Borderline no mundo corporativo

2 março, 2017 às 15:24  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

O mundo corporativo tem lá as suas peculiaridades. Existe uma série de requisitos que são naturalmente exigidos em função do pertencer a uma cultura organizacional que apresenta as suas características próprias. Existem as regras e normas que ditam o certo e o errado, o desejável, o aceitável ou até mesmo o que é mandatório. Entretanto, o foco deste artigo é desvendar idiossincrasias do comportamento humano no mundo do trabalho. Sem generalizar, podemos falar daquilo que é comum, compartilhado por muitos e que geram incômodos e até mesmo conflitos nem sempre revelados, mas podem comprometer a saúde mental daqueles que são pessoas comuns em busca de um equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal.

Para esta abordagem, o foco será alguns personagens caricatos que, por motivos diversos, minimizam seus colegas de trabalho. Pessoas que são incapazes de entender conceitos como respeito, limites, empatia e senso coletivo. Os denominados Egos inflados, que simplesmente acreditam que as suas verdades, suas crenças e valores são absolutos e portanto, os seus desiguais precisam passar por discursos e cursos específicos para enquadrarem-se ao que consideram o perfil desejado. Mas pera lá? Parece haver uma certa falta de coerência nisto tudo. Aonde está a liberdade individual? Não se trata de um contrato de trabalho, mas sim de um pacto imposto por estes Egos soberanos. Os famosos “birrentos” que precisam de seus desejos atendidos, sendo até mesmo mais importantes que a própria organização.

Estes personagens caricatos podem ser facilmente detectados. Os sintomas de que você é vítima de algum destes tipos são os seguintes: sensação de sufocamento, dificuldade de expressar-se com naturalidade, de falar o que pensa, de se comunicar da maneira que acredita, de fazer as suas próprias escolhas, sejam elas pessoais ou profissionais. Você está totalmente alinhado à cultura da sua organização, mas mesmo assim sofre preconceito, não é aceito e, muitas vezes, é ignorado ou rejeitado. Neste sentido entra a denominação do Borderline no Mundo Corporativo. É a luta contínua entre manter o equilíbrio, ser o desejo do outro e esquecer de si mesmo, apenas para ser aceito ou enfrentar estes Egos e enfrentar as consequências. Afinal, quem já não quis reagir, de forma aberta, expondo agressivamente o seu descontentamento. Quem já não quis esbravejar diante da prisão emocional? Quem já não preferiu trocar de emprego, deixar seu trabalho de lado, simplesmente para resgatar seu bem-estar? Quem já não lutou para voltar a existir?

Diante da impossibilidade de negar que tais fatos ocorrem e tais sentimentos surgem, algumas perguntas aparecem. Quem são os culpados? Existem vítimas? Como sair deste sistema, muitas vezes doentio e cíclico? Eis então uma breve consideração sobre cada uma delas.

1.A culpa está na falta de conhecimento e reconhecimento de que inexiste alguém perfeito e verdades absolutas. A complementariedade gera eficiência e resultado. A integração requer diferenças/diversidade. Perceber falhas e limites é sinal de grandeza e certamente gera desenvolvimento autêntico das pessoas. Precisa de muita coragem e maturidade para olhar para si mesmo e para os outros a partir desta lente.

2.Podemos ter vítimas temporárias, aquelas que em um momento inicial questionam a si mesmas, se veem inferiores por serem tratadas com demérito. Entretanto, gradativamente, conforme analisam tudo com maior racionalidade, apreendem o quanto estão se preocupando de forma desnecessária diante de pessoas inseguras que precisam da autoafirmação. Os compadres e comadres de plantão, aqueles que sabem tudo, os “puxa-sacos” ou os “despersonalizados”, todos na essência são incapazes de dizer um “não sei”, ou um “preciso de ajuda” ou um “desculpe, errei”. Preferem delatar colegas, encontrar culpadas que justifiquem seus erros. Estes comportamentos observados rotineiramente, permitem às vítimas temporárias resgate da estima e mudança de atitude.

3.Este sistema é mais comum em ambientes onde há menos profissionalismo e depende mais da política onde prevalece interesses pessoais, troca de favores e o foco, muitas vezes, extrapola a competência. Mas, em qualquer ambiente, mais ou menos vulnerável, cabe a você mesmo escolher não fazer parte de algo que gera apenas ônus a sua vida profissional e pessoal. Buscar novas alternativas de trabalho pode ser saudável, mas o mais importante é fortalecer o seu emocional e ter o domínio sobre o que acontece naquele ambiente onde está inserido. A compreensão racional dos fatos certamente colabora para a sua saúde mental.

