Violência no trânsito: um desafio ético do mundo urbano

11 julho, 2017 às 10:28  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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*Jelson Oliveira

Essa semana assisti uma briga de trânsito: três ciclistas reclamaram por um carro não ter dado preferência em uma faixa vermelha da ciclovia. O motorista, ao invés de se desculpar pelo seu erro, resolveu questionar o direito dos ciclistas, derramando inúmeros impropérios, antes de acelerar o carro e sair patinando os pneus. Cenas como esta são comuns no meu bairro, onde já contamos vários acidentes fatais de ciclistas. Diante dos dados e das cenas, das fúrias e outros ódios que nos afetam no trânsito, fico sempre pensando na febre terrível provocada pelo carro, no pseudo-empoderamento que ele promove, na sanha e na coragem maldosa que ele fomenta. O carro nos fecha na pressa de nossas agendas, no medo do contato, no mundo privado que todos desejamos para nós. Nada de mal, se isso não significar que, atrás do volante, encapsulados pela lataria, nós abandonamos as regras de gentileza, simpatia e civilidade que a vida social exige.

Aprendi desde cedo sobre o poder de um carro para destruir vidas: uma das maiores tragédias da minha infância foi a morte de minha amiga Denise. Ela tinha só oito anos quando saiu cedo para comprar pão com a irmã mais velha e nunca mais voltou para casa. Soube-se que mal as duas mãos infantis se soltaram, nesses átimos de segundo que dividem vidas e o corpo de Denise foi arremessado contra o meio fio da avenida Três de Outubro, na pequena Giruá-RS, por um carro em alta velocidade que seguiu anônimo sem prestar socorro. Era sábado e o álcool consumido no festejo que varou a noite não convinha à pressa do automóvel – presume-se. Choramos dias a fio, sem consolo. E por muito tempo nós, crianças, evitamos sair de casa, com medo do monstro de quatro rodas que passava barulhento na avenida, contrastando com a fragilidade de nossas vidas, abandonadas naquela rua de fim de mundo, no sul gelado do Brasil. A gente temeu a cidade como nunca, por causa do automóvel. Vítima dela, a família de Denise esfacelou-se após a tragédia, enredada em um silêncio sepulcral que levou Dona Berta, a mãe, a concluir seus dias em um hospício, enquanto o pai passava horas sentado à frente da casa, cabisbaixo, como se esperasse a morte, que não tardou em encontrá-lo em uma tarde de inverno, na forma de uma sombra que lhe vestiu tristemente o corpo. De Carla, a irmã, carrego ainda um livro de gramática que me foi doado quando ela resolveu se desfazer de sua pequena biblioteca formada pelos cinco exemplares caprichosamente encapados com embalagens de ovo de páscoa no avesso. A doação era um gesto de desesperança. Tudo havia perdido o sentido para ela. Nenhuma palavra de nenhum livro em nenhum futuro que fosse, poderia, afinal, curar aquela dor corrosiva que lhe arrefecia os ânimos. Nada, coisa nenhuma. Era tudo erosão depois que o carro tirou Denise de nós.

Quando cresci, vivi e conheci outros dramas como esse. Como aquele que mudou a vida de minha amiga Patrícia para sempre, quando sua irmã mais nova resolveu atravessar a rodovia que vai de Curitiba às praias. O carro não teve tempo de desviar da criança, deixando uma ferida permanente no coração da família. A mesma marca triste que desnorteou os pais do garoto de doze anos que morava no térreo do escritório onde eu trabalhava, na rua Paula Gomes, quando acharam o corpo do filho esmagado contra uma árvore no cruzamento da Inácio Lustosa com a João Manoel, a alguns metros do cemitério municipal. Ele foi atropelado pela ambição frívola do automóvel e sua pressa, enquanto ensaiava manobras com uma bola de futebol.

Ernest Jünger, no seu O trabalhador, falou do trânsito como o “grau de uma orgia que anestesia e esgota os sentidos”, infrene por “sons sibilantes e ululantes nos quais se expressa imediatamente uma implacável ameaça de morte, para o grau de forças mecânicas que aqui estão em obra”. O tumulto da vida urbana parece apontar mesmo para essa anestesia orgiástica que faz do carro o instrumento para a “superação mecânica da distância que anseia alcançar a velocidade da bala”, devorando suas vítimas como as armas. Tais vítimas da técnica automobilística, contudo, assinala Jünger, “caem numa zona moralmente neutra; o modo em que são percebidos é de natureza estatística”. A maior parte dos casos de violência no trânsito torna as vítimas culpadas, enquanto os criminosos seguem livres (veja-se o famoso caso Carli Filho x Yared, no Paraná). Quase sempre, o morto é só alguém que desrespeitou a evidência da norma e está aí, caído “na contramão”, “atrapalhando o tráfego”, como cantou Chico Buarque.

A violência no trânsito é um dos maiores desafios éticos do mundo urbano. Precisamos aprender com as histórias tristes que conhecemos. Elas deviam nos inspirar a construir um trânsito mais gentil, cordial e educado. Afinal, o caro não é apenas um meio de locomoção. Ele é, sobretudo, uma arma – e suas vítimas assemelham-se, em número e em gravidade, às vítimas de muitas guerras. 

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Limites – O meu, o do outro, o nosso!

