Ficamos infelizes de tanto buscar a felicidade.

30 setembro, 2017 às 14:27  |  por Willian Mac-Cormick Maron

A felicidade, como um significante, como uma polissemia, é uma problemática tão angustiante na contemporaneidade que precisamos até de um congresso internacional para tentar elaborar.

 “A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo. Não existe uma regra de outro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado para tornar-se independente dele, e, finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de adaptá-lo a seus desejos.” -Sigmund Freud, 1930-p.91

 Tenta-se dar conta… Dar conta de uma idealização narcísica que tem um cunho de gozo e está ligada ao desejo do Outro que se explica, geralmente, através de uma metafísica absolutista e por tal fonte de mal-estar. O paradoxal está em pensar que a constante e desenfreada busca pela felicidade muitas vezes se torna fonte de mal-estar e sintoma.

Ainda não conseguimos desvincular a ideia felicidade da ausência de sofrimento. Esse projeto de sermos felizes nos é vendido em forma de uma plenitude completa, mercadorias, propagandas de margarina, ilhas paradisíacas, o que apenas nos mantém em constante insatisfação. O que é bem interessante em um mercado de consumo. Consumo este que nos aliena e vêm nos dar sentido, ou apenas para tentar nos anestesiar da falta, e esquecemos que é justamente ela que nos faz levantar da cama diariamente.

 O sentido e a felicidade se tornaram os produtos mais rentáveis do mercado. Em forma de livros, filmes, dogmas, experiências que precisamos consumir. Assim se apresenta como uma prateleira de supermercado, onde cada um dará sentido ao conceito sobre felicidade e os expectadores poderão assim se identificar mais ou menos com cada sentido, escolhendo, portando o sentido que daria uma melhor resposta à sua experiência e afetos.

 Preocupa-me a felicidade transformada em um valor e apresentada como um imperativo social. Na contemporaneidade, além de ser obrigado a ser feliz, és vendido pra ti, como ideia, uma forma específica e mais sublime que as outras para ser feliz.

Vender a felicidade a partir de dogmas ou como um projeto próximo a um modelo de cartão postal de uma praia paradisíaca tem um grande objetivo que é nos manter em constante insatisfação. Tal insatisfação sempre estaria a serviço de um mercado de consumo pois é de uma ordem do impossível e inesgotável. Nunca é aquilo… Sempre haverá outra viagem, outro carro, outro trabalho, outro livro com novas dicas e outros gurus.

 Quando se dita qual é o caminho da felicidade, aniquila-se no outro a possibilidade de produzir seu próprio caminho. Aniquila-se portanto o sujeito do desejo em detrimento de uma covardia neurótica onde coloca sempre o outro (neste caso um guru) como responsável pelas minhas respostas, que me levarão a um caminho de felicidade ou satisfação que acredito que não consigo mais.

 O quão de gozo há em ser um guru? O quão de narcísico há em deixar um legado?

 Se isso for felicidade, prefiro então não ser feliz. Talvez eu prefira olhar para trás e ver quantas experiências intensas e interessantes tive, o que inclui o sofrimento e as perdas no caminho, o que inclui frustrações e derrotas. É poder pagar o preço. Poder olhar para trás e dizer “valeu a pena”.

 Ficamos infelizes de tanto buscar a felicidade.

 

0 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>