Lembre-se, viver pressupõe uma série de experiências e realizações, erros importantes que geram aprendizados para o médio e longo prazo. Deixar de valorizar o que você desenvolveu em toda a sua trajetória, desacreditar de si mesmo diante da discriminação, apenas fortalecerá aqueles que escondem-se por não quererem aprender. Em qualquer relacionamento, somos incapazes de mudar os outros, mas podemos nos tornar pessoas melhores, mais preparadas e fortalecidas todos os dias. Basta manter a consciência ativa.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

O demônio do excesso está entre nós

21 fevereiro, 2017 às 13:34  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Jelson Oliveira

Nas suas Meditações Metafísicas, René Descartes formulou uma hipótese segundo a qual um gênio maligno, “ao mesmo tempo sumamente potente e enganoso” emprega todo o seu talento para nos fazer acreditar em suas ilusões. Segundo o filósofo francês, o demônio da ilusão é um habitante malicioso de nossas mentes e quem não se dá conta dele, acaba vítima de suas armadilhas.

Ora, nunca esse demônio foi tão forte e fraudulento como nos nossos dias. E seu nome é excesso. Não só o excesso de coisas, mas o excesso de experiências, o exagero e a superfluidade das relações que estabelecemos com as coisas e com as pessoas. Como demônio, o excesso vive na fluidez do mundo e se alimenta na demasia e na fartura das ofertas e das possibilidades, na overdose que leva à redundância e ao cansaço. Vivemos o tempo em que tudo parece ter sido dito no tom da imoderação e em que tudo parece ser feito segundo a lógica do descontrole, da intemperança e do descomedimento. Como resultado, somos incapazes de transformar nossas experiências cotidianas em algo significativo, que conte como parte de nossa própria biografia. Não fazemos mais nada como se fosse a última vez, como sugeriu Chico Buarque na sua Construção. Na verdade, o nosso é o tempo da desconstrução e ela é fruto da perda de sentido e da banalização da vida ordinária. E todos sabemos que a desconstrução é o reino dos destroços, da ruína e do lixo, que são detritos do excesso. Quando voltamos para casa, à noite, voltamos esfolados pela “mixórdia de eventos” (para usar uma expressão de Giorgio Agamben) que somos incapazes de transformar em parte de nossa história pessoal, dada a má qualidade dessas vivências e a sua insignificância. Vivemos o tempo da banalidade, do cotidiano fraco, das coisas comuns e, consequentemente, da falta de sentido histórico e da hibernação do senso crítico. Pouca coisa nos afeta profundamente. Nenhum poema nos emociona. As cenas da vida, as pessoas que importam e os prazeres que seduzem se perdem no meio de todos os experimentos. Estamos mesmo amortecidos pelas ilusões do marketing, pelos slogans dos políticos, pelo tom impessoal das reportagens, pelo marasmo dos jornalismos e todas as suas disciplinas de senso comum.

O excesso é um demônio perigoso. Primeiro porque ele induz à busca pelo extraordinário. Como o cotidiano já não nos satisfaz, queremos encher as nossas malas com o que parece prodigioso e admirável. Tal raciocínio nos leva à caça de algo que sempre está além da realidade cotidiana. Enquanto essa é deixada de lado, a gente se estapeia em busca de um ângulo original para a foto, ao tempo em que a paisagem nos escapa. Escapa o amor que está ao nosso lado enquanto esperamos pelo surpreendente de alguém que há de vir. Escapa o abraço do amigo que temos enquanto estalqueamos perfis nas redes sociais em busca do que não temos. Escapa o principal enquanto compramos o supérfluo, enchemos nossas casas com todo tipo de cacareco, nos quais pretendíamos encontrar o maravilhoso e o magnífico, mas onde reside apenas o “normal” e, por isso, o frustrante. Em resumo, nossa relação com as coisas está guiada pela insatisfação porque somos incapazes de aproveitá-las adequadamente como parte de nossa experiência vital. Queremos das coisas o que elas não podem dar simplesmente porque, iludidos pelo demônio do excesso, não vemos o que elas oferecem de fato. Queremos das pessoas virtudes que elas não têm, enquanto fechamos os olhos para aquelas que elas possuem.

O segundo perigo do demônio do excesso é a crueldade. O enfraquecimento das experiências cotidianas e a busca pelo extraordinário levam à imoderação e ao desregramento. Descomedidos, rendemo-nos facilmente não só à falta de senso crítico, mas também à violência, às barbaridades, aos abusos, preconceitos e todas as formas de desumanidade que, infelizmente, medram em meio às nossas brutalidades cotidianas. A atendente do supermercado não retribui o bom-dia. O motorista no trânsito não cede um milímetro do espaço que é seu. O chefe não fala senão para criticar. Mata-se por nada. Rouba-se por tudo. Invade-se, quebra-se, esquarteja-se. Polui-se o rio, não se separa o lixo, não se preocupa com nada. O gênio maligno do excesso nos faz acreditar que nada tem jeito, que não vale a pena, que não tem saída senão pela via da agressão, da ameaça, do grito bárbaro.

