Uma reflexão para o Natal: as pessoas não são descartáveis

14 dezembro, 2017 às 08:34  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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Daniella Forster

Mais um Natal chega, anualmente e invariavelmente, somos conduzidos a refletir sobre novos significados que este período suscita em cada um de nós. Este ano, passamos por momentos difíceis em nosso país, com crises e dificuldades em todas as áreas. Nada mais saudável do que parar neste momento para buscar o verdadeiro sentido da vida e o resgate de nossa espiritualidade.

Particularmente, tenho a percepção de que as dificuldades que enfrentamos, principalmente as relacionadas com os recursos financeiros mais escassos, trazem muitas vezes dissabores em nossas vidas. É a perda de emprego, a dificuldade em manter um padrão sócio econômico já conquistado, o postergar projetos e planos que se tornam impossíveis diante da falta de dinheiro ou da necessidade em investir naquilo que faz parte da sobrevivência.

Esta mudança traz consigo a reflexão do que realmente tem valor e o que importa em nossas vidas. Um resgate à essência do ser humano, que vai muito além da aparência, do status, do poder e do consumo. Entretanto, simultaneamente, este resgate contrapõe a tendência do mundo atual, que é a descartabilidade das pessoas, que gradativamente perdem a humanidade e se coisificam para responder ao mundo onde apenas o material tem valor.

Este condicionamento torna o desapego muito mais difícil, torna as perdas muito mais sofridas e a continuidade de viver a vida a partir de outros critérios mais sólidos e estruturais, um grande desafio individual, social e familiar. Temos nos tornado tão descartáveis que nosso significado é perdido quando a empresa nos demite ou quando deixamos de ocupar um cargo de status/poder. A nossa descartabilidade é tão absurda que nosso sucesso é baseado apenas no que temos e não no que somos. A nossa imagem se torna mais socializada que a nossa integridade. E a nossa aparência tem mais valor do que a nossa essência.

Verbos como perder, errar, batalhar, recomeçar, reinventar são imbuídos de negatividade, falta de apoio e solidariedade diante de uma sociedade que afasta continuamente a realidade e se aproxima doentiamente da ilusão, do acreditar na superficialidade e a felicidade comprada. Neste contexto, inconscientemente somos conduzidos a aceitar nossa descartabilidade e, automaticamente deixamos de buscar nossa verdadeira missão de vida e nossa identidade.

Doenças como crise de ansiedade, crise de pânico e depressão estão cada vez mais presentes em nossa sociedade e os motivos certamente estão relacionados à necessidade absurda de estarmos enquadrados em um papel social que nos coisifica. A mídia, o movimento pró consumo não apenas de objetos, mas também de comida e de remédios, tudo em exagero, faz com que entremos no mundo das doenças e nos afastem da saúde.

A opção do SER alguém com integridade e robustez evoca o movimento de lutar contra o que nos aprisiona e nos direciona ao não existir. O respeito a sua individualidade começa em si mesmo. O amor à sua identidade não é apenas necessário, mas também fundamental para que você possa transcender ao movimento social que massifica e generaliza desejo, vontade e até mesmo necessidade. O que é bom para todos, o que faz bem para a maioria, pode estar muito longe de ser algo que traduz para você bem-estar, conforto e paz.

Certamente focar em si mesmo é algo muito difícil, porém é obrigatório quando o assunto é saúde mental. A disciplina de olhar para o externo de maneira crítica, de usar diferentes lentes para avaliar diferentes cenários é extremamente importante para que exista lucidez suficiente no sentido de bem escolher e decidir entre integridade x descartabilidade.

Muito provavelmente você perceberá que a sua carreira, a sua vida pessoal e a sua convivência social merecem ajustes e até mesmo mudanças necessárias para que resultados sejam alcançados, mas haverá uma contrapartida importante que é o sentimento de conforto, de acordar todos os dias com a clara noção de que lutar por si mesmo faz todo o sentido.

Por fim, um detalhe muito importante. A premissa espiritual que é compartilhada por praticamente todas as crenças religiosas, “Amai o próximo como a ti mesmo” nos mostra que, quanto mais nos afastamos de nós mesmos, menos somos capazes de espiritualmente sermos empáticos, amorosos em relação aos outros. Não há compaixão, nem respeito. Não há igualdade diante da diversidade e nem tampouco aceitação de limites e dificuldades comuns a qualquer ser humano. Então, neste Natal a sugestão é a reflexão genuína deste “Amai ao próximo como a si mesmo”. Estamos realmente em um momento da humanidade, aonde o resgate do fundamental se faz necessário.

Daniella Forster é psicóloga, mestre em Administração e especialista em coaching de carreira. É coordenadora do PUC Talentos, núcleo de empregabilidade da PUCPR.

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