O Conto da Aia

25 abril, 2017 às 07:00  |  por Tina Lopes

Depois que terroristas mataram o presidente e todos os congressistas, os Estados Unidos passaram a ser governados pelo Exército, aconteceu uma guerra nuclear e surgiu uma ditadura religiosa radical, na qual mulheres são organizadas por funções – Esposas, Martas (domésticas, cozinheiras), Tias (meio que umas freiras professoras) e Aias, aquelas que ainda são férteis e cuja função é engravidar e parir os filhos dos Comandantes. Uma dessas Aias é Offred, que conta sua história, desde os anos 80, quando tinha uma vida normal como a nossa, até o presente, sem direito a salário, opinião, amizades e nem mesmo a ler um livro.  Esse é o resumo de O Conto da Aia, da canadense Margaret Atwood, escrito em 1985. Trata-se de uma distopia e, pelo que eu saiba, uma das poucas obras do gênero escrita e narrada por uma mulher.

 

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Distopia é uma palavra inventada para ser entendida como antônimo de utopia, ou anti-utopia, isto é, uma sociedade imaginária de opressão, falta de liberdade e de direitos. Difícil escrever sobre esse gênero sem me sentir fazendo resenha para vestibulandos, pois as obras consideradas as melhores distopias são clássicas –  será que no passado éramos mais pessimistas? Bem, tem uma lista que quase me desmente, aqui.

 

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Até O Conto da Aia eu tinha lido, do gênero, apenas Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell. Ambos já foram exaustivamente destrinchados e ainda assim, quanto mais o tempo avança além do tempo em que foram escritos, mais parecem acertar o que seria aquele futuro imaginado – o nosso presente. Huxley pegou na veia ao criar uma sociedade de aparência, que renega a morte, o envelhecimento, o “natural”; no uso de drogas e na alienação, inclusive por meio de jogos, ora ora, para uma vida perfeita, uma felicidade histérica e vazia (hello Facebook). A tese de que Huxley acertou mais que Orwell  é antiga e deve até ter caído em alguma prova de literatura. Mas, por mais que 1984 seja uma caricatura de regimes ditatoriais e o Grande Irmão tenha sido banalizado em reality shows, diga que não dá um arrepio quando você comenta que quer comprar um colchão e imediatamente, na tela do seu computador, aparecem ofertas e lojas com aquele exato produto? O olho que tudo vê e escuta hoje pode estar no mecanismo do celular  –  no meu, a Siri vive desligada, pois se aprendi algo com a leitura de 1984 foi a manter em segredo os meus maiores medos.

“(…) Do lugar onde Winston estava mal dava para ler, escarvados na parede branca em letras elegantes, os três slogans do Partido: GUERRA É PAZ –  LIBERDADE É ESCRAVIDÃO - IGNORÂNCIA É FORÇA”

Já o livro de Atwood se diferencia porque, em vez de imaginar e criar a partir de uma ideia de futuro, a autora pegou referências reais para sua história. E tudo acaba se tornando muito factível. Muito presente. A gente sabe que a criação e a submissão a um regime como a Gilead é possível – mulheres subjugadas, escravizadas, cegas pela religião, pelo terror: não vemos notícias todos os dias? O trecho que mais me impressionou não está no relato frio do ritual de estupro, nos assassinatos, na rotina sufocante, mas lá no começo, com o primeiro sinal do que se tornaria aquela sociedade. O trecho mostra o diálogo de Offred com o marido, no dia em que as mulheres foram obrigadas a parar de trabalhar.

“(…) Luke se ajoelhou ao meu lado e me envolveu em seus braços. Eu ouvi a notícia, disse, no rádio do carro, quando estava vindo para casa. Não se preocupe. Tenho certeza de que é temporário.

Eles disseram por quê?, perguntei.

Ele não respondeu. Nós superaremos isso, disse, me abraçando.

Você não sabe como é, eu disse. Sinto-me como se alguém tivesse me cortado os pés. Não estava chorando. Além disso eu não conseguia tomá-lo em meus braços.

É só um emprego, disse ele, tentando me acalmar.

Imagino que você vá receber todo o meu dinheiro, disse. E não estou sequer morta. Eu estava tentando fazer uma brincadeira, mas saiu como um comentário macabro.

Calma, disse ele. Ainda estava ajoelhado no chão. Você sabe que sempre cuidarei de você.

E eu pensei, ele já está começando a me tratar como criança.”

 

Aterrorizante, hein?A história também inclui perseguições a minorias, a formação de grupos rebeldes, a competitividade e o ódio entre as mulheres das mesmas castas, e ao mesmo tempo uma união catártica em torno das Aias que conseguem engravidar. Mas não se preocupe, leitor macho, não se trata de um livro “feminino” (daqui a uns posts vamos falar disso). A escrita de Atwood, a partir da visão feminina de uma revolução que puniu primeiro as mulheres (como sempre), é crua e envolvente.

Obviamente recomendo os três livros acima (e os linkados também) mas a boa notícia é que O Conto da Aia acaba de virar série e logo, logo vai chegar aos nossos downloads, Netflix ou cabo por aí. Leia antes. Boa semana!

 

 

Sobre ler

11 abril, 2017 às 07:00  |  por Tina Lopes

Na Biblioteca Nacional da França existe um exemplar de cada livro escrito e editado no país. Imagine que loucura. São quatro prédios em forma de V, como livros que caíram, entreabertos, no chão de uma livraria. Qualquer obra medíocre, técnica, datada, genial, irresponsável, experimental, épica, qualquer uma, vai parar lá. Um exemplar só. Deve ser um alento para o escritor desconhecido, aquele que não se torna um sucesso, best-seller, que não vira objeto de leituras obscuras nos muitos cafés literários e filosóficos que aquele povo adora fazer; o escritor de um livro só ou o acadêmico de vinte leitores. Pelo menos ele está na BNF*.

 

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Lembrei disso ao me confrontar, mais uma vez, com aquele momento angustiante entre um livro e outro. Nunca seremos capazes de ler tudo que temos vontade. E há cada vez mais possibilidades. Antes líamos os clássicos porque era o que tinha nas bibliotecas ralas de escola. Hoje baixamos material de autores estrangeiros aos quais não teríamos acesso sem a internet, lemos trechos de livros premiados, que são as iscas dos sites de livrarias. Temos grupos sobre literatura em redes sociais e até blogs recomendando livros, veja só. Mas afinal, como você escolhe o próximo livro?

Quando fiz estágio na Biblioteca Pública do Paraná tive uma fase louca de franceses. Entre eles, obviamente, me concentrei em Camus,  Sartre e  Simone de Beauvoir – na verdade, na ficção autobiográfica típica deles, que eu não sou boa de filosofia. Em A Náusea, Sartre criou um personagem inesquecível, o Autodidata, que decide ler tudo da biblioteca da cidade. E o faz da forma mais estúpida que alguém poderia escolher: pela ordem alfabética. Bem, não deixa de ser um método (e uma crítica ao enciclopedismo, digamos assim, ou àquela voracidade vazia do que hoje seriam leitores de instagram).

 

Angústia e liberdade, dois conceitos tão caros ao Existencialismo, também fazem parte da decisão pelo próximo autor. Como você sabe eu não perco tempo com leitura desinteressante, mas também tenho medo de ser leviana e abandonar boas histórias porque não estava no melhor humor para as primeiras páginas – lembro de Umberto Eco com as 150 páginas iniciais de O Nome da Rosa, que ele mesmo admitia ter construído como um “muro” a ser ultrapassado. Taí um livro apaixonante no qual a biblioteca é quase um personagem; passado o trecho árido, continua difícil, mas delicioso. Saiu de moda há algum tempo, mas não existe isso para qualidade de texto, roteiro, emoção.

Chegando ao fim desta minha vida de pecador, enquanto, encanecido, envelheço como o mundo, à espera de perder-me no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta, participando da luz inconversível das inteligências angélicas, já entrevado com meu corpo pesado e doente nesta cela do caro mosteiro de Melk, apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos miríficos e formidáveis a que na juventude me foi dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão (se o Anticristo não os preceder) signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração. 

