É (sempre) tempo de reler Confesso que Vivi

10 junho, 2017 às 14:39  |  por Tina Lopes

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Não sou leitora nem de poesia, nem de biografia. Contraditoriamente, no entanto, um de meus livros preferidos da vida é a autobiografia do poeta chileno Pablo Neruda, Confesso que Vivi. Carregava dele, na memória, algumas passagens,  e no coração, um carinho pelo narrador e uma vontade enorme de conhecer o Chile, desde que o li no fim da adolescência. Recentemente pude viajar para dois destinos fundamentais para Neruda, Valparaíso e Santiago, e decidi reler poucos trechos para comparar seu olhar com o meu. E novamente fui pega, tanto pelo texto – mesmo escorregando no excesso poético em alguns momentos (o que pra mim é problema, para outros é virtude) – como pelas histórias sensacionais e inesquecíveis, tantas que parece incrível que caibam em apenas um livro. Acredite, o que separei aqui neste textão não é um décimo do potencial de boas histórias do livro.

Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e de lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar.

Também me reencontrei encantada pelo homem, Pablo, nascido Nefatli Ricardo Reyes Basoalto. Ao ler suas memórias certamente você vai desejar tê-lo tido como amigo ou amante. Ou ambos. Um homem tão apaixonado por tudo – pela vida, por seu povo, pela humanidade, pelas mulheres, por animais, por suas coleções de objetos os mais esdrúxulos – poderia até ser irritante, mas sua história mostra que muito pelo contrário.

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O Jovem Provinciano e Perdido na Cidade são os capítulos iniciais tratando de sua infância e juventude. Além das relações familiares (o pai não o aceitava como poeta) e das impressões sobre a vida que marcaram sua obra, a singeleza da primeira poesia, ainda um menininho que mal sabia escrever, e uma recepção à francesa em plena floresta, na qual vagava perdido, parecem histórias de seus colegas do realismo fantástico. Na juventude, Neruda virou um para-raios de doido e conheceu cada escritor e artista da cena cultural de Santiago dos anos 20, dos mais pobres aos mais reconhecidos (inclusive a primeira poeta chilena premiada com o Nobel, como ele: Gabriela Mistral).

A propósito de Rojas Giménez direi que a loucura, certa loucura, anda muitas vezes de braço dado com a poesia. É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas quanto os poetas se tornarem razoáveis.

Ao contar sobre seu primeiro livro e também primeiro grande sucesso, Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada (que títulos!), Neruda nos conduz pela emoção do processo de escrita e edição. E lembra que o dinheiro ganho com a primeira obra foi todo gasto em um belo jantar com os amigos artistas.

Os que tiveram proveito com o negócio: o restaurante, quatro engraxates e um editor. A prosperidade não chegou até o poeta.

Se ainda não tinha aflorado politicamente até então, foi com sua nomeação (episódio envolvendo burocracia, funcionários públicos e indicações políticas totalmente latino, bizarro e divertido) que surgiu o Pablo Neruda socialista, um privilegiado que se misturava ao povo. Para começar, um diplomata sem status, sem ao menos um consulado para chamar de seu, mero batedor de carimbos numa terra distante e exótica. Nos capítulos Os Caminhos do Mundo e A Solidão Luminosa o poeta narra sua vida como cônsul do Chile em Rangum, na Birmânia, depois no Ceilão, em Java e em Cingapura. As injustiças do colonialismo o atordoam assim como a solidão intensa, que o leva a se relacionar primeiro com uma mulher apaixonada que o ameaça de morte, depois a casar com uma nativa da qual não se sabe ainda hoje muita coisa. A primeira foi abandonada por puro medo (homens não gostam de dormir com mulheres que brandem facas) e da segunda se separou anos depois. Outros grandes amores virão.

 Enquanto os novos cânticos são perseguidos, um milhão de homens dormem noite após noite nas estradas, nos arredores de Bombaim. Dormem, nascem e morrem. Não há casas nem pão, nem medicamentos. Foi assim que a Inglaterra, civilizada e orgulhosa, deixou o seu império colonial. Despediu-se de seus antigos súditos sem deixar-lhes escolas nem indústrias, nem habitações, nem hospitais, mas somente prisões e montes de garrafas de uísque vazias.

Neruda fugia dos clubes de brancos civilizados e tentava se misturar ao povo desses países. Teve uma mangusta caçadora de cobras, ou nem tanto; se enrolou diversas vezes com a língua local, com costumes, e experimentou todos os pratos e bebidas que pôde, inclusive o ópio, então liberado.

 Não há sonhos, não há imagens, não há paroxismo… Há um enfraquecimento melódico, como se uma nota infinitamente suave se prolongasse na atmosfera… Um desvanecimento, um vazio dentro da gente… Qualquer movimento do cotovelo, da nuca, qualquer som distante de carro, uma buzina ou um grito na rua se integram num todo, de uma delícia recusante… Compreendi porque os peões de plantação, os jornaleiros, os rickshamen que puxam o ricksha o dia inteiro logo se deixavam ficar ali, na penumbra, imóveis… O ópio não era o paraíso dos exóticos que haviam nos pintado, mas a fuga dos explorados.

A leitura de Confesso que Vivi, a essa altura do livro, já se tornou uma conversa entre amigos.  As histórias sem datas específicas trazem, às vezes, uma fofoquinha, um parênteses sobre alguém conhecido, apimentando o relato.

