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Sair da ‘zona de conforto’ e outras bobagens do mundo corporativo – El País

26 outubro, 2017 às 13:37  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Para refletir sobre relações de alienação, falácias organizacionais e a aniquilação do desejo o indivíduo em detrimento aos “valores” da empresa.

Falácias, frases positivas e metafóricas que sustentam tanto uma fantasia de sermos sujeitos autônomos dentro das organizações como também mascaram uma real preocupação do mercado e do capital (como as pessoas que comandam) com o humano.

“O pensamento positivo elimina qualquer possibilidade de crítica e desloca a culpa e a dúvida para o indivíduo e não para a estrutura onde ele atua. Liga-se, assim, à concepção fantasiosa do eu empreendedor, da iniciativa pessoal do herói que tudo pode com a autogestão e que, no limite, é o único responsável pelos êxitos ou pelos fracassos”.

Leia a matéria na íntegra aqui

Dia da idealização da infância.

12 outubro, 2017 às 17:52  |  por Willian Mac-Cormick Maron

A infância é um ideal de lembrança que tentamos romancear, justamente para ser um passado que não deixamos passar.

Que cuidemos da infância.

A imposição da perfeição (onde não se possibilita uma relação com as falhas e perdas) como o único objetivo válido e esperado para a criação dos filhos massacra, de certa forma, a infância e mascara nossas próprias falhas como cuidadores. Transformar a infância unicamente na idealização do adulto é estabelecer com essa criança uma relação violenta (mesmo com a melhor das intenções) passando a simples mensagem de que não é possível ou aceitável o erro e as limitações. Assim a criança se torna o fiel depositário das expectativas frustradas do adulto.

A criança aparece, na contemporaneidade, também como um ideal do adulto.

Uma entrevista de Jean-Pierre Lebrun registra bem a importância de uma edução não pautada no projeto de perfeição: “Ensinem seus filhos a falhar”.

Vale a leitura.

Viver é esse equilibrar de pratos e de prantos….

10 outubro, 2017 às 15:19  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Um cemitério também está cheio de homeostase.

O que se chama comumente e até mercadologicamente por uma busca desenfreada pelo equilíbrio é uma tendência à volta ao inorgânico. Tal tendência foi pontuada por Freud, em sua metapsicologia, como pulsão de morte. A pulsão de morte nem sempre desemboca na própria morte, mas cria com ela vínculos assindéticos.
O equilíbrio pode ser assintótico ao inorgânico.

O “ponto de equilíbrio” não é um lugar para encontrar e sim uma posição para (se) inventar. O equilíbrio para o humano, como ser social, cultural e um sujeito do inconsciente é uma fantasia (claro, por vezes necessária), mas que pode anestesiar os picos e as quedas da vida. Equilibrado mesmo é poder bancar os ganhos e as perdas da vida.

Gente equilibrada demais é de “morrer”.

Ficamos infelizes de tanto buscar a felicidade.

30 setembro, 2017 às 14:27  |  por Willian Mac-Cormick Maron

A felicidade, como um significante, como uma polissemia, é uma problemática tão angustiante na contemporaneidade que precisamos até de um congresso internacional para tentar elaborar.

 “A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da economia da libido do indivíduo. Não existe uma regra de outro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta satisfação real ele pode esperar obter do mundo externo, de até onde é levado para tornar-se independente dele, e, finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de adaptá-lo a seus desejos.” -Sigmund Freud, 1930-p.91

 Tenta-se dar conta… Dar conta de uma idealização narcísica que tem um cunho de gozo e está ligada ao desejo do Outro que se explica, geralmente, através de uma metafísica absolutista e por tal fonte de mal-estar. O paradoxal está em pensar que a constante e desenfreada busca pela felicidade muitas vezes se torna fonte de mal-estar e sintoma.

Ainda não conseguimos desvincular a ideia felicidade da ausência de sofrimento. Esse projeto de sermos felizes nos é vendido em forma de uma plenitude completa, mercadorias, propagandas de margarina, ilhas paradisíacas, o que apenas nos mantém em constante insatisfação. O que é bem interessante em um mercado de consumo. Consumo este que nos aliena e vêm nos dar sentido, ou apenas para tentar nos anestesiar da falta, e esquecemos que é justamente ela que nos faz levantar da cama diariamente.

 O sentido e a felicidade se tornaram os produtos mais rentáveis do mercado. Em forma de livros, filmes, dogmas, experiências que precisamos consumir. Assim se apresenta como uma prateleira de supermercado, onde cada um dará sentido ao conceito sobre felicidade e os expectadores poderão assim se identificar mais ou menos com cada sentido, escolhendo, portando o sentido que daria uma melhor resposta à sua experiência e afetos.

