado B”. Nunca eu sou 100% da mesma forma e em todos os ambientes, seria impraticável. O que para mim mostra a ineficácia das dinâmicas de grupo aplicadas em empresas ou instituições. Sempre agimos conforme acreditamos que o outro espera que reajamos ou apenas reagimos para não sermos fundidos com o grupo.

Twitter: @wmaccormick