Sobre ler

11 abril, 2017 às 07:00  |  por Tina Lopes

Na Biblioteca Nacional da França existe um exemplar de cada livro escrito e editado no país. Imagine que loucura. São quatro prédios em forma de V, como livros que caíram, entreabertos, no chão de uma livraria. Qualquer obra medíocre, técnica, datada, genial, irresponsável, experimental, épica, qualquer uma, vai parar lá. Um exemplar só. Deve ser um alento para o escritor desconhecido, aquele que não se torna um sucesso, best-seller, que não vira objeto de leituras obscuras nos muitos cafés literários e filosóficos que aquele povo adora fazer; o escritor de um livro só ou o acadêmico de vinte leitores. Pelo menos ele está na BNF*.

 

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Lembrei disso ao me confrontar, mais uma vez, com aquele momento angustiante entre um livro e outro. Nunca seremos capazes de ler tudo que temos vontade. E há cada vez mais possibilidades. Antes líamos os clássicos porque era o que tinha nas bibliotecas ralas de escola. Hoje baixamos material de autores estrangeiros aos quais não teríamos acesso sem a internet, lemos trechos de livros premiados, que são as iscas dos sites de livrarias. Temos grupos sobre literatura em redes sociais e até blogs recomendando livros, veja só. Mas afinal, como você escolhe o próximo livro?

Quando fiz estágio na Biblioteca Pública do Paraná tive uma fase louca de franceses. Entre eles, obviamente, me concentrei em Camus,  Sartre e  Simone de Beauvoir – na verdade, na ficção autobiográfica típica deles, que eu não sou boa de filosofia. Em A Náusea, Sartre criou um personagem inesquecível, o Autodidata, que decide ler tudo da biblioteca da cidade. E o faz da forma mais estúpida que alguém poderia escolher: pela ordem alfabética. Bem, não deixa de ser um método (e uma crítica ao enciclopedismo, digamos assim, ou àquela voracidade vazia do que hoje seriam leitores de instagram).

 

Angústia e liberdade, dois conceitos tão caros ao Existencialismo, também fazem parte da decisão pelo próximo autor. Como você sabe eu não perco tempo com leitura desinteressante, mas também tenho medo de ser leviana e abandonar boas histórias porque não estava no melhor humor para as primeiras páginas – lembro de Umberto Eco com as 150 páginas iniciais de O Nome da Rosa, que ele mesmo admitia ter construído como um “muro” a ser ultrapassado. Taí um livro apaixonante no qual a biblioteca é quase um personagem; passado o trecho árido, continua difícil, mas delicioso. Saiu de moda há algum tempo, mas não existe isso para qualidade de texto, roteiro, emoção.

Chegando ao fim desta minha vida de pecador, enquanto, encanecido, envelheço como o mundo, à espera de perder-me no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta, participando da luz inconversível das inteligências angélicas, já entrevado com meu corpo pesado e doente nesta cela do caro mosteiro de Melk, apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos miríficos e formidáveis a que na juventude me foi dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão (se o Anticristo não os preceder) signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração. 

 

Cada pessoa lê de um jeito, em determinada hora e com mais ou menos dedicação. Eu leio ao deitar, quando a casa está quieta e eu não preciso fazer mais nada, nem serei interrompida. Também gosto de ler ao almoçar, sozinha. Fico encrencada quando o livro é bom demais e não consigo dormir sem avançar bastante pela madrugada e às vezes perco a hora de voltar correndo ao trabalho.

Intercalo livros muito longos e profundos, daqueles sofridos (no bom sentido), com narrativas leves: esta variação faz parte do meu método. Até algum tempo atrás tive uma fase de me fechar em determinados autores. Hoje procuro mais novidades – não necessariamente novos autores. Tento não me prender a conceitos como escolher só livros de mulheres, ou latino-americanos, ou policiais nórdicos. Recentemente me encantei com uma autora da qual não tinha ainda ouvido falar e na qual não botei qualquer fé: Lianne Moriarty, que escreveu Pequenas Grandes Mentiras, que deu origem à série da HBO. Comecei só para saber quem eram assassino e vítima e jurando pular páginas para não perder tempo com chick-lit. Acabei encantada pela narrativa leve, fluida, divertida e dramática ao mesmo tempo, muito melhor que o roteiro que dela foi retirado. Caí do cavalo do preconceito.

Em seguida quis me levar muito a sério e busquei o título mais recente de um de meus autores favoritos, Ian McEwan. “Enclausurado” é narrada por um feto prestes a nascer mas que pensa e reage ao que ouve do ambiente e das situações para onde a mãe o leva como se fosse um lorde dândi decadente, conhecedor de vinhos e de história da humanidade. Poderia ser ridículo se não fosse escrita por McEwan. É uma historinha de crime e castigo, cínica e divertida, shakespeariana.

“Então aqui estou, de cabeça para baixo, dentro de uma mulher. Braços cruzados pacientemente, esperando, esperando e me perguntando dentro de quem estou, o que me aguarda. Meus olhos se fecham com nostalgia quando lembro como vaguei antes em meu diáfano invólucro corporal, como flutuei sonhadoramente na bolha de meus pensamentos num oceano particular, dando cambalhotas em câmera lenta, colidindo de leve contra os limites transparentes do meu local de confinamento, a membrana que vibrava, embora as abafasse, com as confidências dos conspiradores engajados numa empreitada maléfica. Isso foi na minha juventude despreocupada. Agora, em posição totalmente invertida, sem um centímetro de espaço para mim, joelhos apertados contra a barriga, meus pensamentos e minha cabeça estão de todo ocupados. Não tenho escolha, meu ouvido está pressionado noite e dia contra as paredes onde o sangue circula. Escuto, tomo notas mentais, estou inquieto. Ouço conversas na cama sobre intenções letais e me sinto aterrorizado com o que me aguarda, pela encrenca em que posso me meter.” 

 

O muro, nesse caso, é o absurdo. É preciso abrir a cabeça e se deixar levar.

PS: ainda não decidi qual vou começar hoje à noite.

 

 Update: o mesmo acontece na nossa Biblioteca Nacional.

1 Comentários

2 ideias sobre “Sobre ler

  1. Vera

    Uma vez por mês leio o que a plenária do nosso clube de leitura elege entre os livros indicados por nós. E nesse meio tempo leio o que eu mesma indiquei e nao foi escolhido rsrsrs. Escolho também entre as muitas listas de páginas de literatura, livros, livrarias.
    Adorando sua coluna!

    Responder

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