Feios, sujos e cansados

2 julho, 2017 às 20:45  |  por Tina Lopes

Papeando no post de uma amiga descobri o único livro de Lucia Berlin lançado no Brasil. Mais um caso de hype ao qual chego atrasada, mas quem está ligando? Pesquisando, descobri que a autora morreu praticamente desconhecida e que seu sucesso é póstumo (que coisa triste). Conforme ficamos sabendo na orelha virtual do livro e no Goodreads, Lucia (leia Lucía Berlín) foi casada três vezes e passou boa parte da vida lutando contra o alcoolismo e, para sustentar os quatro filhos, foi telefonista, faxineira e enfermeira até tornar-se, mais madura, professora universitária. Morreu no dia de seu aniversário de 68 anos, em 12 de dezembro de 2004. Onze anos depois O Diário de uma Faxineira foi colocado na lista dos 10 melhores livros do ano pelo NY Times.

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Estou bem impressionada com a escrita fluida, ácida, direta e principalmente com os enredos que vão do cotidiano ao bizarro: a amizade que surge entre uma mulher e um índio durante o ciclo da lavagem de roupas em uma lavanderia; a sordidez de uma clínica de aborto no deserto; o pai dentista que pede ajuda à neta para extrair seus dentes (os dele). Certamente neste livro não há gente de sucesso, nem mesmo entre a classe média alta americana, flagrada em seu ridículo de moralismo e extravagância. Mas no geral os personagens são os coadjuvantes, as sombras, os losers. Digamos que se Lucia Berlin escrevesse sobre Hogwarts, abordaria a vida dos bruxos que têm notas médias, nunca são percebidos por Dumbledore e ainda são obrigados a organizar a bagunça deixada pelos colegas geniais que mal percebem sua existência.

“Aquele tinha sido o primeiro encontro dela com a polícia, embora não se lembrasse de nada. Nunca havia dirigido bêbada antes, nunca havia perdido mais do que um dia de trabalho, nunca… Não fazia ideia do que ainda estava por vir.

Farinha. Leite. Ajax. Ela só tinha vinagre de vinho em casa, o que, com o Antabuse, poderia lhe causar convulsões. Escreveu vinagre de maçã na lista.”

(A Primeira Desintoxicação, em Manual da Faxineira, Lucia Berlin)

Ainda não terminei o livro mas encontrei eco em outros dois autores (fique à vontade para me contrariar, nos comentários). A primeira lembrança foi – meio óbvio – dos contos de Alice Munro. Elegante, sombria, marcante, a canadense (sobre a qual já falei, aqui) também nos impacta com revelações surpreendentes nas entrelinhas de relatos cotidianos. Ou não. Em ambas, às vezes uma narrativa é só aquilo mesmo: uma mostra da vida de pessoas solitárias e sem qualidades especiais, vivendo aos tropeções, sendo enganadas e se enganando, tentando interagir num mundo hostil.

“Ela era camareira da pousada Blue Spruce. Limpava banheiros e fazia e desfazia camas e passava aspirador nos tapetes e pano nos espelhos. Gostava do trabalho, que em certa medida ocupava seus pensamentos e a deixava exausta o bastante para que conseguisse dormir à noite. (…) Nenhum de seus companheiros de trabalho sabia o que tinha acontecido. Ou, se sabiam, não comentavam. A foto dela apareceu no jornal – usaram a foto que ele fizera dela e das três crianças, o bebê novo, Dimitri, em seus braços, e Barbara Ann e o Sasha, um de cada lado, olhando para a câmera.” 

(Dimensões, em Felicidade Demais, Alice Munro)

Além da escrita limpa e do olhar afiado para o detalhe dos grandes cenários (porque é nas entrelinhas que elas nos registram suas épocas), outro paralelo entre as autoras está na representação do trabalho pesado, mal remunerado, sem status. Seus personagens pegam ônibus, exaustos, perdem o ponto porque dormiram, sentem dores pelo corpo, comem pouco e mal, vivem à margem da sociedade de consumo. Casamentos acabam, filhos morrem, desgraças acontecem, ou nada. Bebem, fumam, se acabam, intencionalmente ou não. Já recomendei aqui Felicidade Demais e acho interessante ler A Fugitiva e depois comparar com o filme recente de Pedro Almodóvar, baseado em três de seus contos.

Com isso chego à terceira referência que coloco ao lado das duas escritoras na minha estante imaginária: Charles Bukowski. Antes que você fuja para outro site, lembro que antes de ser conhecido como o velho tarado e rotulado “maldito”, ele já tinha sido considerado por Jean Paul Sartre como o “melhor poeta da América”; seu romance de maior sucesso era Cartas na Rua, um relato autobiográfico, como sempre, na pele do alter-ego Henry Chinaski, sobre o submundo do trabalho precário – aqui, em serviços em abatedouros e principalmente nos correios americanos.

Um parêntese: uma vez ouvi de um colega ligado à literatura, conhecedor do ramo e de autores, que só adolescentes devem gostar de Bukowski. Lamentava meu mau gosto e eu desviava do assunto, porque enfim, ele também era fã de autores dos quais fujo como o diabo da cruz. Mas acredito que exista um preconceito porque Bukowski virou mito (nome de bar, inclusive) e ganhou seguidores que não distinguem a escrita simples da escrita ruim. O escritor se irritava com os fãs – jovens bêbados que enxotava dos degraus de sua casa, gente que nunca tinha trabalhado ou passado necessidade e achava que bastava encher a cara e pagar prostitutas para ter o que escrever. Ah, jovens, sóbrios ou não, sempre cheios de certezas. Envelheçam.

