Duas vidas pequenas

28 março, 2017 às 01:00  |  por Tina Lopes

stoner    vidapequena

 

Duas experiências literárias bem distintas e que me surpreenderam em seu decorrer: Stoner, de John Williams, e Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara. Ambos são livros fechados – começo, meio e fim da vida de seus protagonistas, como comentei no post anterior.

Uma Vida Pequena começa animador: quatro amigos americanos que se conheceram na faculdade e moram em Nova York – o misterioso e pobre Jude; JB, o artista de origem haitiana, mimado pela família matriarcal; Willem, o doce, lindo e sensível ator que sobrevive como garçom e Malcolm, o arquiteto rico. Impossível não se interessar por suas vidas, como uma série da Netflix sobre gente bacana, até que a narrativa passa a se concentrar em Jude. As dores, físicas e emocionais, de Jude – e os demais gravitam em torno dele, como as domésticas das novelas brasileiras, sem um roteiro próprio.

Esse defeito não tira o interesse do leitor, pois o passado de Jude vai sendo desvendado aos poucos, conforme ele vai crescendo e se transformando. No entanto, seu amadurecimento emocional não acompanha o intelectual, financeiro e profissional. Seus traumas são insuperáveis. Eu me peguei pensando que, se fosse uma mulher, talvez Jude fosse mais forte e conseguisse avançar um pouco – mas essa sensação certamente me ocorre porque seu sofrimento é muito mais identificável com o feminino: abandono, abuso sexual, assédio, violência. E ao esmiuçar o sofrimento de Jude, o livro proporciona um voyeurismo sádico – muitas vezes me envergonhei por ansiar por detalhes de sua história, e cheguei a encostar o livro pensando “tomara que se mate logo”, porque sua tristeza é insuportável e compreensível.

Ao contrário do título, a narrativa trata de vidas extraordinárias. São grandes amigos para a vida toda, mais que irmãos. São gays, bissexuais, afro-americanos que vivem num mundo ideal sem repressão ou preconceito. Problemas como o uso de drogas ou a pobreza são solucionáveis. São artistas perfeitos, cozinham bem, ficam ricos, têm sucesso. O meio ou a época em que vivem não interferem em suas vidas ou relações. Lembra quando comentei no primeiro post sobre ler só sobre gente legal? Bem, este livro te dá isso e é cansativo. Só os vilões (e eles são super vilões, o que há de pior na raça humana) são a exceção.

O último juiz de qualquer obra literária, o tempo, foi bondoso com o romance. Escrito em 1965, “Stoner” vendeu 2 mil cópias, recebeu uma resenha curta na revista “The New Yorker” — e desapareceu. Nem o fato de seu autor ganhar o National Book Awards em 1972, por “Augustus”, salvou sua obra do esquecimento. O obituário de Williams o qualificava apenas como “editor e professor de inglês”.

Em Stoner não há tragédia além do caminho cotidiano e inevitável para a morte. Já na primeira página temos todas as informações necessárias para abandonar o livro: será a história de uma vida comum, de um homem comum, que não deixou qualquer legado. O que de mais extraordinário acontece está logo no começo quando, graças a um tipo de cota para alunos do meio rural, o filho de agricultores William Stoner vai para a faculdade e começa um curso voltado para a agricultura, mas dá uma guinada inspirada por um professor e acaba se tornando um acadêmico de Literatura Inglesa, com todos os privilégios e mesquinharias que essa carreira proporciona.

Pessoalmente, gosto muito quando o livro não tenta me enganar oferecendo um anti-herói genial, que não é reconhecido pela sociedade mas que você, o leitor antenado desse autor esperto, valoriza. Detesto ser alvo dessa piscadela “viu como somos especiais?”.

E não é isso que acontece – Stoner nunca foi um brilhante observador da sociedade; optou por não se alistar na Grande Guerra mas também não incorporou a bandeira pacifista; enfrentou o sistema ao qual servia e, de certo modo, perdeu – porém sem se tornar o  típico falastrão desiludido dos corredores de Humanas. De fato, em alguns momentos a leitura fica penosa. As emoções dessa vida quase desinteressante estão nas entrelinhas. A passividade de Stoner diante de sua esposa, uma mulher cujo papel a desagrada a ponto de virar uma megera, nos mortifica. Acovarda-se na defesa da relação com a filha (a personagem mais tocante). Apaixona-se profundamente uma vez; ama seus livros. Defende seus princípios, se sacrifica, porém discretamente, somente para si, em respeito aos próprios limites. John Williams mostra, com Stoner, o quanto pode caber numa vida pequena. Mas não se engane: algumas cenas – a presença dos pais no casamento, a descoberta do prazer em dar aulas, a conversa com a filha, na cozinha – são inesquecíveis e passam a fazer parte da nossa.

As duas narrativas me inquietaram, pelas faltas e pelos excessos, em vários momentos. O amor transbordante de uma, a aspereza da outra. A reflexão sobre a morte, seja pela possibilidade do suicídio para quem já não suporta viver, ou pela consciência de sua proximidade. São ótimas histórias, bem escritas, fluidas, e estão aqui, durando na memória – que é o que se espera de um bom livro, ou de uma vida.

Até a próxima!

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