É preciso plantanizar o ser humano

30 janeiro, 2018 às 14:28  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Jelson Oliveira

O filósofo Jean-Jacques Rousseau, conhecido por ter escrito um dos livros mais importantes da filosofia política moderna, “O Contrato Social”, a certa altura da vida desanimou-se com a humanidade e resolveu se dedicar à botânica. Buscou nas plantas aquilo que não achou no ser humano: uma reconexão com a natureza e consigo mesmo. Tal projeto foi resumido por ele em uma frase ao mesmo enigmática e reveladora: “um dia desses, pela manhã, eu mesmo vou me tornar uma planta”.

Rousseau, um dos representantes do Iluminismo, traçou, com esse gesto, as linhas mestras do romantismo, que viu na natureza uma espécie de nova infância do ser humano. Mas isso não é tudo: para ele, a botânica era também uma chance de concretizar essas ideias através de uma espécie de prática existencial, pela qual seria possível restabelecer o vínculo do ser humano com a sua essência – justamente aquilo que havia se perdido na sociedade civil, sempre perversora e deturpadora da essência do ser humano.

Muitos cientistas confirmam hoje as intuições de Rousseau: a proximidade com as plantas – e com a natureza em geral – exercem um efeito extraordinariamente positivo sobre os seres humanos, seja porque os afastam das ocupações e correrias do cotidiano moderno, seja porque possibilitam práticas que ajudam no controle da ansiedade, da pressão arterial, da atividade cerebral, da frequência cardíaca e do estresse. Entre essas práticas estão a jardinagem, o cultivo de hortas domésticas, o uso de plantas na decoração das casas, a visita aos parques, rios e florestas e toda uma lista de “atitudes verdes” que exprimem um interesse das pessoas em estabelecer vínculos com as plantas, em busca de um novo equilíbrio natural. Isso porque os vegetais nos aproximam da nossa natureza mais primitiva (afinal foram os primeiros seres vivos a povoar a Terra), produzem oxigênio (elemento fundamental da vida) e embelezam o planeta. Perto das plantas, os seres humanos ficam mais calmos, respiram e dormem melhor, são capazes de maior concentração, raciocínio e criatividade. No silêncio crescente de uma samambaia, na sombra de um jacarandá ou na beleza amarela de um ipê, haverá chance para a humanidade.

No tempo em que os humanismos antropocêntricos distanciaram o ser humano da natureza por considerá-lo superior aos demais seres vivos e que nossas metrópoles nos cobrem de cimento, asfalto e vidro, a lição de Rousseau parece muito oportuna. Ao invés de humanizar o ser humano, talvez seja urgente plantanizá-lo: promover o vínculo afetivo entre gentes e plantas, numa espécie de novo contrato com a natureza. Dedicando-se às plantas, contemplando sua beleza e descobrindo seu modo próprio de existir, os humanos entenderão, afinal, muito mais sobre quem eles realmente são e quais as suas responsabilidades aqui. Amores vegetais talvez salvem os homens de si mesmos.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

1 Comentários

Uma ideia sobre “É preciso plantanizar o ser humano

  1. Silmara Mielke

    Jelson , diante de um texto tão essencial ao ser humano , só tenho a dizer que o seu pensamento vem de encontro ao que busco nos meus dias, pra minha vida, pois também acredito que só este encontro com a natureza poderá um dia tirar os humanos da perversidade do capitalismo selvagem!!! Eu amei seu texto…

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