A ditadura do bem-estar

3 outubro, 2017 às 16:53  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

De forma mais ou menos explícita, mais ou menos virtual, mais ou menos intensa, aparentemente, vivemos a “Era da Ditadura do Bem-Estar”. A obrigatoriedade de sempre sorrir, demonstrar alegria, felicidade, prazer e paz, mesmo quando tudo parece desmoronar, corrói a sociedade moderna e transforma as pessoas mais realistas em amargas, problemáticas e até mesmo doentes.

Podemos não perceber, mas há uma necessidade psicológica para vivermos lutas, perdas e dificuldades através de sentimentos compatíveis. A dor e sentimentos negativos geram reflexão, análise, maturidade, decisão e superação. Negligenciar este lado real da vida como ela é gera superficialidade e ilusão. Gera foco na aparência e não na essência. Por isso temos nas redes sociais constantes manifestações de bem-estar, senão exclusivas realidades fabricadas, que apenas aumentam os números de “likes”.

Neste sentido, a ditadura do bem-estar parece estar camuflada no inconsciente coletivo. Entretanto, aumenta cada vez mais o número de crianças e jovens que se desconectam do mundo real e que se abraçam totalmente ao mundo ilusório. Problemas inexistem ou são magicamente resolvidos. Quando as coisas parecem não estar no caminho, sempre há como reiniciar e apagar o que não deu certo nas tentativas anteriores. Não se erra, apenas se “compra” uma nova vida.

Por falar em “comprar”, existe um outro efeito da ditadura do bem-estar. Se você viver simplesmente todos os dias da sua vida economizando, cumprindo seu trabalho, fazendo pelos seus familiares, nada disto é popular, nem tampouco desejado pelos outros. Não é bem-estar. Nenhum destes atos, da vida como ela é, aparecem em publicações ou são apreciados como lutas diárias que merecem aplausos e compartilhamentos. São apenas manifestações banais, de pessoas menos importantes. Mas vamos combinar que a simplicidade da vida pode trazer alegrias impagáveis.

Muitas histórias de pessoas exemplares pelas suas superações de vida, de batalhas para estudar, entrar em uma universidade, pagar seus estudos ou voltar a andar/falar são colocadas em abas secundárias. Talvez se esquecidas, deixam de gerar o incômodo fundamental de que existe sim um lado duro, amargo e difícil que exige confronto, embate, determinação e aprender que, muitos “nãos” são apresentados para que saibamos valorizar o suado “sim”.

Chegamos então ao maior incentivador da ditadura do bem-estar: o EGO. Este que nos escraviza, nos faz imaginar que sem erros somos pessoas melhores. Nos faz acreditar que sem rejeições somos amados. Nos cria a ilusão que a maior vitória na vida é deixar os outros para trás e ser o primeiro lugar em qualquer competição. Aliás, o EGO nos aprisiona no desejo. O EGO, que sempre está certo, é o perfeito, o realizado no trabalho e na carreira, a pessoa com a aparência perfeita, que faz parte do Todo, que está ïn” ou simplesmente na Moda.

Chegamos então a uma conclusão inevitável: em nossas vidas, o maior desafio é o equilíbrio. É poder ser otimista, mas realista. É administrar a falta com a garra. É absorver a rejeição com força para não desabar. É enfrentar os medos, no tempo certo, um de cada vez. Mas ninguém chega ao equilíbrio “fingindo” para si mesmo, nem tampouco se iludindo ou simplesmente criando outra realidade. 

Façamos então do nosso EGO a nossa saída. Busquemos nos conhecer e reconhecer, nos aperfeiçoar, mas também nos aceitarmos dentro de limites. Podemos sim estar mal, não conseguir dar conta de tudo, não estar 100% produtivo, não estar em uma fase boa para novas ideias, para conversarmos ou nos relacionarmos. O que precisamos é, diante disto tudo, entender tais dificuldades e transforma-las em aprendizados, estratégias, alternativas. Porque é disto que a vida é feita.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

1 Comentários

Uma ideia sobre “A ditadura do bem-estar

  1. MILTON DOS SANTOS TANAN

    Ótimo texto, transformar as dificuldades em aprendizado é o que nos faz crescer como pessoa e nos permitir não cometer os mesmos erros.

    Responder

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