Boa idéia
Beleza e luxo nos mínimos detalhes
Matérias-primas pouco conhecidas do público ganham uma roupagem sofisticada
 05/12/08 às 13:16 | Agência Estado
A paixão é inspiradora, que o diga os poetas, compositores e designers. Ivete Cattani, gaúcha nascida em Ijuí, na região das Missões, estava apaixonada quando concebeu o colar da coleção Tentáculos, em 2006. A jóia com fios sinuosos, que deslizam no corpo, conquistou o iF Product Design Award, que ocorre anualmente na Alemanha e é considerado o Oscar do design industrial. "Queria reproduzir um sentimento forte, entranhado no corpo e na alma, daí o nome Tentáculos", afirma. Segundo Ivete, assim como a emoção pode ser um combustível inflamável no processo de criação, uma simples semente ou uma pedra bruta também sugere as formas a serem traçadas. Sem se prender a um único estilo, a designer deixa as idéias fluírem.
Matérias-primas pouco conhecidas do público ganham uma roupagem sofisticada em suas mãos, como no bracelete DeLíros. A peça é confeccionada em aço inox revestido por rúmen (tipo de couro) bovino, um descarte tratado e recuperado por curtumes brasileiros. O miolo da flor é em ouro branco/amarelo/rosa, com detalhe em topázio imperial, gema encontrada unicamente na região de Ouro Preto. Ainda, prata, ouro, aço, sementes de bacaba (palmeira nativa da Amazônia), gemas, PVC e até mesmo o delicioso marzipã figuram em seu portfólio. "No caso do marzipã - material escolhido para um evento do setor sucroalcooleiro -, desenhei sob encomenda medalhões em forma de camafeus, confeccionados pela doceira Patrícia Schmidt. As pessoas não resistiram e devoraram as obras assinadas, menos eu!"
O flerte com a moda também tem rendido bons frutos, como a parceria com a galeria Melissa, que resultou na coleção Joya, composta por braceletes, anéis, coleiras. "Usei retalhos de PVC, cristais Swarovski, metais e delicadas fitas. Um bracelete dessa coleção foi indicado para a etapa final do iF 2008, em Hannover, Alemanha." Quem usa suas jóias? "Mulheres que se sentem atraídas pela ousadia do design." Em tempo, as peças estão à venda nas lojas do Instituto Tomie Ohtake e do MuBE (Museu Brasileiro de Escultura).
Ação social
Formada em Desenho Industrial pela Universidade Federal de Santa Maria, Ivete fez especialização em Projeto de Produto na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Porto Alegre. Nos anos 90, resolveu aventurar-se pelo caminho das pedras, metais, sementes e afins, depois que se saiu bem de dois importantes concursos no segmento de design de jóias, IBGM e De Beers. Em 2004, veio para São Paulo e começou a pesquisar diferentes materiais, dando início às coleções. Uma delas, a Palmae, envolve uma ação social com mulheres da Amazônia e cumpre o desafio de reunir tecnologia e sustentabilidade, exercitando junto à comunidade local o conceito do "tripple bottom line", ou seja, economicamente viável, socialmente justo e ecologicamente correto:
- Com o apoio da Fundação Orsa, instituição sem fins lucrativos, que foca suas ações no fortalecimento de políticas públicas e no desenvolvimento sustentável de territórios, desenvolvi um trabalho de capacitação profissional com a Associação das Mulheres Mães Artesãs do Vale do Jari, treinando 23 delas. O objetivo era fazer com que as artesãs se tornassem capazes de criar, produzir e comercializar jóias naturais, mais conhecidas como biojóias. Macapá foi a fonte de inspiração. Treinei a equipe e simplifiquei o desenho dos insumos metálicos de forma que as peças feitas com sementes de bacaba, prata e couro pudessem ser montadas na sede da entidade, que fica em Vitória do Jari.
A experiência, conta, foi enriquecedora. "As mulheres já tinham habilidade na confecção de bijuterias, quando introduzi um novo conceito, no sentido de dar um tratamento nobre às sementes da região." No período de cinco dias, foram produzidas 300 peças, entre colares, brincos e pulseiras. A coleção participou da Expo Brasil Amazônia, evento que ocorreu em Nova York, de abril a julho deste ano.
Paralelamente às criações que desenvolve, Ivete é voluntária no projeto social Jóias da Chama, iniciativa que ajuda jovens carentes e portadores de deficiência. Eles conseguem ter uma renda com a venda de jóias, que são produzidas por mães e profissionais do setor.
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