O antídoto ao demônio é o exame da consciência, a manutenção do senso crítico, a vigilância e a atenção redobradas. Sendo falíveis, facilmente nos deixamos enganar e, para evitar o pior, precisamos praticar constantemente o exame dos nossos pensamentos e realizar a higiene espiritual capaz de limpar a nossa mente daquilo que nela é o veneno do engano e do erro que podem conduzir à cegueira que abastece a barbárie.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

A importância de viver e experienciar a realidade

14 fevereiro, 2017 às 08:47  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

Somos chamados diariamente a viver no mundo da ilusão. Os artifícios que existem nos dias de hoje são diversos. Maquiagens, corretivos, aplicativos, modas/tendências, ideologias sociais e corporativas, tudo nos leva a buscar uma imagem pessoal, social e profissional que de alguma forma nos permite sermos aceitos, sermos iguais.

A virtualidade nos distancia de apreender o significado do real. Ela, inclusive, nos traz a falsa percepção de que o real faz mal, causa dor e, portanto, deve ser eliminado. A nítida percepção do conceito da derrota ou do fracasso é evitada a todo momento. O esforço e o aprendizado são simplificados e dão lugar a acomodação ou à terceirização das responsabilidades. Precisamos voltar a viver e compartilhar o real.

Educar nos dias de hoje é substancialmente uma tarefa árdua. É confrontar virtual x real. É significar e re-significar. É permitir abrir-se ao novo, mas manter a integridade daquilo que chamamos de experiência de vida. É assumir erros, compartilhar fragilidades, demonstrar fraquezas, tudo como processo de evolução, afinal ser humano significa ter limites, aprender com eles e buscar supera-los.  Lembrando que amadurecer não é uma receita com ingredientes certos, temperatura ideal e tempo definido.

Como pais precisamos rever a necessidade de sermos infalíveis, aqueles que impedem seus filhos de entender o que significa ter um problema, administrar um conflito, fazer as próprias escolhas e errar. A nossa infalibilidade gera jovens dependentes, imaturos e sem comprometimento. Distancia a percepção da realidade. Damos a falsa impressão de que tudo pode ser resolvido sem esforço. Reforçamos a ideologia das redes sociais. Entregamos os jovens à inconsciência.

O mundo é instável, dinâmico, confuso e exigente. A sociedade é complexa, perversa e incoerente. As pessoas são inseguras, buscam a aparência e não a essência. A falta de exposição ou mais claramente falando, a não constatação da vida como ela é, apenas retarda um processo inevitável que é assumir a responsabilidade por si mesmo. É se olhar no espelho, sem máscaras, maquiagens, corretivos ou aplicativos. É olhar a realidade e a sociedade sem filtros e com diferentes lentes. Vamos viver, errar e compartilhar, aprender e compartilhar, acertar e evoluir.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Quando tudo deu errado, é momento de fazer dar certo

31 janeiro, 2017 às 13:50  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

 Você já pode ter colocado vários objetivos na sua vida e ter se frustrado diante da falta dos resultados, por não colocá-los em prática ou pelos resultados serem inferiores aos desejados. E pior que isto, existem algumas metas de vida que parecem impossíveis diante do retorno obtido ser totalmente diferente do imaginado.

Exemplificando na prática, temos as famosas dietas, o inglês que nunca se torna fluente, o desempenho acadêmico ou escolar que não é o adequado, a busca por um emprego melhor, a realização pessoal, o relacionamento amoroso verdadeiro, enfim são inúmeros os casos que geram culpa, arrependimentos diante da simples acomodação de não buscar mudanças internas ou até mesmo externas.

Explico melhor: o ser humano é padronizado. De forma mais ou menos consciente. Desde muito cedo recebemos uma carga de comportamentos que reproduzimos sem questionamentos. Conforme crescemos, em contato com o meio que nos cerca, criticamos ou não nosso modo de ser e gradativamente chegamos a nossa identidade. O que não percebemos é que, muitas vezes, estamos presos ao coletivo e isto nos limita a reproduzir estratégias adotadas pela maioria, estratégias institucionalizadas ou já aprovadas por outros. Esquecemos que nós, muitas vezes, precisamos refletir sobre nossas próprias estratégias.

Traduzindo, se você adota o plano do livro best-seller, a estratégia da sua melhor amiga ou amigo, do seu superior ou par no trabalho, ou do seu professor, mas continua não atingindo o objetivo, não significa que você é um fracasso. Também não é culpa do livro, dos seus amigos, superiores/pares, ou professor que passaram a receita de sucesso pela metade ou de forma incompleta. Está faltando apenas maior atenção e maior senso crítico em relação à sua identidade. Aonde ela se encaixa nestas receitas “infalíveis”.

Conclusão, não tenha medo de errar, mas caso aconteça busque novos erros, amadureça a sua identidade. Busque novos desafios e estratégias mais compatíveis com seu próprio eu. Abra-se a novos aprendizados que gerem mudanças e novas perspectivas. Reveja as suas metas para que elas sejam realistas e permitam que você encontre seu próprio tempo, seu melhor lugar no mundo, quer seja ele pessoal ou profissional. Não tenha medo de ser diferente do senso comum, aí pode estar a chave para seu sucesso.

