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Eleições/Equador

Reforma política é prioridade de Rafael Correa

  26/11/06 às 15:19
QUITO, 26 (AE) - O candidato da Aliança País, o esquerdista Rafael Correa, disse ao Grupo Estado que a reforma política do Equador seria a peça fundamental de seu governo, caso se confirmem as projeções que lhe dão a vitória no segundo turno da eleição presidencial de hoje. Também participaram da entrevista, em Quito, repórteres dos jornais El Comercio, do Peru, e La Tercera, do Chile.

P - Qual seria sua primeira medida no governo?

R - Eu tenho reiterado que meu primeiro decreto será a convocação de uma consulta popular sobre a instalação de uma Assembléia Constituinte.

P - E como o sr. acredita que poderia governar sem um único deputado no Congresso?

R - Como governaram todos os presidentes desde 1988. Todos tiveram o Congresso contra eles. Há muita coisa que não depende do Congresso. Por exemplo, a renegociação da dívida externa não passa por eles. Mas isso não significa que estamos subestimando a capacidade da partidocracia no Congresso de obstruir o trabalho de um presidente legitimamente eleito. O Congresso tem sido um foco de instabilidade, um foco de chantagem para a democracia. Por isso defendemos a necessidade de reformas profundas e a realização de uma consulta popular para a instalação de uma Assembléia Constituinte. Na eleição de 15 de outubro o povo rejeitou totalmente a partidocracia do Congresso. O verdadeiro vencedor da eleição legislativa foi o voto nulo. Se tivesse direito a cadeiras, o voto nulo teria 45 das 100 vagas do Congresso.

P - Como o sr. pode assegurar que chegaria ao fim de seu mandato quando os três presidentes eleitos anteriormente não chegaram?

R - Ninguém pode assegurar isso. O que posso assegurar é que governarei com o povo. Quando um governante cumpre o que promete e governa com a população, muito dificilmente ele cai.

P - E a que o sr. atribui essa instabilidade da política equatoriana?

R - Entre outras coisas, aos abusos da nossa classe política, mas também aos erros dos mandatários. Veja como chegou Lúcio Gutiérrez. Com um discurso muito progressista, ou seja, as pessoas votaram pelo discurso correto. Mas o primeiro que fez foi entregar-se aos banqueiros e aos políticos mais corruptos do Equador. Em dois anos fez o desemprego crescer de 8 para 12% e interveio no organismo de pagamento de aposentadorias, proibindo o aumento de pensões. Com toda a traição, perdeu o apoio popular Se Gutiérrez tivesse cumprido o que prometera, ninguém poderia removê-lo, ninguém teria poder para isso.

P - O sr. vê na América Latina estilos de esquerda diferentes, como o de Chávez e Evo Morales, na Bolívia, e os de Lula e Bachelet, mais moderados?

R - Eu creio que essa a diferença é apenas de linguagem, do discurso do poder. O que é realmente importante é que há governos progressistas que estão varrendo a América Latina - de leste a oeste e norte a sul -, com diferentes estilos, sim. Você não pode querer que um presidente Chávez fale para os venezuelanos do Caribe com o mesmo estilo com que Michelle Bachelet se dirige aos chilenos de Santiago. O importante é que a América Latina está superando a longa e triste noite do neoliberalismo, com a chegada de governos soberanos e dignos preocupados com mais justiça social em toda a região. Note: a América Latina não está vivendo uma época de mudança, mas sim uma mudança de época, com o sepultamento do Consenso de Washington - um consenso do qual os latino-americanos não foram sequer chamados a participar e resultou num estrondoso fracasso.

P - Como seriam suas relações com o Brasil?