31 maio, 2017 às 09:47  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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 * Daniella Forster 

Um dos aprendizados mais importantes da vida é aprender que cada um de nós tem seus limites, aprender a respeitar o limite do outro, que pode ser bem diferente do nosso. Este processo tão relevante exige maturidade e principalmente humildade para dizer “não”, ou “preciso melhorar”, ou “ainda não é como eu gostaria”.

Uma das questões relacionadas ao limite, refere-se basicamente à concepção de que na vida precisamos criar espaços de preservação, para poder esperar, dar o tempo necessário para que o emocional possa absorver com paciência e respeito o que ainda não está pronto para ser compartilhado. O certo é criar espaço para o silêncio, para a reflexão, a internalização.

O limite desrespeitado, o seu ou o do outro, pode criar diretamente a percepção de caos, de desconforto ou até mesmo de agressão. Invade-se um espaço ainda inseguro, desconfiado, dolorido, que está em elaboração. Quando o desrespeito invade o nós, surgem os conflitos, os desabafos infindáveis e a possível ruptura de relacionamentos pessoais ou profissionais.

Administrar limites pressupõe observar, dar tempo ao tempo, evitar sobrecargas e imposições que exijam mudanças muito abruptas, que demandem grande esforço emocional. Em outras palavras, há que se reconhecer quando não há espaço para arriscar, não há como ser impulsivo ou correr contra o tempo. Apesar da ansiedade do mundo cotidiano, há que se considerar a opção pela “slow atitude”.

Pode parecer um pensamento anacrônico, afinal existe forte motivação para que aceleremos nossa jornada na vida para garantirmos sucesso. No entanto, nem sempre a agilidade e a rapidez trazem consigo sustentabilidade em uma decisão. Arrependimentos e até mesmo a nítida percepção de que estamos simplesmente fazendo algo por “obrigação” ou “pressão” frustram nossos resultados.

Saber esperar a si mesmo e ao outro,  possibilitam transformação e desenvolvimento verdadeiro. Não se trata simplesmente de concordar ou discordar, mas de compreender o significado de uma determinada decisão. Não se trata de avançar ou regredir, mas de apreender a necessidade de fazer isto com a consciência devida para de qualquer maneira seguir, passo a passo, em prol de um resultado melhor para si, para o outro, para nós.

Talvez devêssemos esquecer um pouco a ditadura da tecnologia, da atualização a qualquer preço, do consumo das relações, para que possamos voltar para a nossa humanidade, nosso tempo individual, nossa preservação emocional. Por que correr tanto? Por que desrespeitar tanto o ser humano? O que mais carecemos hoje é empatia e compaixão.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Um elogio à concentração em meio à distração

25 maio, 2017 às 17:50  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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*Jelson Oliveira

Terminou essa semana no Louvre, em Paris, uma grande exposição sobre a obra do pintor holandês Johannes Vermeer (1632-1675) e outros mestres da chamada “pintura de gênero”, cuja característica central são as representações da vida cotidiana, do trabalho e dos afazeres domésticos.

Entre os vários quadros, destacava-se “A Leiteira” (que ilustrou os cartazes da exposição espalhados por toda a cidade), “A Rendeira” e “Senhora escrevendo a carta com sua criada”. O que se encontra nessas pinturas é mais do que o detalhe dos atos humanos mais simples. O que Vermeer retratou na sua obra foi o ser humano envolvido com suas tarefas e tornando-se quem é a partir do que faz. Para o pintor, a rendeira é a mulher que se faz na renda que ela mesma tece. A leiteira, no leite que ela derrama. A carta faz o ser de quem a escreve ou de quem a dita. Ao mesmo tempo renda, leite e carta representam a dedicação absoluta de quem assume a sua identidade e seu caráter a partir da tarefa cotidiana que lhe cabe. A obra de Vermeer faz uma apologia da dedicação mas, sobretudo, um elogio à concentração.

Ver de perto esses quadros, a maior parte deles bem menores e menos ostentosos do que se poderia esperar, eleva o espírito não só à experiência própria da contemplação estética (aquela que nos indica o caminho para os mistérios absolutos), mas sobretudo ao interior de si mesmo. A obra de Vermeer é um elogio à interioridade – não só àquela das casas que ele pinta, mas aquela do ser humano que se encontra em estado de radical e completa concentração à sua tarefa.

A obra de Vermeer é, por isso, uma experiência que nos faz pensar em nossa própria condição. Todos estamos submetidos a um ritmo de vida que nos proíbe a concentração e a dedicação. A velocidade é um mal moderno por excelência. E entre suas consequências mais danosas está a recusa do contato e a distração. Com pressa, evitamos o contato com as outras pessoas, afinal, sobra pouco tempo para um toque, um beijo, um abraço, um aperto de mão… A pressa também é um sintoma do medo do outro: no carro, por exemplo, essa cápsula da velocidade que expulsou os seres humanos da rua, criamos nossos mundos fechados enquanto erguemos o vidro para evitar os perigos que vêm do exterior. A velocidade, além disso, gera distração, porque na passagem apressada, nós não somos mais capazes de nos concentrar em nada. Velozes e furiosos, nós substituímos a serenidade pelas desavenças do tráfego e, com isso, passamos a viver a superficialidade das experiências, agora multiplicadas em quantidade mas empobrecidas em qualidade. Queremos muito, queremos tudo, mas experimentamos mal.

Como em “Menina com brinco de pérola”, talvez a sua obra mais conhecida, Vermeer trata da intimidade do olhar como antídoto contra a superficialização da vida. Vermeer pinta a leiteira que se faz leiteira porque se concentra no leite que é derramado. Ela medita sobre si mesma no leite, esse ingrediente do pão que ela amassará mais tarde. Ela não é leiteira a não ser pela concentração de seu ser, moldado no ato mesmo do derramamento do leite, nessa experiência plena. Seu ser é revelado pela sua tarefa e pela convergência de seu espírito sobre suas mãos, cuja diligência evita a abstração e incorpora, amorosamente, o que é feito à identidade de quem faz. O que se vê é a confluência do olhar, a atenção do intelecto e a fusão próprias de quem, por concentrado que está na tarefa que é sua, entende a velha máxima de que o trabalho dignifica o ser humano. Poucos viram isso e mostraram com tanta evidência como Vermeer. Diante da sua pintura, a gente sente vontade de ater-se à intimidade de nossas tarefas – não aquelas forçosas, obrigatórias, injustas, mal pagas. Não. Às outras: aquelas que empreendemos com o gosto e a amorosidade, a meditação e o recolhimento que nos devolvem à nossa essência, à simplicidade de quem somos. Ao pintar a concentração, Vermeer nos seduz porque simboliza e sintetiza o que nos falta. Todos queremos um dia, deixar as tabelas, as burocracias, as reuniões e as escrituras apressadas, para também derramar a brancura daquele leite de forma tão fascinante e aprazível. Todos buscamos, no meio da pressa, um pouco de serenidade.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Mães – Equilíbrio para que te quero?

9 maio, 2017 às 16:55  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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 * Daniella Forster 

Mais um Dia das Mães se aproxima e com ele algumas reflexões diante de uma vida cada vez mais exigente para as mulheres que tem inúmeras atribuições em suas vidas, sendo a maternidade repleta de questões e reflexões. A complexidade de nossa sociedade, associada aos momentos difíceis impostos pela vida como ela é, geram inúmeras percepções sobre o papel da maternidade e seu significado nos dias atuais.

Mães que trabalham são desafiadas diariamente no quesito equilíbrio em todas as suas possibilidades. Antes de Ser Mãe, a mulher É mulher, ou seja: tem seu próprio significado. Ela existe, tem seus próprios desejos e vontades. Ela sonha, tem a sua própria visão de futuro. Ela realiza, tem a sua própria dimensão no mundo que a envolve. Ela se reconhece, como aquela que tem seus próprios limites. O grande desafio de Ser Mãe é que ao gerar um SER que depende de quem ela É, existem inúmeros sentimentos e pensamentos que geram crises de identidade.

O modelo Mãe que trabalha não tem manual de instrução e não é uma fórmula que serve para todas as situações. Há casos e casos, tudo depende de quem é a Mãe, do equilíbrio entre o que ela conhece de si e como ela se reconhece. Já conversei com mães que trabalham que ressignificaram as suas vidas, adaptaram seus trabalhos, revisaram a sua proposta de carreira, reorganizaram a sua dinâmica familiar. O fato é que, inegavelmente, não há como tornar-se mãe sem desapegar-se de sua vida anterior, sem aprofundar-se em si mesma, em seu autoconhecimento, principalmente para identificar seus limites e buscar uma visão de como superá-los.

As mães que trabalham, de certa forma, querem tudo ao mesmo tempo, competência total em todos os papéis que desempenha. Gradativamente, a vida demonstra que tal opção é incompatível com a realidade e aí vem o desequilíbrio como resposta. Verbos como delegar, compartilhar, aprender e errar, tornam-se obrigatórios neste processo. No entanto, em contrapartida, culpar-se é uma condição observada frequentemente, sendo que relaxar é praticamente impossível.

Qual é a magia para buscar o equilíbrio? Aceitar o desiquilíbrio com amorosidade. Tudo na vida é um processo que se inicia em si mesmo, no próprio EU. Autoestima é essencial. Fases de dúvida, são propícias ao aprendizado e amadurecimento, contribuem para superar os desafios intrínsecos à maternidade. Compreender que não se pode controlar certas variáveis é fundamental. Aliás, entender que as vezes relaxar e saber esperar são as melhores opções diante das incertezas, é um diferencial.

Então para as mães: busquem o amor próprio! Aproveitem as alegrias que só a maternidade é capaz de oferecer! Relaxem diante da vida e permitam aos seus filhos verem no todo quem vocês são. A imperfeição é uma obra de arte quando exposta com autenticidade e desejo profundo de lapidação contínua. Jamais desistam de si mesmas, nem pelos seus filhos, afinal, lá na frente, eles precisarão saber ser e existir, independentemente de vocês.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

O suicídio e a mídia

27 abril, 2017 às 18:08  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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*João Luiz da Fonseca Martins

Nas últimas duas semanas a mídia e as redes sociais foram inundadas de artigos e comentários sobre duas situações específicas que têm em comum o suicídio como pano de fundo.

Primeira situação: O desafio da baleia azul.

Jogo originado na Rússia e caracterizado por 50 desafios dados pela internet ou através de mensagens pelo celular. As etapas devem ser cumpridas uma a cada dia. Essas tarefas trazem aumento gradual de complexidade e devem ser executadas principalmente durante a madrugada. Apresentam como desfecho final a indicação para que o desafiado se suicide. As tarefas incluem assistir a filmes de terror, automutilações com gilete desenhando uma baleia no corpo, passar dias sem comer ou dormir, e por fim, suicidar-se.