“O uísque e a cerveja evaporavam de mim, escorriam das axilas, e eu ia andando com minha carga nas costas como se carregasse uma cruz, entregando revistas, entregando milhares de cartas, cambaleando, derretendo debaixo do sol. Alguma mulher gritou:

- Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!

Olhei. Ela estava um quarteirão morro abaixo e eu já estava atrasado.

- Olhe, dona, ponha a carta do lado de fora. Nós pegamos amanhã!

- Não! Não! Quero que a leve agora!

Ela sacudia o troço no ar.

- Dona!

- Venha buscar! Não é daqui!

Oh, meu Deus. Deixei cair o malote. Aí peguei meu quepe e atirei-o na grama. Rolou até a rua. Não liguei; desci em direção à mulher. Desci meio quarteirão e arranquei a droga da carta das suas mãos, aí virei e voltei.”

(Cartas na Rua, de Charles Bukowski)

Talvez agora Bukowski fosse escorraçado por seu machismo, renomeado como misoginia. Talvez não exista mais espaço para seu texto recheado de palavrões, situações e imagens degradantemente divertidas de Cartas na Rua e de vários outros livros, inclusive aqueles de contos que foram, originalmente, publicados numa coluna de uma revista pornográfica e que se tornaram mais conhecidos que suas poesias – quem diria, o safado acabou tomando o espaço do poeta; quem sabe hoje a poesia se impusesse? Fica o desafio – dele recomendo também O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio, livro póstumo.

Até a próxima!

É (sempre) tempo de reler Confesso que Vivi

10 junho, 2017 às 14:39  |  por Tina Lopes

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Não sou leitora nem de poesia, nem de biografia. Contraditoriamente, no entanto, um de meus livros preferidos da vida é a autobiografia do poeta chileno Pablo Neruda, Confesso que Vivi. Carregava dele, na memória, algumas passagens,  e no coração, um carinho pelo narrador e uma vontade enorme de conhecer o Chile, desde que o li no fim da adolescência. Recentemente pude viajar para dois destinos fundamentais para Neruda, Valparaíso e Santiago, e decidi reler poucos trechos para comparar seu olhar com o meu. E novamente fui pega, tanto pelo texto – mesmo escorregando no excesso poético em alguns momentos (o que pra mim é problema, para outros é virtude) – como pelas histórias sensacionais e inesquecíveis, tantas que parece incrível que caibam em apenas um livro. Acredite, o que separei aqui neste textão não é um décimo do potencial de boas histórias do livro.

Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e de lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar.

Também me reencontrei encantada pelo homem, Pablo, nascido Nefatli Ricardo Reyes Basoalto. Ao ler suas memórias certamente você vai desejar tê-lo tido como amigo ou amante. Ou ambos. Um homem tão apaixonado por tudo – pela vida, por seu povo, pela humanidade, pelas mulheres, por animais, por suas coleções de objetos os mais esdrúxulos – poderia até ser irritante, mas sua história mostra que muito pelo contrário.

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O Jovem Provinciano e Perdido na Cidade são os capítulos iniciais tratando de sua infância e juventude. Além das relações familiares (o pai não o aceitava como poeta) e das impressões sobre a vida que marcaram sua obra, a singeleza da primeira poesia, ainda um menininho que mal sabia escrever, e uma recepção à francesa em plena floresta, na qual vagava perdido, parecem histórias de seus colegas do realismo fantástico. Na juventude, Neruda virou um para-raios de doido e conheceu cada escritor e artista da cena cultural de Santiago dos anos 20, dos mais pobres aos mais reconhecidos (inclusive a primeira poeta chilena premiada com o Nobel, como ele: Gabriela Mistral).

A propósito de Rojas Giménez direi que a loucura, certa loucura, anda muitas vezes de braço dado com a poesia. É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas quanto os poetas se tornarem razoáveis.

Ao contar sobre seu primeiro livro e também primeiro grande sucesso, Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada (que títulos!), Neruda nos conduz pela emoção do processo de escrita e edição. E lembra que o dinheiro ganho com a primeira obra foi todo gasto em um belo jantar com os amigos artistas.

Os que tiveram proveito com o negócio: o restaurante, quatro engraxates e um editor. A prosperidade não chegou até o poeta.

Se ainda não tinha aflorado politicamente até então, foi com sua nomeação (episódio envolvendo burocracia, funcionários públicos e indicações políticas totalmente latino, bizarro e divertido) que surgiu o Pablo Neruda socialista, um privilegiado que se misturava ao povo. Para começar, um diplomata sem status, sem ao menos um consulado para chamar de seu, mero batedor de carimbos numa terra distante e exótica. Nos capítulos Os Caminhos do Mundo e A Solidão Luminosa o poeta narra sua vida como cônsul do Chile em Rangum, na Birmânia, depois no Ceilão, em Java e em Cingapura. As injustiças do colonialismo o atordoam assim como a solidão intensa, que o leva a se relacionar primeiro com uma mulher apaixonada que o ameaça de morte, depois a casar com uma nativa da qual não se sabe ainda hoje muita coisa. A primeira foi abandonada por puro medo (homens não gostam de dormir com mulheres que brandem facas) e da segunda se separou anos depois. Outros grandes amores virão.