 

Cada pessoa lê de um jeito, em determinada hora e com mais ou menos dedicação. Eu leio ao deitar, quando a casa está quieta e eu não preciso fazer mais nada, nem serei interrompida. Também gosto de ler ao almoçar, sozinha. Fico encrencada quando o livro é bom demais e não consigo dormir sem avançar bastante pela madrugada e às vezes perco a hora de voltar correndo ao trabalho.

Intercalo livros muito longos e profundos, daqueles sofridos (no bom sentido), com narrativas leves: esta variação faz parte do meu método. Até algum tempo atrás tive uma fase de me fechar em determinados autores. Hoje procuro mais novidades – não necessariamente novos autores. Tento não me prender a conceitos como escolher só livros de mulheres, ou latino-americanos, ou policiais nórdicos. Recentemente me encantei com uma autora da qual não tinha ainda ouvido falar e na qual não botei qualquer fé: Lianne Moriarty, que escreveu Pequenas Grandes Mentiras, que deu origem à série da HBO. Comecei só para saber quem eram assassino e vítima e jurando pular páginas para não perder tempo com chick-lit. Acabei encantada pela narrativa leve, fluida, divertida e dramática ao mesmo tempo, muito melhor que o roteiro que dela foi retirado. Caí do cavalo do preconceito.

Em seguida quis me levar muito a sério e busquei o título mais recente de um de meus autores favoritos, Ian McEwan. “Enclausurado” é narrada por um feto prestes a nascer mas que pensa e reage ao que ouve do ambiente e das situações para onde a mãe o leva como se fosse um lorde dândi decadente, conhecedor de vinhos e de história da humanidade. Poderia ser ridículo se não fosse escrita por McEwan. É uma historinha de crime e castigo, cínica e divertida, shakespeariana.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando lembro como vaguei antes em meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha de meus pensamentos num oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes do meu local de confinamento, a membrana que vibrava, embora as abafasse, com as confidências dos conspiradores engajados numa empreitada maléfica. Isso foi na minha juventude despreocupada. Agora, em posição totalmente invertida, sem um centímetro de espaço para mim, joelhos apertados contra a barriga, meus pensamentos e minha cabeça estão de todo ocupados. Não tenho escolha, meu ouvido está pressionado noite e dia contra as paredes onde o sangue circula. Escuto, tomo notas mentais, estou inquieto. Ouço conversas na cama sobre intenções letais e me sinto aterrorizado com o que me aguarda, pela encrenca em que posso me meter.” 

 

O muro, nesse caso, é o absurdo. É preciso abrir a cabeça e se deixar levar.

PS: ainda não decidi qual vou começar hoje à noite.

 

 Update: o mesmo acontece na nossa Biblioteca Nacional.

Duas vidas pequenas

28 março, 2017 às 01:00  |  por Tina Lopes

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Duas experiências literárias bem distintas e que me surpreenderam em seu decorrer: Stoner, de John Williams, e Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara. Ambos são livros fechados – começo, meio e fim da vida de seus protagonistas, como comentei no post anterior.

Uma Vida Pequena começa animador: quatro amigos americanos que se conheceram na faculdade e moram em Nova York – o misterioso e pobre Jude; JB, o artista de origem haitiana, mimado pela família matriarcal; Willem, o doce, lindo e sensível ator que sobrevive como garçom e Malcolm, o arquiteto rico. Impossível não se interessar por suas vidas, como uma série da Netflix sobre gente bacana, até que a narrativa passa a se concentrar em Jude. As dores, físicas e emocionais, de Jude – e os demais gravitam em torno dele, como as domésticas das novelas brasileiras, sem um roteiro próprio.

Esse defeito não tira o interesse do leitor, pois o passado de Jude vai sendo desvendado aos poucos, conforme ele vai crescendo e se transformando. No entanto, seu amadurecimento emocional não acompanha o intelectual, financeiro e profissional. Seus traumas são insuperáveis. Eu me peguei pensando que, se fosse uma mulher, talvez Jude fosse mais forte e conseguisse avançar um pouco – mas essa sensação certamente me ocorre porque seu sofrimento é muito mais identificável com o feminino: abandono, abuso sexual, assédio, violência. E ao esmiuçar o sofrimento de Jude, o livro proporciona um voyeurismo sádico – muitas vezes me envergonhei por ansiar por detalhes de sua história, e cheguei a encostar o livro pensando “tomara que se mate logo”, porque sua tristeza é insuportável e compreensível.

Ao contrário do título, a narrativa trata de vidas extraordinárias. São grandes amigos para a vida toda, mais que irmãos. São gays, bissexuais, afro-americanos que vivem num mundo ideal sem repressão ou preconceito. Problemas como o uso de drogas ou a pobreza são solucionáveis. São artistas perfeitos, cozinham bem, ficam ricos, têm sucesso. O meio ou a época em que vivem não interferem em suas vidas ou relações. Lembra quando comentei no primeiro post sobre ler só sobre gente legal? Bem, este livro te dá isso e é cansativo. Só os vilões (e eles são super vilões, o que há de pior na raça humana) são a exceção.

O último juiz de qualquer obra literária, o tempo, foi bondoso com o romance. Escrito em 1965, “Stoner” vendeu 2 mil cópias, recebeu uma resenha curta na revista “The New Yorker” — e desapareceu. Nem o fato de seu autor ganhar o National Book Awards em 1972, por “Augustus”, salvou sua obra do esquecimento. O obituário de Williams o qualificava apenas como “editor e professor de inglês”.

Em Stoner não há tragédia além do caminho cotidiano e inevitável para a morte. Já na primeira página temos todas as informações necessárias para abandonar o livro: será a história de uma vida comum, de um homem comum, que não deixou qualquer legado. O que de mais extraordinário acontece está logo no começo quando, graças a um tipo de cota para alunos do meio rural, o filho de agricultores William Stoner vai para a faculdade e começa um curso voltado para a agricultura, mas dá uma guinada inspirada por um professor e acaba se tornando um acadêmico de Literatura Inglesa, com todos os privilégios e mesquinharias que essa carreira proporciona.

Pessoalmente, gosto muito quando o livro não tenta me enganar oferecendo um anti-herói genial, que não é reconhecido pela sociedade mas que você, o leitor antenado desse autor esperto, valoriza. Detesto ser alvo dessa piscadela “viu como somos especiais?”.

E não é isso que acontece – Stoner nunca foi um brilhante observador da sociedade; optou por não se alistar na Grande Guerra mas também não incorporou a bandeira pacifista; enfrentou o sistema ao qual servia e, de certo modo, perdeu – porém sem se tornar o  típico falastrão desiludido dos corredores de Humanas. De fato, em alguns momentos a leitura fica penosa. As emoções dessa vida quase desinteressante estão nas entrelinhas. A passividade de Stoner diante de sua esposa, uma mulher cujo papel a desagrada a ponto de virar uma megera, nos mortifica. Acovarda-se na defesa da relação com a filha (a personagem mais tocante). Apaixona-se profundamente uma vez; ama seus livros. Defende seus princípios, se sacrifica, porém discretamente, somente para si, em respeito aos próprios limites. John Williams mostra, com Stoner, o quanto pode caber numa vida pequena. Mas não se engane: algumas cenas – a presença dos pais no casamento, a descoberta do prazer em dar aulas, a conversa com a filha, na cozinha – são inesquecíveis e passam a fazer parte da nossa.

As duas narrativas me inquietaram, pelas faltas e pelos excessos, em vários momentos. O amor transbordante de uma, a aspereza da outra. A reflexão sobre a morte, seja pela possibilidade do suicídio para quem já não suporta viver, ou pela consciência de sua proximidade. São ótimas histórias, bem escritas, fluidas, e estão aqui, durando na memória – que é o que se espera de um bom livro, ou de uma vida.

Até a próxima!

