Perdemos

17, fevereiro 2012 por Napoleão de Almeida

TAGS

Torcida única ocupará Vila Capanema no Atletiba 349

Perdemos todos. A notícia de que o Atletiba 349 terá apenas uma torcida presente (a do Atlético, o que faz por consequência que o Atletiba 350, no Couto, só tenha coxas-brancas) é um atestado de como retrocedemos no tempo. De como nós, paranaenses, não sabemos conviver desportivamente. De como a sociedade atual caminha para um lugar ainda mais obscuro, com os bons se fechando nos muros sob a sombra da violência.

A decisão da PM em conjunto com os clubes é preguiçosa. Tem como base o mau comportamento de alguns vândalos que se aproveitam das camisas das organizadas (algo explicado em várias obras antropológicas) para agredir quem os mesmos entendem ser diferentes. Problema crônico que seria sanado com punição correta, sistema judiciário eficaz – como na Inglaterra – e banimento dos responsáveis. Quiça das organizadas, que têm lá sua função social mas colhem muito mais o bônus (como venda de camisas alusivas aos clubes sem royalties) do que pagam o ônus. Quando há confusão, “é impossível controlar o grupo.”

Só que segurança pública vai além de um ou dois grupos de marginais. Vai ao fato de que o mesmo governo que só aparece para fotos pouco faz na condução do processo Copa 2014. Mais do que isso: Curitiba hoje é considerada a 6a capital mais violenta do Brasil. Como por aqui mata-se o cachorro para se acabar com as pulgas, lá vamos nós a mais uma invenção dos cartolas: agora, somos incapazes de dividir arquibancada com outros seres humanos, apenas porque gostamos de cores diferentes.

Claro, há muito mais por trás do que só a questão segurança. Não é a primeira vez que o tema vem à tona – embora só agora ele esteja praticamente concretizado. Desde 1996, quando do Atletiba 284 (aquele 0-0 que garantiu o Coxa na decisão contra o Paraná), Mário Celso Petraglia já queria que os estádios recebessem torcida única. A idéia por trás do fato é simples: sem a obrigatoriedade de se vender entradas aos visitantes, a capacidade real do estádio está voltada aos sócios, principais colaboradores do clube. Não é ruim, mas é anti-democrática e sectarista. Mesmo na Europa, em clássicos como Barcelona x Real Madrid ou Celtic x Rangers, que envolvem questões políticas ou religiosas com histórico muito acima dos vistos nos Atletibas, há a reserva mínima aos visitantes. Afinal, é apenas futebol, não uma disputa de vida ou morte.

E diga-se que o sim de Vilson Ribeiro de Andrade também não foge à risca. Aliás, o dirigente coritibano, revolucionário no Alto da Glória, tem muito de Petraglia na maneira de atuar. Mais democrático, é verdade, mas com idéias similares. Uma delas é a proibição (na minha visão correta) das faixas de organizadas, vetando a publicidade de um concorrente mercadológico em materiais esportivos, que não paga royalties e vampiriza preços. Para o torcedor comum, uma camisa da Fanáticos ou da Império tem o mesmo valor sentimental que uma da Umbro ou Nike do clube.

Vale ressaltar que em 5 anos, desde a definição da Copa na Arena, não se buscou um acordo. Vale dizer que o Atlético agiu pessimamente em não procurar diretamente o Coritiba; que o Coxa fez ouvido mouco, pressionado pela torcida (mais intolerância) para não ceder o estádio, algo plantado sine qua non – mesmo com décadas de usufruto múltiplo da praça; que noves fora a questão Arena-Governo-Copa, a vantagem técnica de se jogar em casa valia pressão pró-Coritiba, o que se inverteu pelos resultados, e o Atlético desinteressou-se em jogar no estádio rival, pensando também na disputa, mesmo após a primeira abertura de Vilson Ribeiro.

Compreendido isso, é importante lembrar que optamos pelo caminho da separação. Bem distante dos Atletibas históricos da década de 70, como por exemplo na decisão de 1978, quando quase 180 mil pessoas, dividindo o Couto Pereira meio a meio, viram três 0-0 épicos (Manga decidiu o título nos pênaltis a favor do Alviverde). A separação é um passo perigoso pela intolerância. Sai de campo a flauta, a boa rivalidade, entra em campo o ódio. Simplesmente não sabemos conviver.

Tecnicamente, ampara-se a escolha na falta de tempo para a instalação de outras 7 câmeras de segurança na Vila, o que limita a capacidade para 9.999 expectadores – dos quais, pelo regulamento 999 deveriam ser coxas. A capacidade liberada é maior que a suportada na inauguração do primeiro estádio paranaense, a Baixada, em 1914. Lá, se enfrentavam América, Internacional, Coritiba, Britânia e tantos outros, sempre com o apoio dos seus simpatizantes.

Passados 98 anos, estamos piores como sociedade.

Comentários