Segunda situação: Seriado exibido na Netflix chamado “13 reasons why”. Na tradução ao português para “13 porquês”.

Baseado no livro homônimo de Jay Asher, o seriado conta, através de 13 fitas cassetes, os motivos que levam uma adolescente a cometer suicídio. A série tende a culpabilizar ao longo dos episódios os amigos da adolescente e a escola como motivadores para o ato e deixa de lado grande parte do sofrimento vivido pela personagem principal da série.

Adolescentes que buscam sentido para sua vida em vão, que passam por algum sofrimento (tristeza, choro fácil, isolamento social, desinteresse por atividades cotidianas, bullying, ansiedade, insônia, perdas, uso de drogas, etc) e que não têm suporte familiar estão mais suscetíveis a serem enganados e manipulados por estas situações.

Seja pelo desafiante do jogo russo ou a ser instigado pela personagem Hannah Baker da série, o suicídio tende a ser uma fuga do adolescente para seus problemas cotidianos.

A principal orientação atual é voltada para os pais de adolescentes de 13 a 17 anos de vida. Fiscalizem celular, computador e programas que os filhos assistem. Sente e converse sobre o tema. Assistam o seriado juntos. Buscar suporte psicoterápico e/ou medicamentoso é fundamental quando há presença de algum sofrimento psíquico como os descritos acima.

*João Luiz da Fonseca Martins é médico especialista em atendimento psiquiátrico emergencial e hospitalar na clínica psiquiátrica UNIICA – Unidade Intermediária de Crise e Apoio à Vida.

Uma nova concepção de gestão de carreira

25 abril, 2017 às 14:44  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster 

Estamos passando por momentos de discussões sobre mudança na legislação trabalhista e o modelo de previdência. Temos motivos para questionar, aprovar ou reprovar o que está sendo pensado e proposto. Podemos nos sentir injustiçados, prejudicados e temerosos quanto às cenas dos próximos capítulos. Muitas perguntas e inquietações podem tirar o sono daqueles mais ansiosos, ou com tendências a preocupar-se exageradamente com suas vidas. Entretanto, em um sentido mais amplo, o que vemos no mundo de hoje e não somente no Brasil é que mudanças são inevitáveis diante de uma realidade tão inconstante, caótica e desgastante. Refletir sobre gestão de carreira deveria ser uma estratégia para todos aqueles que desejam ter maior autonomia sobre as suas vidas profissionais, sem que as mudanças gerem instabilidade e desconforto ao longo do tempo. Assim, o objetivo deste texto é refletir sobre carreira, independente das regras governamentais, desconsiderando ideologias políticas. O foco é pensar na realização e no potencial verdadeiro daqueles que trabalham.

Do ponto de vista psicossocial, pensar em um ser humano com 60 ou 65 anos que deveria se aposentar é um grande erro. A reinvenção da qualidade de vida permite que pessoas nesta faixa etária estejam mentalmente e fisicamente saudáveis e, inclusive, mais resistentes e experientes para contribuírem nos mais diferentes cenários. O conhecimento tácito, adquirido apenas quando se vive a vida como ela é, oferece um potencial extraordinário para o desenvolvimento de novas ideias, novos processos e estratégias mais sustentáveis. Aliás, apenas a vida como ela é permite entender o significado de sustentabilidade. Entretanto, durante muitos anos, mais fortemente no Ocidente, aprendemos que a partir de determinada idade somos descartáveis. Em outras palavras, é como se tivéssemos prazo de validade. Idosos no Brasil são enquadrados nesta faixa etária e tratados como se não fossem mais capazes de procurar uma vaga para estacionarem, de caminharem um pouco mais caso estacionem mais longe, de ficarem de pé em uma fila de banco ou em uma farmácia. Claro que existem casos e casos, mas no geral, pessoas entre 60 e 65 anos estão muito bem. Em países europeus, onde os idosos estão em grande número, os tratamentos especiais começam em idade bem mais avançada. Do ponto de vista psicológico parece promover efeitos benéficos.

Até há alguns anos, a gestão de carreira limitava-se a pensar na vida profissional de um indivíduo até a sua aposentadoria. Poucos, muito poucos, faziam de suas vidas um algo a mais. Entretanto, verdade seja dita, a depressão e a falta de identidade profissional fizeram de muitos aposentados “jovens” pessoas doentes. Mesmo aqueles com boas condições financeiras, simplesmente pelo fato de não terem mais um significado social, viram-se emocionalmente incapazes de fazer algo com as suas vidas. Tal percepção é tão verdadeira que, no Brasil, o foco de Marketing para a 3a. Idade encontra-se até hoje em campanhas de prevenção de doenças e programas de descontos em farmácias e outros segmentos de lazer pouco relevantes. É a cultura da vitimização, onde é mais cômodo adoecer do que valorizar o potencial deste público. Outra questão relevante é que aos 60/65 anos além da perda do papel profissional, muitos passam pela síndrome do ninho vazio, onde se veem totalmente sós, já que seus filhos foram correr atrás de suas vidas e não mais fazem parte daquele ambiente familiar. Alguns “idosos” voltam a se sentir úteis quando podem dedicar-se aos netos e encontram nova função em suas famílias, no entanto, poucos buscam uma realização em si e para si, como se não fossem mais merecedores de um projeto de vida pessoal e/ou profissional.

