Popó encerra a carreira com roteiro de filme
Muitos não acreditavam que Acelino “Popó” Freitas, o baiano de 36 anos, tetracampeão mundial de boxe, parado há cinco anos – e hoje deputado federal, conseguiria segurar a juventude e o ímpeto de Michael Oliveira, 22 anos, campeão latino-americano, invicto, que lançou o desafio: lutar contra seu ídolo de infância e derrotá-lo. Popó já havia prometido uma luta de despedida para sua carreira, momento de mostrar a seu filho um trecho do que havia feito dentro dos ringues. Mas o desafio vindo de Michael mexeu com os brios de Popó, que o encarou como um desrespeito pelo que havia feito pelo boxe, levando em consideração a idade e o tempo que estava sem competir. O resultado foi a motivação exagerada do baiano, que transformou os preparativos da luta em uma verdadeira guerra psicológica e treinou como se fosse disputar seu primeiro cinturão.
Michael Oliveira é brasileiro, porém mora nos EUA e não é muito conhecido por aqui. Uma luta contra Popó foi a maneira que sua assessoria, que muitos dizem vir do dinheiro da família, encontrou para tornar o lutador mais conhecido em território nacional. Essa tática, como muitos comentaram, foi caracterizada no último filme da saga Rocky, um lutador, em que o campeão mundial atual, pouca idade e imagem enfraquecida diante do público, desafia Balboa para se promover com seu nome, na história já um lutador aposentado e fora de forma. Popó ficou enfurecido por Michael tentar se promover com seu nome e pediu cerca de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) para aceitar o desafio, que foi marcado para Punta Del Leste, no Uruguai, considerada a Las Vegas sul-americana.
Sábado, 3 de junho de 2012. Desde a pesagem no dia anterior, fiquei surpreso com a forma com que Popó subiu na balança. Com pouco mais que 69 kg, o ex-campeão mundial deu a famosa encarada em Michael e o empurrou, causando tumulto e mostrando ao mundo que seu próximo adversário havia pisado no calo errado. Como o mesmo Popó já havia dito: “Esse rapaz não sabe onde se meteu, vou nocauteá-lo para aprender a respeitar um verdadeiro campeão”.Na luta, desde a entrada dos lutadores era nítido o nervosismo de ambas as partes, mas logo que o sino soou Popó já tratou de botar sua famosa pressão, combinação de golpes e esquivas nostálgicas. Ganhou o primeiro round e continuou, ficando cada vez mais relaxado no combate. Os rounds passando e começava a ficar incontestável a genialidade de Popó, que bailava no ringue e desferia potentes combinações que empurravam Michael para as cordas, parecendo antever seu final. Após um duro castigo no 8º round, o 9º era para liquidar. Sentindo o cheiro do medo e do sangue, Popó partiu pra cima, e após o segundo knock down, a luta foi interrompida pelo juiz, deixando Michael estirado na lona, amargando sua primeira derrota.
Ao final da luta, os dois se abraçaram em um gesto que demonstrou ao mundo a passagem da velha para a nova geração vitoriosa de nosso boxe. Para Michael, nada de tristeza. O jovem, mesmo nocauteado, estava extasiado por ter lutado com seu grande ídolo, o pugilista que o fez, aos 13 anos de idade, querer um dia subir ali, no ringue. Por último, no microfone e para as câmeras, ele afirmou: “Lutei com o maior boxeador de todos e realizei meu grande sonho.” Foi parabenizado por Popó, que reconheceu o talento do brasileiro e o incentivou dizendo que era muito novo e tinha toda uma vida pela frente.
Agora cada um segue seu caminho, mas cada um em seu devido lugar. Popó e seu filho, juntos, terminaram abraçados, chorando de emoção. Roteiro de filme, talvez, mas a maior prova de que os grandes campeões, não importando o esporte ou categoria, são raridades e devemos honrá-los, colocando-os em seu devido lugar na história. Foi realmente emocionante, algo para ser lembrado para sempre na história do esporte nacional.
Assista a luta completa:
