Feios, sujos e cansados

2 julho, 2017 às 20:45  |  por Tina Lopes

Papeando no post de uma amiga descobri o único livro de Lucia Berlin lançado no Brasil. Mais um caso de hype ao qual chego atrasada, mas quem está ligando? Pesquisando, descobri que a autora morreu praticamente desconhecida e que seu sucesso é póstumo (que coisa triste). Conforme ficamos sabendo na orelha virtual do livro e no Goodreads, Lucia (leia Lucía Berlín) foi casada três vezes e passou boa parte da vida lutando contra o alcoolismo e, para sustentar os quatro filhos, foi telefonista, faxineira e enfermeira até tornar-se, mais madura, professora universitária. Morreu no dia de seu aniversário de 68 anos, em 12 de dezembro de 2004. Onze anos depois O Diário de uma Faxineira foi colocado na lista dos 10 melhores livros do ano pelo NY Times.

Captura de Tela 2017-07-02 às 20.49.48

Estou bem impressionada com a escrita fluida, ácida, direta e principalmente com os enredos que vão do cotidiano ao bizarro: a amizade que surge entre uma mulher e um índio durante o ciclo da lavagem de roupas em uma lavanderia; a sordidez de uma clínica de aborto no deserto; o pai dentista que pede ajuda à neta para extrair seus dentes (os dele). Certamente neste livro não há gente de sucesso, nem mesmo entre a classe média alta americana, flagrada em seu ridículo de moralismo e extravagância. Mas no geral os personagens são os coadjuvantes, as sombras, os losers. Digamos que se Lucia Berlin escrevesse sobre Hogwarts, abordaria a vida dos bruxos que têm notas médias, nunca são percebidos por Dumbledore e ainda são obrigados a organizar a bagunça deixada pelos colegas geniais que mal percebem sua existência.

“Aquele tinha sido o primeiro encontro dela com a polícia, embora não se lembrasse de nada. Nunca havia dirigido bêbada antes, nunca havia perdido mais do que um dia de trabalho, nunca… Não fazia ideia do que ainda estava por vir.

Farinha. Leite. Ajax. Ela só tinha vinagre de vinho em casa, o que, com o Antabuse, poderia lhe causar convulsões. Escreveu vinagre de maçã na lista.”

(A Primeira Desintoxicação, em Manual da Faxineira, Lucia Berlin)

Ainda não terminei o livro mas encontrei eco em outros dois autores (fique à vontade para me contrariar, nos comentários). A primeira lembrança foi – meio óbvio – dos contos de Alice Munro. Elegante, sombria, marcante, a canadense (sobre a qual já falei, aqui) também nos impacta com revelações surpreendentes nas entrelinhas de relatos cotidianos. Ou não. Em ambas, às vezes uma narrativa é só aquilo mesmo: uma mostra da vida de pessoas solitárias e sem qualidades especiais, vivendo aos tropeções, sendo enganadas e se enganando, tentando interagir num mundo hostil.

“Ela era camareira da pousada Blue Spruce. Limpava banheiros e fazia e desfazia camas e passava aspirador nos tapetes e pano nos espelhos. Gostava do trabalho, que em certa medida ocupava seus pensamentos e a deixava exausta o bastante para que conseguisse dormir à noite. (…) Nenhum de seus companheiros de trabalho sabia o que tinha acontecido. Ou, se sabiam, não comentavam. A foto dela apareceu no jornal – usaram a foto que ele fizera dela e das três crianças, o bebê novo, Dimitri, em seus braços, e Barbara Ann e o Sasha, um de cada lado, olhando para a câmera.” 

(Dimensões, em Felicidade Demais, Alice Munro)

Além da escrita limpa e do olhar afiado para o detalhe dos grandes cenários (porque é nas entrelinhas que elas nos registram suas épocas), outro paralelo entre as autoras está na representação do trabalho pesado, mal remunerado, sem status. Seus personagens pegam ônibus, exaustos, perdem o ponto porque dormiram, sentem dores pelo corpo, comem pouco e mal, vivem à margem da sociedade de consumo. Casamentos acabam, filhos morrem, desgraças acontecem, ou nada. Bebem, fumam, se acabam, intencionalmente ou não. Já recomendei aqui Felicidade Demais e acho interessante ler A Fugitiva e depois comparar com o filme recente de Pedro Almodóvar, baseado em três de seus contos.

Com isso chego à terceira referência que coloco ao lado das duas escritoras na minha estante imaginária: Charles Bukowski. Antes que você fuja para outro site, lembro que antes de ser conhecido como o velho tarado e rotulado “maldito”, ele já tinha sido considerado por Jean Paul Sartre como o “melhor poeta da América”; seu romance de maior sucesso era Cartas na Rua, um relato autobiográfico, como sempre, na pele do alter-ego Henry Chinaski, sobre o submundo do trabalho precário – aqui, em serviços em abatedouros e principalmente nos correios americanos.

Um parêntese: uma vez ouvi de um colega ligado à literatura, conhecedor do ramo e de autores, que só adolescentes devem gostar de Bukowski. Lamentava meu mau gosto e eu desviava do assunto, porque enfim, ele também era fã de autores dos quais fujo como o diabo da cruz. Mas acredito que exista um preconceito porque Bukowski virou mito (nome de bar, inclusive) e ganhou seguidores que não distinguem a escrita simples da escrita ruim. O escritor se irritava com os fãs – jovens bêbados que enxotava dos degraus de sua casa, gente que nunca tinha trabalhado ou passado necessidade e achava que bastava encher a cara e pagar prostitutas para ter o que escrever. Ah, jovens, sóbrios ou não, sempre cheios de certezas. Envelheçam.

“O uísque e a cerveja evaporavam de mim, escorriam das axilas, e eu ia andando com minha carga nas costas como se carregasse uma cruz, entregando revistas, entregando milhares de cartas, cambaleando, derretendo debaixo do sol. Alguma mulher gritou:

- Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!

Olhei. Ela estava um quarteirão morro abaixo e eu já estava atrasado.

- Olhe, dona, ponha a carta do lado de fora. Nós pegamos amanhã!

- Não! Não! Quero que a leve agora!

Ela sacudia o troço no ar.

- Dona!

- Venha buscar! Não é daqui!

Oh, meu Deus. Deixei cair o malote. Aí peguei meu quepe e atirei-o na grama. Rolou até a rua. Não liguei; desci em direção à mulher. Desci meio quarteirão e arranquei a droga da carta das suas mãos, aí virei e voltei.”

(Cartas na Rua, de Charles Bukowski)

Talvez agora Bukowski fosse escorraçado por seu machismo, renomeado como misoginia. Talvez não exista mais espaço para seu texto recheado de palavrões, situações e imagens degradantemente divertidas de Cartas na Rua e de vários outros livros, inclusive aqueles de contos que foram, originalmente, publicados numa coluna de uma revista pornográfica e que se tornaram mais conhecidos que suas poesias – quem diria, o safado acabou tomando o espaço do poeta; quem sabe hoje a poesia se impusesse? Fica o desafio – dele recomendo também O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio, livro póstumo.

Até a próxima!

0 Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>