R - Maravilhosas como sempre. Contato direto com o presidente Lula nós ainda não tivemos, mas sim com o governo brasileiro, com o Ministério de Relações Exteriores do Brasil, etc. As relações serão como sempre foram, relações fraternais que esperamos aprofundar muito mais. Há aspectos que devem ser negociados, por exemplo, o grande déficit comercial bilateral que temos com o Brasil. Necessitamos de algumas compensações. Por exemplo, o Brasil tem grande capacidade de financiamento, por meio de seu banco de desenvolvimento (BNDES). Ou com preferências alfandegárias aos produtos equatorianos que minimizem esse déficit. E há projetos de interesse mútuo e de interesse para toda a América Latina, como o Eixo Multimodal Manta-Manaus (um projeto para interligar as duas cidades por via aérea e de rodovias que permitiria o escoamento de produtos pelo Oceano Pacífico). Já conversamos sobre isso. Quando fui ministro da Economia tratei disso no Brasil e o governo se mostrou muito interessado nesse projeto. Temos grandes interesses em comum, muita complementaridade em projetos e megaprojetos de desenvolvimento, com grandes benefícios para os dois países. Durante a campanha pensamos em uma visita ao presidente Lula e, para isso, entramos em contato com a Chancelaria brasileira. Pensamos também em visitar a presidente Michelle Bachelet, no Chile, mas consideramos depois que não seria prudente sair do país e preferimos intensificar o trabalho eleitoral no Equador.

P - Quais são seus vínculos com o presidente venezuelano, Hugo Chávez? Como o sr. se relacionaria com a Venezuela?

R - A unidade da América Latina, o sonho de Simón Bolívar, não pode esperar mais. As relações com a Venezuela seguirão o mesmo padrão das relações com Brasil, Chile e Colômbia, por exemplo. O presidente Chávez já esteve algumas vezes conosco, eu o conheço e ele é meu amigo pessoal. Mas se trata aqui de relações entre países irmãos, com o qual sempre mantivemos relações fraternas e seguiremos mantendo. Estive com o presidente Chávez pela última vez há cinco meses, na Universidade Bolivariana de Caracas.

P - Que visão o sr. tem do governo do presidente George W. Bush?

R - A mesma visão que têm milhões de cidadãos americanos, que lhe deram uma surra eleitoral no dia 7. Ele cometeu grandes erros, sobretudo na política externa. Como no Iraque, quando disse: "Vamos invadir o Iraque porque o Iraque tem armas de destruição em massa." Quando não se encontrou tais armas, disse: "Bom, vale assim mesmo porque não é um país democrático." Em todo caso, esperamos as melhores relações com Washington.

P - Mesmo sabendo que Washington apoiou seu adversário, Álvaro Noboa?

R - Não creia nisso. Não creia. Há gente decente em todas as partes e há muita gente decente em Washington. Que quando vê um candidato com tantos questionamentos como Noboa, não lhe dá o apoio que ele (Noboa) diz que tem. Estamos falando de alguém com milhões de dólares em dívidas tributárias, suspeito de operações fraudulentas, suspeito de colaboração com o narcotráfico - cocaína foi apreendia em um de seus navios, em 1999.

P - Por que o tema da fraude lhe preocupou tanto durante a campanha? A OEA pediu que os dois candidatos estivessem preparados para ganhar ou para perder. O sr. está preparado para uma possível derrota?

R - Nos preocupa muito a fraude. Houve fraude no primeiro turno. Vários candidatos, incluindo nós, denunciaram a fraude. Ninguém pôde desconhecer as gravíssimas irregularidades, a tal ponto que levou ao colapso o sistema de contagem rápida. Houve cédulas marcadas previamente, atas clonadas e toda a sorte de violações. Dois dos 22 tribunais regionais são controlados pelo partido do meu adversário, e se pode fazer muita coisa com isso. E agora estamos muito preocupados e atentos para que essa fraude não se repita. Estamos mais bem preparados do que estávamos no primeiro turno. Temos 30 mil voluntários vigiando a eleição e apuração em várias partes do país. É preciso estar bem atento para que se respeite a vontade popular e não a vontade da partidocracia. Claro que estamos prontos para aceitar o resultado, mas não estamos disposto a aceitar a fraude. Se fizermos isso, seremos parte da corrupção.
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