 Enquanto os novos cânticos são perseguidos, um milhão de homens dormem noite após noite nas estradas, nos arredores de Bombaim. Dormem, nascem e morrem. Não há casas nem pão, nem medicamentos. Foi assim que a Inglaterra, civilizada e orgulhosa, deixou o seu império colonial. Despediu-se de seus antigos súditos sem deixar-lhes escolas nem indústrias, nem habitações, nem hospitais, mas somente prisões e montes de garrafas de uísque vazias.

Neruda fugia dos clubes de brancos civilizados e tentava se misturar ao povo desses países. Teve uma mangusta caçadora de cobras, ou nem tanto; se enrolou diversas vezes com a língua local, com costumes, e experimentou todos os pratos e bebidas que pôde, inclusive o ópio, então liberado.

 Não há sonhos, não há imagens, não há paroxismo… Há um enfraquecimento melódico, como se uma nota infinitamente suave se prolongasse na atmosfera… Um desvanecimento, um vazio dentro da gente… Qualquer movimento do cotovelo, da nuca, qualquer som distante de carro, uma buzina ou um grito na rua se integram num todo, de uma delícia recusante… Compreendi porque os peões de plantação, os jornaleiros, os rickshamen que puxam o ricksha o dia inteiro logo se deixavam ficar ali, na penumbra, imóveis… O ópio não era o paraíso dos exóticos que haviam nos pintado, mas a fuga dos explorados.

A leitura de Confesso que Vivi, a essa altura do livro, já se tornou uma conversa entre amigos.  As histórias sem datas específicas trazem, às vezes, uma fofoquinha, um parênteses sobre alguém conhecido, apimentando o relato.

 (…) os colonizadores mandaram queimar a cabana de um camponês cingalês com a intenção de desalojá-lo e desapropriar suas terras. O inglês que devia executar as ordens de arrasar a choça era um funcionário modesto. Chamava-se Leonardo Woolf. Mas se negou a fazê-lo e foi destituído do caso. Devolvido à Inglaterra, escreveu ali um dos melhores livros que jamais foram escritos sobre o Oriente: A village in the jungle, obra-prima da vida verdadeira e da literatura real, um pouco ou muito prejudicado pela fama da mulher de Woolf, nada menos que Virginia Woolf, grande escritora subjetiva de renome universal.

A Espanha no Coração trata de sua vida entre Madri e Barcelona, como cônsul, e o relacionamento com poetas como Federico García Lorca (com quem já tinha vivido boas aventuras ao se conhecerem, na Argentina), Vicente Aleixandre e Rafael Alberti, juntamente com vários outros escritores, com os quais fundaram uma revista cultural chamada Caballo Verde. Este deve ter sido um momento daqueles especiais no mundo, tanta gente interessante num cenário tão crítico, hora certa para se reconhecer os amigos de trincheira. A dor dos assassinatos dos amigos (de Lorca, principalmente, um trauma) e perseguições que se seguem resultam no ingresso de Neruda no Partido Comunista e uma guinada em seus textos, culminando no livro Canto Geral (um nome que fica mais adequado em espanhol, Canto General), lançado anos mais tarde.

Seduzia-me o grande poder metafórico de García Lorca e me interessava por tudo que escrevia.  Por sua vez ele me pedia às vezes que eu lesse para ele meus últimos poemas e, no meio da leitura, me interrompia aos gritos: “Não continua, não continua, que me influencias!”

Em Saí a Procurar Caídos, Neruda fala da Guerra Civil Espanhola e o emocionante caso do navio com mais de dois mil refugiados que ele conseguiu enviar para Valparaíso, uma ação que o tornaria um herói entre os espanhóis por toda sua vida Outra guerra entristece o texto em México florido e espinhoso, onde relata a vida naquele país e fala sobre a Segunda Guerra Mundial.

As mãos dos mexicanos, como dos chineses, são incapazes de criar algo feio, seja em pedra, em prata, em barro ou em cravos.

Neruda nunca foi rico, conviveu com a elite, mas sempre foi reconhecido pelo povo chileno. Saía de jantares de gala para ler seus textos em encontros com operários. Em sua campanha ao Senado, mais tarde, reunia-se em barracões sujos e praças e, com mais prazer e ênfase, lia suas poesias, sempre emocionado com o silêncio e respeito daqueles que provavelmente nem tinham frequentado escolas. Os trabalhadores se viam representados.

As absurdas pretensões racistas”de algumas nações sul-americanas, produtos elas mesmas de múltiplos cruzamentos e mestiçagens, é uma tara de tipo colonial. Querem montar um tablado onde uns quantos esnobes, escrupulosamente brancos ou esbranquiçados, apresentem-se em sociedade, gesticulando diante dos arianos puros ou dos turistas sofisticados.

A política, a guerra, a perseguição são o centro dos capítulos seguintes. O “suicídio diplomático” e seu retorno ao Chile, para logo depois fugir disfarçado pela Cordilheira dos Andes, outro lance que merecia um livro à parte, estão em A pátria em trevas. Em Princípio e Fim de um Desterro, Neruda se lembra de sua estada na União Soviética e na China, suas impressões sobre o regime comunista, que tanto o alegrava, mas ao mesmo tempo identifica falhas na Matrix.

