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Noite decisiva para nossos últimos campeões

31 janeiro, 2014 às 09:49  |  por Gustavo Kipper
UFC 169

UFC 169

Quando subirem no octógono sábado à noite, José Aldo e Renan Barão irão carregar em seus ombros os últimos cinturões que nos restaram. Fomos acostumados a dominar o esporte desde os primórdios. Das lutas de vale-tudo de antigamente, quando Hélio Gracie e Carlos Gracie desafiaram os campeões japoneses do judô, quando Royce atropelou os americanos e europeus com nossa arma secreta, quando a Chute Boxe e a American Top Team protagonizaram uma rivalidade única no Pride, tornando-se campeões, sabíamos que tínhamos sido feitos para aquilo.

O tempo foi passando e, como diria o “pofexô” Wanderlei Luxemburgo, não existe mais bobo no MMA. Os muitos “Joões” que enfrentavam nossos campeões aos poucos foram se transformando em atletas completos, dominaram a arte suave, trouxeram o boxe e o wrestrling de níveis olímpicos e o esporte finalmente virou o que é hoje. Uma disputa palmo a palmo para quem domina a arte. E hoje, os americanos nos dominam. Em partes.

O Brasil já conquistou quase todos os cinturões do UFC. Já em um formato mais moderno, Vitor Belfort ganhou os pesados e meio-pesados, Anderson Silva os médios, Lyoto Machida e Maurício Shogun os meio-pesados, Minotauro e Júnior Cigano os pesados, José Aldo os penas e Renan Barão o peso-galo. John Lineker, se ajustar seu problema em perder peso, é o possível desafiante dos moscas. Enfrenta o fenômeno russo Ali Bagautinov. Além, é claro, de Vitor, que pode fazer história e se tornar o primeiro ser vivo a conquistar três cinturões em categorias diferentes de peso.

Fato mesmo é que hoje só nos sobraram dois campeões. O que torna tudo mais emocionante é que os dois são como irmãos, treinados pelo paizão Dedé Pederneiras, chefe da equipe Nova União, considerada por muitos a melhor do planeta. José Aldo e Renan Barão não sabem o que é a derrota há muitos anos. A última derrota de José Aldo foi em 2005, no Jungle Fight. De lá pra cá foram 16 vitórias consecutivas, sendo duas defesas de cinturão pelo extinto WEC e cinco pelo UFC. Renan Barão perdeu apenas em sua estreia, em 2005. Acumula a impressionante marca de 32 lutas sem derrotas, sendo 31 vitórias e uma luta sem resultado. No UFC, tornou-se campeão indiscutível com a nova lesão de Dominick Cruz.

Sábado os dois carregarão uma nação nos ombros e em ano de Copa do Mundo temos que mostrar quem manda. Sem aquele patriotismo exacerbado, do qual não sou muito fã, dessa vez é diferente. Precisamos segurar os últimos cinturões que nos restaram e torcer para que, até fim do ano, mais um ou dois volte pra nossas mãos. Os treinamentos de Aldo e Barão já são intensos por natureza, com os dois se enfrentando todos os dias. Não podemos esquecer que lá também tem Dudu Dantas, campeão dos penas do Bellator. Então sai faísca todo dia. Mas pra encorpar ainda mais as dificuldades, a Nova União trouxe também as lenda BJ Penn e Acelino Popó Freitas, o nosso campeão mundial de boxe. Faixas pretas em jiu-jitsu e muay- thai, José Aldo e Renan agora desenvolvem a exaustão suas técnicas no boxe. Seus treinadores enxergam neles pugilistas natos, o que os torna muito completos. Por isso são os campeões.

José Aldo só conhece seu adversário por vídeos. Não muito adepto da autopromoção, Ricardo Lamas teve seus movimentos e técnicas destrinchadas para traçar a estratégia perfeita. Creio que com o nível de intensidade do combate, não passe do quarto round, com um nocaute do brasileiro, que costuma diminuir o ritmo nos rounds finais. Por isso é bom não deixar nas mãos dos juízes. Renan Barão já conhece bem seu adversário. Ele já derrotou Urijah Faber e sabe bem as falhas do californiano, que, apesar da experiência e ótima fase, não tem ferramentas para surpreender Barão. Mas o americano é muito esperto, então acho difícil ser nocauteado. Mais provável que Barão domine todos os rounds e leve a luta por decisão unânime.

Além disso, ainda temos o choque dos pesos pesados Frank Mir e Alistair Overeem. Os dois vêm de derrotas e precisam mostrar que ainda têm lenha pra queimar. Acho que veremos um belo nocaute de Overeem, que já foi campeão do K-1 e do Strikeforce. Esse é um dos eventos imperdíveis que acontecem no UFC. Ao contrário das mornas edições do Fight Night, o UFC 169 vai entrar para história. Seja ela de glória ou pesadelo.

