A crise e a castração – CBN DEBATE

13 maio, 2016 às 11:14  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Um dos efeitos mais perversos da crise econômica é o desemprego, crescente em todo o país. No entanto, quem está empregado também sofre reflexos, com a pressão cada vez maior por desempenho e resultados. A crise é o mais perverso processo seletivo.

A crise é dádiva exclusiva do homem. A crise pertence exclusivamente ao social.

Não há crise na natureza a menos que o homem a coloque em crise. A crise emergencia a necessidade de uma readaptação de um impasse que a pulsão trouxe e a linguagem precisa dar conta, tomar posse. Antes de uma crise de fato, sempre aparece uma crise da palavra, de especulação.

A crise é mais negativa não aprendemos com ela e sempre damos as mesmas respostas para ela. Assim só se torna uma exaltação do problema. A crise nos obriga a encarar a impotência, a castração, nos esfrega na cara nosso desamparo. Na angústia eu crio, na crise eu cresço e no conflito eu aprendo… Mas só, e somente só, eu realmente quiser e puder bancar tal atitude.

Ouça na íntegra minha participação do CBN debate de 30/04 clicando aqui

Alienação e separação.

10 maio, 2016 às 11:43  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Lendo inflamados debates penso ser no mínimo ingênuo um lado se colocar como menos alienado que o outro.

Se a transferência é um dos nomes do amor, a identificação poderia ser um dos nomes da alienação (ou produto).
Uma identidade só é constituída após me identificar para poder, posteriormente, me separar. Estamos sempre em um movimento de alienação e segregação. Não há identificação sem o mínimo de alienação. É uma constante relação de exterioridade que vem para explicar o que eu sou ou entregar uma espécie de sentido que dá conta de minhas narrativas ou justifica minha existência, o que faço e como penso. Nos alienamos à nossa família na primeira infância, aos amigos e à escola na juventude, às religiões, à profissão quando adultos, à ideologias e às organizações que se tornam nosso sobrenome e que nos ajudam a responder à pergunta social: “Quem é você?”.

Sempre quero que o discurso ou narrativa pela qual eu esteja alienado prevaleça hegemonicamente perante outros discursos alienatórios.

“Meu discurso alienatório é mais identificatório que o seu”, disse a velha ideologia.

Enquanto os daqui defendem a ideologia (o que acho justíssimo), os de lá defendem bolso… Assim aquele significante entoado várias vezes vai mudando de boca.

O sujeito é um pêndulo.
Entre alienação e separação, oscila.

O líder e o totalitarismo do sentido.

16 abril, 2016 às 09:39  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Todo grupo reivindica à si o título dos “escolhidos” os melhores, os abençoados. Sejam em organizações, instituições, partidos ou religiões.
Da mesma forma todo líder carismático evoca para si o título de messias, o profeta, aquele que levará seu rebanho a um caminho da luz, da salvação, da “felicidade” ou do prazer, trazendo consigo um monopólio de sentido.
A rígida ideologia traz consigo um monopólio de sentido, nos mantendo presos em uma única possibilidade de produção de significados.
O monopólio de sentido elimina o potencial de autonomia e produção de novas subjetividades do sujeito. Sou a partir daquela única verdade que acolho.
O monopólio de sentido é totalitarista.

A palavra

5 abril, 2016 às 09:40  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Nem toda palavra é digna de entendimento.
Nem sempre a palavra consegue elaborar uma experiência.
Nem sempre a palavra dá conta de um sentir. O sentir é absolutista.

A palavra é falha
é falo

Às vezes a palavra diz sem um querer dizer aquilo que quer dizer quando não o diz.

Sobre-viver em Curitiba

29 março, 2016 às 09:00  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Não foi nada fácil! O frio, o cinza no céu, as intermináveis chuvas, as mudanças climáticas (externas e internas), a sisudez das pessoas, mesmo muito bem vestidas e um misto de timidez e constrangimento entre elas me chamou atenção. O que se passa nessa cidade?

Esse foi meu questionamento, mas poderia ser de qualquer um que me lê e que não é “daqui”, que vem para trabalhar, estudar, visitar ou apenas para amar.

Venho do Rio de Janeiro, onde parece-me que as características da “Curitibanidade” seriam impraticáveis, onde todos são (ou melhor, se comportam como) alegres, simpáticos e “felizes”, talvez até respondendo a um imperativo social.

Amo os dois locais. Para mim o Rio é a mãe que afaga e  Curitiba é o pai que educa.

No Rio, quando se esta triste, a cidade lhe responde: “Mas filho, não fique assim. Olha o sol, olha o mar, olha a alegria das pessoas, olha a maravilha de paisagem. Porque não toma uma água de coco ou caminha no calçadão ou em volta da lagoa? Ponha um sorriso em seu rosto, filho.”

