Crime e castigo: a crise ética que vem do Congresso Nacional brasileiro

12 dezembro, 2017 às 09:48  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

Dostoievski, que Nietzsche reconheceu como o maior psicólogo da história, por sua capacidade de descrever a alma humana, publicou em 1866, a história de Raskólnikov, um estudante de direito que colocara em xeque a moralidade de seu tempo ao se perguntar porque não poderia assassinar uma velhinha usurária que explorava os habitantes de uma pensão. Depois de muito refletir, a questão, afinal, se apresentou nos seguintes termos: se Napoleão foi responsável pela morte de milhares de pessoas e é tratado como herói, por que ele, Raskólnikov, não poderia matar essa agiota e, com isso, fazer um bem para as vítimas de seus abusos? A pergunta de Dostoivevski em Crime e castigo é uma pergunta ética por excelência: por que não matar quem nos faz mal? Ou, também: por que não matar quando todos matam? Por que não roubar quando todos roubam? Por que não estuprar quando ninguém vai preso?

A onda de abusos que tomou conta da política brasileira, explicitada cotidianamente, parece trazer questões desse tipo à mesa do cidadão comum. Por que não estuprar a minha namorada, se o deputado viperino anunciou que só não estupraria uma colega porque ela não fazia o seu tipo? Por que ser honesto no cotidiano, se os políticos e seus lacaios roubam descaradamente a nação e permanecem impunes? Por que não mentir e iludir, se o presidente da república elegeu esses subterfúgios como regra de conduta? Em resumo: por que atuar eticamente em um país em que ladrões e usurários não só seguem impunes como ascenderam ao poder, fazendo o povo pagar por seus desmandos?

O marido de Cuiabá, que decepou com um facão as mãos da esposa, seguia a mesma lógica. Segue a mesma lógica, também, o agressor que espancou um rapaz homossexual em São Paulo. E é bem provável que a mesma conduta inspire o aumento da violência país afora, dos pequenos aos grandes atos de roubo, abuso e violação aos direitos humanos. Na hora de pagar a conta, na hora de pagar o imposto, na hora de estacionar o carro, na hora de atravessar a rua: parece valer a lei de Gerson que manda tirar vantagem em tudo, embora saibamos sempre, de antemão, que a vida em comum não pode ser construída sobre esses fundamentos, como bem nos lembrou Kant, ao elaborar o seu imperativo categórico: só faça aquilo que você gostaria que virasse lei universal – ou, em outras palavras, só faça aquilo que você gostaria que todos fizessem.

A crise atual brasileira, que nos coloca diante de questões como aquelas formuladas por Dostoievski, é uma crise absolutamente grave. Sua importância e proporção se deve ao fato de a autoridade política, que deveria orientar eticamente as condutas cotidianas, ela mesma é a geradora das práticas criminosas que deveria combater. A crise que normaliza a corrupção e a impunidade é a crise que realmente importa. A crise que seleciona ideologicamente os bons e os maus, de acordo com ideias postiças semeadas sobre o terreno da ignorância e do imediatismo de quem queria tirar x porque x era corrupto, mas cala-se diante da corrupção de y. A crise que tira o pão da mesa de milhares de brasileiros e faz aumentar o preço da energia elétrica e dos combustíveis, tem como raiz primeira o descalabro e a contradição moral de quem dura no poder contando com a lógica do engodo e da infração criminosa mal disfarçada e, com isso, acaba por favorecer as práticas delituosas cotidianas (de pequena ou de grande monta).

Oxalá a pesquisa recente do Datafolha, que mostra que seis em cada dez brasileiros reprova a conduta do atual Congresso Nacional, derive em atitudes sérias de controle dessa gente despudorada e, principalmente, em uma consciência política maior no pleito eleitoral de 2018. Enquanto isso, voltemos a Dostoievski para entender os labirintos da consciência humana e os descalabros que legitimam as atitudes de gente como Raskólnikov.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

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