 Nunca entendi a luta senão para que termine.

Sua prisão em Buenos Aires, o retorno ao Oriente no fim dos anos 50 e reflexões sobre a poesia e muitos amigos que se foram, com relatos sobre diferentes personalidades, histórias que hoje poderiam acompanhar os depoimentos dos livros de Svetlana Aleksievitch, seguem nos capítulos Navegação com Regresso e A  Poesia é um Ofício.

Infelizmente Confesso que Vivi acaba mais que triste: trágico. As últimas páginas do capítulo Pátria Doce e Pura, onde conta desde a esperança no governo socialista de Salvador Allende até seu declínio, com os ataques a ele realizados pela oposição e pelo mercado, apoiados vergonhosamente – como era claro mas se comprovou oficialmente anos depois –  pelo governo americano, são silenciadas abrupta e violentamente.

 Escrevo estas rápidas linhas para minhas memórias a apenas três dias dos fatos inqualificáveis que levaram à morte meu grande companheiro, o Presidente Allende. (…) Após bombardeio aéreo, vieram os tanques, muitos tanques, para lutar intrepidamente contra um homem só: o Presidente da República do Chile, Salvador Allende, que os esperava em seu gabinete, sem outra companhia a não ser seu grande coração envolto em fumaça e chamas. 

Confesso que Vivi é um livro antigo, antiquado, creio que há tempos não seja reeditado. Quem hoje quer ouvir o eco de uma consciência poética e comunista? Os últimos capítulos são o oposto dos primeiros; a leitura começa leve e vai se tornando pesada e angustiante, amarga, cheia de referências cada vez mais perdidas. É o testemunho em vida de que o poder acaba com a poesia. Neruda, como se sabe, morreu 12 dias depois de seu amigo Allende.

O Conto da Aia

25 abril, 2017 às 07:00  |  por Tina Lopes

Depois que terroristas mataram o presidente e todos os congressistas, os Estados Unidos passaram a ser governados pelo Exército, aconteceu uma guerra nuclear e surgiu uma ditadura religiosa radical, na qual mulheres são organizadas por funções – Esposas, Martas (domésticas, cozinheiras), Tias (meio que umas freiras professoras) e Aias, aquelas que ainda são férteis e cuja função é engravidar e parir os filhos dos Comandantes. Uma dessas Aias é Offred, que conta sua história, desde os anos 80, quando tinha uma vida normal como a nossa, até o presente, sem direito a salário, opinião, amizades e nem mesmo a ler um livro.  Esse é o resumo de O Conto da Aia, da canadense Margaret Atwood, escrito em 1985. Trata-se de uma distopia e, pelo que eu saiba, uma das poucas obras do gênero escrita e narrada por uma mulher.

 

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Distopia é uma palavra inventada para ser entendida como antônimo de utopia, ou anti-utopia, isto é, uma sociedade imaginária de opressão, falta de liberdade e de direitos. Difícil escrever sobre esse gênero sem me sentir fazendo resenha para vestibulandos, pois as obras consideradas as melhores distopias são clássicas –  será que no passado éramos mais pessimistas? Bem, tem uma lista que quase me desmente, aqui.

 

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Até O Conto da Aia eu tinha lido, do gênero, apenas Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell. Ambos já foram exaustivamente destrinchados e ainda assim, quanto mais o tempo avança além do tempo em que foram escritos, mais parecem acertar o que seria aquele futuro imaginado – o nosso presente. Huxley pegou na veia ao criar uma sociedade de aparência, que renega a morte, o envelhecimento, o “natural”; no uso de drogas e na alienação, inclusive por meio de jogos, ora ora, para uma vida perfeita, uma felicidade histérica e vazia (hello Facebook). A tese de que Huxley acertou mais que Orwell  é antiga e deve até ter caído em alguma prova de literatura. Mas, por mais que 1984 seja uma caricatura de regimes ditatoriais e o Grande Irmão tenha sido banalizado em reality shows, diga que não dá um arrepio quando você comenta que quer comprar um colchão e imediatamente, na tela do seu computador, aparecem ofertas e lojas com aquele exato produto? O olho que tudo vê e escuta hoje pode estar no mecanismo do celular  –  no meu, a Siri vive desligada, pois se aprendi algo com a leitura de 1984 foi a manter em segredo os meus maiores medos.

“(…) Do lugar onde Winston estava mal dava para ler, escarvados na parede branca em letras elegantes, os três slogans do Partido: GUERRA É PAZ –  LIBERDADE É ESCRAVIDÃO - IGNORÂNCIA É FORÇA”

Já o livro de Atwood se diferencia porque, em vez de imaginar e criar a partir de uma ideia de futuro, a autora pegou referências reais para sua história. E tudo acaba se tornando muito factível. Muito presente. A gente sabe que a criação e a submissão a um regime como a Gilead é possível – mulheres subjugadas, escravizadas, cegas pela religião, pelo terror: não vemos notícias todos os dias? O trecho que mais me impressionou não está no relato frio do ritual de estupro, nos assassinatos, na rotina sufocante, mas lá no começo, com o primeiro sinal do que se tornaria aquela sociedade. O trecho mostra o diálogo de Offred com o marido, no dia em que as mulheres foram obrigadas a parar de trabalhar.