Recentemente, falar em gestão de carreira ganhou um novo enfoque, é pensar mais em si mesmo, na sua realização, no seu existir e interagir com empresas e pessoas para que resultados sejam alcançados igualmente para todos os envolvidos. Não há limite de idade, não há a concepção de que parar de trabalhar é algo obrigatório ou que deva acontecer em dado momento. Não é questionar a remuneração ou o cargo que você ocupa, nem tampouco perguntar por que a empresa não se preocupa com você. É simplesmente descobrir o seu próprio valor, significá-lo para si mesmo e buscar um lugar e um espaço onde o seu potencial seja totalmente aproveitado. Esta nova maneira de pensar traz a você mesmo uma necessidade contínua de existir e buscar alternativas relevantes para a sua vida profissional. Reinventar-se diariamente e garantir que resultados sejam alcançados pelo seu próprio esforço, traz o sentimento concreto de que você é capaz de fazer por si mesmo, sem que dependa do desejo de terceiros.

Se você é demitido por uma reestruturação, se você não é promovido onde trabalha ou se não há reconhecimento pelas atividades que realiza, nada disto deveria refletir negativamente na sua gestão de carreira. Você pode estar no lugar errado, desempenhando atividades não compatíveis com seu perfil ou integrando uma equipe que impede você de dar os seus 100%. Quando você mesmo é capaz de perceber que seu potencial não está sendo usado integralmente, automaticamente estimula a si mesmo a criar alternativas e a buscar cenários onde não apenas há um incremento de desempenho, mas também maior condição de saúde mental e melhor remuneração, além de maior sustentabilidade para a sua vida profissional. Este novo olhar desconecta o indivíduo de expectativas externas, quer seja governo ou empresa. A sua aposentadoria formal não o limita, não o significa. A sua demissão não o impede de ser alguém na vida. Simplesmente há uma mudança de percepção onde, descobrindo quem você é, qual o seu diferencial estratégico e como pode ser verdadeiramente reconhecido e valorizado, traz em si um domínio sobre a própria vida.

Esta maneira de pensar, embora necessária, não é muito estimulada, principalmente em países como o Brasil. A cultura da acomodação, da dependência de outros, da doença psicológica favorece e muito o controle social. Toda vez que aprendemos a culpar os outros, entramos em um ciclo onde nossa autoestima e reconhecimento caem a tal ponto que simplesmente desacreditamos.

Então, para que uma nova e atual gestão de carreira possa existir, precisamos seguir alguns passos importantes:

1) Cuidar da nossa saúde física e mental, não parar de querer aprender mais, conhecer o novo e inovar. Usar o passado como fonte de aprendizado e não como arrependimento ou lamentação.

2) Olhar a nossa família e nossos entes queridos como pessoas que fazem parte da nossa vida, mas não como pessoas que devemos depender delas para ter significado por papéis desempenhados. Fizeram parte de nossas escolhas e são relações humanas que podem contribuir para a nossa qualidade de vida, mas cada pessoa deve existir por si.

3) Olhar a empresa onde trabalhamos como parceira temporária e não como casamento eterno e incondicional. Enquanto for bom para ambas as partes, perfeito. A partir do momento que estiver prejudicando uma das partes é hora de mudar.

4) A sua carreira depende apenas de você e de mais ninguém e trata-se de um projeto para a vida inteira. É o melhor presente que você pode dar a si mesmo ao final da sua vida. Um equilíbrio entre vida pessoal e profissional, resultados que obteve pelo seu próprio empenho e esforço, o reconhecimento pela sua realização. De resto, o que vier a mais é lucro, mas não espere nada de ninguém.

5) A sua vida só fará sentido se você trouxer as lutas diárias como parte de seu processo de construção sustentável. Permita-se reerguer, andar com a cabeça erguida, porque lá na frente é isto que proporcionará menos visitas a farmácia e mais possibilidades de aproveitar seu máximo potencial.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Psicopatia ou Sociopatia, porque precisamos falar sobre isso?

18 abril, 2017 às 10:10  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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*João Luiz da Fonseca Martins

A notícia da liberdade provisória do ex-goleiro do Flamengo Bruno, quando vinculada na mídia recentemente, acusado de ser o mandante do assassinato de sua ex-namorada, fez com que várias pessoas ficassem revoltadas com a justiça e a possibilidade de convivência em sociedade com uma pessoa que supostamente pode ter um transtorno mental. Entretanto, a relação com pessoas com esse comportamento é mais frequente do que se imagina.

Cada indivíduo é considerado único como pessoa, mas podemos classificá-los dentro de modos comuns de agir frente a situações cotidianas.

Existem 9 principais subdivisões de personalidades na classificação internacional de doenças. Não necessariamente isto requer tratamento e varia de acordo com a intensidade de sintomatologia presente e o dano verificado com o modo de funcionamento do indivíduo.

Muitos desconhecem os significados das palavras acima, porém ambas se referem a mesma doença. Estes termos foram cunhados de um dos nove distúrbios de personalidade, chamado de antissocial ou dissocial.

Ele está presente em 1% da população geral e em 40% da população carcerária. Coloco os dados estatísticos acima, pois as pessoas não têm a percepção do quanto este modo de funcionamento dos indivíduos com esta patologia está próximo a elas.

