Livro: ame-o ou deixe-o

20 março, 2017 às 15:35  |  por Tina Lopes

Outro dia uma amiga fez um post reclamando que, apesar de gostar do autor, não aguentava mais continuar lendo uma história com um protagonista machista e imaturo – acho que eram essas as reclamações. Não só por se tratar de Arturo Bandini, um dos meus queridinhos da ficção – jovenzinho dos anos 50, arrogante, insensível, cheio de defeitos e, por isso mesmo, totalmente verossímil – mas fiquei chocada porque, entre tantos motivos para largar um livro, jamais seria por dar voz a um personagem oposto a tudo que eu entenda como legal.

pergunteaopo

“Eu tinha vinte anos na época. Que diabo, eu dizia, não se apresse, Bandini. Você tem 20 anos para escrever um livro, vá com calma, saia e aprenda sobre a vida, caminhe pelas ruas. Este é o seu problema: a ignorância da vida”

Fosse assim, como poderia ter lido Lolita? Humbert Humbert, pedófilo asqueroso, conta sua história (e não a de Lolita, veja bem) de uma maneira que nos torna cúmplices. Ele poderia ser um de meus amigos com quem faria questão de jantar e compartilhar uma garrafa de vinho, trocando ironias finas sobre a vida e as pessoas, sendo venenosos e cínicos, rindo e nos achando superiores. Uma vez descobertos seus crimes, dificilmente eu acreditaria de cara na sua culpa. O autor nos leva a confraternizar com o pior inimigo. E como é bom. Fico pensando quanto tempo Nabokov aguentaria fora da cadeia, hoje, tentando publicar sua melhor e mais perversa criação.

lolita

Esta, pois, é minha história. Acabo de relê-la. Tem pedaços de medula ainda presos a seus ossos, e sangue, e belas e reluzentes moscas verdes.”

Porém, Michel Houlebecq tá vivinho da silva e polemizando como nunca. Lembro bem da indignação que me causou a leitura de Plataforma, história de um francês que meu pai classificaria de “pra-nada” (inútil) que decide investir na exploração sexual em países do terceiro mundo. Até dei o livro para um amigo. Dias depois me arrependi porque não conseguia deixar de pensar na história. Hoje admito que é um puta livro, com o perdão do trocadilho, superior a Submissão, que trata de uma França dominada por muçulmanos e que li contrariada com o racismo evidente de alguns trechos.

plataforma

Até o final, continuarei a ser um filho da Europa, um filho da inquietação e da vergonha; não sou depositário de qualquer mensagem de esperança. Não sinto ódio pelo Ocidente, quando muito um enorme desprezo. Sei apenas que, sendo como somos, exalamos um imenso fedor a egoísmo, a masoquismo e a morte.”

Recentemente acabei os dois volumes que deram origem ao filme Trainspotting, e a continuação (Porn), 20 anos depois, da saga medíocre daquele bando de junkies escoceses. Nada da minha vida está ali: roubos, heroína, vômitos (principalmente), indústria pornô, traições, prostituição. Talvez a lembrança daquele sentimento de beira de precipício dos anos 80. Fazia tempo que não me encantava tanto por um grupo de personagens (só a narrativa de Irvine Welsh conseguiu me tirar da ânsia de devorar tudo que tivesse pela frente da autora Elena Ferrante, mas isso fica para um próximo post).

trainspotting

Minha tentação é citar o Johnny, dizendo que agora somos todos apenas conhecidos. Soa bem na minha cabeça: ‘agora somos todos apenas conhecidos.’ Parece ir além de nossa circunstância particular de viciados. Uma metáfora brilhante do nosso tempo.”

Voltando à amiga, e sei que no caso dela não se trata disso, mas foi o gancho que me levou a pensar: por que, repetindo um padrão de rede social, buscaria somente leituras com as quais concordo e personagens com os quais posso me identificar? Chegamos a um ponto de exaustão com o outro e com o mundo que nos leve a um estilo comfort-book? Anotando pra outro post, também.

Na minha idade já me permito largar uma leitura que não me prenda pelo começo. Cada livro ruim lido equivale ao tempo de leitura de dois ótimos que seriam devorados se não estivesse me esforçando, seja pela suposta obrigatoriedade, ou pelo tema em alta, ou pela modinha do escritor etc. a finalizar as centenas de páginas de chatices. Por outro lado, não é a estranheza o meu ponto de partida para escolhas literárias. Como no cinema, primeiro faço a escolha pelo diretor – é a escrita, o texto, que me conquista antes de tudo. Quero dizer: eu posso até odiar o autor, o personagem, a premissa, e ainda assim amar o livro.

E você? O que te leva a escolher um livro, ou a deixá-lo?

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