Sobre meninos e organizações.

17 março, 2017 às 06:30  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“A história de como minha experiência com meninos de rua me ajudou a entender muito mais as organizações e seus atores que qualquer outro guru de BUSINESS.”

 Era meu primeiro dia de estágio em uma instituição que abrigava menores em de rua ou em sitação de risco na região metropolitana de Curitiba. Era meu último ano de formação no curso de psicologia e estaria alí uma, duas vezes por semana o ano todo. Era um local afastado da capital, uma boa viagem para ir e para voltar. Mal sabia eu que aquele local mudaria vida e minha forma de ver as coletividades.

Ao chegar, estava confiante, já me sentia um “psicólogo” e fizera planos para as atividades com os meninos. Eram meninos entre 08 e 13 anos e eu um estudante empolgado com um novo desafio.

Pensava eu que, ao chegar, os colocaria em uma “roda de conversa”, me apresentaria, diria o que estaria fazendo por lá e assim poderia os ajudar. Era o que eu acreditava.

Ao começar a falar, reparei que estavam dispersos, um questionou o outro, que o xingou, levantou e deu um soco no rosto do primeiro. Bem, eu estava a 10 minutos no local e já havia perdido todo o controle da situação (se é que em algum momento eu o tive). Em suma iniciei o dia conversando com 16 crianças e terminei com 09 (que não brigaram ou cometeram algum tipo de indisciplina).

Erro delas? De forma alguma. Meu trabalho começou totalmente equivocado. Minha pretensão de salvá-las era quase que patética, meu desafio real era abrir um ambiente de escuta, de projeção em forma de escrita, de desenhos, e deixa-las produzir alí seus conteúdos para tomarem posse. Nas semanas seguintes chamei uma a uma, separadamente e o desenvolvimento foi visível e fantástico. Em um ambiente seguro, o que elas desenvolveram e que tipos de sentimentos e afetos circularam era extraordinário.

De forma alguma as salvei, era muito pouco o que eu fazia alí, talvez o inverso tenha verdadeiramente acontecido. Elas, me ajudaram muito mais. Descobri algo que parece óbvio agora mas precisei sentir na pele para entender que isoladamente eram crianças que tinham medos, anseios, desejos, mágoas, carinhos como qualquer outra criança, mas que quando voltavam ao grupo voltavam a se portar como meninos de rua, agressivos, tentando não serem tragados pela instituição, pois esta era a única forma de reação que conheciam ou a única que funcianava em relação aos ambientes e situações hostis que bem conheciam.

Franco Basaglia publicou em 1985 o livro “A instituição negada” na qual relatava casos de pacientes em hospitais psiquiátricos que pode muito bem ser descolada para outros tipos de instituições. Ele diria que estas reações em grupo de agressividade e o que parece um sintoma poderia ser forma de resistir à mortificação, último recurso de produção de si mesmo. Este menino é já unicamente um corpo institucionalizado, que vive como um objeto e que, às vezes, tenta – quando ainda não está completamente domado – reconquistar mediante estas reações, aparentemente incompreensíveis, os caracteres de um corpo pessoal, de um corpo vivido, recusando identificar-se com a instituição, que lhe é negada – de forma concreta e explícita – a possibilidade de reconstruir um corpo próprio que consiga dialetizar o mundo.

Em minhas andanças depois pelas empresas e organizações hierárquicas não vi coisas muito diferentes disso, até porque se falamos de um adulto, executivo, empresário, também falamos com a criança que ele foi. “Raspem o adulto e encontrarão a criança”, diria Sandór Ferenczi, um dos mais íntimos colaboradores da psicanálise.

Ambientes hostis, até repressivos das organizações geram, de formas similares, reações, agressividades e outros comportamentos que não seriam aparentes individualmente. Falamos de um mercado que só exalta os fortes, onde não se pode ter medo, dúvida, angustia ou insegurança. Ou seja, não se pode ser humano.

O teatro das coletividades sempre nos faz reagir de forma melhor aceita ou adaptável ao grupo que estamos naquele momento e expõe nossas facetas do ego que já citei no post “O lado B”. Nunca eu sou 100% da mesma forma e em todos os ambientes, seria impraticável. O que para mim mostra a ineficácia das dinâmicas de grupo aplicadas em empresas ou instituições. Sempre agimos conforme acreditamos que o outro espera que reajamos ou apenas reagimos para não sermos fundidos com o grupo.

Twitter: @wmaccormick

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