As principais características das pessoas com esse padrão de funcionamento são um egocentrismo patológico (pensamento centrado no eu e em suas vontades/desejos); falta de empatia (de se colocar no lugar de outra pessoa/falta de consideração pelo sentimento alheio); baixa capacidade de tolerância à frustração; desprezo por regras, leis e obrigações e isto pode frequentemente levá-las à terem problemas de ordem legal. São indivíduos com muito poder de sedução e manipulação e agem de forma cínica em busca de sua satisfação pessoal.

São pessoas que conquistam lugar de destaque na sociedade e ocupam cargos importantes/influentes (advogados, médicos, empresários, engenheiros e principalmente políticos). Portanto são formadores de opinião, de regras e leis.

Cito exemplos frequentes no cotidiano para ilustração.

1- Colega de trabalho que entrega ao chefe/superior na empresa, algum comentário maldoso que outro trabalhador com cargo mais elevado que o seu, proferiu em conversa informal, com intuito de conquistar o lugar deste na empresa, obtendo assim crescimento interno e valorização salarial.

2- Pais separados e um dos genitores constantemente exerce influência negativa sobre os filhos ao falar de forma constante e depreciativa do ex-cônjuge com intuito de afastá-lo do convívio com o menor.

3- Político que se envolve em negociações fraudulentas para ganhos financeiros maiores e sem dor na consciência se isso fará os alunos de escola, por exemplo, ficarem sem merenda.

Ações de mentiras constantes, impulsividade, envolvimento com drogas, crime organizado, roubo, prostituição, maus tratos a animais, ausência de remorso, irresponsabilidade e irritabilidade são muito frequentes no desenvolvimento do indivíduo sociopata até a fase adulta. Lembro que não há necessidade de todos estarem presentes, apenas alguns destes podem ser observados.

Dentre as principais causas são encontrados fatores genéticos e abusos na infância (maus tratos, desprezo de familiares, desamparo, humilhações, estupro,…). Alterações comportamentais são frequentemente identificados através de atitudes agressivas verbais e físicas para com familiares e terceiros, impulsividade e inadequação social.

O tratamento é indispensável, porém ainda pouco utilizado por falta de conhecimento e obrigação. A sociedade tem dificuldade em identificar pessoas com esse padrão de funcionamento e quando ocorre a percepção não vêem como doença e sim como pessoas aproveitadoras ou maldosas.

A lei não impõe o tratamento psiquiátrico a estes indivíduos presos ou em liberdade condicional.

O tratamento deve ser feito com a possibilidade de uso de vários medicamentos visando controle de impulso, aquisição de tolerância, promoção de empatia e adequação às regras legais. A psicoterapia é fundamental para conscientização e promoção do ajuste de conduta com a determinação de limites rígidos. A divulgação destas informações e a procura por atendimento especializado é fundamental.

Não conseguiremos formar uma sociedade melhor se formos influenciados ou regidos por pessoas com este padrão de funcionamento.

Onde estão nossos talentos? Como perdemos o seu potencial nas organizações?

11 abril, 2017 às 15:46  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

Todo processo seletivo envolve um perfil profissional que, muitas vezes, envolve pré-requisitos bem exigentes. É comum a busca por talentos, aqueles que diferenciam-se dos demais porque denotam experiência, maturidade, visão estratégica e até mesmo competências comportamentais relevantes que, muito provavelmente, aumentam a chance de sucesso do indivíduo dentro da organização.

Sabe-se que encontrar este talento não é tarefa fácil. Ele não necessariamente tem mais cursos, mais pós-graduações, mais idiomas ou mais experiência que outros. Mas, ele tem a capacidade de unir teoria e prática, de significar o conhecimento apreendido em prol de solução de problemas e novas ideias. Isto significa que talento não é um executor, mas sim um transformador, um articulador e um criador de soluções e inovações.

Por que é tão difícil encontrar talentos? Eis alguns pontos de reflexão:

  1. Pais que educam seus filhos para serem iguais a maioria, discriminando comportamentos diferentes do padrão aceito e sem envolvimento afetivo com seus filhos;
  2. Professores e educação condicionadora que valoriza o desempenho pelas tradicionais avaliações, sem dar espaço ao poder da criatividade que a criança demonstra desde muito cedo;
  3. Uso da tecnologia como forma de massificação e não de diferenciação;
  4. Uso de redes sociais como forma de alienação e não de network inteligente;
  5. Repetição e reprodução de modelos internacionais sem reflexão crítica de seus significados para a cultura brasileira;
  6. Pouco estímulo à consciência crítica;
  7. Excesso de estímulo ao consumo desenfreado de tudo o que é “moda”, sem personalizar o conceito;
  8. Foco na superficialidade, não significando relacionamentos perenes profissionais ou não;
  9. Foco na aparência, perda da estrutura de valores;
  10. Pouca preocupação com a consistência.

 

Agora, quando encontramos os talentos, por que simplesmente destruímos o seu potencial dentro de uma organização?

 

  1. Quando o foco da gestão está em enquadrar o profissional para que ele execute e não pense suas atividades;
  2. Quando há maior preocupação com o número de horas gastas para o desempenho de uma atividade e não a qualidade da atividade realizada;
  3. Novas iniciativas são negadas direta ou indiretamente;
  4. O cartão ponto ou o controle tem maior relevância do que os diferenciais estratégicos do indivíduo;
  5. A atividade em si não é percebida pelo indivíduo como fazendo parte de um processo, de um todo importante;
  6. Apenas a voz da gestão é ativa;
  7. A Gestão é incapaz de absorver novos modelos para alinhá-los à realidade organizacional, demonstrando incoerências em processos, principalmente os relacionados ao desempenho;
  8. A política predomina a competência;
  9. Não há preocupação com consistência profissional, entregas medíocres no prazo são mais valorizadas que entregas acima da média;
  10. Comportamentos anti-éticos sobrepõe à ética pessoal e profissional.

