A arte de escrever um trabalho acadêmico: quatro confissões e duas advertências

15 agosto, 2017 às 17:05  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Na vida acadêmica, já vi muito espírito atormentado com a obrigação de escrever. Trabalhos, monografias, dissertações, teses e artigos científicos costumam tirar o sono de muita gente, arrefecer os ânimos nas horas finais, desiludir, deprimir e provocar feridas que, de perto, parecem incuráveis. À dor e ao sofrimento, não raro, segue-se um alívio extraordinário, embora na maior parte das vezes ele venha acompanhado de uma frustração graúda: o trabalho, afinal, não saiu conforme a qualidade que se pretendia e, consequentemente, não recebeu nota e louvores esperados.

Eu falo por experiência, acreditem! E é por isso que hoje escrevo aos atormentados. E o faço inspirado pelo instigante livro do meu querido amigo Clovis Ultramari, Como não escrever uma tese e dos diálogos que estabelecemos com outros colegas em torno dessa obra. Vou fazer quatro confissões e duas advertências. Depois dos quarenta, a gente começa a usar subterfúgios e perde o medo de parecer pedante. Desculpe o escritor. Se ajudar, leia até o fim. Se não, ignore – ou melhor, quem sabe, escreva a sua própria lista.

Quatro confissões

 

  1. Toda a minha escrita nasceu de uma inveja: “eu quero escrever como esse cara!” A primeira experiência seriamente invejosa, eu a tive aos dezessete anos, quando li um texto de três páginas, datilografado em papel de seda, anonimamente deixado no meio de um livro que tomei emprestado em uma biblioteca de Belo Horizonte. Li aquilo estupefato, como quem toma uma das decisões mais sérias da vida, deliberei para mim mesmo: eu quero escrever assim. Tudo o que eu fiz a partir daí no campo da escrita segue esse propósito. Leio vorazmente para alimentar essa inveja insaciável. Leio e sublinho (a caneta) as frases e as passagens que, nas obras alheias, eu gostaria que fossem minhas. A inveja, enfatizou Hesíodo, também pode ser uma energia boa.
  2. Toda a minha escrita é fruto de uma falta: como a inveja é coisa de fracos (ensina a boa moral), eu logo me dei conta que ela era produto da minha debilidade. “Eu não não sei escrever, por isso escrevo!” Escrevo porque a arte da escrita me falta. Caso contrário, não escreveria. Vale aqui a máxima de Aristóteles: “a excelência não é um ato, mas um hábito”. É preciso praticá-la. Reconhecer a própria míngua é o que me empurra para o computador como quem vai, de boca seca, à abundância da fonte.
  3. Toda a minha escrita nasceu de meus encontros: eu acho, sinceramente, que nunca escrevi uma linha que não tenha sido antes dita em voz alta, em uma mesa de bar, em um congresso, em uma conversa de corredor. O diálogo fomenta a escrita como nada. É ele o fertilizante do pensamento, o impulso do texto, a provocação da palavra. Mas eu deveria falar também dos meus desencontros, das disputas e das separações, das palavras disruptivas que, sendo ultraje, também foram estímulo e incitamento. Afinal, como sugeriu Plutarco, é preciso tirar proveito dos nossos inimigos.
  4. Toda a minha escrita é uma vontade de perversão: ao escrever, sempre quis perverter o que tinha lido, o que tinha ouvido da boca de um amigo, o que disseram os grandes pensadores, o que foi festejado como verdadeiro, moralmente correto ou inquestionavelmente belo. Falo de conteúdos e também de estilos. Não há nenhum propósito que me guie a não ser esse do avesso, do inverso, do oposto. Quero as objeções. A lista dos infiéis é a minha preferida, com todas as suas contradições e contravenções. Obviamente, a tarefa é árdua e pretensiosa. Inalcançável, permanece no geral recaída no terreno da intenção. Mas é aí que eu espero que um dia ela floresça e venha enfeitar as minhas páginas.

 

Duas advertências

  1. Não acredite demais em você: não é só a unanimidade que é burra, como sugeriu Nelson Rodrigues. A pior burrice é aquela que nos fecha na nossa própria ignorância. A lição veio de Sócrates e a sua festejada máxima “só sei que nada sei”. Se em algum lugar essa frase faz sentido, é na vida acadêmica. Tem sempre alguém que sabe mais do que você ou que sabe diferente de você. É preciso aceitar essa realidade para aprender a escrever com desenvoltura e naturalidade. O contrário será obstáculo e muro alto. Na escrita, a gente revela não o que sabe, mas o quanto não sabe. Escrever, sugeriu Nietzsche, é uma forma de esconderijo. E essa é a diversão da coisa. Não espere elogios. Prefira as acusações e as flechadas. Elas doem, é certo. Mas também fortalecem.
  2. Não acredite em milagres. A vida de um escritor é feita com sangue, olho ardente, dor nas costas, suor e lágrimas, madrugadas em claro, cancelamento de viagens, sábados e domingos inteiros sobre páginas incompreensíveis, incompreendidas. Rascunhos e mais rascunhos. Páginas e páginas inúteis. Arquivos perdidos. Vida deteriorada, procrastinada, suspensa. Afinal, quem não for capaz de deixar a sua vida e seguir a palavra, não chegará a lugar nenhum. Escrever é sacrifício. E os sacrifícios fazem parte da vida. Não esqueça: pedra que rola não cria limo.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

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