Um elogio à concentração em meio à distração

25 maio, 2017 às 17:50  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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*Jelson Oliveira

Terminou essa semana no Louvre, em Paris, uma grande exposição sobre a obra do pintor holandês Johannes Vermeer (1632-1675) e outros mestres da chamada “pintura de gênero”, cuja característica central são as representações da vida cotidiana, do trabalho e dos afazeres domésticos.

Entre os vários quadros, destacava-se “A Leiteira” (que ilustrou os cartazes da exposição espalhados por toda a cidade), “A Rendeira” e “Senhora escrevendo a carta com sua criada”. O que se encontra nessas pinturas é mais do que o detalhe dos atos humanos mais simples. O que Vermeer retratou na sua obra foi o ser humano envolvido com suas tarefas e tornando-se quem é a partir do que faz. Para o pintor, a rendeira é a mulher que se faz na renda que ela mesma tece. A leiteira, no leite que ela derrama. A carta faz o ser de quem a escreve ou de quem a dita. Ao mesmo tempo renda, leite e carta representam a dedicação absoluta de quem assume a sua identidade e seu caráter a partir da tarefa cotidiana que lhe cabe. A obra de Vermeer faz uma apologia da dedicação mas, sobretudo, um elogio à concentração.

Ver de perto esses quadros, a maior parte deles bem menores e menos ostentosos do que se poderia esperar, eleva o espírito não só à experiência própria da contemplação estética (aquela que nos indica o caminho para os mistérios absolutos), mas sobretudo ao interior de si mesmo. A obra de Vermeer é um elogio à interioridade – não só àquela das casas que ele pinta, mas aquela do ser humano que se encontra em estado de radical e completa concentração à sua tarefa.

A obra de Vermeer é, por isso, uma experiência que nos faz pensar em nossa própria condição. Todos estamos submetidos a um ritmo de vida que nos proíbe a concentração e a dedicação. A velocidade é um mal moderno por excelência. E entre suas consequências mais danosas está a recusa do contato e a distração. Com pressa, evitamos o contato com as outras pessoas, afinal, sobra pouco tempo para um toque, um beijo, um abraço, um aperto de mão… A pressa também é um sintoma do medo do outro: no carro, por exemplo, essa cápsula da velocidade que expulsou os seres humanos da rua, criamos nossos mundos fechados enquanto erguemos o vidro para evitar os perigos que vêm do exterior. A velocidade, além disso, gera distração, porque na passagem apressada, nós não somos mais capazes de nos concentrar em nada. Velozes e furiosos, nós substituímos a serenidade pelas desavenças do tráfego e, com isso, passamos a viver a superficialidade das experiências, agora multiplicadas em quantidade mas empobrecidas em qualidade. Queremos muito, queremos tudo, mas experimentamos mal.

Como em “Menina com brinco de pérola”, talvez a sua obra mais conhecida, Vermeer trata da intimidade do olhar como antídoto contra a superficialização da vida. Vermeer pinta a leiteira que se faz leiteira porque se concentra no leite que é derramado. Ela medita sobre si mesma no leite, esse ingrediente do pão que ela amassará mais tarde. Ela não é leiteira a não ser pela concentração de seu ser, moldado no ato mesmo do derramamento do leite, nessa experiência plena. Seu ser é revelado pela sua tarefa e pela convergência de seu espírito sobre suas mãos, cuja diligência evita a abstração e incorpora, amorosamente, o que é feito à identidade de quem faz. O que se vê é a confluência do olhar, a atenção do intelecto e a fusão próprias de quem, por concentrado que está na tarefa que é sua, entende a velha máxima de que o trabalho dignifica o ser humano. Poucos viram isso e mostraram com tanta evidência como Vermeer. Diante da sua pintura, a gente sente vontade de ater-se à intimidade de nossas tarefas – não aquelas forçosas, obrigatórias, injustas, mal pagas. Não. Às outras: aquelas que empreendemos com o gosto e a amorosidade, a meditação e o recolhimento que nos devolvem à nossa essência, à simplicidade de quem somos. Ao pintar a concentração, Vermeer nos seduz porque simboliza e sintetiza o que nos falta. Todos queremos um dia, deixar as tabelas, as burocracias, as reuniões e as escrituras apressadas, para também derramar a brancura daquele leite de forma tão fascinante e aprazível. Todos buscamos, no meio da pressa, um pouco de serenidade.

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

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