Sobre a relação homem e trabalho…

20 março, 2017 às 13:08  |  por Willian Mac-Cormick Maron

“Não é possível, dentro dos limites de um levantamento sucinto, examinar adequadamente a significação do trabalho para a economia da libido. Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o individuo tão firmemente à realidade quanto à ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa técnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, sejam eles narcísicos, agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional e para os relacionamentos humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira algum está em segundo plano quanto ao de que goza como algo indispensável à preservação e justificação da existência em sociedade. A atividade profissional constitui fonte de satisfação especial se for livremente escolhida, isto é, se por meio de sublimação, tornar possível o uso de inclinações existentes, de impulsos instintivos persistentes ou constitucionalmente reforçados. No entanto, como caminho para a felicidade, o trabalho não é altamente prezado pelos homens. Não se esforçam em relação a ele como o fazem em relação a outras possibilidades de satisfação. A grande maioria das pessoas só trabalha sob a pressão da necessidade, e essa natural aversão humana ao trabalho suscita problemas sociais extremamente difíceis.”

Este é um trecho de Sigmund Freud escrito em seu texto “Mal-estar na Cultura” sobre esta relação homem e trabalho. Ele refere-se ao trabalho como um “lugar seguro”.

“Mas na sociedade que vivemos hoje o homem se apropria de outros lugares que possibilitam o deslocamento dos componentes libidinais descritos. O que me faz pensar que houve um esvaziamento deste lugar”, um amigo sabiamente me questiona.

Não é o mesmo, concordo, mas será que houve um esvaziamento completo? Não estou convencido disso. Se eu te pergunto “quem é você?” Sua tendência é sempre recorrer a este tal local “seguro” para tentar me responder, ou seja, ainda é parte importante de nosso imaginário ainda. Esta relação vem para responder uma questão social (que também é individual ) do “quem é você”? A maioria das pessoas começarão a responder com o trabalho, ofício ou formação … Mesmo não se não atue ou se aproprie do lugar. É mais uma questão identitária ao meu ver. Eu sou a partir do que eu faço, ou seja, eu sou a partir desta relação imaginaria com este “lugar seguro”. Mas este lugar seguro deixou de ser seguro e passou a ser uma questão de angustia.

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