Em Curitiba, quando se está triste, a cidade lhe responde: “Te vira, filho! Cuide-se, é você com você mesmo! Não espere que os outros cuidem de ti.”

Por isso sou externamente grato a esta cidade. Que respira cultura, modernidade, mas ao mesmo tempo tradicionalismo e provincianismo. Curitiba é um paradoxo, uma ambivalência de sentimentos desde sua primeira estada.

Curitiba, acima de tudo, me ensinou a ser uma boa companhia para mim mesmo, me bancar.  O poder desfrutar da delicia de uma solidão bem acompanhada.

O anonimato que Curitiba lhe dá é prazeroso, com é bom as vezes poder sentar em um café para ler um livro e ter a total certeza que ninguém nunca o abordará para puxar assunto e não o olhará com pena por estar só, pois sabe que talvez seja o que você realmente busca. Estar consigo mesmo.

Não foi fácil! Precisei ler Jamil Snege, Dalton Trevisan e Karan, as poesias de Paulo Leminski, as crônicas de Cristovão Tezza e Jaime Lerner em sua obra “Acupuntura Urbana” para esboçar entender Curitiba. Precisei ir à Rua VX, tomar um submarino no Bar do Alemão, passear pela feira do Largo da Ordem Precisei comer um pierogi da Barraca do Tadeu e um cachorro quente com duas “vinas” para sentir um pouco o que é a curitibanidade. Precisei avistar, mesmo que de longe o passeio protestante do “Oil Man”. Precisei subir na torre panorâmica da Telepar para para ver o quão grandiosa é esta cidade.

Amo Curitiba justamente pelos mesmos motivo que muitas pessoas possam não gostar. Por isso, os versos abaixo vão em sua homenagem:

“Pessoas vem e vão 
Transitam pelas ruas gozando de sua discrição.
São vistas mas não notadas.
A dadiva da incógnita lhes foram dadas.
E a boa companhia que me faz a solidão 
Me encontro, “trevisaneando”* salvo e são.”

* Em homenagem a genialidade reclusa de Dalton Trevisan que usa sua escrita como forma de se comunicar com o mundo.

Nova turma para o curso: “O Líder, a Sociedade e as Identificações”

28 março, 2016 às 09:49  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“O Líder, a Sociedade e as Identificações”
(Nova turma - Universidade Positivo – Cursos Livres)

Um dos pontos cegos e problemáticos na teoria da democracia e das organizações é exatamente o lugar da liderança.

A psicanálise como lente com a qual olhamos criticamente para questões culturais, sociais, políticas e de liderança

Diferentemente das soluções obtidas na atualidade pela sociedade e organizações para o tema liderança, a psicanálise, alinhada aos conceitos da filosofia e das ciências políticas, oferece uma possibilidade distinta de se pensar nas identificações coletivas e sua relação com a posição do líder, ou seja, a constituição do lugar e sua legitimação, por meio de um método analítico de “desconstrução” – ou uma engenharia reversa – do termo líder e a reconstrução a partir de uma matriz conceitual lacaniana. O curso é dirigido a profissionais e estudantes de Psicologia, filósofos e gestores de equipes.

TEMAS ABORDADOS

Dia 1: contextos e teorias vigentes acerca do líder. Introdução aos conceitos freudianos sobre o líder e seus dispositivos teóricos:

  • O que é falado sobre o poder e a figura do líder hoje;
  • Líder carismático X líder gestor;
  • Liderança como uma “profissão impossível”;
  • Revisão de conceitos básicos como libido, narcisismo, pulsões e transferência;
  • As relações de alienação e conceito de identificação em Freud;
  • Como o líder é apresentado por Freud em sua obra.

Dia 2: conceitos sobre os tipos de coletividades e como se formam:

  • A formação das coletividades e conceitos de grupo e massa em Freud;
  • Conceito de renúncia pulsional em Freud como formador das coletividades;
  • A diferenciação didática das coletividades;
  • A teoria do populismo;
  • A constituição das coletividades em Lacan em relação ao segregado.

Dia 3: conceitos lacanianos sobre os fenômenos coletivos e o constructo do líder:

  • O lugar vazio da liderança na democracia;
  • Coletividades sem líderes;
  • Identificação em Lacan;
  • Traços, palavras, o tom, a voz e os gestos do líder;
  • Conceito do líder como significante vazio.

De 9, 16 e 23 de abril de 2016 das 8h30 às 12h30, sábados

IMPORTANTE:
LOCAL CORRIGIDO: Universidade Positivo – Câmpus Praça Osório.

Nova turma – 2016
Inscrições abertas pelo link na imagem!!!

Curso lider - 2016

Diálogos.

21 março, 2016 às 09:38  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“Precisamos de diálogo!!!”… sim e muito.

Precisamos da palavra. Daquela que aparece no lugar de um ato, daquela que sublima, daquela que sustenta.
Onde a palavra cai, a hostilidade impera. Só há esperança onde ainda há palavra. Só a palavra nos possibilita democratizar e pluralizar a produção de sentido.A circulação da palavra possibilita a maior produção de novas subjetividades. Não deixem a palavra cair.