Agora, o mais importante. Não culpe ninguém pelas suas derrotas ou fracassos. Isto significa que você delegou a sua vida a terceiros e, sinceramente, este é um risco muito grande a médio, longo prazo. Empodere-se e lute as suas próprias batalhas! Ganhando ou perdendo, você sempre conquistará algo impagável: a sua própria evolução.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Vivendo o luto das demissões

20 dezembro, 2016 às 09:27  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

O ano de 2016 termina diferente! Depois de tantas crises e escândalos nos cenários políticos e econômicos, o que ficou foi a sensação de que vivemos sufocados em problemas que contaminam os círculos sociais e profissionais. Certamente a virada de ano nos remete à esperança, mas não podemos simplesmente fechar os olhos à turbulência que nos aflige e nos paralisa diante de um 2017 não muito animador.

Um dos temas que mais assombraram a população brasileira foram as demissões. Até mesmo as organizações mais estáveis sofreram o impacto da crise e repensaram fortemente suas estratégias, o que afetou diretamente a força de trabalho. O que todos esquecem é que, atrás de cada demissão, existe um significado simbólico que é diferente para cada indivíduo. Além disso, existe o reflexo para aqueles que permaneceram na organização, mas nem por isso conseguem conservar seu controle emocional e dificilmente mantêm um clima organizacional saudável.

Vamos então refletir um pouco sobre o significado da demissão. Independente do motivo, o processo de desligamento nunca é confortável para os envolvidos. É uma ruptura de um relacionamento que, invariavelmente, condiciona a vida do indivíduo como um todo. O luto da demissão começa logo no primeiro dia, quando os horários, as atividades e os objetivos tornam-se inexistentes. A pessoa percebe que boa parte da sua existência estava destinada à organização onde estava inserida. Até mesmo sua vida pessoal parece não funcionar mais da mesma forma.

Vivenciar o luto é necessário, imprescindível para continuar. Analisar a si mesmo, principalmente no sentido de reconhecer a sua existência, os seus valores, as suas competências e conhecimentos de tal forma que se torna possível criar novas alternativas. Uma boa reflexão pode inclusive promover cenários profissionais mais saudáveis, atuação profissional mais consciente e percepção de realização pessoal e profissional. O importante é entender que sim, trabalhar é importante, mas muitas vezes não damos o nosso melhor ou não nos realizamos verdadeiramente porque não estamos no lugar certo. Que tal aproveitar este luto para nascer aquele profissional que você sempre quis ser?

Outra dica valiosa, aprendida ao longo de 2016: não espere pelos outros, não espere o mercado melhorar, nem tampouco as oportunidades surgirem, faça você, por você e para você! Demitido ou não, é momento de dar o seu melhor, de demonstrar seu potencial e fazer acontecer.

Um feliz ano novo e boas festas!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

Sobre a boa forma de disputar

7 dezembro, 2016 às 08:51  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Jelson Oliveira

No início do seu “poema didático” O trabalho e os dias, uma das obras mais importantes da literatura universal, Hesíodo apresenta duas formas de disputa (ou de guerra) por meio da boa e da má-Éris, a deusa da luta. O contexto da obra é muito claro: Hesíodo dedica os 828 versos desse livro ao seu irmão Perses, com quem mantinha uma querela em relação à distribuição desigual da herança paterna. O pensamento nasce no contexto existencial de uma dor diante da relação com seu irmão.

Hesíodo começa aclamando Zeus como a divindade diante da qual “homens mortais ficam igualmente sem fama e famosos”, já que ele “facilmente fortalece”, mas também “facilmente os fortes esmaga”, diminui arrogantes e pretensiosos, exalta humildes como bem entender (uso aqui a tradução de Alessandro Rolim de Moura; Curitiba, PR: Segesta, 2012, que está disponível na internet). O sentido do verso inicial é claro: humanos, deixem de bobagem, Zeus está acima das vossas vãs disputas! É no terreno humano, contudo, que os dois tipos de Lutas estão situados, com ânimos diversos. Éris, afinal, na sua face dupla, representa os impulsos que são nossos e que estão por aí, em todos os ambientes onde somos… humanos. Uma de suas faces é louvável; a outra merece censura.