“(…) Luke se ajoelhou ao meu lado e me envolveu em seus braços. Eu ouvi a notícia, disse, no rádio do carro, quando estava vindo para casa. Não se preocupe. Tenho certeza de que é temporário.

Eles disseram por quê?, perguntei.

Ele não respondeu. Nós superaremos isso, disse, me abraçando.

Você não sabe como é, eu disse. Sinto-me como se alguém tivesse me cortado os pés. Não estava chorando. Além disso eu não conseguia tomá-lo em meus braços.

É só um emprego, disse ele, tentando me acalmar.

Imagino que você vá receber todo o meu dinheiro, disse. E não estou sequer morta. Eu estava tentando fazer uma brincadeira, mas saiu como um comentário macabro.

Calma, disse ele. Ainda estava ajoelhado no chão. Você sabe que sempre cuidarei de você.

E eu pensei, ele já está começando a me tratar como criança.”

 

Aterrorizante, hein?A história também inclui perseguições a minorias, a formação de grupos rebeldes, a competitividade e o ódio entre as mulheres das mesmas castas, e ao mesmo tempo uma união catártica em torno das Aias que conseguem engravidar. Mas não se preocupe, leitor macho, não se trata de um livro “feminino” (daqui a uns posts vamos falar disso). A escrita de Atwood, a partir da visão feminina de uma revolução que puniu primeiro as mulheres (como sempre), é crua e envolvente.

Obviamente recomendo os três livros acima (e os linkados também) mas a boa notícia é que O Conto da Aia acaba de virar série e logo, logo vai chegar aos nossos downloads, Netflix ou cabo por aí. Leia antes. Boa semana!

 

 

Sobre ler

11 abril, 2017 às 07:00  |  por Tina Lopes

Na Biblioteca Nacional da França existe um exemplar de cada livro escrito e editado no país. Imagine que loucura. São quatro prédios em forma de V, como livros que caíram, entreabertos, no chão de uma livraria. Qualquer obra medíocre, técnica, datada, genial, irresponsável, experimental, épica, qualquer uma, vai parar lá. Um exemplar só. Deve ser um alento para o escritor desconhecido, aquele que não se torna um sucesso, best-seller, que não vira objeto de leituras obscuras nos muitos cafés literários e filosóficos que aquele povo adora fazer; o escritor de um livro só ou o acadêmico de vinte leitores. Pelo menos ele está na BNF*.

 

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Lembrei disso ao me confrontar, mais uma vez, com aquele momento angustiante entre um livro e outro. Nunca seremos capazes de ler tudo que temos vontade. E há cada vez mais possibilidades. Antes líamos os clássicos porque era o que tinha nas bibliotecas ralas de escola. Hoje baixamos material de autores estrangeiros aos quais não teríamos acesso sem a internet, lemos trechos de livros premiados, que são as iscas dos sites de livrarias. Temos grupos sobre literatura em redes sociais e até blogs recomendando livros, veja só. Mas afinal, como você escolhe o próximo livro?

Quando fiz estágio na Biblioteca Pública do Paraná tive uma fase louca de franceses. Entre eles, obviamente, me concentrei em Camus,  Sartre e  Simone de Beauvoir – na verdade, na ficção autobiográfica típica deles, que eu não sou boa de filosofia. Em A Náusea, Sartre criou um personagem inesquecível, o Autodidata, que decide ler tudo da biblioteca da cidade. E o faz da forma mais estúpida que alguém poderia escolher: pela ordem alfabética. Bem, não deixa de ser um método (e uma crítica ao enciclopedismo, digamos assim, ou àquela voracidade vazia do que hoje seriam leitores de instagram).

 

Angústia e liberdade, dois conceitos tão caros ao Existencialismo, também fazem parte da decisão pelo próximo autor. Como você sabe eu não perco tempo com leitura desinteressante, mas também tenho medo de ser leviana e abandonar boas histórias porque não estava no melhor humor para as primeiras páginas – lembro de Umberto Eco com as 150 páginas iniciais de O Nome da Rosa, que ele mesmo admitia ter construído como um “muro” a ser ultrapassado. Taí um livro apaixonante no qual a biblioteca é quase um personagem; passado o trecho árido, continua difícil, mas delicioso. Saiu de moda há algum tempo, mas não existe isso para qualidade de texto, roteiro, emoção.

Chegando ao fim desta minha vida de pecador, enquanto, encanecido, envelheço como o mundo, à espera de perder-me no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta, participando da luz inconversível das inteligências angélicas, já entrevado com meu corpo pesado e doente nesta cela do caro mosteiro de Melk, apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos miríficos e formidáveis a que na juventude me foi dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão (se o Anticristo não os preceder) signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração. 

 

Cada pessoa lê de um jeito, em determinada hora e com mais ou menos dedicação. Eu leio ao deitar, quando a casa está quieta e eu não preciso fazer mais nada, nem serei interrompida. Também gosto de ler ao almoçar, sozinha. Fico encrencada quando o livro é bom demais e não consigo dormir sem avançar bastante pela madrugada e às vezes perco a hora de voltar correndo ao trabalho.