 

Talvez seja o momento de estimularmos novos talentos e também de valorizarmos aqueles que já existem. Diante de um país como o nosso, em que novas soluções, novas ideias e projetos precisam surgir para que possamos fortalecer nossas organizações e nossa cultura como um todo, há de se despertar para mudanças mais profundas e transformadoras.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Borderline no mundo corporativo

2 março, 2017 às 15:24  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

O mundo corporativo tem lá as suas peculiaridades. Existe uma série de requisitos que são naturalmente exigidos em função do pertencer a uma cultura organizacional que apresenta as suas características próprias. Existem as regras e normas que ditam o certo e o errado, o desejável, o aceitável ou até mesmo o que é mandatório. Entretanto, o foco deste artigo é desvendar idiossincrasias do comportamento humano no mundo do trabalho. Sem generalizar, podemos falar daquilo que é comum, compartilhado por muitos e que geram incômodos e até mesmo conflitos nem sempre revelados, mas podem comprometer a saúde mental daqueles que são pessoas comuns em busca de um equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal.

Para esta abordagem, o foco será alguns personagens caricatos que, por motivos diversos, minimizam seus colegas de trabalho. Pessoas que são incapazes de entender conceitos como respeito, limites, empatia e senso coletivo. Os denominados Egos inflados, que simplesmente acreditam que as suas verdades, suas crenças e valores são absolutos e portanto, os seus desiguais precisam passar por discursos e cursos específicos para enquadrarem-se ao que consideram o perfil desejado. Mas pera lá? Parece haver uma certa falta de coerência nisto tudo. Aonde está a liberdade individual? Não se trata de um contrato de trabalho, mas sim de um pacto imposto por estes Egos soberanos. Os famosos “birrentos” que precisam de seus desejos atendidos, sendo até mesmo mais importantes que a própria organização.

Estes personagens caricatos podem ser facilmente detectados. Os sintomas de que você é vítima de algum destes tipos são os seguintes: sensação de sufocamento, dificuldade de expressar-se com naturalidade, de falar o que pensa, de se comunicar da maneira que acredita, de fazer as suas próprias escolhas, sejam elas pessoais ou profissionais. Você está totalmente alinhado à cultura da sua organização, mas mesmo assim sofre preconceito, não é aceito e, muitas vezes, é ignorado ou rejeitado. Neste sentido entra a denominação do Borderline no Mundo Corporativo. É a luta contínua entre manter o equilíbrio, ser o desejo do outro e esquecer de si mesmo, apenas para ser aceito ou enfrentar estes Egos e enfrentar as consequências. Afinal, quem já não quis reagir, de forma aberta, expondo agressivamente o seu descontentamento. Quem já não quis esbravejar diante da prisão emocional? Quem já não preferiu trocar de emprego, deixar seu trabalho de lado, simplesmente para resgatar seu bem-estar? Quem já não lutou para voltar a existir?

Diante da impossibilidade de negar que tais fatos ocorrem e tais sentimentos surgem, algumas perguntas aparecem. Quem são os culpados? Existem vítimas? Como sair deste sistema, muitas vezes doentio e cíclico? Eis então uma breve consideração sobre cada uma delas.

1.A culpa está na falta de conhecimento e reconhecimento de que inexiste alguém perfeito e verdades absolutas. A complementariedade gera eficiência e resultado. A integração requer diferenças/diversidade. Perceber falhas e limites é sinal de grandeza e certamente gera desenvolvimento autêntico das pessoas. Precisa de muita coragem e maturidade para olhar para si mesmo e para os outros a partir desta lente.

2.Podemos ter vítimas temporárias, aquelas que em um momento inicial questionam a si mesmas, se veem inferiores por serem tratadas com demérito. Entretanto, gradativamente, conforme analisam tudo com maior racionalidade, apreendem o quanto estão se preocupando de forma desnecessária diante de pessoas inseguras que precisam da autoafirmação. Os compadres e comadres de plantão, aqueles que sabem tudo, os “puxa-sacos” ou os “despersonalizados”, todos na essência são incapazes de dizer um “não sei”, ou um “preciso de ajuda” ou um “desculpe, errei”. Preferem delatar colegas, encontrar culpadas que justifiquem seus erros. Estes comportamentos observados rotineiramente, permitem às vítimas temporárias resgate da estima e mudança de atitude.

3.Este sistema é mais comum em ambientes onde há menos profissionalismo e depende mais da política onde prevalece interesses pessoais, troca de favores e o foco, muitas vezes, extrapola a competência. Mas, em qualquer ambiente, mais ou menos vulnerável, cabe a você mesmo escolher não fazer parte de algo que gera apenas ônus a sua vida profissional e pessoal. Buscar novas alternativas de trabalho pode ser saudável, mas o mais importante é fortalecer o seu emocional e ter o domínio sobre o que acontece naquele ambiente onde está inserido. A compreensão racional dos fatos certamente colabora para a sua saúde mental.

