Cytotec apreendido em julho pela Polícia Rodoviária Federal: medicamento tem saída certa (foto: Franklin de Freiatas)
O tráfico de medicamentos contrabandeados está em alta. O indício já é constatado pelas apreensões que as polícias realizam. Só neste ano a Polícia Rodoviária Federal (PRF), por exemplo, já bateu duas vezes o recorde de apreensões. Em julho, um carregamento de 34 mil comprimidos foi pego na BR-277, perto de Céu Azul, no Oeste paranaense, na que era a maior apreensão feita. Na quarta-feira passada foram 180 mil unidades pegas, de novo na BR-277, e de novo em Céu Azul. Esta foi provavelmente, se não a maior, uma das mais importantes no País em 2009.
“O tráfico de medicamentos cresce a medida que as quadrilhas observam que se trata de algo tão rentável quanto trazer entorpecentes”, comenta o inspetor Gilson Cortiano, chefe de operações da PRF no Paraná. Pegando apenas um medicamento como comparação já dá para observar a dimensão do problema. Na apreensão da quarta-feira, entre os 180 mil comprimidos ou doses encontrados, 8,6 mil eram do abortivo Cytotec. Essa quantidade equivale, em termos financeiros, a uma tonelada de maconha.
No Paraguai, de onde são trazidos o contrabando de remédios e medicamentos, uma única cartela com dez comprimidos de Cytotec é vendida, em média, por US$ 15, ou pouco mais de R$ 25. No Brasil, cada comprimido é vendido a R$ 50. Ou seja, as 8,6 mil unidades custaram quase R$ 22 mil, mas renderiam, quando vendidas no mercado negro, algo em torno de R$ 430 mil.
A maconha é comercializada no Paraguai por R$ 30 a R$ 50 o quilo. Tomando o valor menor, seriam necessários R$ 30 mil para adquirir mil quilos, que quando vendidos no Brasil dariam ao tráfico até R$ 500 mil. A diferença não é tão grande entre o Cytotec e a maconha, com a diferença gritante no transporte. Para levar uma tonelada de maconha até os centros consumidores, as quadrilhas precisam de uma grande estrutura e, no mínimo, um caminhão médio. Para levar o Cytotec até Salvador — que era o caso do carregamento pego na semana passada — bastaria alguém com uma bolsa.
“Esse contrabando de medicamentos vem sendo uma constante e competido com outros entorpecentes. E, à medida que as quadrilhas veem que tem um rendimento melhor e um volume menor, podem migrar para essa atividade”, diz Cortiano, que exlica ainda que as mesmas quadrilhas que contrabandeiam os medicamentos, também trabalham no narcotráfico e no tráfico de armas. “Fazem essa alternância para tentar despistar a polícia”, completa o inspetor.
O trabalho para conseguir apanhar o contrabando de medicamentos precisa ser mais minucioso que o das drogas. Em volumes menores, o transporte pode passar quase despercebido. Não quer dizer que é mais fácil. “Como já observamos essa mudança, também estamos com o foco mais apurado para esse transporte, e nosso setor de inteligência também”.
Desde o começo do ano, a PRF tinha apreendido no Paraná a cerca de 122 mil comprimidos de medicamentos, um volume praticamente igual ao do ano passado inteiro, quando foram pegos 123 unidades em apreensões da PRF no Estado.