Intercalo livros muito longos e profundos, daqueles sofridos (no bom sentido), com narrativas leves: esta variação faz parte do meu método. Até algum tempo atrás tive uma fase de me fechar em determinados autores. Hoje procuro mais novidades – não necessariamente novos autores. Tento não me prender a conceitos como escolher só livros de mulheres, ou latino-americanos, ou policiais nórdicos. Recentemente me encantei com uma autora da qual não tinha ainda ouvido falar e na qual não botei qualquer fé: Lianne Moriarty, que escreveu Pequenas Grandes Mentiras, que deu origem à série da HBO. Comecei só para saber quem eram assassino e vítima e jurando pular páginas para não perder tempo com chick-lit. Acabei encantada pela narrativa leve, fluida, divertida e dramática ao mesmo tempo, muito melhor que o roteiro que dela foi retirado. Caí do cavalo do preconceito.

Em seguida quis me levar muito a sério e busquei o título mais recente de um de meus autores favoritos, Ian McEwan. “Enclausurado” é narrada por um feto prestes a nascer mas que pensa e reage ao que ouve do ambiente e das situações para onde a mãe o leva como se fosse um lorde dândi decadente, conhecedor de vinhos e de história da humanidade. Poderia ser ridículo se não fosse escrita por McEwan. É uma historinha de crime e castigo, cínica e divertida, shakespeariana.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando lembro como vaguei antes em meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha de meus pensamentos num oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes do meu local de confinamento, a membrana que vibrava, embora as abafasse, com as confidências dos conspiradores engajados numa empreitada maléfica. Isso foi na minha juventude despreocupada. Agora, em posição totalmente invertida, sem um centímetro de espaço para mim, joelhos apertados contra a barriga, meus pensamentos e minha cabeça estão de todo ocupados. Não tenho escolha, meu ouvido está pressionado noite e dia contra as paredes onde o sangue circula. Escuto, tomo notas mentais, estou inquieto. Ouço conversas na cama sobre intenções letais e me sinto aterrorizado com o que me aguarda, pela encrenca em que posso me meter.” 

 

O muro, nesse caso, é o absurdo. É preciso abrir a cabeça e se deixar levar.

PS: ainda não decidi qual vou começar hoje à noite.

 

 Update: o mesmo acontece na nossa Biblioteca Nacional.

Duas vidas pequenas

28 março, 2017 às 01:00  |  por Tina Lopes

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Duas experiências literárias bem distintas e que me surpreenderam em seu decorrer: Stoner, de John Williams, e Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara. Ambos são livros fechados – começo, meio e fim da vida de seus protagonistas, como comentei no post anterior.

Uma Vida Pequena começa animador: quatro amigos americanos que se conheceram na faculdade e moram em Nova York – o misterioso e pobre Jude; JB, o artista de origem haitiana, mimado pela família matriarcal; Willem, o doce, lindo e sensível ator que sobrevive como garçom e Malcolm, o arquiteto rico. Impossível não se interessar por suas vidas, como uma série da Netflix sobre gente bacana, até que a narrativa passa a se concentrar em Jude. As dores, físicas e emocionais, de Jude – e os demais gravitam em torno dele, como as domésticas das novelas brasileiras, sem um roteiro próprio.

Esse defeito não tira o interesse do leitor, pois o passado de Jude vai sendo desvendado aos poucos, conforme ele vai crescendo e se transformando. No entanto, seu amadurecimento emocional não acompanha o intelectual, financeiro e profissional. Seus traumas são insuperáveis. Eu me peguei pensando que, se fosse uma mulher, talvez Jude fosse mais forte e conseguisse avançar um pouco – mas essa sensação certamente me ocorre porque seu sofrimento é muito mais identificável com o feminino: abandono, abuso sexual, assédio, violência. E ao esmiuçar o sofrimento de Jude, o livro proporciona um voyeurismo sádico – muitas vezes me envergonhei por ansiar por detalhes de sua história, e cheguei a encostar o livro pensando “tomara que se mate logo”, porque sua tristeza é insuportável e compreensível.

Ao contrário do título, a narrativa trata de vidas extraordinárias. São grandes amigos para a vida toda, mais que irmãos. São gays, bissexuais, afro-americanos que vivem num mundo ideal sem repressão ou preconceito. Problemas como o uso de drogas ou a pobreza são solucionáveis. São artistas perfeitos, cozinham bem, ficam ricos, têm sucesso. O meio ou a época em que vivem não interferem em suas vidas ou relações. Lembra quando comentei no primeiro post sobre ler só sobre gente legal? Bem, este livro te dá isso e é cansativo. Só os vilões (e eles são super vilões, o que há de pior na raça humana) são a exceção.

O último juiz de qualquer obra literária, o tempo, foi bondoso com o romance. Escrito em 1965, “Stoner” vendeu 2 mil cópias, recebeu uma resenha curta na revista “The New Yorker” — e desapareceu. Nem o fato de seu autor ganhar o National Book Awards em 1972, por “Augustus”, salvou sua obra do esquecimento. O obituário de Williams o qualificava apenas como “editor e professor de inglês”.