Lembre-se, viver pressupõe uma série de experiências e realizações, erros importantes que geram aprendizados para o médio e longo prazo. Deixar de valorizar o que você desenvolveu em toda a sua trajetória, desacreditar de si mesmo diante da discriminação, apenas fortalecerá aqueles que escondem-se por não quererem aprender. Em qualquer relacionamento, somos incapazes de mudar os outros, mas podemos nos tornar pessoas melhores, mais preparadas e fortalecidas todos os dias. Basta manter a consciência ativa.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

O demônio do excesso está entre nós

21 fevereiro, 2017 às 13:34  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Jelson Oliveira

Nas suas Meditações Metafísicas, René Descartes formulou uma hipótese segundo a qual um gênio maligno, “ao mesmo tempo sumamente potente e enganoso” emprega todo o seu talento para nos fazer acreditar em suas ilusões. Segundo o filósofo francês, o demônio da ilusão é um habitante malicioso de nossas mentes e quem não se dá conta dele, acaba vítima de suas armadilhas.

Ora, nunca esse demônio foi tão forte e fraudulento como nos nossos dias. E seu nome é excesso. Não só o excesso de coisas, mas o excesso de experiências, o exagero e a superfluidade das relações que estabelecemos com as coisas e com as pessoas. Como demônio, o excesso vive na fluidez do mundo e se alimenta na demasia e na fartura das ofertas e das possibilidades, na overdose que leva à redundância e ao cansaço. Vivemos o tempo em que tudo parece ter sido dito no tom da imoderação e em que tudo parece ser feito segundo a lógica do descontrole, da intemperança e do descomedimento. Como resultado, somos incapazes de transformar nossas experiências cotidianas em algo significativo, que conte como parte de nossa própria biografia. Não fazemos mais nada como se fosse a última vez, como sugeriu Chico Buarque na sua Construção. Na verdade, o nosso é o tempo da desconstrução e ela é fruto da perda de sentido e da banalização da vida ordinária. E todos sabemos que a desconstrução é o reino dos destroços, da ruína e do lixo, que são detritos do excesso. Quando voltamos para casa, à noite, voltamos esfolados pela “mixórdia de eventos” (para usar uma expressão de Giorgio Agamben) que somos incapazes de transformar em parte de nossa história pessoal, dada a má qualidade dessas vivências e a sua insignificância. Vivemos o tempo da banalidade, do cotidiano fraco, das coisas comuns e, consequentemente, da falta de sentido histórico e da hibernação do senso crítico. Pouca coisa nos afeta profundamente. Nenhum poema nos emociona. As cenas da vida, as pessoas que importam e os prazeres que seduzem se perdem no meio de todos os experimentos. Estamos mesmo amortecidos pelas ilusões do marketing, pelos slogans dos políticos, pelo tom impessoal das reportagens, pelo marasmo dos jornalismos e todas as suas disciplinas de senso comum.

O excesso é um demônio perigoso. Primeiro porque ele induz à busca pelo extraordinário. Como o cotidiano já não nos satisfaz, queremos encher as nossas malas com o que parece prodigioso e admirável. Tal raciocínio nos leva à caça de algo que sempre está além da realidade cotidiana. Enquanto essa é deixada de lado, a gente se estapeia em busca de um ângulo original para a foto, ao tempo em que a paisagem nos escapa. Escapa o amor que está ao nosso lado enquanto esperamos pelo surpreendente de alguém que há de vir. Escapa o abraço do amigo que temos enquanto estalqueamos perfis nas redes sociais em busca do que não temos. Escapa o principal enquanto compramos o supérfluo, enchemos nossas casas com todo tipo de cacareco, nos quais pretendíamos encontrar o maravilhoso e o magnífico, mas onde reside apenas o “normal” e, por isso, o frustrante. Em resumo, nossa relação com as coisas está guiada pela insatisfação porque somos incapazes de aproveitá-las adequadamente como parte de nossa experiência vital. Queremos das coisas o que elas não podem dar simplesmente porque, iludidos pelo demônio do excesso, não vemos o que elas oferecem de fato. Queremos das pessoas virtudes que elas não têm, enquanto fechamos os olhos para aquelas que elas possuem.

O segundo perigo do demônio do excesso é a crueldade. O enfraquecimento das experiências cotidianas e a busca pelo extraordinário levam à imoderação e ao desregramento. Descomedidos, rendemo-nos facilmente não só à falta de senso crítico, mas também à violência, às barbaridades, aos abusos, preconceitos e todas as formas de desumanidade que, infelizmente, medram em meio às nossas brutalidades cotidianas. A atendente do supermercado não retribui o bom-dia. O motorista no trânsito não cede um milímetro do espaço que é seu. O chefe não fala senão para criticar. Mata-se por nada. Rouba-se por tudo. Invade-se, quebra-se, esquarteja-se. Polui-se o rio, não se separa o lixo, não se preocupa com nada. O gênio maligno do excesso nos faz acreditar que nada tem jeito, que não vale a pena, que não tem saída senão pela via da agressão, da ameaça, do grito bárbaro.

O antídoto ao demônio é o exame da consciência, a manutenção do senso crítico, a vigilância e a atenção redobradas. Sendo falíveis, facilmente nos deixamos enganar e, para evitar o pior, precisamos praticar constantemente o exame dos nossos pensamentos e realizar a higiene espiritual capaz de limpar a nossa mente daquilo que nela é o veneno do engano e do erro que podem conduzir à cegueira que abastece a barbárie.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).