Vida que segue

20 março, 2017 às 15:35  |  por Tina Lopes

Certa vez perguntei de uma prima distante para minha mãe.

– Fulana? Está ótima, disse.

– Que bom, casou e está morando no interior ainda?

– Sim, depois que ela recebeu a herança do pai (…)

– O pai dela morreu?

– Sim, e ela ficou com a herança, o que foi ótimo pois estava difícil de criar os três filhos (…)

– Três filhos?

– (…) sem  o marido, porque ficou viúva.

Sempre lembro dessa conversa porque, desgraceira à parte, me lembra que a vida só termina quando acaba. A gente vê as pessoas casando, nascendo, sobrevivendo a tragédias e às vezes carrega a imagem daquele momento como se fossem personagens de uma história com começo, meio e fim –  casou e vive feliz; recebeu uma herança e se deu bem, ou, pelo contrário, entrou em depressão e vive entocado em casa. Como se tivéssemos fechado um livro. E, no entanto, tudo pode estar virado de ponta-cabeça e a pessoa nem é mais aquela.

servidão

Ao contrário das pessoas, que nos desinteressam cada vez mais, a convivência com alguns personagens de ficção pode nos fazer muita falta. Eu, pelo menos, me pego imaginando – como terá Philip Carey vivido o resto de seus dias? O órfão de pezinho torto, tão complexado quanto inteligente, criado pelos tios austeros e presa fácil para aquela megera da Bette Davis, quero dizer, da Mildred? Menino perdido, que vai gastando suas economias para conhecer o mundo, estudar arte (no que se revelou um vexame), depois envereda pela medicina, passa fome até – bem, eu não vou contar; leia Servidão Humana, a obra-prima de William Somerset Maugham. Teve uma época em que eu presenteava com a história de Philip só para ter com quem comentar – “Não dá raiva quando ele faz isso e aquilo? Quase morri quando aconteceu aquela outra coisa”.

Alguns autores devem ter a mesma dificuldade de se desligar de suas criações e nos dão várias oportunidades de reencontros literários. Acompanhamos diversas fases de Arturo Bandini, citado no post anterior; mas queria mais: terá amadurecido, feito sucesso, amado outra? E O Vampiro de Curitiba, agora que saiu de moda, está envelhecido e pode até ser preso se continuar suas andanças pelos becos escuros atrás das polaquinhas ariscas – por onde anda Nelsinho? E o que dizer do dia seguinte de Scarlet O’ Hara.?

vampiro

A sensação chega a ser de desconsolo. Ano passado conheci as amigas Lenu e Lila, as napolitanas da tetralogia de Elena Ferrante. Depois de quatro livros, sabendo de seus piores temores e ódios, convivendo a ponto de termos uma ideia muito específica de sua aparência e seu jeito de andar, de seus gostos e suas implicâncias, e do desenrolar todo de duas vidas tão especiais, como viver sem essas companhias? Para esse luto só há um remédio, que é conhecer novos personagens.

E não se engane que um livro de contos possa dar um alívio de leitura mais superficial e ligeira. Escritoras como Alice Munro conseguem nos arrastar para um universo inteiro em meras vinte páginas – tente não se colocar no lugar da personagem do primeiro conto em Felicidade Demais. Teríamos sobrevivido a uma vida marcada pela tragédia? Pelo lado oposto, um épico como O Pintassilgo, criticado (equivocadamente, na minha opinião) por ser descritivo e pretensioso, nos deixa saudade de fases: o protagonista Theo enquanto é criança, seu amigo Boris já na vida adulta.

alicemunro  opintassilgo

São poucos os livros que não nos deixam margem para imaginar o “depois do Fim”. No próximo post vou escrever (e finalmente começar algo próximo à resenha) sobre dois deles que li recentemente. Até semana que vem.

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Uma ideia sobre “Vida que segue

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