Em Stoner não há tragédia além do caminho cotidiano e inevitável para a morte. Já na primeira página temos todas as informações necessárias para abandonar o livro: será a história de uma vida comum, de um homem comum, que não deixou qualquer legado. O que de mais extraordinário acontece está logo no começo quando, graças a um tipo de cota para alunos do meio rural, o filho de agricultores William Stoner vai para a faculdade e começa um curso voltado para a agricultura, mas dá uma guinada inspirada por um professor e acaba se tornando um acadêmico de Literatura Inglesa, com todos os privilégios e mesquinharias que essa carreira proporciona.

Pessoalmente, gosto muito quando o livro não tenta me enganar oferecendo um anti-herói genial, que não é reconhecido pela sociedade mas que você, o leitor antenado desse autor esperto, valoriza. Detesto ser alvo dessa piscadela “viu como somos especiais?”.

E não é isso que acontece – Stoner nunca foi um brilhante observador da sociedade; optou por não se alistar na Grande Guerra mas também não incorporou a bandeira pacifista; enfrentou o sistema ao qual servia e, de certo modo, perdeu – porém sem se tornar o  típico falastrão desiludido dos corredores de Humanas. De fato, em alguns momentos a leitura fica penosa. As emoções dessa vida quase desinteressante estão nas entrelinhas. A passividade de Stoner diante de sua esposa, uma mulher cujo papel a desagrada a ponto de virar uma megera, nos mortifica. Acovarda-se na defesa da relação com a filha (a personagem mais tocante). Apaixona-se profundamente uma vez; ama seus livros. Defende seus princípios, se sacrifica, porém discretamente, somente para si, em respeito aos próprios limites. John Williams mostra, com Stoner, o quanto pode caber numa vida pequena. Mas não se engane: algumas cenas – a presença dos pais no casamento, a descoberta do prazer em dar aulas, a conversa com a filha, na cozinha – são inesquecíveis e passam a fazer parte da nossa.

As duas narrativas me inquietaram, pelas faltas e pelos excessos, em vários momentos. O amor transbordante de uma, a aspereza da outra. A reflexão sobre a morte, seja pela possibilidade do suicídio para quem já não suporta viver, ou pela consciência de sua proximidade. São ótimas histórias, bem escritas, fluidas, e estão aqui, durando na memória – que é o que se espera de um bom livro, ou de uma vida.

Até a próxima!

Livro: ame-o ou deixe-o

20 março, 2017 às 15:35  |  por Tina Lopes

Outro dia uma amiga fez um post reclamando que, apesar de gostar do autor, não aguentava mais continuar lendo uma história com um protagonista machista e imaturo – acho que eram essas as reclamações. Não só por se tratar de Arturo Bandini, um dos meus queridinhos da ficção – jovenzinho dos anos 50, arrogante, insensível, cheio de defeitos e, por isso mesmo, totalmente verossímil – mas fiquei chocada porque, entre tantos motivos para largar um livro, jamais seria por dar voz a um personagem oposto a tudo que eu entenda como legal.

pergunteaopo

“Eu tinha vinte anos na época. Que diabo, eu dizia, não se apresse, Bandini. Você tem 20 anos para escrever um livro, vá com calma, saia e aprenda sobre a vida, caminhe pelas ruas. Este é o seu problema: a ignorância da vida”

Fosse assim, como poderia ter lido Lolita? Humbert Humbert, pedófilo asqueroso, conta sua história (e não a de Lolita, veja bem) de uma maneira que nos torna cúmplices. Ele poderia ser um de meus amigos com quem faria questão de jantar e compartilhar uma garrafa de vinho, trocando ironias finas sobre a vida e as pessoas, sendo venenosos e cínicos, rindo e nos achando superiores. Uma vez descobertos seus crimes, dificilmente eu acreditaria de cara na sua culpa. O autor nos leva a confraternizar com o pior inimigo. E como é bom. Fico pensando quanto tempo Nabokov aguentaria fora da cadeia, hoje, tentando publicar sua melhor e mais perversa criação.

lolita

Esta, pois, é minha história. Acabo de relê-la. Tem pedaços de medula ainda presos a seus ossos, e sangue, e belas e reluzentes moscas verdes.”

Porém, Michel Houlebecq tá vivinho da silva e polemizando como nunca. Lembro bem da indignação que me causou a leitura de Plataforma, história de um francês que meu pai classificaria de “pra-nada” (inútil) que decide investir na exploração sexual em países do terceiro mundo. Até dei o livro para um amigo. Dias depois me arrependi porque não conseguia deixar de pensar na história. Hoje admito que é um puta livro, com o perdão do trocadilho, superior a Submissão, que trata de uma França dominada por muçulmanos e que li contrariada com o racismo evidente de alguns trechos.

plataforma

Até o final, continuarei a ser um filho da Europa, um filho da inquietação e da vergonha; não sou depositário de qualquer mensagem de esperança. Não sinto ódio pelo Ocidente, quando muito um enorme desprezo. Sei apenas que, sendo como somos, exalamos um imenso fedor a egoísmo, a masoquismo e a morte.”