A má-Éris promove a guerra maldita e a disputa cruel, que anula a alteridade, que pretende aniquilar o inimigo e que, por isso, espalha terror e infelicidade sobre os terrenos. Dela vem a noite escura, o desarranjo das geografias, as piores depressões humanas, entre as quais está, para o camponês-poeta, a recusa do trabalho: o mau lutador, aquele que se deixa levar pela má-Éris, ao invés de trabalhar para alcançar as benesses do sucesso alheio, prefere o recurso da inveja, da maledicência, da diminuição do outro, da desvalorização do seu esforço. Perses, o irmão de Hesíodo, ao invés de trabalhar passa os dias enciumado e invejoso – Hesíodo o repreende por isso. Perses é aquele que “sente falta de trabalho ao olhar para outro que, rico, apressa-se a arar, plantar e administrar bem sua casa”. Perses passa os dias em litígios e discursos insuficientes, quando poderia, simplesmente, empenhar-se também ele, como “um vizinho procura igualar o outro”. A má-Éris se manifesta nesse agricultor que passa na roça do vizinho, vê as lavouras crescendo, as laranjeiras em flor, as vacas com leite, as crianças alegres no quintal e, por causa disso, sofre, e sofrendo, volta para casa e acende uma vela para que os deuses enviem uma tempestade que arrase plantações, seque úberes e quebre pernas de criancinhas indefesas. No final, o mau-lutador faz mal para a sociedade ao redor, porque seu desejo é sempre uma força negativa de destruição e seu esforço leva ao rebaixamento das forças vitais e ao nivelamento por baixo de todas as iniciativas que poderiam contribuir para o bem do grupo ou da sociedade. Quem trabalha com ele, quem faz divisa com suas cercas, quem se aproxima da sua vizinhança sofre o mau-hálito de sua inveja esnobe que seca tudo ao redor. Perto de gente assim, todos desanimamos, porque o elogio e o reconhecimento são o melhor elixir da vida social. E, sinceramente, eles não custam nada, não é mesmo?

Por isso, Hesíodo evoca uma outra forma de guerrear, pela qual a sociedade se “apressa em alcançar a fartura”: “o oleiro irrita-se com o oleiro, o carpinteiro com o carpinteiro; o mendigo inveja ao mendigo, o poeta ao poeta”. Mas essa irritação e essa inveja, própria de nossos atos (os gregos, em geral, não têm medo de reconhecer o que é próprio do humano), não precisam necessariamente levar ao desejo de aniquilação do outro. Ao contrário, o sucesso alheio deve ser incentivo para o nosso próprio trabalho. Se alguém está se saindo melhor do que eu, se alguém tem alcançado o que eu desejo, se as lavouras de meu vizinho andam mais produtivas do que as minhas, ao invés de desejar pragas e tempestades, talvez fosse mais interessante que eu me perguntasse o que eu deveria fazer para alcançar os mesmos índices. A inveja, nesse caso, pode ser uma boa energia, capaz de alavancar o sucesso não só dos indivíduos, mas de um grupo ou de uma comunidade, porque, no final, todos ganham com a boa-Éris fazendo da força do inimigo não um motivo de desavença, mas um impulso para o próprio êxito. Os gregos, não à toa, inventaram as olimpíadas para dar vazão à boa-Éris.

Nietzsche parece ter entendido muito bem a lição de Hesíodo e aproveitado dela na sua filosofia da amizade. Para o filósofo alemão, para sermos bons amigos precisamos aprender a ser, primeiro, bons inimigos, ou seja, lutar com boa-Éris. “Se se quiser ter um amigo”, escreveu Nietzsche no seu Assim Falou Zaratustra, “é preciso também guerrear por ele; e para guerrear é mister poder ser inimigo”. Porque não aprendemos a guerrear, também não sabemos amar. Com Hesíodo e com Nietzsche, não só entendemos que o amor não é o contrário do ódio, que não há nada de mal em invejar e disputar, mas sobretudo, que precisamos aprender a lidar com esses impulsos, tirando-lhes proveito.

PS: quer ler mais? Meu livro Para uma ética da amizade em Friedrich Nietzsche é um mergulho no assunto.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

As lições de 2016 para o Brasil e os brasileiros

29 novembro, 2016 às 16:53  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Lindomar Wessler Boneti 

O ano de 2016 vai ficar na história na cabeça dos brasileiros por parecer mais longo que o normal. Impossível acreditar que em 365 dias tenham ocorridos tantos fatos envolvendo o mundo político, econômico e social, trazendo surpresas, lições boas e indigestas.

Na verdade, viu-se um processo contraditório, se de um lado contamos com uma mídia nada neutra, que em nome da livre expressão fabrica notícias do estilo mercadoria de venda, fomentando assim uma opinião pública imediatista e ideologizada, de outro lado algo bom ocorreu: o surgimento no Brasil de um debate público acerca da essência do Ser brasileiro, do Ser político, empresário, e, por que não, do próprio Ser telespectador de televisão. E algumas lições amargas se evidenciam.

A primeira destas diz respeito à pergunta: quem somos nós brasileiros? Certamente que a resposta se encontra, ao menos um pouquinho dela, relacionada à nossa história. Herdeiros culturais da Península Ibérica, cultuamos o clientelismo, o gosto de termos um servo do lado para nos servir, o levar vantagem individualmente independentemente do coletivo, a cultura de colonizados, etc. A leitura do livro “Raízes do Brasil” de Sergio Buarque de Holanda e “A Revolução Burguesa no Brasil” de Florestan Fernandes, ajudam compreender esta nossa herança histórica. Estes traços culturais constituem característica da elite política e econômica brasileira. Esta não se conforma de se ver fora da hegemonia do controle e usufruto do Estado e demais instituições políticas.

Séculos e séculos se passaram em que esta cultura clientelista e de levar vantagens individuais fez parte do mundo político, desde uma prefeitura de uma cidade mais longínqua às “bagunças” de Brasília. Mesmo considerando que neste contexto histórico muitos políticos, individualmente, não compactuaram com esta cultura clientelista, este sistema se constitui modelo institucional. Como exemplo, somente exemplo, podemos citar as eternas aposentadorias milionárias de políticos e integrantes do judiciário e seus familiares.

O modelo clientelista de levar vantagens individuais e de apropriação ilegal de recursos públicos por políticos, quando no posto das administrações públicas, passou a se constituir, historicamente, como se fosse um “pacto” entre os “atores” no sentido de manter a sujeira debaixo do tapete, entendendo-se isto como “normal”.

Mas, eis que algo novo acontece nos últimos anos e especialmente em 2016. Em uma “quebra de braços” entre o mundo produtivo no contexto internacional, interessado na capitalização dos serviços públicos, e os grupos políticos considerados de “esquerda”, o pacto é quebrado e o tapete parcialmente levantado. Com a participação da mídia comprometida ergue-se apenas um canto do tapete, mas o cheiro da sujeira inunda o ambiente trazendo mal-estar aos convivas. Mesmo para os telespectadores menos críticos uma constatação se construiu: a sujeira não se limita a um canto do tapete, necessário se faz o remover. Mas, outra questão permanece: será que o patrão de sapatos lustrados comprados em Miami, sentado historicamente sobre este tapete sujo, vai se mover permitindo assim um “lava tudo”?

No contexto deste debate público outra lição amarga aflorou: o povo brasileiro não é assim tão gentil no contexto das suas diferenças. Algo perigoso ocorre com recentes manifestações e fortalecimento de grupos sociais conservadores opondo-se a políticas de direitos humanos de respeito às desigualdades e singularidades sociais. Na condição de um povo culturalmente colonizado, repete-se aqui, com crescimento vertiginoso nos últimos anos, por exemplo, uma postura policial de agressão em relação ao jovem negro ou pobre das periferias urbanas.

* Lindomar Wessler Boneti é professor titular na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) no curso de Ciências Sociais e no mestrado em Direitos Humanos e Políticas Públicas

O mal do século é a pressa

8 novembro, 2016 às 10:11  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Jelson Oliveira

Desde quando o carro foi inventado, a velocidade deixou de ser um mero desejo e passou a ser formulada como ideologia central do mundo moderno, logo apropriada pelo cenário industrial da produção, do horário, do consumo, da superestimulação das energias e da exploração radical dos corpos. Cada vez mais a velocidade contrapõe o homem aos ritmos naturais e institui um novo modo de ser a todos aqueles que querem, de alguma forma, participar do mundo moderno, orientado pela ideia de progresso ilimitado e insaciável. A velocidade, como fato, criou a pressa como costume. Todos agimos como se estivéssemos sempre atrasados, correndo como baratas-tontas atrás do que o tempo do relógio nos impediu de fazer porque era humanamente impossível. Esquecendo esse “humanamente”, queremos transformar o impossível por meio do incentivo desmesurado daquilo que Alex Williams e Nick Srnicek chamaram de aceleracionismo. A partir da argumentação perspicaz dos autores do “Manifesto Aceleracionista”, é fácil entender porque o mundo contemporâneo transformou a pressa em um dos seus elementos mais centrais. Afinal, é preciso acelerar o crescimento para escapar do mal-estar de ser quem somos.

Todos precisamos acelerar o ritmo, fazer mais, criar o excesso, desbravar mundos impossíveis com a força de titãs. Tudo em nome do progresso e do desenvolvimento agora revestidos com o dossel da aceleração, patrocinada pela tecnologia que nos torna submetidos aos estímulos e atentos aos padrões de resposta exigidos. Colocamo-nos contra tudo o que é natural, para vivermos a pressa dos meios de comunicação e das redes sociais que nos tornam absolutamente disponíveis a todo tempo, em presente absoluto. Sorridentes, estamos à disposição dos anúncios e das ofertas que nos obrigam a correr contra o tempo para comprar o ingresso do show ou o modelo mais recente de um telefone celular (o que significa na prática enfrentar filas quilométricas ou acordar de madrugada para encomendar um produto antes da loja abrir). Quase nos matamos para não perder o trem que está fechando as portas, embora saibamos que o próximo demorará não mais do que dois minutos. Corremos no trânsito, atravessados pela gana de animais selvagens em busca de suas presas, lemos um livro precipitados nas últimas páginas, escrevemos antes de pensar, publicamos antes de entender, transamos sem carinho, copulamos antes de gostar, gozamos antes de amar, fotografamos antes de contemplar, lemos no google em vez de abrir o livro que está à nossa frente, produzimos artificialmente de flores a porcos, acelerando seu crescimento com hormônios, depois cozinhamos à pressão, comemos fast food descongelado no microondas, pulamos de galho em galho, sem nunca estarmos disponíveis para nós próprios.