 Preocupa-me a felicidade transformada em um valor e apresentada como um imperativo social. Na contemporaneidade, além de ser obrigado a ser feliz, és vendido pra ti, como ideia, uma forma específica e mais sublime que as outras para ser feliz.

Vender a felicidade a partir de dogmas ou como um projeto próximo a um modelo de cartão postal de uma praia paradisíaca tem um grande objetivo que é nos manter em constante insatisfação. Tal insatisfação sempre estaria a serviço de um mercado de consumo pois é de uma ordem do impossível e inesgotável. Nunca é aquilo… Sempre haverá outra viagem, outro carro, outro trabalho, outro livro com novas dicas e outros gurus.

 Quando se dita qual é o caminho da felicidade, aniquila-se no outro a possibilidade de produzir seu próprio caminho. Aniquila-se portanto o sujeito do desejo em detrimento de uma covardia neurótica onde coloca sempre o outro (neste caso um guru) como responsável pelas minhas respostas, que me levarão a um caminho de felicidade ou satisfação que acredito que não consigo mais.

 O quão de gozo há em ser um guru? O quão de narcísico há em deixar um legado?

 Se isso for felicidade, prefiro então não ser feliz. Talvez eu prefira olhar para trás e ver quantas experiências intensas e interessantes tive, o que inclui o sofrimento e as perdas no caminho, o que inclui frustrações e derrotas. É poder pagar o preço. Poder olhar para trás e dizer “valeu a pena”.

 Ficamos infelizes de tanto buscar a felicidade.

 

O trabalho entre o prazer e o gozo.

6 setembro, 2017 às 08:34  |  por Willian Mac-Cormick Maron
A relação do homem com o trabalho aparece como uma importante resposta possível à uma pergunta social “quem é você?”
O trabalho se mostra como fonte e influência principal do que poderíamos chamar de “identidade do adulto”. O adulto se reconhece a partir de sua relação com o trabalho, o que pressupõe que um dos pensamentos históricos e socialmente constituídos na subjetividade humana atual é a premissa do “sou o que eu faço”. Mas consequentemente tal premissa nos apresenta uma nova problemática de difícil resposta que é: se eu sou o que eu faço, quando eu não faço, quem sou eu?
Tal problemática aparece em forma de mal-estar, sofrimento ou adoecimento assim como situações de crise, desemprego e até naquela melancolia que alguns sentem nas férias. Sim, há muitos que padecem nas férias pois sofrem de uma certa “liberdade” da desvinculação com a identidade organizacional (mesmo que temporária). Alguns pensam “o que eu vou fazer, quando posso fazer qualquer coisa?”
O homem contemporâneo desaprende a inventar desejos e, por pior, se desimplica dos desejos, de bancá-lo quando os constitui.
O trabalho, em sua realização, exige dose de investimento libidinal. O que justifica colocar o trabalho em um campo de ambivalência, de constante mal-estar que possibilita ao homem experienciar sentimentos de realização ou de sofrimento, de sentido ou de adoecimento. O humano pode tanto se realizar como adoecer a partir de suas relações de trabalho.
Assim se faz importante levarmos em consideração possibilidade de pensar o trabalho, a partir de um paradigma Pós industrial que privilegia o capital como norteador de novos conceitos sobre felicidade, sucesso e gozo. As relações de trabalho balizadas pelo capital podem privilegiar o gozo em detrimento ao desejo.
Nos alienamos ao gozo do consumo a partir da perda do prazer e do sentido que as relações de trabalho poderiam nos proporcionar. Assim utilizamos o consumo como moeda de troca em relação ao tempo e produto do meu trabalho que agora pertencem a uma organização.

Dizeres…

24 julho, 2017 às 15:26  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Antes o mal-dito que o não-dito …
Do mal-dito, mesmo que a duras penas, há de se tomar posse,
do não-dito torna-se refém.

Há um preço a se bancar pelo que se diz,
O não-dito é de(s)graça.

 

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Talvez eu esteja falando sozinho com a pessoa errada.

12 julho, 2017 às 19:20  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Talvez eu esteja falando sozinho com a pessoa errada.

Talvez todos estejamos.
Talvez no final se descubra que só se fala às paredes mas, que dentre as mesmas, há ouvidos.

Lacan, no inicio dos anos 1970, no Hospital Sainte-Anne, ao articular sua fala aos alunos e à própria estrutura do hospital diz que “a parede (le mur) sempre pode servir de espelho (miroir, ou como Lacan brinca, “muroir”)”.