Recentemente acabei os dois volumes que deram origem ao filme Trainspotting, e a continuação (Porn), 20 anos depois, da saga medíocre daquele bando de junkies escoceses. Nada da minha vida está ali: roubos, heroína, vômitos (principalmente), indústria pornô, traições, prostituição. Talvez a lembrança daquele sentimento de beira de precipício dos anos 80. Fazia tempo que não me encantava tanto por um grupo de personagens (só a narrativa de Irvine Welsh conseguiu me tirar da ânsia de devorar tudo que tivesse pela frente da autora Elena Ferrante, mas isso fica para um próximo post).

trainspotting

Minha tentação é citar o Johnny, dizendo que agora somos todos apenas conhecidos. Soa bem na minha cabeça: ‘agora somos todos apenas conhecidos.’ Parece ir além de nossa circunstância particular de viciados. Uma metáfora brilhante do nosso tempo.”

Voltando à amiga, e sei que no caso dela não se trata disso, mas foi o gancho que me levou a pensar: por que, repetindo um padrão de rede social, buscaria somente leituras com as quais concordo e personagens com os quais posso me identificar? Chegamos a um ponto de exaustão com o outro e com o mundo que nos leve a um estilo comfort-book? Anotando pra outro post, também.

Na minha idade já me permito largar uma leitura que não me prenda pelo começo. Cada livro ruim lido equivale ao tempo de leitura de dois ótimos que seriam devorados se não estivesse me esforçando, seja pela suposta obrigatoriedade, ou pelo tema em alta, ou pela modinha do escritor etc. a finalizar as centenas de páginas de chatices. Por outro lado, não é a estranheza o meu ponto de partida para escolhas literárias. Como no cinema, primeiro faço a escolha pelo diretor – é a escrita, o texto, que me conquista antes de tudo. Quero dizer: eu posso até odiar o autor, o personagem, a premissa, e ainda assim amar o livro.

E você? O que te leva a escolher um livro, ou a deixá-lo?

Vida que segue

20 março, 2017 às 15:35  |  por Tina Lopes

Certa vez perguntei de uma prima distante para minha mãe.

– Fulana? Está ótima, disse.

– Que bom, casou e está morando no interior ainda?

– Sim, depois que ela recebeu a herança do pai (…)

– O pai dela morreu?

– Sim, e ela ficou com a herança, o que foi ótimo pois estava difícil de criar os três filhos (…)

– Três filhos?

– (…) sem  o marido, porque ficou viúva.

Sempre lembro dessa conversa porque, desgraceira à parte, me lembra que a vida só termina quando acaba. A gente vê as pessoas casando, nascendo, sobrevivendo a tragédias e às vezes carrega a imagem daquele momento como se fossem personagens de uma história com começo, meio e fim –  casou e vive feliz; recebeu uma herança e se deu bem, ou, pelo contrário, entrou em depressão e vive entocado em casa. Como se tivéssemos fechado um livro. E, no entanto, tudo pode estar virado de ponta-cabeça e a pessoa nem é mais aquela.

servidão

Ao contrário das pessoas, que nos desinteressam cada vez mais, a convivência com alguns personagens de ficção pode nos fazer muita falta. Eu, pelo menos, me pego imaginando – como terá Philip Carey vivido o resto de seus dias? O órfão de pezinho torto, tão complexado quanto inteligente, criado pelos tios austeros e presa fácil para aquela megera da Bette Davis, quero dizer, da Mildred? Menino perdido, que vai gastando suas economias para conhecer o mundo, estudar arte (no que se revelou um vexame), depois envereda pela medicina, passa fome até – bem, eu não vou contar; leia Servidão Humana, a obra-prima de William Somerset Maugham. Teve uma época em que eu presenteava com a história de Philip só para ter com quem comentar – “Não dá raiva quando ele faz isso e aquilo? Quase morri quando aconteceu aquela outra coisa”.

Alguns autores devem ter a mesma dificuldade de se desligar de suas criações e nos dão várias oportunidades de reencontros literários. Acompanhamos diversas fases de Arturo Bandini, citado no post anterior; mas queria mais: terá amadurecido, feito sucesso, amado outra? E O Vampiro de Curitiba, agora que saiu de moda, está envelhecido e pode até ser preso se continuar suas andanças pelos becos escuros atrás das polaquinhas ariscas – por onde anda Nelsinho? E o que dizer do dia seguinte de Scarlet O’ Hara.?

vampiro

A sensação chega a ser de desconsolo. Ano passado conheci as amigas Lenu e Lila, as napolitanas da tetralogia de Elena Ferrante. Depois de quatro livros, sabendo de seus piores temores e ódios, convivendo a ponto de termos uma ideia muito específica de sua aparência e seu jeito de andar, de seus gostos e suas implicâncias, e do desenrolar todo de duas vidas tão especiais, como viver sem essas companhias? Para esse luto só há um remédio, que é conhecer novos personagens.

E não se engane que um livro de contos possa dar um alívio de leitura mais superficial e ligeira. Escritoras como Alice Munro conseguem nos arrastar para um universo inteiro em meras vinte páginas – tente não se colocar no lugar da personagem do primeiro conto em Felicidade Demais. Teríamos sobrevivido a uma vida marcada pela tragédia? Pelo lado oposto, um épico como O Pintassilgo, criticado (equivocadamente, na minha opinião) por ser descritivo e pretensioso, nos deixa saudade de fases: o protagonista Theo enquanto é criança, seu amigo Boris já na vida adulta.

alicemunro  opintassilgo

São poucos os livros que não nos deixam margem para imaginar o “depois do Fim”. No próximo post vou escrever (e finalmente começar algo próximo à resenha) sobre dois deles que li recentemente. Até semana que vem.