A favor de Curitiba, contra os estereótipos

29 março, 2016 às 15:19  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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* Jelson Oliveira

Há quem goste de morar em Curitiba por causa da curitibanice de seus habitantes, glosada em verso, prosa, colibris e jacarés. E há quem goste do clima instável e o chororô de todo domingo chuvoso, sempre seguido por uma segunda ensolarada. Tudo estatisticamente planejado para não passearmos no Barigui e nem pensar em descer a Graciosa. Há quem festeje – saudoso – os tantos parques e os tubos de vidro onde se amassam os moradores indo pra firma. Há quem serpenteie pelo centro nas curtas e adversas ciclovias como se desse a volta ao mundo. Há quem pense, de fato, que o mundo é só o centro. E que Curitiba mesmo, começa no Batel e termina no Juvevê, excluídos muitos becos do centro. O resto é intrusão.

Há quem festeje Curitiba como uma redoma. Falam (justamente) de seus poetas, pintores e escultores sem nenhum interesse pela política cultural da cidade além-muros. Celebram suas antigas gralhas e suas (poucas) araucárias como símbolos ecológicos, sem nenhuma preocupação com os problemas ambientais que nos rondam, que vão da poluição do Belém ao excesso dos carros. Exaltam palacetes antigos sem pensar nos que vegetam aos milhares sem teto ao redor da cúpula imaginária. E odeiam a Vila das Torres e suas pobrezas, no caminho entre Curitiba e Miami. E xingam os carrinheiros sem notar que ali, entre crianças famintas e embrulhos dos ovos da última páscoa, seguem seus próprios dejetos. Escoltam seus destinos sem reparar em quem está estacado na esquina, sem ter para onde ir.

Uma cidade é um campo de desafios. Vencer os próprios estereótipos é o primeiro deles. Curitiba devia se desfazer das ficções que criou para si mesma. Curitiba não é quase nada do que dizem que ela seja. Nem os curitibanos. Para começar, conte nos dedos quem nasceu aqui, tomando leite quente. Somos uma legião imaginária de desgarrados, lutando para vencer a cidade que escolhemos para viver. Sem querer ofender: muito curitibano também é uma ficção.

Estereótipos são pressupostos que facilmente viram preconceito. Mas que, sendo impressões, se desfazem rapidamente quando o olhar se demora até que a atenção produza reflexão. Incutida na cabeça de sua gente, Curitiba vive cheia de imprecisões. Imagens distorcidas, deturpadas visões, projeções fictícias.

Não. Não somos nenhum exemplo em ecologia. Não, nosso transporte não é perfeito. Não, não somos os espectadores mais exigentes porque mais qualificados. Nosso lixo não é (todo) reciclado. E nossa república está longe de ser um paraíso na terra (para falar do novo mito que cresce desvairado). Aqui favelas, violência, pobreza, desnutrição e educação de péssima qualidade são produtos do estereótipo que favoreceu, nas últimas décadas, ondas migratórias para a pretensa capital de primeiro mundo, que incluía emprego fácil nas montadoras e ótima qualidade de vida à beira de seus parques. Nos bolsões das nossas periferias, contudo, é fácil se deparar com as catástrofes dessa ficção. Elas não são apenas falhas urbanísticas, mas consequências desastrosas e eticamente condenáveis de quem teima em viver na redoma.

Empelotada no vaso de sua própria quimera, Curitiba quer respirar. Para isso, não bastam as maquiagens e os penduricalhos estéticos. A gente precisa reeducar o olhar. Tirar as vendas. Limpar os escárnios. Remover as ficções. Livrar-se dos estereótipos pode ser um primeiro passo para comemorarmos Curitiba como ela é agora e como ela deve ser no futuro.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

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