Livro: ame-o ou deixe-o

20 março, 2017 às 15:35  |  por Tina Lopes

Outro dia uma amiga fez um post reclamando que, apesar de gostar do autor, não aguentava mais continuar lendo uma história com um protagonista machista e imaturo – acho que eram essas as reclamações. Não só por se tratar de Arturo Bandini, um dos meus queridinhos da ficção – jovenzinho dos anos 50, arrogante, insensível, cheio de defeitos e, por isso mesmo, totalmente verossímil – mas fiquei chocada porque, entre tantos motivos para largar um livro, jamais seria por dar voz a um personagem oposto a tudo que eu entenda como legal.

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“Eu tinha vinte anos na época. Que diabo, eu dizia, não se apresse, Bandini. Você tem 20 anos para escrever um livro, vá com calma, saia e aprenda sobre a vida, caminhe pelas ruas. Este é o seu problema: a ignorância da vida”

Fosse assim, como poderia ter lido Lolita? Humbert Humbert, pedófilo asqueroso, conta sua história (e não a de Lolita, veja bem) de uma maneira que nos torna cúmplices. Ele poderia ser um de meus amigos com quem faria questão de jantar e compartilhar uma garrafa de vinho, trocando ironias finas sobre a vida e as pessoas, sendo venenosos e cínicos, rindo e nos achando superiores. Uma vez descobertos seus crimes, dificilmente eu acreditaria de cara na sua culpa. O autor nos leva a confraternizar com o pior inimigo. E como é bom. Fico pensando quanto tempo Nabokov aguentaria fora da cadeia, hoje, tentando publicar sua melhor e mais perversa criação.

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Esta, pois, é minha história. Acabo de relê-la. Tem pedaços de medula ainda presos a seus ossos, e sangue, e belas e reluzentes moscas verdes.”

Porém, Michel Houlebecq tá vivinho da silva e polemizando como nunca. Lembro bem da indignação que me causou a leitura de Plataforma, história de um francês que meu pai classificaria de “pra-nada” (inútil) que decide investir na exploração sexual em países do terceiro mundo. Até dei o livro para um amigo. Dias depois me arrependi porque não conseguia deixar de pensar na história. Hoje admito que é um puta livro, com o perdão do trocadilho, superior a Submissão, que trata de uma França dominada por muçulmanos e que li contrariada com o racismo evidente de alguns trechos.

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Até o final, continuarei a ser um filho da Europa, um filho da inquietação e da vergonha; não sou depositário de qualquer mensagem de esperança. Não sinto ódio pelo Ocidente, quando muito um enorme desprezo. Sei apenas que, sendo como somos, exalamos um imenso fedor a egoísmo, a masoquismo e a morte.”

Recentemente acabei os dois volumes que deram origem ao filme Trainspotting, e a continuação (Porn), 20 anos depois, da saga medíocre daquele bando de junkies escoceses. Nada da minha vida está ali: roubos, heroína, vômitos (principalmente), indústria pornô, traições, prostituição. Talvez a lembrança daquele sentimento de beira de precipício dos anos 80. Fazia tempo que não me encantava tanto por um grupo de personagens (só a narrativa de Irvine Welsh conseguiu me tirar da ânsia de devorar tudo que tivesse pela frente da autora Elena Ferrante, mas isso fica para um próximo post).

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Minha tentação é citar o Johnny, dizendo que agora somos todos apenas conhecidos. Soa bem na minha cabeça: ‘agora somos todos apenas conhecidos.’ Parece ir além de nossa circunstância particular de viciados. Uma metáfora brilhante do nosso tempo.”

Voltando à amiga, e sei que no caso dela não se trata disso, mas foi o gancho que me levou a pensar: por que, repetindo um padrão de rede social, buscaria somente leituras com as quais concordo e personagens com os quais posso me identificar? Chegamos a um ponto de exaustão com o outro e com o mundo que nos leve a um estilo comfort-book? Anotando pra outro post, também.

Na minha idade já me permito largar uma leitura que não me prenda pelo começo. Cada livro ruim lido equivale ao tempo de leitura de dois ótimos que seriam devorados se não estivesse me esforçando, seja pela suposta obrigatoriedade, ou pelo tema em alta, ou pela modinha do escritor etc. a finalizar as centenas de páginas de chatices. Por outro lado, não é a estranheza o meu ponto de partida para escolhas literárias. Como no cinema, primeiro faço a escolha pelo diretor – é a escrita, o texto, que me conquista antes de tudo. Quero dizer: eu posso até odiar o autor, o personagem, a premissa, e ainda assim amar o livro.