Quando tudo é urgência, a pressa nos coloca em estado de permanente ocupação e de permanente excitação, e nos enche de apetite. Seu irmão gêmeo, contudo, é o cansaço, a fraqueza da fome insaciada, a frustração da bulimia. Vivemos com sono, mal-pagos, doentes daquele tempo que nunca termina: “como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época.”, escreve Eliane Brum, no seu provocante Exaustos-e-correndo-e-dopados - na sociedade do desempenho, conseguimos a façanha de abrigar o senhor e o escravo no mesmo corpo. Exaustos, corremos dopados pelas drogas que consertam o corpo até o próximo nocaute, cujo golpe virá logo depois do anterior. Dopados por promessas de progresso, mais dinheiro, mais prazer e bem-estar, mas, sobretudo, por drogas de desempenho, energéticos, viagras e outros incentivadores de performance.

Precisamos aprender a conter a pressa. Conversando com um amigo (obrigado Andrei!) sobre o assunto, ele me indicou o excelente livro The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Academy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber. Nessa obra as autoras analisam o problema da aceleração do ponto de vista do crescente processo de corporatização das universidades, ou seja, da sua transformação em uma empresa orientada por metas, lucros e rankings. Maggie e Barbara examinam como essa conjuntura afeta o professor, agora colocado a serviço do alcance dos objetivos da empresa universitária. Elas chegam à conclusão de que há um evidente processo de redução da qualidade de vida e do gosto pelo trabalho, substituídos pela pressa e suas consequências nefastas: a solidão, a competição e a quebra dos vínculos de amizade e de cortesia no mundo do trabalho. O livro defende uma mudança nessa lógica, sugerindo atenção a medidas que aliviem o stress, preservem a educação humanística e resistam à corporatização institucional. O estudo nos faz pensar para que serve uma universidade (ou, no geral, para que serve uma empresa). A conclusão é que ela também serve para que a vida de seus empregados seja mais feliz. Se as autoras tiverem razão, o conselho vale para a vida como um todo: Slowly, please! Avisem o síndico que a pressa continua sendo inimiga da perfeição.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

Quarenta, a idade da prudência

18 outubro, 2016 às 13:55  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Jelson Oliveira

Quando Ticiano pintou a sua Alegoria da Prudência, ele tinha mais de setenta anos e, ao que se presume, ainda viveria mais dezesseis. Escolheu a prudência como virtude central da idade que era dele, seguindo os conselhos de Platão, Aristóteles e Santo Tomás de Aquino. A palavra vem do latim, providere, que significa prever, ou seja, detectar os perigos e evitá-los com antecedência. Seu contrário é a palpitação arriscada, o entusiasmo temerário, o descuido e a leviandade. A prudência inspira o cuidado, a condição de olhar para o tempo sem arrebatamentos ingênuos, a precipitação dos afobados e a negligência dos irresponsáveis. A prudência é irmã gêmea da moderação, da sensatez, da prevenção e da reflexão. Seu caminho, por isso, é o da verdade.

Tudo isso está no quadro da National Gallery de Londres, que eu visitei ontem. A pintura, contudo, não é sobre a velhice. Seu tema são as idades do homem, um tema muito comum na história da pintura, que o próprio Ticiano pintou em outro quadro que está também no mesmo museu londrino. Alegoria da prudência é uma espécie de autorretrato. Acima, três cabeças representam a velhice, a maturidade e a juventude. A primeira é o próprio pintor; a segunda, seu filho Orazio; a terceira, seu sobrinho Marco Vecellio. A primeira está virada para a esquerda, como se olhasse para o passado, para a direção contrária ao olhar do expectador diante do quadro. A segunda, está virada para frente, para o presente de quem olha e pode, ao mesmo tempo, ser olhado pela figura central, embora ela desvie o olhar. A terceira olha para a direita, para o futuro de quem contempla o quadro. Os tons de luminosidade também variam da esquerda para a direita: a velhice está quase no escuro enquanto a juventude está toda iluminada. A direção dos olhares também é proposital: o velho olha para baixo, o adulto para frente, o jovem para cima.

