Natal não é festividade, é qualificação de uma atitude

20 dezembro, 2017 às 08:37  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

presépio

Jelson Oliveira

Nesses tempos natalinos, muitos lares e repartições públicas ostentam uma árvore decorada de mil maneiras. Ali, sob a árvore, um homem, uma mulher e seu menino, entre animais, anjos, pastores e reis, resumem a experiência humana dos valores mais perenes, evocados pela simplicidade da cena e pela eficácia da imagem de uma estrebaria humilde, onde a bondade humana é restaurada pela força do mundo natural e o espírito de novas divindades. O episódio resume, assim, os ideais e as utopias que nos movem adiante, embora nem sempre vivamos de acordo com eles. Sob a árvore, no canto das nossas salas, estão os desejos de mundo que carregamos e que, na maior parte das vezes, cruzam o ano atiradas no fundo de alguma gaveta, enquanto nos rendemos às pressas e ocupações que obstruem o acesso ao que realmente importa. No fundo, a árvore e o presépio retomam o acontecimento mais importante na forma de uma advertência: as palhas da manjedoura, a ruminação das vacas e a orientação das estrelas são sinais de quem deveríamos ser e do que deveríamos fazer, apesar de tudo o que não fomos e não fizemos.

Não falo apenas no tom pegajoso de alguma dessas mensagens que recebemos às dezenas por essas épocas de emotivismo bocó. Penso nas responsabilidades éticas e políticas que exigem de nós atitudes responsáveis, para além das frases de efeito de banners comerciais e promoção de shopping center. Penso no modelo de desenvolvimento que continua a degradar a natureza, a escravizar pessoas e extinguir – a velocidade inédita – as formas de vida animais. Penso nas florestas de pinus e eucalipto que crescem na forma de desertos verdes, secando as águas e empobrecendo os solos. Penso no presidente da república e seus larápios, que financiam a própria corrupção hipotecando o futuro da nação na forma da destruição ambiental e da agressão aos direitos trabalhistas. Penso na politização desavergonhada do judiciário. Na política do despudor, patrocinada pelo silêncio da maioria que, em nome de uma pretensa moralidade, colocam em xeque a democracia e as garantias constitucionais. Nesse modelo, árvores, animais e gentes, como uma vez no presépio de Belém, são objetos descartáveis, símbolos da reiterada agressão que as populações mais pobres e vulneráveis vêm sofrendo. Nesse modelo, crianças e adolescentes (como bem lembrou a relatora da ONU sobre Direitos da Criança e do Adolescente no encerramento de sua visita recente ao Brasil, Esmeralda Troitiño), continuam vítimas de maus-tratos, tortura, homicídio e superlotação em centros de internação, situação que impede a efetividade das medidas socioeducativas capazes de garantir a sua reinserção social. Crianças continuam sem casa, sem escola, sem opção.

Sim, ali, sob aquela árvore, um homem, uma mulher e seu menino, entre animais, anjos, pastores e reis, dão sinal de nossos fracassos como sociedade e solicitam um compromisso efetivo da nossa parte para que as realidades de exclusão e violação dos direitos humanos não sejam apenas assunto de caridade natalina, mas ajuste cotidiano de nossas condutas enquanto cidadãos e cidadãs. O Natal, afinal, não termina na festividade de uma data, mas é uma atitude efetiva de cidadania e direitos humanos.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

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