Quando se fala às paredes, elas nos respondem pelo eco.
As paredes reproduzem um eco de nós mesmos.

Olhem as paredes, olhem os muros.
Sempre há um Outro, cá ou lá.
Cuidado com o que falamos ás paredes, elas têm ouvidos.

Mais sobre a verdade…

12 julho, 2017 às 19:18  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Uma importante herança da filosofia, desde Kant (quiça bem antes com Sócrates e outros, me ajudem os colegas), é justamente poder problematizar o conhecimento tido como verdadeiro e questionar o conceito de uma verdade colocada como absoluta.
O verdadeiro não poderia mais apenas ser visto como algo absoluto, anterior, independente do homem e fora da linguagem.

A ideia multiplicidade das verdades trouxe uma grande problemática (O que não deveria ser necessariamente ruim) filosófica e social.
Se a verdade é plural e não mais única, o que se faz com a verdade do outro que é diferente da minha? Tento acolher, respeitar, vejo como legítima mesmo diferente da minha verdade ou busco a eliminar?
A eliminação sistemática e violenta da verdade do outro (seja ele de outra nação, orientação política e sexual, crença, etnia, Etc.) é dos atos mais primitivos e perversos vistos nas relações humanas. A verdade só é imposta como única e inflexível por se mostrar a partir de sua incapacidade de produção de novos sentidos. Sempre imagino que só a minha verdade é a certa.

O monopólio de sentido elimina o potencial de autonomia do sujeito. “Sou a partir daquela verdade já posta e cristalizada. E se algo coloca em questão a minha verdade?”
Tenta-se eliminar por palavras ou por atos.

Eliminar a verdade do outro é sempre mais cômodo que questionar a minha. A história humana também é uma história de tentativas de dominação e eliminação sistemática do outro por motivos diversos… Ou perversos.
Só a palavra nos possibilita democratizar a produção de sentido. Onde a palavra cai, a hostilidade se faz imperativa.

O absoluto de uma verdade tende à intolerância.

A retórica e a estética…

12 julho, 2017 às 19:16  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Frequentemente, em debates sobre psicanálise, recebo argumentações de que a mesma funcionaria como um “exercício meramente estético” ou “apenas uma práxis retórica”. Bem, discordo que seja um “meramente” ou um “apenas” e contra-argumento quanto a isso articulando a psicanálise como propriamente uma experiência de linguagem de um sujeito de pulsões em relação ao seu desejo e as leis que o interditam. Mas em alguns casos, pontualmente questiono o que se entende por estética ou retórica. A estética pode ser entendida por uma categoria de percepção filosófica que nos fornece uma das formas possíveis para lidar justamente com o vazio, a angústia e o sintoma. A retórica, por sua vez, também poderia ser vista como uma articulação narrativa em defesa de uma verdade e de busca de sentido com a capacidade eloquente para defender e articular os argumentos para o estabelecimento de uma rede de significados A produção estética e retórica também podem ser reconhecidas como formas importantes de sublimação.

A doença e a instituição…

20 junho, 2017 às 17:05  |  por Willian Mac-Cormick Maron

Mais do que um problema de natureza patológica, precisamos pensar o crack e outros fenômenos ditos marginais como um sintoma social. É uma questão de saúde pública, de políticas e não de polícias.

Como podemos pensar a questão da doença? Como um conjunto de sintomas que ganham nome próprio… Podemos debater, mas tendo a ver o sintoma como uma resposta problemática a um problema concreto, como já citou Vladimir Safatle. Uma resposta, uma reação a algo que nos causa.

Como seria possível também pensar a loucura como uma espécie de resposta (mais ética e espontânea) a uma questão concreta que pode ser vista da ordem de uma estrutura ou de uma patologia. Resposta essa que busca ser suprimida, castrada, moralizada pela instituição. Onde não se dá voz ao sintoma, o sintoma torna-se tirano e absoluto.

A loucura do louco é mais ética que a loucura do são …. Às vezes a loucura mesmo é ter aquela cega convicção de sua própria “normalidade”.

A naturalização e determinismo de uma doença dessubjetiviza o indivíduo, o emudece, cala a sua história.
O indivíduo busca reagir, tenta não ser tragado pelo estado, pela instituição que o vê como um objeto.

Desde Basaglia, podemos afirmar que a operação que torna o doente um objeto é a mesma que o desistoriza. E quem não mantém a sua história aceita mais facilmente a institucionalização. A institucionalização é a forma mais cômoda de lidar com aquilo que não queremos lidar.
A institucionalização representa, por fim, a própria aniquilação do sujeito.

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