Vídeos: Countdown to UFC 169.

CARD COMPLETO:

UFC 169
Newark, Estados Unidos
Sábado, 1º de fevereiro de 2014.

Card Principal
Renan Barão x Urijah Faber
José Aldo x Ricardo Lamas
Frank Mir x Alistair Overeem
John Lineker x Ali Bagautinov
Jamie Varner x Abel Trujillo

Card Preliminar
John Makdessi x Alan Nuguette
Chris Cariaso x Kyoji Horiguch
Nick Catone x Tom Watson
Al Iaquinta x Kevin Lee
Clint Hester x Andy Enz
Tony Martin x Rashid Magomedov
Neil Magny x Gasan Umalatov

E evento começa às 21:30.

 

 

 

Popó encerra a carreira com roteiro de filme

6 junho, 2012 às 12:46  |  por Gustavo Kipper

Muitos não acreditavam que Acelino “Popó” Freitas, o baiano de 36 anos, tetracampeão mundial de boxe, parado há cinco anos – e hoje deputado federal, conseguiria segurar a juventude e o ímpeto de Michael Oliveira, 22 anos, campeão latino-americano, invicto, que lançou o desafio: lutar contra seu ídolo de infância e derrotá-lo. Popó já havia prometido uma luta de despedida para sua carreira, momento de mostrar a seu filho um trecho do que havia feito dentro dos ringues. Mas o desafio vindo de Michael mexeu com os brios de Popó, que o encarou como um desrespeito pelo que havia feito pelo boxe, levando em consideração a idade e o tempo que estava sem competir. O resultado foi a motivação exagerada do baiano, que transformou os preparativos da luta em uma verdadeira guerra psicológica e treinou como se fosse disputar seu primeiro cinturão.

Michael Oliveira é brasileiro, porém mora nos EUA e não é muito conhecido por aqui. Uma luta contra Popó foi a maneira que sua assessoria, que muitos dizem vir do dinheiro da família, encontrou para tornar o lutador mais conhecido em território nacional. Essa tática, como muitos comentaram, foi caracterizada no último filme da saga Rocky, um lutador, em que o campeão mundial atual, pouca idade e imagem enfraquecida diante do público, desafia Balboa para se promover com seu nome, na história já um lutador aposentado e fora de forma. Popó ficou enfurecido por Michael tentar se promover com seu nome e pediu cerca de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais) para aceitar o desafio, que foi marcado para Punta Del Leste, no Uruguai, considerada a Las Vegas sul-americana.

Sábado, 3 de junho de 2012. Desde a pesagem no dia anterior, fiquei surpreso com a forma com que Popó subiu na balança. Com pouco mais que 69 kg, o ex-campeão mundial deu a famosa encarada em Michael e o empurrou, causando tumulto e mostrando ao mundo que seu próximo adversário havia pisado no calo errado. Como o mesmo Popó já havia dito: “Esse rapaz não sabe onde se meteu, vou nocauteá-lo para aprender a respeitar um verdadeiro campeão”.Na luta, desde a entrada dos lutadores era nítido o nervosismo de ambas as partes, mas logo que o sino soou Popó já tratou de botar sua famosa pressão, combinação de golpes e esquivas nostálgicas. Ganhou o primeiro round e continuou, ficando cada vez mais relaxado no combate. Os rounds passando e começava a ficar incontestável a genialidade de Popó, que bailava no ringue e desferia potentes combinações que empurravam Michael para as cordas, parecendo antever seu final. Após um duro castigo no 8º round, o 9º era para liquidar. Sentindo o cheiro do medo e do sangue, Popó partiu pra cima, e após o segundo knock down, a luta foi interrompida pelo juiz, deixando Michael estirado na lona, amargando sua primeira derrota.

Ao final da luta, os dois se abraçaram em um gesto que demonstrou ao mundo a passagem da velha para a nova geração vitoriosa de nosso boxe. Para Michael, nada de tristeza. O jovem, mesmo nocauteado, estava extasiado por ter lutado com seu grande ídolo, o pugilista que o fez, aos 13 anos de idade, querer um dia subir ali, no ringue. Por último, no microfone e para as câmeras, ele afirmou: “Lutei com o maior boxeador de todos e realizei meu grande sonho.” Foi parabenizado por Popó, que reconheceu o talento do brasileiro e o incentivou dizendo que era muito novo e tinha toda uma vida pela frente.

Agora cada um segue seu caminho, mas cada um em seu devido lugar. Popó e seu filho, juntos, terminaram abraçados, chorando de emoção. Roteiro de filme, talvez, mas a maior prova de que os grandes campeões, não importando o esporte ou categoria, são raridades e devemos honrá-los, colocando-os em seu devido lugar na história. Foi realmente emocionante, algo para ser lembrado para sempre na história do esporte nacional.

 

Assista a luta completa: