Violência no trânsito: um desafio ético do mundo urbano

11 julho, 2017 às 10:28  |  por equipe do Blog Maluco Beleza

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*Jelson Oliveira

Essa semana assisti uma briga de trânsito: três ciclistas reclamaram por um carro não ter dado preferência em uma faixa vermelha da ciclovia. O motorista, ao invés de se desculpar pelo seu erro, resolveu questionar o direito dos ciclistas, derramando inúmeros impropérios, antes de acelerar o carro e sair patinando os pneus. Cenas como esta são comuns no meu bairro, onde já contamos vários acidentes fatais de ciclistas. Diante dos dados e das cenas, das fúrias e outros ódios que nos afetam no trânsito, fico sempre pensando na febre terrível provocada pelo carro, no pseudo-empoderamento que ele promove, na sanha e na coragem maldosa que ele fomenta. O carro nos fecha na pressa de nossas agendas, no medo do contato, no mundo privado que todos desejamos para nós. Nada de mal, se isso não significar que, atrás do volante, encapsulados pela lataria, nós abandonamos as regras de gentileza, simpatia e civilidade que a vida social exige.

Aprendi desde cedo sobre o poder de um carro para destruir vidas: uma das maiores tragédias da minha infância foi a morte de minha amiga Denise. Ela tinha só oito anos quando saiu cedo para comprar pão com a irmã mais velha e nunca mais voltou para casa. Soube-se que mal as duas mãos infantis se soltaram, nesses átimos de segundo que dividem vidas e o corpo de Denise foi arremessado contra o meio fio da avenida Três de Outubro, na pequena Giruá-RS, por um carro em alta velocidade que seguiu anônimo sem prestar socorro. Era sábado e o álcool consumido no festejo que varou a noite não convinha à pressa do automóvel – presume-se. Choramos dias a fio, sem consolo. E por muito tempo nós, crianças, evitamos sair de casa, com medo do monstro de quatro rodas que passava barulhento na avenida, contrastando com a fragilidade de nossas vidas, abandonadas naquela rua de fim de mundo, no sul gelado do Brasil. A gente temeu a cidade como nunca, por causa do automóvel. Vítima dela, a família de Denise esfacelou-se após a tragédia, enredada em um silêncio sepulcral que levou Dona Berta, a mãe, a concluir seus dias em um hospício, enquanto o pai passava horas sentado à frente da casa, cabisbaixo, como se esperasse a morte, que não tardou em encontrá-lo em uma tarde de inverno, na forma de uma sombra que lhe vestiu tristemente o corpo. De Carla, a irmã, carrego ainda um livro de gramática que me foi doado quando ela resolveu se desfazer de sua pequena biblioteca formada pelos cinco exemplares caprichosamente encapados com embalagens de ovo de páscoa no avesso. A doação era um gesto de desesperança. Tudo havia perdido o sentido para ela. Nenhuma palavra de nenhum livro em nenhum futuro que fosse, poderia, afinal, curar aquela dor corrosiva que lhe arrefecia os ânimos. Nada, coisa nenhuma. Era tudo erosão depois que o carro tirou Denise de nós.

Quando cresci, vivi e conheci outros dramas como esse. Como aquele que mudou a vida de minha amiga Patrícia para sempre, quando sua irmã mais nova resolveu atravessar a rodovia que vai de Curitiba às praias. O carro não teve tempo de desviar da criança, deixando uma ferida permanente no coração da família. A mesma marca triste que desnorteou os pais do garoto de doze anos que morava no térreo do escritório onde eu trabalhava, na rua Paula Gomes, quando acharam o corpo do filho esmagado contra uma árvore no cruzamento da Inácio Lustosa com a João Manoel, a alguns metros do cemitério municipal. Ele foi atropelado pela ambição frívola do automóvel e sua pressa, enquanto ensaiava manobras com uma bola de futebol.

Ernest Jünger, no seu O trabalhador, falou do trânsito como o “grau de uma orgia que anestesia e esgota os sentidos”, infrene por “sons sibilantes e ululantes nos quais se expressa imediatamente uma implacável ameaça de morte, para o grau de forças mecânicas que aqui estão em obra”. O tumulto da vida urbana parece apontar mesmo para essa anestesia orgiástica que faz do carro o instrumento para a “superação mecânica da distância que anseia alcançar a velocidade da bala”, devorando suas vítimas como as armas. Tais vítimas da técnica automobilística, contudo, assinala Jünger, “caem numa zona moralmente neutra; o modo em que são percebidos é de natureza estatística”. A maior parte dos casos de violência no trânsito torna as vítimas culpadas, enquanto os criminosos seguem livres (veja-se o famoso caso Carli Filho x Yared, no Paraná). Quase sempre, o morto é só alguém que desrespeitou a evidência da norma e está aí, caído “na contramão”, “atrapalhando o tráfego”, como cantou Chico Buarque.

A violência no trânsito é um dos maiores desafios éticos do mundo urbano. Precisamos aprender com as histórias tristes que conhecemos. Elas deviam nos inspirar a construir um trânsito mais gentil, cordial e educado. Afinal, o caro não é apenas um meio de locomoção. Ele é, sobretudo, uma arma – e suas vítimas assemelham-se, em número e em gravidade, às vítimas de muitas guerras. 

* Jelson Oliveira é professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR e co-autor do livro Diálogo sobre o tempo (PUCPRess, 2015).

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