 (…) os colonizadores mandaram queimar a cabana de um camponês cingalês com a intenção de desalojá-lo e desapropriar suas terras. O inglês que devia executar as ordens de arrasar a choça era um funcionário modesto. Chamava-se Leonardo Woolf. Mas se negou a fazê-lo e foi destituído do caso. Devolvido à Inglaterra, escreveu ali um dos melhores livros que jamais foram escritos sobre o Oriente: A village in the jungle, obra-prima da vida verdadeira e da literatura real, um pouco ou muito prejudicado pela fama da mulher de Woolf, nada menos que Virginia Woolf, grande escritora subjetiva de renome universal.

A Espanha no Coração trata de sua vida entre Madri e Barcelona, como cônsul, e o relacionamento com poetas como Federico García Lorca (com quem já tinha vivido boas aventuras ao se conhecerem, na Argentina), Vicente Aleixandre e Rafael Alberti, juntamente com vários outros escritores, com os quais fundaram uma revista cultural chamada Caballo Verde. Este deve ter sido um momento daqueles especiais no mundo, tanta gente interessante num cenário tão crítico, hora certa para se reconhecer os amigos de trincheira. A dor dos assassinatos dos amigos (de Lorca, principalmente, um trauma) e perseguições que se seguem resultam no ingresso de Neruda no Partido Comunista e uma guinada em seus textos, culminando no livro Canto Geral (um nome que fica mais adequado em espanhol, Canto General), lançado anos mais tarde.

Seduzia-me o grande poder metafórico de García Lorca e me interessava por tudo que escrevia.  Por sua vez ele me pedia às vezes que eu lesse para ele meus últimos poemas e, no meio da leitura, me interrompia aos gritos: “Não continua, não continua, que me influencias!”

Em Saí a Procurar Caídos, Neruda fala da Guerra Civil Espanhola e o emocionante caso do navio com mais de dois mil refugiados que ele conseguiu enviar para Valparaíso, uma ação que o tornaria um herói entre os espanhóis por toda sua vida Outra guerra entristece o texto em México florido e espinhoso, onde relata a vida naquele país e fala sobre a Segunda Guerra Mundial.

As mãos dos mexicanos, como dos chineses, são incapazes de criar algo feio, seja em pedra, em prata, em barro ou em cravos.

Neruda nunca foi rico, conviveu com a elite, mas sempre foi reconhecido pelo povo chileno. Saía de jantares de gala para ler seus textos em encontros com operários. Em sua campanha ao Senado, mais tarde, reunia-se em barracões sujos e praças e, com mais prazer e ênfase, lia suas poesias, sempre emocionado com o silêncio e respeito daqueles que provavelmente nem tinham frequentado escolas. Os trabalhadores se viam representados.

As absurdas pretensões racistas”de algumas nações sul-americanas, produtos elas mesmas de múltiplos cruzamentos e mestiçagens, é uma tara de tipo colonial. Querem montar um tablado onde uns quantos esnobes, escrupulosamente brancos ou esbranquiçados, apresentem-se em sociedade, gesticulando diante dos arianos puros ou dos turistas sofisticados.

A política, a guerra, a perseguição são o centro dos capítulos seguintes. O “suicídio diplomático” e seu retorno ao Chile, para logo depois fugir disfarçado pela Cordilheira dos Andes, outro lance que merecia um livro à parte, estão em A pátria em trevas. Em Princípio e Fim de um Desterro, Neruda se lembra de sua estada na União Soviética e na China, suas impressões sobre o regime comunista, que tanto o alegrava, mas ao mesmo tempo identifica falhas na Matrix.

 Nunca entendi a luta senão para que termine.

Sua prisão em Buenos Aires, o retorno ao Oriente no fim dos anos 50 e reflexões sobre a poesia e muitos amigos que se foram, com relatos sobre diferentes personalidades, histórias que hoje poderiam acompanhar os depoimentos dos livros de Svetlana Aleksievitch, seguem nos capítulos Navegação com Regresso e A  Poesia é um Ofício.

Infelizmente Confesso que Vivi acaba mais que triste: trágico. As últimas páginas do capítulo Pátria Doce e Pura, onde conta desde a esperança no governo socialista de Salvador Allende até seu declínio, com os ataques a ele realizados pela oposição e pelo mercado, apoiados vergonhosamente – como era claro mas se comprovou oficialmente anos depois –  pelo governo americano, são silenciadas abrupta e violentamente.

 Escrevo estas rápidas linhas para minhas memórias a apenas três dias dos fatos inqualificáveis que levaram à morte meu grande companheiro, o Presidente Allende. (…) Após bombardeio aéreo, vieram os tanques, muitos tanques, para lutar intrepidamente contra um homem só: o Presidente da República do Chile, Salvador Allende, que os esperava em seu gabinete, sem outra companhia a não ser seu grande coração envolto em fumaça e chamas. 

Confesso que Vivi é um livro antigo, antiquado, creio que há tempos não seja reeditado. Quem hoje quer ouvir o eco de uma consciência poética e comunista? Os últimos capítulos são o oposto dos primeiros; a leitura começa leve e vai se tornando pesada e angustiante, amarga, cheia de referências cada vez mais perdidas. É o testemunho em vida de que o poder acaba com a poesia. Neruda, como se sabe, morreu 12 dias depois de seu amigo Allende.

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