Mas segue uma dica básica para começar um diálogo: Não comece referindo ao seu interlocutor como “fascista”, “comunista”, “coxinha” ou “petralha”. A rotulação do outro a partir de um partido politico, de posicionamento ideológico ou de qualquer preferência, já exclui, previamente, qualquer inicio saudável de diálogo.

Ah… Chamá-lo pelo nome também ajuda.

Mas lembremos que a palavra tem a capacidade de salvar na mesma proporção que tem de aniquilar…

O líder e a exceção.

15 março, 2016 às 10:07  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“A exceção não confirma a regra, como se diz gentilmente, ela a exige; é ela que é o verdadeiro princípio.” (J. Lacan, Sem. IX)

O pai é um lugar de exceção … Assim como seus substitutos simbólicos.
Líderes carismáticos nos aparecem como substitutos paternos que adotam discursos autobiográficos que visam sua própria exaltação e a lembrança de sua própria obra (que pode ser grandiosa). A exaltação de sua própria obra, tem por função a blindagem contra os “adversários” a partir de um sentido produzido por tal lembrança que gera identificação. O discurso carismático que visa a empatia é geralmente autobiográfico mas também pode ser persecutório.
Pouca coisa gera tanta identificação quanto os sofrimentos e os inimigos em comum. A instituição do inimigo ou de uma relação de exclusão não é efeito como se imagina, mas é a origem de potentes identificações coletivas. Nos reconhecemos como irmãos pois já há instituído um excluído, um adversário (eles) que delimita um corpo coletivo (nós). Só há um nós, porque há um eles (lembrando que no Brasil, em todo “nós contra eles” há, invariavelmente, um ao meio).

Esse discurso me preocupa. A palavra pode matar com a mesma eficiência que a palavra pode salvar. A cisão e a tensão gerada pelo discurso “nós contra eles” torna-se arma que potencializa tais identificações, possibilitando assim saídas até mais repressivas e violentas em relação ao outro. A visão do outro como resto, não digno de sua própria verdade que precisa ser eliminado.
Pensemos.

Nossas doces farsas…

15 janeiro, 2016 às 11:58  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“A vida é uma farsa que toda a gente se vê obrigada a representar.” (Arthur Rimbaud)

     Somos atores que interpretamos a nossa farsa, nossos personagens que inventamos para nós mesmos. Facetas do ego. Somos nós mesmos, mas de formas diferentes, atitudes diferentes. Somos sempre nós mesmos e muitos outros. Como deve ser chato ser 100% qualquer coisa… Inclusive você mesmo.
Todo mundo tem um lado “B”, ou deveria ter. É, no mínimo, interessante ou divertido. O que já faz valer a pena. O lado “B” não é algo necessariamente macabro ou horrível aos outros olhos, mas algo que não queremos que ninguém saiba. Intimas atribuições, manias ou características.

Vamos vivendo de nosso faz de conta.
de um tanto faz,
de um tanto for
de um tanto dor
de um tanto farsa…

     Algumas vezes precisamos do cômico para disfarçar o trágico, outras vezes é o trágico que destitui o cômico. Como aquele riso angustiado que disfarça um choro. Um riso que diz-farsa.

     Ainda esquecemos que nem todo riso é de alegria, e nem todo choro é de dor. Portanto e paradoxalmente, a fantasia é porto seguro, refúgio último face ao sofrimento, ao desejo, ao desamparo.

Temos todos a “farsa” e o queijo nas mãos.

O tempo é questão… O tempo questiona.

8 janeiro, 2016 às 15:21  |  por Willian Mac-Cormick Maron

O tempo é questão. O tempo questiona.

Ouço: “Que tempo é esse que é o nosso tempo? Você passa pelo tempo, ou o tempo passa por você? Há um início para a eternidade ou ela não está dentro das medidas de tempo?”

“O tempo não é algo que exista em si”, diria Kant … Não há uma substância tempo. O que se sabe sobre o tempo é propriamente sua unidade de medida, o seu passar em uma sucessão de acontecimentos. A gente só sente seus efeitos, e nossos feitos sobre ele… Mas seja qual tempo for, passado e futuro são sempre presentes.

Nosso tempo é assim: meio que louco, meio que lógico. Algumas eternidades duram mais tempo que outras, alguns “pra sempre” são mais intermináveis que outros. No tempo cronológico, estou sempre em atraso…

“É o tempo da travessia … E se não ousarmos fazê-la … Teremos ficado … para sempre … À margem de nós mesmos…” (F. Pessoa).

Odeio esta mania que o tempo tem de apenas
passar…

O tempo não cura, costura.

Já o amor não segue um tempo cronológico …
É outra unidade de medida.
É uma unidade desmedida.