Abaixo das cabeças humanas, aparecem três cabeças animais: o lobo, o leão e o cachorro. O lobo, em muitas culturas, é o animal sábio, precavido, atento, intuitivo e solitário – talvez isso tenha inspirado Herman Hesse a batizar o seu personagem misantropo de O lobo da estepe. Ele é o animal da noite. O leão é o animal da caça, da inteligência e da força. Ele é solar e simboliza o orgulho, representado pela sua realeza entre os animais. O cachorro, na antiguidade, representava a vida eterna (ou pelo menos a crença nela, típica da juventude, quando a gente acha que o tempo não nos corrói): o mais famoso deles era Cérbero, o guardião do portão do reino de Hades. Para que a prudência seja exercida, é preciso dessas três atitudes psicológicas: a memória do lobo, para lembrar das experiências passadas; a inteligência do leão, que julga o presente com eficácia; e a previdência do cão, que antecipa o futuro. Os gregos tinham especial respeito pela cabeça dos animais. Como parte de seu interesse renascentista, por isso, Ticiano recupera no seu quadro o tema de uma escultura dos atributos de Sérapis, uma das divindades centrais do Egito helenístico, à qual estava associado o dístico “modius”, ou seja, medida: um monstro tricéfalo, sobre o qual se enrola uma serpente e cujas cabeças são as mesmas representadas por Ticiano: um cão, um lobo e um leão.

Ticiano sabia o que estava pintando. E isso fica muito claro se prestamos atenção à frase em latim, quase apagada, aposta sobre as seis cabeças, como um dossel de sabedoria: EX PRAETERITO, PRAESENS PRUDENTER AGIT, NE FUTURA ACTIONE DETURPET – A partir da experiência do passado, aja no presente de forma prudente, para não estragar as ações futuras. Agir no presente com a experiência acumulada, de modo a projetar um futuro de forma adequada: eis o objetivo central da prudência e eis porque essa virtude é tão central em quase todos os sistemas éticos conhecidos. Ela tem a ver com a maturidade de quem se deixou experimentar e sabe melhor quando e pelo que vale a pena se arriscar. A prudência, por isso, não é inação e está longe de evocar qualquer tipo de resignação. Ao contrário, ela evoca o vigor e a atitude, o dinamismo e a vivacidade de quem já aprendeu com a vida e, acumulando cicatrizes, sabe desenhar com as próprias mãos o resto de futuro que ainda lhe cabe.

Não poderia ser outra a virtude-símbolo da maturidade que chega aos quarenta, essa idade da prontidão. A prudência diz: seja cuidadoso, mas realize; seja diligente e não perca tempo, mas não se desespere; tenha iniciativa, mas não se deixe atropelar pelo próprio entusiasmo; tenha operosidade e presteza, mas não pense que você pode fazer tudo. Agora que já estou nos quarenta, quero levar o quadro de Ticiano para casa e meditar demorado sobre o que disse Condorcet: “conservemos pela prudência o que adquirimos pelo entusiasmo”. Enquanto isso vou ouvir Bethânia de novo, cantando quatro vezes o seu Tempo: “eu estou só começando!”

PS: dedico esse texto à minha amiga-irmã, Cida Borges, que hoje faz aniversário.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

O desafio de estar de bem consigo mesmo

13 outubro, 2016 às 14:51  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Daniella Forster

Diante de tantos padrões, conceitos e preconceitos que determinam quem somos, como deveríamos agir e reagir na vida, é automático nos cobrarmos, nos sobrecarregamos, nos afetarmos emocionalmente de tal forma que é extremamente difícil ficarmos de bem com nosso EU.

O fato é que não podemos ser tão esponjas do mundo, absorvendo tudo o que é dito ou ditado. Não podemos ser 100% em tudo. Temos pontos fortes, onde sobressaímos, nos destacamos e somos reconhecidos. Mas também temos nossas deficiências, nossas questões que requerem novos aprendizados, paradas reflexivas, dar dois passos para trás para conseguirmos seguir em frente. Isto não é demérito. Errar faz parte, dizer “não sei” ou “não dou conta” exige muita coragem e, principalmente, disposição para mudar.

Para você estar de bem consigo mesmo, o referencial tem que ser você. Revistas, padrões e espelhos podem até ser considerados para reflexão, ponderação e análise, mas de forma alguma devem representar verdade absoluta e nem tampouco padronizar a sua identidade ou impor o seu desenvolvimento.

Ao escolher sua profissão, seu trabalho, a empresa onde pretende atuar o mesmo preceito é válido. Não há um único conceito, um cargo ou uma estrutura organizacional que representa o ideal para qualquer pessoa. A realização pessoal/profissional pressupõe que as suas escolhas e decisões incorporem realidades que te gerem sustentabilidade em seu projeto.

Viver a vida de outras pessoas e correr atrás de sonhos que não são seus não trará nenhum saldo positivo. Você chegará a um ponto de clara compreensão de que está forçando uma situação, ou de que está desconfortável diante das suas metas e objetivos e, pior, que está estressado ou desmotivado em relação a visão de futuro.

Então fica a dica: aproveite o melhor de si mesmo, valorize a sua identidade, crie a sua própria marca e dissemine ao mundo com a sua própria voz. Se você não fizer isto por você, ninguém o fará! Na essência, você só será verdadeiramente aceito pelos outros quando aceitar a si mesmo!

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.