As ciências humanas: entre o descrédito e a resistência

10 outubro, 2017 às 15:43  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

pensamento

 

Jelson Oliveira

Desde quando a modernidade recusou a antiga e honorável separação entre teoria e prática, instalou-se na cultura ocidental um conflito que permanece subjacente aos modelos educacionais de nossos dias e que muitos teóricos (lembro especificamente de Martha Nussbaum) têm chamado de “crise das humanidades”. Nesse cenário, cidadãos comuns e homens de estado não demoram em tomar a palavra para acusar o conhecimento puro de insuficiente e desnecessário. O resultado é que as ciências humanas passam a ser recusadas em nome das utilidades concretas do cotidiano, obra de interesses políticos, ideológicos e mercantis que gerenciam a vida das sociedades contemporâneas. Nas palavras do filósofo alemão Hans Jonas, em termos educacionais, “trocou-se nobreza por utilidade”.

Segundo esse modelo, ao invés de empenhar-se no desenvolvimento pleno das potencialidades humanas, a educação deve conduzir o saber ao âmbito do fazer, orientado agora pela sanha tecnológica e pelo regime econômico que encaminha nossas energias para a geração de lucro e para a produção de coisas que ocupam diariamente as prateleiras de nossos supermercados como bens indispensáveis. Revestidos pelo epíteto recomendatório do “novo”, tais produtos induzem ao consumismo exacerbado que se retroalimenta, alheio às suas consequências nefastas ao meio ambiente. O resultado é que o conhecimento perdeu a sua raiz reflexiva e seu potencial de realização da essência humana, reduzindo-se a uma atividade operacional que avança ininterruptamente para todas as direções possíveis, incapaz de avaliar eticamente os danos possíveis ou prováveis. Educamos o homo faber para substituir o homo sapiens: não mais pensadores, mas fazedores.

Qualquer estudante de ensino médio hoje no Brasil entende o que é isso: vive-se a pressão pela competência, a pressa pelo sucesso profissional, a imposição de valores como inovação e empreendedorismo, eles mesmos impulsos meramente econômico-financeiros de vidas medianas empobrecidas e entediadas. Esses jovens, por isso, aprendem desde cedo que as humanidades não têm eficácia e utilidade, a não ser como refrigério psicológico em algum momento de stress ou como algum tipo de luxo excêntrico de horas vagas.

Isso, todavia, não é tudo. As humanidades não são apenas inúteis no atual cenário civilizatório. Elas são também indesejadas. Muitos de meus colegas professores, além de ensinarem disciplinas como história, filosofia e sociologia, são obrigados também a defendê-las dos ataques vindos de todos os lados, inclusive de altas autoridades, que têm o péssimo hábito de discutir assuntos educacionais na ausência de especialistas, substituídos por gente de todo tipo, de atores pornôs a pastores fundamentalistas. Em sala de aula, já vi estudantes repetirem as mesmas incongruências, na maioria dos casos pautados em opiniões sem argumentos – a forma mais perigosa de opinar – que fazem a ignorância se alastrar como um pernicioso surto.

Ouvindo a palestra do professor Adriano Correia, em evento recente no qual participei em Medellín que tinha como tema justamente o porvir das humanidades nas sociedades ibero-americanas, me dei conta de duas razões que explicam a tal crise que afeta as ciências humanas. A primeira tem a ver com o potencial crítico da área de humanidades; a segunda com seu potencial criativo. Como sugeriu o meu colega, de um lado, as disciplinas da área de humanas costumam trazer à luz os pressupostos e os fundamentos do próprio processo que as teria levado quase à clandestinidade e isso, como se sabe, implica analisar como a educação foi reduzida seja a um negócio lucrativo seja a uma rédea social capaz de manter os possíveis revoltosos na passividade. De outro lado, as humanidades, por seu potencial criativo, incluem as metafísicas, as éticas do futuro, as ilusões literárias, os mundos politicamente possíveis, as utopias e os desejos por revoluções. Nesse caso, elas têm o poder de romper os horizontes fechados aos quais devíamos, enquanto povo, nos submeter. Elas imaginam outras formas de vida que não apenas essa, projetada pelo sistema neoliberal e suas ordenações de produção, consumo e lucro. As humanidades, afinal, nos falam de gentes, ideias e ideais considerados perigosos, na medida em que relativizam as estruturas e quebram a lógica da submissão e da inércia política. Crítico e criativo, o estudante de hoje poderia recusar a censura que lhes querem imputar em nome da ordem e do progresso.

Diante desse cenário, as ciências humanas são ainda mais necessárias e urgentes. A elas cabe reafirmar os valores de uma educação plural, orientada para a afirmação das liberdades e dos direitos, da democracia e da cidadania, do respeito às diferenças e da valorização de metodologias de ensino que promovam a autocrítica, a independência intelectual e a capacidade de transformar a sociedade para melhor, vencendo o nevoeiro que nos atemoriza. Agora, como nunca, cabe às ciências humanas ajudar a sociedade a avaliar os caminhos pelos quais decidiu seguir. Vale sempre lembrar, com Nietzsche: em épocas de epidemia é que os médicos são mais necessários.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

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