E você? O que te leva a escolher um livro, ou a deixá-lo?

Vida que segue

20 março, 2017 às 15:35  |  por Tina Lopes

Certa vez perguntei de uma prima distante para minha mãe.

– Fulana? Está ótima, disse.

– Que bom, casou e está morando no interior ainda?

– Sim, depois que ela recebeu a herança do pai (…)

– O pai dela morreu?

– Sim, e ela ficou com a herança, o que foi ótimo pois estava difícil de criar os três filhos (…)

– Três filhos?

– (…) sem  o marido, porque ficou viúva.

Sempre lembro dessa conversa porque, desgraceira à parte, me lembra que a vida só termina quando acaba. A gente vê as pessoas casando, nascendo, sobrevivendo a tragédias e às vezes carrega a imagem daquele momento como se fossem personagens de uma história com começo, meio e fim –  casou e vive feliz; recebeu uma herança e se deu bem, ou, pelo contrário, entrou em depressão e vive entocado em casa. Como se tivéssemos fechado um livro. E, no entanto, tudo pode estar virado de ponta-cabeça e a pessoa nem é mais aquela.

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Ao contrário das pessoas, que nos desinteressam cada vez mais, a convivência com alguns personagens de ficção pode nos fazer muita falta. Eu, pelo menos, me pego imaginando – como terá Philip Carey vivido o resto de seus dias? O órfão de pezinho torto, tão complexado quanto inteligente, criado pelos tios austeros e presa fácil para aquela megera da Bette Davis, quero dizer, da Mildred? Menino perdido, que vai gastando suas economias para conhecer o mundo, estudar arte (no que se revelou um vexame), depois envereda pela medicina, passa fome até – bem, eu não vou contar; leia Servidão Humana, a obra-prima de William Somerset Maugham. Teve uma época em que eu presenteava com a história de Philip só para ter com quem comentar – “Não dá raiva quando ele faz isso e aquilo? Quase morri quando aconteceu aquela outra coisa”.

Alguns autores devem ter a mesma dificuldade de se desligar de suas criações e nos dão várias oportunidades de reencontros literários. Acompanhamos diversas fases de Arturo Bandini, citado no post anterior; mas queria mais: terá amadurecido, feito sucesso, amado outra? E O Vampiro de Curitiba, agora que saiu de moda, está envelhecido e pode até ser preso se continuar suas andanças pelos becos escuros atrás das polaquinhas ariscas – por onde anda Nelsinho? E o que dizer do dia seguinte de Scarlet O’ Hara.?

vampiro

A sensação chega a ser de desconsolo. Ano passado conheci as amigas Lenu e Lila, as napolitanas da tetralogia de Elena Ferrante. Depois de quatro livros, sabendo de seus piores temores e ódios, convivendo a ponto de termos uma ideia muito específica de sua aparência e seu jeito de andar, de seus gostos e suas implicâncias, e do desenrolar todo de duas vidas tão especiais, como viver sem essas companhias? Para esse luto só há um remédio, que é conhecer novos personagens.

E não se engane que um livro de contos possa dar um alívio de leitura mais superficial e ligeira. Escritoras como Alice Munro conseguem nos arrastar para um universo inteiro em meras vinte páginas – tente não se colocar no lugar da personagem do primeiro conto em Felicidade Demais. Teríamos sobrevivido a uma vida marcada pela tragédia? Pelo lado oposto, um épico como O Pintassilgo, criticado (equivocadamente, na minha opinião) por ser descritivo e pretensioso, nos deixa saudade de fases: o protagonista Theo enquanto é criança, seu amigo Boris já na vida adulta.

alicemunro  opintassilgo

São poucos os livros que não nos deixam margem para imaginar o “depois do Fim”. No próximo post vou escrever (e finalmente começar algo próximo à resenha) sobre dois deles que li recentemente. Até semana que vem.