Ela costumava ser a escolha daqueles que tinham uma conta bancária limitada. Estupidamente gelada, era uma espécie de refresco para a galera que exaltava suas propriedades: "Vou tomar várias!"; "duas caixas pra começar!". Antes a prima pobre entre os vinhos e uísques, a cerveja hoje recebe honras de rainha. A ‘beerevangelização’, como chamam os xiitas, vem gerando uma mudança de comportamento. Bares com cartas de cervejas, casais degustando juntos uma cerva estupidamente ‘morna’, garrafas com preços de até R$ 250. O que antes era privilégio dos amantes do vinho, ganhou um concorrente de peso com a chegada das cervejas premiuns ao Brasil.
Recentemente, em São Paulo, a feira Brasil Brau, dedicada ao mercado cervejeiro, trouxe uma nova perspectiva aos beberrões. Com estandes de microcervejarias de todo País, o coro mais comum era o de "o mercado não para de crescer". Para se ter uma ideia das possibilidades futuras, o estado de São Paulo tem apenas 20 microcervejarias - cervejas feitas de maneira artesanal, sem conservantes e com uma produção menor. Para comparação, a cidade de Bamberg, na Alemanha, com apenas 70 mil habitantes, tem no total dez cervejarias.
Um dos mais festejados personagens da feira era o advogado Leonardo Botto, considerado um dos magos entre os mestres cervejeiros. Botto, de 32 anos - que tem um cachorro chamado Pilsen, o tipo de cerveja mais consumido no Brasil - lembra que o gosto pela complexidade da bebida estava no sangue. "Minha bisavó era mestre cervejeira. Mas só comecei a me aprofundar no assunto há 4 anos", fala. Do seu caldeirão saíram cervejas como a premiada Dama do Lago (edição limitada da cervejaria Eisenbahn). Ele e sua mulher, a também advogada Tatiana Mello, aproveitam o gosto comum para divulgar a bebida. Mello tem uma confraria apenas de mulheres, que degustam cervejas e dão sua nota no site femalecarioca.blogspot.com.
Nos estandes da feira era possível degustar cervejas com ingredientes como amora, gengibre, castanha de caju, rapadura e mandioca. Os dois últimos ingredientes vêm adicionados pela cervejaria Colorado, de Ribeirão Preto, que desponta como uma das preferidas dos ‘beer sommeliers’. Com 20 funcionários, a Colorado é mais um exemplo de uma fábrica familiar que vem há 15 anos inserindo a cerveja como um "alimento" de qualidade. Outra do tipo é a Bamberg (inspirada da cidade alemã), que conta com apenas 9 funcionários e 50 mil litros de cerveja fabricados por mês.
Além do ótimo blog do jornalista do "Jornal da Tarde" Roberto Fonseca (http://blog.estadao.com.br/blog/bob/), outro site que a ser explorado é o Brejas (www.brejas.com.br). Um dos confrades, o advogado Maurício Beltramelli, de 40 anos, é considerado o analista número 1. "Tudo começou quando eu e mais 4 amigos fomos para Europa em busca da cerveja perfeita", fala Beltramelli. O cervejeiro viaja todo ano à procura do cálice sagrado. "E o site teve um crescimento de 8 mil% em um ano."
Dani, baterista do NX Zero e namorado da cantora Pitty, também entrou na onda das cervejas diferentes há pouco mais de um ano. "Amo cervejas amargas, com bastante lúpulo. Esses tipos de cerveja premium não são produzidas para beber em quantidade. Você toma três e já fica de boa", fala. Quanto a tomar com Pitty, Dani responde: "Ela gosta de bourbon, não curte cerveja".
Com preços salgados, essas cervejas ainda assustam o consumidor comum. Segundo especialistas, os próximos 5 anos devem ser decisivos. O mercado de microcervejaria que hoje representa só 1%, deve crescer para 5, 6%. "É um vírus que te pega e vai derrubando um por um", avisa Beltramelli.